quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A decadência da vida pública mineira

Na cultura política brasileira há um clichê segundo o qual nós mineiros teríamos certa aptidão para a política. Quando é evocado por alguém, costuma vir acompanhado de certos adjetivos em conotação mais ou menos lisonjeira: espertos, ardilosos, conciliadores. Haveria, supostamente, certo estilo mineiro de fazer política, consagrado na vida pública nacional e expresso em figuras de grande vulto, como Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves.

Mas estes dois políticos já estão sedimentados em nossa cultura histórica, eles pertencem a outro registro temporal, e já há algumas décadas, não tivemos outros exemplos correspondentes a nível nacional. O mais próximo disso deu-se com Dilma Rousseff e Aécio Neves.

A mineira Dilma Rousseff, no entanto, se fez figura política a partir do Rio Grande do Sul, e chegou ao governo pelo alto, ou seja, sem passar pelas tradicionais etapas locais e regionais das práticas cotidianas da governança; das alianças e dos conflitos que caracterizam as rotinas políticas do interior de Minas Gerais e do Brasil. Sendo mulher e figura pública, conviveu frontalmente com o machismo, velado e ostensivo, de colegas e opositores, e se mostrou uma liderança firme e decidida – características que, possivelmente, terão inibido suas qualidades de negociadora e conciliadora.

Por tudo isso, Dilma Rousseff nunca foi associada, seja em chave positiva ou depreciativa, ao clichê da vocação mineira para a política. Aécio Neves, ao contrário, certamente já foi tido como “mineiramente político”, e o próprio já tentou se aproveitar disso, como do capital político do avô, Tancredo.

Mas, nesse caso, o clichê também não colou propriamente, e por razões muito diferentes das de Dilma Rousseff: depois de décadas de vida pública, de deputado a presidenciável, Aécio Neves já demonstrou amplamente, para quem quiser ver, que não tem virtudes públicas. Transita muito melhor entre a politicagem do que entre a política, digamos, com “p” maiúsculo.

Esta é uma distinção importante, porque embora o clichê seja ambivalente, e por isso pode ser empregado em conotações opostas, tradicionalmente ele está (ou, esteve) associado à demonstração de pelo menos algumas virtudes públicas – algo em que, como acabo de dizer, Aécio Neves falhou. E ele falhou em franca contraposição com seu avô, que terá sido, portanto, o último político mineiro a encarnar este lugar-comum com as virtudes que esperamos de um estadista que se projeta de Minas Gerais para o Brasil.

Tancredo Neves não via atalhos para a boa Política (aquela, com “p” maiúsculo, se quisermos reiterar essa figura de linguagem). Ele acreditava que o acúmulo de experiência era incontornável; que uma figura pública tinha o que aprender tanto no Legislativo, como no Judiciário e no Executivo, fosse por vias diretas ou indiretas; que a projeção se dava “naturalmente” do local para o nacional, entre instâncias em que tal figura, aspirante a estadista, teria inúmeras oportunidades não apenas de de demonstrar suas qualidades, mas sobretudo de se sensibilizar para os problemas nacionais em suas diversas expressões geográficas.

Pode-se argumentar que hoje, ao menos em parte, as recomendações de Tancredo Neves estariam defasadas. O mundo mudou muito de lá para cá, e com ele, Minas e o Brasil. Em perspectiva político-cultural, nosso país se “desregionalizou”, ou seja, estruturas e expressões políticas regionais perderam a preponderância que já tiveram no passado, ainda que em muitos casos não tenham deixado de existir por completo.

Este processo de “desregionalização” foi, aliás, muito positivo no geral – talvez até necessário para o amadurecimento da nossa cidadania e do nosso reconhecimento político de alcance verdadeiramente nacional. Por decorrência, enfraqueceram politicamente os coronéis, que mandavam e desmandavam em seus rincões Brasil adentro, e o país alcançou certo grau de homogeneização de direitos e deveres, algo em que ainda podemos melhorar mais um pouco.

No entanto, apesar das muitas e profundas transformações, tratando-se de política, creio que ainda há – aliás, que haverá sempre – o que extrair de experiências passadas. Nicolau Maquiavel e seu pequeno livro O príncipe, que segue sendo lido no mundo inteiro até hoje, estão aí para me dar razão quanto a isso, mas não será preciso irmos tão longe, permaneçamos com Tancredo Neves porque estamos tratando não apenas de política, mas de Minas Gerais, entre o passado e o futuro próximo.

O historiador José Murilo de Carvalho formulou uma bela síntese ao dizer que Tancredo Neves foi um homem para todas as crises (Getúlio Vargas e João Goulart que o digam!), porque dentre as suas virtudes, a inclinação conciliatória não foi empregada meramente para que se neutralizasse uma situação crítica e assim fosse virada uma página rapidamente, mas para que se aprofundasse o viés republicano de nossa formação política nacional. E é por tal razão, aliás, que a sua morte dramática foi especialmente trágica para a nossa Nova República.

O republicanismo de Tancredo, novamente segundo José Murilo de Carvalho, não se referia a um sistema de governo, mas a um conjunto de virtudes cívicas que remetia, de modo atemporal, a figuras do passado. Tais virtudes seriam, dentre outras, a simplicidade, a austeridade e a integridade, tanto na vida pública como na vida privada. Poderíamos questionar algumas atitudes e dizeres seus, ainda mais com o benefício da visão retrospectiva que temos hoje, mas será muito difícil não reconhecer nele estas qualidades, que ele costumava apontar em outros, e não apenas nos aliados próximos, como também em alguns adversários na vida pública.

Tancredo Neves sobreviveu à ditadura militar sem ser exilado ou perder o mandato, o que ressalta sua referida inclinação conciliatória, mas foi uma das vozes mais importantes do Congresso contra, por exemplo, a perniciosa intromissão estadunidense no país antes, durante e depois do golpe de 1964. Eleito governador de Minas em 1982, bateu de frente com uma estrutura administrativa estadual profundamente corrupta e retrógrada, que era um legado dos militares.

O governo de Tancredo Neves, em Minas, foi breve, mas muito marcante. Em pouco tempo ele conseguiu drenar o pântano ditatorial dos anos de chumbo com o antídoto mais eficaz: ampliando os recursos democráticos, por meio, por exemplo, dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento, das consultas públicas, dos programas de distribuição de renda e da reinserção da reforma agrária na agenda pública.

Sua projeção ao patamar de liderança nacional decorreu rapidamente, porque no governo de Minas ele sintetizava aspirações que floresciam no país inteiro. Em agosto de 1984 ele deixou o cargo para concorrer à Presidência da República, já tendo deixado uma marca indelével no Palácio da Liberdade.

Mas rever a trajetória de Tancredo Neves e o seu coerente republicanismo faz com que hoje pese sobre nós uma incômoda sensação de constrangimento. Primeiro pelo legado de seu próprio neto, sobre quem já falamos, e que também deixou o governo do estado para, pouco depois, ser presidenciável, e agora pelo outro que fez o mesmo, Romeu Zema.

Embora tenha governado Minas por longos oito anos, Romeu Zema não é lembrado por absolutamente nada de notável, que tenha beneficiado a população do estado em sua maioria. É difícil imaginar quais as qualidades de governante ele pretende levar do governo de Minas Gerais para o governo federal, porque a sua marca maior é a da ausência. Ele levou para o Executivo mineiro um punhado de interesses empresariais e terceirizou todas as funções que pôde, demonstrando completa falta de interesse pelos problemas estruturais que impedem o desenvolvimento do estado.

Lembro-me, não sem alguma melancolia, que o historiador João Camilo de Oliveira Torres concluiu seu ensaio pioneiro sobre a formação sociocultural da mineiridade dizendo: “Ora, sempre os mineiros estiveram presentes” – a administração de Romeu Zema significou, portanto, a traição desta conclusão: sua política foi não só a da ausência, como também, por decorrência, da escassez. Sem qualquer filosofia de governo, sem vocação ou virtudes cívicas apreciáveis, o que ele fez foi desidratar e corroer o poder público de dentro para fora e de cima à baixo.

Para piorar, neste ano eleitoral quem tem aparecido em primeiro lugar nas pesquisas para o governo do estado é o influencer Cleitinho Azevedo, que é o candidato que, de fato, mais se adequa à maneira Romeu Zema de governar. Embora Cleitinho Azevedo não seja da chapa continuísta, a associação entre ambos é evidente, porque eles se portam publicamente por meio de um espontaneísmo igualmente suspeito.

Suas personas, ou seja, aquilo que nós, o público, vemos deles, são duas farsas emparelhadas, sustentadas de modo a nos distrair do quão profundamente eles ignoram a importância do que Tancredo entendia como uma “dívida social” que todo político brasileiro herda ao ser eleito, em função das profundas desigualdades que marcam estruturalmente o país.

Ironicamente, Cleitinho Azevedo pertence a um partido denominado Republicanos; ele, que tirou seu título de eleitor em 2016, aos 34 anos, e que orgulhosamente diz ter dado o primeiro voto de sua vida a si mesmo, foi vereador, deputado estadual e é hoje senador, mas ainda está por demonstrar ter alguma virtude republicana. Sem lastro em qualquer tradição política que se sustente com exemplos, com acúmulo e realizações, o horizonte de Romeu Zema e Cleitinho Azevedo é a decadência da vida pública mineira.

Mas, há esperança! Em segundo lugar nas pesquisas se encontra Patrus Ananias, que tem um estilo de fazer política muito parecido com o de Tancredo Neves. Ambos foram advogados sindicais, vereadores, prefeitos, deputados federais e ministros de Estado, e durante os respectivos percursos acumularam ocasiões em que se mostraram homens simples, austeros e íntegros, afeitos a uma conversa franca, preferencialmente leve, sem demagogia, sempre com respeito, não importando quem fosse o interlocutor.

Em meio a uma vida política contemporânea tão poluída e tumultuada, uma figura como Patrus Ananias nos remete à estabilidade e ao zelo com relação ao poder público que vêm sendo mais exceção do que regra. Por isso, eu não poderia dizer que este é o verdadeiro estilo mineiro de fazer política, mas, tranquilamente, eu posso dizer que é o melhor. Com esperanças de que alcancemos o segundo turno, eu estou certo de que esta será uma oportunidade valiosa para que Minas se Gerais reencontre consigo mesma.

 

Fonte: Por Bernardo Rocha Carvalho, em A Terra é Redonda

 

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