quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Lula 3 – equilíbrio precário, democracia travada

O objetivo deste dossiê é fazer um balanço provisório do terceiro período de Luiz Inácio Lula da Silva à frente da presidência da República. Busca-se entender aspectos do governo, bem como de outros atores que marcaram esta etapa da vida nacional. Como os artigos foram entregues em maio de 2026, nenhum juízo definitivo pôde ser emitido, faltando sete meses para o mandato ser concluído.

Até o ponto que nos foi dado acompanhar, para além de manter o apoio de um terço do eleitorado, sendo competitivo para o pleito de outubro próximo, o presidente logrou manter à tona a combalida democracia brasileira, alvejada, porém, pelo projeto bolsonarista e um ambiente internacional cada vez mais autoritário.

As dificuldades institucionais, em meio à distorção causada pelas emendas parlamentares impositivas e a um escândalo (Banco Master) que envolve meia República, inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), se juntaram a outros fatores para manter um segundo terço dos votantes numa renitente oposição ao terceiro governo Lula. Em termos eleitorais, o elemento decisivo do embate é a percepção oscilante a respeito da economia dos brasileiros in between.

Estes, cujo critério de escolha é pragmático, se encontram divididos entre os empregos e a renda gerados pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a frustração ocasionada pelo aumento do custo de vida e do endividamento das famílias, temas centrais desta coletânea. Diga-se, desde logo, que os vínculos entre política e economia ocupam lugar privilegiado nas reflexões a seguir, sem prejuízo de que outras dimensões possam esclarecer áreas que ficaram fora do nosso foco.

A síntese que alcançamos aponta para um equilíbrio precário, sob a ameaça de, a qualquer momento, observar as forças que pugnam em favor do retrocesso autocrático se tornarem outra vez dominantes. O quadro reproduz, com fortes tintas locais, o que se observa nos regimes democráticos espalhados pelo mundo. Uma aguda divisão da sociedade, travando a democracia em um ponto no qual não consegue traduzir em medidas efetivas as aspirações das grandes maiorias. Ao mesmo tempo, mecanismos como a realização de eleições periódicas ainda resistem à ameaça representada pela autocratização somada a elementos que lembram o fascismo do século XX.

O reformismo fraco, opção estratégica desenvolvida pelo lulismo desde o começo dos 2000, mostrou-se menos eficiente diante dos constrangimentos que se apresentaram nesta paisagem radicalizada. Até o momento em que encerramos este relato, falta marca distintiva, como foi a seu tempo o Bolsa Família, ao mandato que se encerra em primeiro de janeiro de 2027.

Quiçá, iniciativas como a isenção do Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil ou a mudança da jornada semanal de trabalho tenham, no futuro, um peso simbólico análogo ao da transferência de renda que favoreceu os mais vulneráveis. Chama a atenção, entretanto, que sigam em estágio probatório às vésperas da campanha de 2026. Convém recordar que o Bolsa Família foi lançado no segundo ano do primeiro mandato Lula, ganhando projeção crescente ao longo do terceiro ano de governo.

Os problemas postos para as coalizões democráticas, como foi o caso daquela encabeçada por Joe Biden, têm confundido os analistas e os próprios governantes. A Casa Branca, por exemplo, parece ter subestimado os efeitos do pico inflacionário de 2022, que corroeu o poder de compra das camadas populares.

No Brasil, a panela de pressão representada pelo custo dos alimentos apitou no primeiro semestre de 2025 e o Planalto resolveu apostar, sobretudo, na supersafra para conter a queda de popularidade. Naquele momento deu certo, mas diante da onda altista desencadeada pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã em 2026, talvez apenas o controle de preços da cesta básica tivesse a mesma efetividade. O tempo dirá o que agora é impossível prever.

Os artigos que serão lidos a seguir buscam iluminar aspectos específicos deste equilíbrio precário. Adotamos um ponto de vista que enfatiza a relação entre política e economia, perspectiva que julgamos decisiva, mas que, devido à especialização acadêmica, tem sido subestimada. Não obstante, há no dossiê e, mesmo na apresentação, ampla variedade teórica e até mesmo avaliações diferentes a respeito do mandato de Lula.

Acreditamos que o pluralismo disciplinar e metodológico dá riqueza ao trabalho, abrindo caminho para lançar luz sobre elementos contrastantes da experiência que buscamos avaliar. Os autores, com os quais tivemos o privilégio de colaborar, são economistas, juristas, filósofos, sociólogos e cientistas políticos, que tiveram ampla liberdade para expressar pontos de vista particulares.

De modo a contextualizar as contribuições que compõem o dossiê, dividimos a apresentação em quatro partes. Na primeira, resumimos o agravamento do quadro internacional a partir de 2023, indicando o sentido autoritário para o qual aponta. Na segunda, sugerimos uma abordagem teórica capaz de colocar em perspectiva o processo, no qual a precariedade democrática convive com a catástrofe anunciada. Na terceira e quarta partes, destacamos alguns aspectos específicos do terceiro governo Lula e, em seguida, apresentamos os trabalhos que compõem o dossiê.

<><> Um mundo em chamas

Na coletânea O segundo círculo, publicada dois anos atrás, escrevemos o seguinte: “O acirramento da disputa pela direção geopolítica, no plano internacional, assim como nos seus desdobramentos regionais, implica a intensificação da violência estatal, para fora e, potencialmente, para dentro, o que poderá vir a fazer parte do panorama trazido pela militarização” (Singer, Ricupero, Araujo e Rugitsky, p. 26). A tendência se confirmou, trazendo implicações para o assunto que nos ocupa agora.

Em vista do óbvio poder de influência do Estado que voltaria a governar (Estados Unidos), o retorno de Donald Trump à Casa Branca significava uma onda de abalos sísmicos para os países regidos por democracias. Endurecido pela experiência do mandato anterior, Donald Trump reassumiu o cargo sem disposição conciliadora e, bem ao contrário, com ímpeto de completar a tarefa autocrática que abraçou.

Embora seu discurso de campanha fizesse supor um governo centrado nos assuntos domésticos, desde o início o presidente eleito acabou voltando-se especialmente para as relações exteriores, indicando que estas seriam objeto de força bruta, sem escrúpulos de se intrometer nos assuntos internos de outras nações. Mesmo o tarifaço, que lançou às favas um sistema de trocas comerciais longamente estabelecido, em princípio consistente com a orientação protecionista anunciada na campanha, converteu-se em mero instrumento de abuso de povos e um meio de proteger lideranças aliadas ao movimento Make America Great Again (MAGA).

Ato contínuo, o autocrata lançou-se às vias de fato. Desde meados de 2025, a máquina de guerra norte-americana, montada num cortejo de porta-aviões e barcos flutuantes e submersos, armados até os dentes, gira ao redor do planeta à caça de inimigos. Como sabemos, testou o Irã, ainda em 2025, submetendo-o a um bombardeio articulado com Israel, supostamente para destruir o programa nuclear dos aiatolás. Em seguida, ordenou o bloqueio naval da Venezuela, que culminou, terminado o réveillon, numa operação espetacular de sequestro de Nicolás Maduro e Cília Flores. Balançando o porrete diante dos demais governantes latino-americanos, de modo a fazê-los tremer pelo exemplo, Donald Trump concluía um quarto de seu segundo mandato como o valentão saído dos filmes do Velho Oeste.

Talvez animado pelo êxito, e sem ter sido provocado para tanto, o mandatário decidiu retomar o ataque contra o Irã, novamente apoiado por Israel e desta vez com o objetivo de derrubar o regime, tentando colocar ponto final num entrevero de quase meio século. Se antes havia alguma margem para dúvidas, este passo deixou claro que a conquista militar passou a orientar o trumpismo. A investida colocou uma região inteira sob chamas e, dada sua posição estratégica, abalou o fornecimento global de energia e outras mercadorias.

Até aqui, pelo menos, o novo sucesso está longe de ser alcançado. Ironicamente, a razão principal disso não é de ordem técnica-militar, mas um assunto de âmbito doméstico, que se intrometeu na guerra como que pela porta dos fundos, voltando-se contra um Executivo que havia prometido lhe dar a máxima atenção. Perturba o chefe, mesmo desejando governar autocraticamente a  eleição parlamentar de novembro, a qual deverá ocorrer sob a influência da elevação dos preços causada pelo ataque ao Irã.

Neste ponto, cabem duas observações. A primeira é que a possibilidade de uma guerra generalizada retornou ao centro dos acontecimentos. Donald Trump sequer disfarça a intenção de lidar com as questões globais pura e simplesmente pela força, ao arrepio de qualquer direito comum entre as nações. Faz o que faz porque o Estado que preside, falto da vantagem que antes detinha no plano econômico, pode se valer da que ainda dispõe na dimensão militar.

A China, pelas mesmas razões de fundo, por ora faz o inverso: busca assumir ares de potência responsável, comprando, por exemplo, direitos de exploração em terras alheias. Prepara o terreno para uma nova hegemonia. Já os países situados na linha média da escala global – entre os quais, o Brasil – se encontram cada vez mais pressionados a tomar partido entre os dois contendores.

A segunda observação é relativa às democracias. A recorrência da guerra faz par com a quebra dos consensos internos, esteio dos regimes democráticos, em particular daqueles que, até há pouco, a ciência política considerava consolidados. Uma parte das sociedades não aposta mais no consenso democrático, dispondo-se a romper com as regras e práticas que possibilitam a alternância do poder e a existência de uma oposição pública, não sujeita à represália dos poderosos de plantão.

Como resultado, segmentos expressivos da direita tradicional se deslocam para posições que têm como desaguadouro a extrema direita ascendente. Fazem-no percebendo que essas posições encontram respaldo na cidadania e no eleitorado. O travamento democrático, resultante da dinâmica de confronto, agrava a descrença, em um circuito que se retroalimenta. É curioso que esse quadro ultrapasse a história particular de cada regime democrático – do contrário, seria plausível que, derivado de lugares diferentes, ocorresse em tempos diferentes. O despedaçamento das democracias vem se dando de forma sincrônica, como que formando um sistema de vasos comunicantes.

<><> Teoria em meio a varetas

Até o momento, salvo poucas exceções, a situação permanece travada, não quebrando em definitivo as democracias, embora as desgastem até perto do limite, como se pode observar na Turquia sob o domínio de Recep Erdoğan. As chances de alternância, embora débeis, continuam disponíveis, como se verificou na Hungria em abril de 2026. O pendor autoritário de parcela da sociedade e o campo de extrema-direita que nela cresce ainda foram incapazes de sobrepujar de uma vez por todas o campo adversário.

Do outro lado, as forças democráticas, identificadas de maneira imprecisa com posições progressistas, não conseguem oferecer uma alternativa que dissolva a crise. Nas nações em que a situação persiste – no Brasil, inclusive –, vive-se um quadro de equilíbrio precário, uma espécie de “mau equilíbrio”, digamos assim, no qual, como em um jogo de varetas, ao se retirar uma, pode-se derrubar todas as demais.

Nas eleições presidenciais da Coreia do Sul, de março de 2022, o candidato Yoon Suk Yeol venceu Lee Jae-myung por 0,7%. No segundo turno do pleito brasileiro, em outubro do mesmo ano, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou de Jair Bolsonaro por 1,8% dos votos válidos. Dois anos depois, Donald Trump bateu Kamala Harris por 1,5%. Mais uma vez, no segundo turno colombiano, ocorrido em junho de 2026, a diferença foi mínima, Abelardo de la Espriella superando Iván Cepeda por 0,96%.

Em todas, candidatos de extrema direita disputaram contra concorrentes que mobilizaram forças bastante variadas, identificadas com a democracia, em disputas decididas milimetricamente (na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e na Colômbia, a extrema-direita ganhou; no Brasil, foi derrotada). O quadro vem se repetindo no planeta: um bloco em torno da extrema direita; outro, de tamanho equivalente, representa a resistência democrática. Um delicado equilíbrio produz coalizões que se repetem.

Sobre isso, vale tecer algumas considerações de ordem teórica, dialogando com a noção de equilíbrio catastrófico, elaborada por Antonio Gramsci há quase um século. O revolucionário sardo falava de “uma situação em que as forças em luta se equilibram de modo catastrófico, isto é, se equilibram de tal forma que a continuação da luta só pode terminar com a destruição recíproca”.

É verdade que, pouco antes, os Cadernos do cárcere associaram o equilíbrio catastrófico ao chamado cesarismo; possível solução (provisória) para o impasse por meio do recurso a uma terceira força, no caso, um homem providencial e carismático: o César. No entanto, mais importante é a estrutura do equilíbrio catastrófico, podendo “haver soluções cesaristas sem um César, sem uma grande personalidade ‘heroica’ e representativa”.

A catástrofe é associada por Gramsci a uma “crise orgânica”, que ameaçaria a sobrevivência dos grupos em pugna, até porque não estaria claro se algum deles seria capaz de ganhar, tornando-se hegemônico. Trata-se de uma polarização, acompanhada de aparente imobilismo. Em tal quadro subsiste uma espécie de nó que, no limite, pode evoluir para a eliminação mútua dos que se enfrentam. Pode-se, contudo, imaginar diferentes soluções para a crise de hegemonia. Em sentido positivo, a transição de uma época para outra. No sentido negativo, o desmoronamento de certo bloco histórico, ocasionando uma espécie de interregno que não se resolve, prolongando-se quase indeterminadamente.

Antonio Gramsci afirma que a hegemonia se perde quando as classes dirigentes fracassam e dá como exemplo a guerra, “para a qual pediu ou impôs pela força o consenso das grandes massas”. Antes, no Caderno 3, §34, o autor notou que depois da Primeira Guerra Mundial houve um afastamento das massas da ideologia dominante. É bastante provável que estivesse pensando na situação que conduziu a Itália ao fascismo, solução cesarista para a crise de hegemonia que boa parte da Europa viveu depois do conflito, quando a revolução socialista esteve no horizonte de possibilidades. No equilíbrio catastrófico entre classes dominantes e grupos subalternos, garantiu-se, recorrendo a uma figura cesarista, o Duce, a preservação dos interesses das primeiras.

Pode o quadro atual ser interpretado como equivalendo a uma situação de equilíbrio catastrófico? As diferenças do momento presente com os anos 1920 chamam a atenção. Não nos encontramos certamente em situação pré-revolucionária. Na realidade, desde 1989, talvez lidemos com o seu oposto, não havendo perspectiva de superação do capitalismo. Além do que, a luta não se apresenta, de maneira geral, entre burguesia e proletariado, mas entre a extrema-direita e uma heterogênea frente de defesa da democracia, ambas com apoio tanto nas classes dominantes quanto nas subalternas – em graus diferentes, a depender do país.

Em outras palavras, a crise ou, talvez seja melhor dizer, crises precisa(m) ser interpretada(s) de acordo com sua(s) especificidade(s). Gramsci notara que “em cada país o processo é variado, apesar do conteúdo ser o mesmo”. Pode-se acrescentar que cada época tem diversas maneiras de viver sua crise. Mesmo assim, o conteúdo da “crise de hegemonia da classe dirigente” seria semelhante, porque “fracassou em algum grande empreendimento político” no qual precisava do “consenso das grandes massas”.

No caso brasileiro, seria possível pensar em um fracasso da classe dirigente com a Nova República, empreendimento cujos marcos foram estabelecidos pela Constituição de 1988 e que foi encontrando seus limites no decorrer dos anos 2010, quando se inicia uma regressão de tipo 1964. Esse é, porém, um problema que transcende ao Brasil. A partir do crash financeiro de 2008, a ordem neoliberal – que se impôs em todo o mundo, inclusive em Pindorama, paralelamente e se confundindo com a Nova República – deixou de ter o “consenso das grandes massas”, o que abriu caminho para a emergência do que tem sido chamado de populismo – tanto nas suas versões de esquerda como, principalmente, de direita.

Nesse processo, entretanto, não houve alternativa teórica à doxa do livre mercado nem real questionamento político ao capitalismo. Tal quadro contrasta com a reação à grande depressão de 1929, que abriu caminho para alternativas, mesmo dentro do capitalismo – o keynesianismo e movimentos políticos dos mais variados que se opunham ao liberalismo dominante, da “Casa do Povo” social-democrata sueca ao nazismo alemão, passando pelo New Deal norte-americano.

O atual descrédito do neoliberalismo dá a sensação de que se pode passar do capitalismo não para o socialismo ou para uma alguma ordem alternativa, mas para o que tem sido caracterizado como “um longo interregno […] um longo período de entropia social, ou desordem (e precisamente por essa razão um período de incerteza social e indeterminação)” (Streeck, 2016, p. 18).

Talvez seja a diferença crucial: enquanto o confronto dos anos 1920 refletia a força do proletariado e colocava em questão a dominação do capital, um século mais tarde estamos diante de classes fragmentas e fragilizadas pela avalanche neoliberal. O resultado é um travamento que não se resolve, uma vez que nenhum dos grupos “equilibrados” oferece horizonte para além do neoliberalismo.

Embora essa virtual longa deriva possa se revelar, ao fim e ao cabo, “catastrófica”, preferimos o termo “equilíbrio precário” por ressaltar melhor a peculiaridade da situação em curso. Primeiro, o equilíbrio em questão não expressa um embate entre dois grupos ou classes sociais antagônicas, nem se trata de um “empate” que ameaça aniquilar mutuamente essas classes. Na verdade, no que se costumava chamar de nações capitalistas centrais, existe hoje uma profunda divisão que atravessa praticamente todas as classes, ricos e pobres, alta burguesia e classes trabalhadoras.

Mesmo que separe também os ricos e a alta burguesia, o elemento dinâmico da cisão – por sua força numérica e relevância eleitoral – ocorre principalmente na metade inferior da pirâmide social: parte dela se deslocou para a extrema direita, enquanto a outra permaneceu fiel às opções democráticas.

No caso brasileiro, vale notar uma peculiaridade. A divisão das classes populares parece respeitar certa hierarquia, com o subproletariado e parte do proletariado pendendo para a opção democrática, enquanto as fileiras da extrema direita são compostas por outra parte do proletariado e pelas camadas intermediárias; mas há também uma forte divisão regional, particularmente entre o Nordeste e o interior continental do país, a Oeste.

Em segundo lugar, o que explica a precariedade do equilíbrio é que a maioria da cidadania e do eleitorado está firmemente fixada num dos campos antagônicos, enquanto uma terceira camada, minoritária, mas de tamanho variado, permanece “flutuante”, agregando resíduos de quase todas as classes e fazendo um movimento pendular a cada eleição, às vezes inclinando-se para um lado, às vezes, para o outro. Em consequência, os resultados são frágeis – obtidos por pequena margem – e provisórios. Disputa-se, em particular, o apoio dessa camada minoritária, cada lado enfatizando aspectos de seu programa com mais chances de seduzi-la.

A provisoriedade dos resultados deriva também de que nenhum dos campos adversários, mesmo quando vitorioso, consegue superar o desarranjo socioeconômico que alimenta a anomia. Ambos mantêm uma relação ambígua com um regime neoliberal à deriva – provavelmente porque certas frações burguesas que se entrincheiram em cada lado, inteiramente financeirizadas, bloqueiam qualquer tentativa de superá-lo.

A consequência é o “mau equilíbrio”, em que um lado cimenta vínculos na agressão aos marcos normativos e institucionais da democracia, ao mesmo tempo que o outro se une apenas na resistência a essas agressões. Até aqui, o campo agressor, ofensivo, não reúne força suficiente para romper o “empate”, enquanto o campo resistente, mesmo no governo, não consegue sair da posição defensiva e mover o respectivo regime democrático do “mau equilíbrio” em que está para um “bom equilíbrio”. Não logra colocar em operação medidas que restabeleçam o consenso mínimo na base da sociedade.

 

Fonte: Por André Singer, Bernardo Ricupero, Cicero Araujo e Fernando Rugitsky, para A Terra é Redonda

 

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