A
decadência da vida pública mineira
Na
cultura política brasileira há um clichê segundo o qual nós mineiros teríamos
certa aptidão para a política. Quando é evocado por alguém, costuma vir
acompanhado de certos adjetivos em conotação mais ou menos lisonjeira:
espertos, ardilosos, conciliadores. Haveria, supostamente, certo estilo mineiro
de fazer política, consagrado na vida pública nacional e expresso em figuras de
grande vulto, como Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves.
Mas
estes dois políticos já estão sedimentados em nossa cultura histórica, eles
pertencem a outro registro temporal, e já há algumas décadas, não tivemos
outros exemplos correspondentes a nível nacional. O mais próximo disso deu-se
com Dilma Rousseff e Aécio Neves.
A
mineira Dilma Rousseff, no entanto, se fez figura política a partir do Rio
Grande do Sul, e chegou ao governo pelo alto, ou seja, sem passar pelas
tradicionais etapas locais e regionais das práticas cotidianas da governança;
das alianças e dos conflitos que caracterizam as rotinas políticas do interior
de Minas Gerais e do Brasil. Sendo mulher e figura pública, conviveu
frontalmente com o machismo, velado e ostensivo, de colegas e opositores, e se
mostrou uma liderança firme e decidida – características que, possivelmente,
terão inibido suas qualidades de negociadora e conciliadora.
Por
tudo isso, Dilma Rousseff nunca foi associada, seja em chave positiva ou
depreciativa, ao clichê da vocação mineira para a política. Aécio Neves, ao
contrário, certamente já foi tido como “mineiramente político”, e o próprio já
tentou se aproveitar disso, como do capital político do avô, Tancredo.
Mas,
nesse caso, o clichê também não colou propriamente, e por razões muito
diferentes das de Dilma Rousseff: depois de décadas de vida pública, de
deputado a presidenciável, Aécio Neves já demonstrou amplamente, para quem
quiser ver, que não tem virtudes públicas. Transita muito melhor entre a
politicagem do que entre a política, digamos, com “p” maiúsculo.
Esta é
uma distinção importante, porque embora o clichê seja ambivalente, e por isso
pode ser empregado em conotações opostas, tradicionalmente ele está (ou,
esteve) associado à demonstração de pelo menos algumas virtudes públicas – algo
em que, como acabo de dizer, Aécio Neves falhou. E ele falhou em franca
contraposição com seu avô, que terá sido, portanto, o último político mineiro a
encarnar este lugar-comum com as virtudes que esperamos de um estadista que se
projeta de Minas Gerais para o Brasil.
Tancredo
Neves não via atalhos para a boa Política (aquela, com “p” maiúsculo, se
quisermos reiterar essa figura de linguagem). Ele acreditava que o acúmulo de
experiência era incontornável; que uma figura pública tinha o que aprender
tanto no Legislativo, como no Judiciário e no Executivo, fosse por vias diretas
ou indiretas; que a projeção se dava “naturalmente” do local para o nacional,
entre instâncias em que tal figura, aspirante a estadista, teria inúmeras
oportunidades não apenas de de demonstrar suas qualidades, mas sobretudo de se
sensibilizar para os problemas nacionais em suas diversas expressões
geográficas.
Pode-se
argumentar que hoje, ao menos em parte, as recomendações de Tancredo Neves
estariam defasadas. O mundo mudou muito de lá para cá, e com ele, Minas e o
Brasil. Em perspectiva político-cultural, nosso país se “desregionalizou”, ou
seja, estruturas e expressões políticas regionais perderam a preponderância que
já tiveram no passado, ainda que em muitos casos não tenham deixado de existir
por completo.
Este
processo de “desregionalização” foi, aliás, muito positivo no geral – talvez
até necessário para o amadurecimento da nossa cidadania e do nosso
reconhecimento político de alcance verdadeiramente nacional. Por decorrência,
enfraqueceram politicamente os coronéis, que mandavam e desmandavam em seus
rincões Brasil adentro, e o país alcançou certo grau de homogeneização de
direitos e deveres, algo em que ainda podemos melhorar mais um pouco.
No
entanto, apesar das muitas e profundas transformações, tratando-se de política,
creio que ainda há – aliás, que haverá sempre – o que extrair de experiências
passadas. Nicolau Maquiavel e seu pequeno livro O príncipe, que segue sendo
lido no mundo inteiro até hoje, estão aí para me dar razão quanto a isso, mas
não será preciso irmos tão longe, permaneçamos com Tancredo Neves porque
estamos tratando não apenas de política, mas de Minas Gerais, entre o passado e
o futuro próximo.
O
historiador José Murilo de Carvalho formulou uma bela síntese ao dizer que
Tancredo Neves foi um homem para todas as crises (Getúlio Vargas e João Goulart
que o digam!), porque dentre as suas virtudes, a inclinação conciliatória não
foi empregada meramente para que se neutralizasse uma situação crítica e assim
fosse virada uma página rapidamente, mas para que se aprofundasse o viés
republicano de nossa formação política nacional. E é por tal razão, aliás, que
a sua morte dramática foi especialmente trágica para a nossa Nova República.
O
republicanismo de Tancredo, novamente segundo José Murilo de Carvalho, não se
referia a um sistema de governo, mas a um conjunto de virtudes cívicas que
remetia, de modo atemporal, a figuras do passado. Tais virtudes seriam, dentre
outras, a simplicidade, a austeridade e a integridade, tanto na vida pública
como na vida privada. Poderíamos questionar algumas atitudes e dizeres seus,
ainda mais com o benefício da visão retrospectiva que temos hoje, mas será
muito difícil não reconhecer nele estas qualidades, que ele costumava apontar
em outros, e não apenas nos aliados próximos, como também em alguns adversários
na vida pública.
Tancredo
Neves sobreviveu à ditadura militar sem ser exilado ou perder o mandato, o que
ressalta sua referida inclinação conciliatória, mas foi uma das vozes mais
importantes do Congresso contra, por exemplo, a perniciosa intromissão
estadunidense no país antes, durante e depois do golpe de 1964. Eleito
governador de Minas em 1982, bateu de frente com uma estrutura administrativa
estadual profundamente corrupta e retrógrada, que era um legado dos militares.
O
governo de Tancredo Neves, em Minas, foi breve, mas muito marcante. Em pouco
tempo ele conseguiu drenar o pântano ditatorial dos anos de chumbo com o
antídoto mais eficaz: ampliando os recursos democráticos, por meio, por
exemplo, dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento, das consultas públicas,
dos programas de distribuição de renda e da reinserção da reforma agrária na
agenda pública.
Sua
projeção ao patamar de liderança nacional decorreu rapidamente, porque no
governo de Minas ele sintetizava aspirações que floresciam no país inteiro. Em
agosto de 1984 ele deixou o cargo para concorrer à Presidência da República, já
tendo deixado uma marca indelével no Palácio da Liberdade.
Mas
rever a trajetória de Tancredo Neves e o seu coerente republicanismo faz com
que hoje pese sobre nós uma incômoda sensação de constrangimento. Primeiro pelo
legado de seu próprio neto, sobre quem já falamos, e que também deixou o
governo do estado para, pouco depois, ser presidenciável, e agora pelo outro
que fez o mesmo, Romeu Zema.
Embora
tenha governado Minas por longos oito anos, Romeu Zema não é lembrado por
absolutamente nada de notável, que tenha beneficiado a população do estado em
sua maioria. É difícil imaginar quais as qualidades de governante ele pretende
levar do governo de Minas Gerais para o governo federal, porque a sua marca
maior é a da ausência. Ele levou para o Executivo mineiro um punhado de
interesses empresariais e terceirizou todas as funções que pôde, demonstrando
completa falta de interesse pelos problemas estruturais que impedem o
desenvolvimento do estado.
Lembro-me,
não sem alguma melancolia, que o historiador João Camilo de Oliveira Torres
concluiu seu ensaio pioneiro sobre a formação sociocultural da mineiridade
dizendo: “Ora, sempre os mineiros estiveram presentes” – a administração de
Romeu Zema significou, portanto, a traição desta conclusão: sua política foi
não só a da ausência, como também, por decorrência, da escassez. Sem qualquer
filosofia de governo, sem vocação ou virtudes cívicas apreciáveis, o que ele
fez foi desidratar e corroer o poder público de dentro para fora e de cima à
baixo.
Para
piorar, neste ano eleitoral quem tem aparecido em primeiro lugar nas pesquisas
para o governo do estado é o influencer Cleitinho Azevedo, que é o candidato
que, de fato, mais se adequa à maneira Romeu Zema de governar. Embora Cleitinho
Azevedo não seja da chapa continuísta, a associação entre ambos é evidente,
porque eles se portam publicamente por meio de um espontaneísmo igualmente
suspeito.
Suas
personas, ou seja, aquilo que nós, o público, vemos deles, são duas farsas
emparelhadas, sustentadas de modo a nos distrair do quão profundamente eles
ignoram a importância do que Tancredo entendia como uma “dívida social” que
todo político brasileiro herda ao ser eleito, em função das profundas
desigualdades que marcam estruturalmente o país.
Ironicamente,
Cleitinho Azevedo pertence a um partido denominado Republicanos; ele, que tirou
seu título de eleitor em 2016, aos 34 anos, e que orgulhosamente diz ter dado o
primeiro voto de sua vida a si mesmo, foi vereador, deputado estadual e é hoje
senador, mas ainda está por demonstrar ter alguma virtude republicana. Sem
lastro em qualquer tradição política que se sustente com exemplos, com acúmulo
e realizações, o horizonte de Romeu Zema e Cleitinho Azevedo é a decadência da
vida pública mineira.
Mas, há
esperança! Em segundo lugar nas pesquisas se encontra Patrus Ananias, que tem
um estilo de fazer política muito parecido com o de Tancredo Neves. Ambos foram
advogados sindicais, vereadores, prefeitos, deputados federais e ministros de
Estado, e durante os respectivos percursos acumularam ocasiões em que se
mostraram homens simples, austeros e íntegros, afeitos a uma conversa franca,
preferencialmente leve, sem demagogia, sempre com respeito, não importando quem
fosse o interlocutor.
Em meio
a uma vida política contemporânea tão poluída e tumultuada, uma figura como
Patrus Ananias nos remete à estabilidade e ao zelo com relação ao poder público
que vêm sendo mais exceção do que regra. Por isso, eu não poderia dizer que
este é o verdadeiro estilo mineiro de fazer política, mas, tranquilamente, eu
posso dizer que é o melhor. Com esperanças de que alcancemos o segundo turno,
eu estou certo de que esta será uma oportunidade valiosa para que Minas se
Gerais reencontre consigo mesma.
Fonte:
Por Bernardo Rocha Carvalho, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário