quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Banco norte-americano prevê recessão na Argentina

O banco norte-americano JP Morgan reduziu drasticamente sua previsão de crescimento para a Argentina em 2026, de 2,7% para 1,5% , e antecipou uma recessão para o terceiro trimestre, um duro revés político e econômico para o governo de Javier Milei em sua promessa de estabilização, após a divulgação de uma queda de 2,9% na atividade econômica em julho, em comparação com o mês anterior.

A contração divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) em junho superou as projeções iniciais da instituição financeira de Wall Street, que estimava uma queda mensal em torno de 1%. O Estimador Mensal da Atividade Econômica (EMAE) registrou uma queda anual de 1,4% em julho, impulsionada por fortes declínios setoriais, como na indústria, que despencou 4,6%, e no comércio, que caiu 5,1%.

“Esperávamos dados fracos de atividade para julho, em linha com o contexto desfavorável que caracterizou o segundo trimestre. No entanto, a contração reportada superou em muito nossa previsão de aproximadamente -1% mês a mês “, afirmou o JP Morgan em seu relatório.

A instituição financeira enfatizou que, excluindo o confinamento de 2020, o choque financeiro de 2008 e a crise de 2018-2019, nenhum mês desde 2004 apresentou uma queda semelhante. O relatório projeta uma contração de 4% para o terceiro trimestre e mantém sua previsão de crescimento para 2027 em 2,5%, condicionada a significativas disparidades setoriais.

Em contraste com a previsão do banco norte-americano, economistas do setor privado consultados mensalmente pelo Banco Central da Argentina para seu relatório de expectativas projetam, em média, que a economia argentina crescerá 2,1% em 2026, abaixo dos 4,4% previstos para 2025. Enquanto isso, o governo Milei, que havia anunciado um crescimento de 5%, revisou a projeção para baixo, para 3% em 2026 e 4% em 2027, na proposta orçamentária apresentada ao Congresso.

Este mês, o Indec revelou que o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina registrou uma queda de 0,6% no segundo trimestre do ano em comparação com o período de janeiro a março.

A análise do JP Morgan alerta que o crescimento atual é desequilibrado, uma vez que a produção de energia e mineração voltada para a exportação impulsiona o crescimento geral, mas tem um impacto limitado nos mercados domésticos, não conseguindo reativar o comércio atacadista e varejista na Argentina.

A isso se somam as dificuldades persistentes nos setores de manufatura e construção, juntamente com a demanda enfraquecida devido à inflação acima do esperado no primeiro trimestre e à desaceleração do crédito impulsionada pelo aumento da inadimplência.

A desaceleração da produção registrada em julho é acompanhada por uma queda acentuada na renda familiar em relação à inflação. A Pesquisa Permanente de Domicílios (PPD), realizada em 31 áreas urbanas, confirmou em setembro que a pobreza atingiu 24,4% dos domicílios e 32,3% dos indivíduos (15 milhões) no primeiro semestre de 2026, enquanto a pobreza extrema afetou 5,6% dos domicílios e 7,5% da população (3,5 milhões).

Nesse contexto, o JP Morgan estima em seu relatório que quase um terço da população argentina vive abaixo da linha da pobreza, cerca de 9,7 milhões de pessoas em aproximadamente 2,5 milhões de domicílios.

A deterioração deveu-se à diferença entre o custo de vida e a renda, uma vez que a linha da pobreza aumentou 19,6% em comparação com o último trimestre de 2025, enquanto a renda familiar per capita avançou 11,5%, num contexto marcado pelo revés no objetivo oficial de atingir a inflação “zero” em agosto, uma das bandeiras do governo Milei.

¨      Dois milhões de novos pobres na Argentina em seis meses expõem um revés no plano econômico de Milei

Nos primeiros seis meses de 2026, a Argentina passou a ter dois milhões de novos pobres ao ver subir o índice de pobreza em 32,3% da população, 4,1 pontos percentuais a mais do que o segundo semestre de 2025 (28,2%) e 0,7 pontos a mais do que o primeiro semestre do ano passado (31,6%), segundo o Instituto de Estatísticas e Censos do país (Indec).

Os dados oficiais indicam ainda que, dos novos pobres, 595 mil estão na indigência. Representam 7,5% da população, um número 1,2 ponto porcentual superior ao segundo semestre de 2025 (6,3%) e 0,6 ponto ao semestre anterior (6,9%).

O aumento da pobreza põe em questão o plano econômico do presidente Javier Milei, que convive com uma destruição diária de 490 postos de trabalho desde que assumiu em dezembro de 2023.

A pobreza atinge 24,4% dos lares argentinos, onde vivem 44,5% de todas as crianças e adolescentes até 14 anos do país, o segmento mais afetado.

Essa parcela significativa da população não ganha o suficiente para cobrir a Cesta Básica Total Familiar que inclui alimentos básicos, serviços como energia e água, além de bens essenciais como roupa e transporte para uma família com dois filhos. Os considerados indigentes não conseguem cobrir a Cesta Básica de Alimentos.

<><> Alta da inflação

Na pobreza, impacta diretamente a evolução mensal dos preços que entre maio de 2025 e março de 2026 passou, gradativamente, de 1,5% a 3,4% e, desde então, ronda os 2% ao mês, persistentemente.

A Cesta Básica Total aumentou 19,6% no primeiro semestre do ano, acima da inflação acumulada no período em 16,8%. A tendência nos primeiros meses do segundo semestre se mantém, indicando que o problema social continua a crescer.

Nos últimos 12 meses, a Cesta Básica Total subiu 34,7%, enquanto o aumento salarial foi de 25%.

O salário mínimo teve perda real de 39,1% se comparado com o valor em dezembro de 2023, quando começou o governo Milei.

Os programas sociais também sofreram um impacto nos últimos seis meses. Alguns foram eliminados, enquanto outros tiveram perdas face ao aumento de preços.

"Cerca de 30% da população depende cada vez mais dos programas sociais. Sem isso, a pobreza extrema de 7,5% seria o dobro", calcula Agustín Salvia, diretor do Observatório da Dívida Social Argentina, da Universidade Católica.

<><> Destruição de empregos

O mercado de trabalho atravessa um período de acelerada destruição do emprego formal desde o começo do governo Milei. Em média, são eliminados 460 postos de trabalho diariamente em unidades produtivas. Somados aos 30 empregos domésticos perdidos diariamente em média, a cada quatro minutos uma pessoa fica sem emprego formal no país.

"A inflação, a deterioração do mercado de trabalho, a menor atividade econômica e o menor consumo empurram ao aumento da pobreza. Estamos num ponto complexo do ponto de vista social. As pequenas e médias empresas, as que mais empregam, não estão criando emprego", indica Agustín Salvia, uma referência na matéria.

Em paralelo à publicação do índice de pobreza, o Indec divulgou que a atividade econômica encolheu 2,9% em julho, a maior queda mensal dos últimos seis anos. Nos últimos 12 meses, o recuo é de 1,4%.

É necessário voltar a abril de 2020 (-15,8%), no auge da pandemia, para encontrar um número tão negativo. Sem considerar esse mês atípico, é preciso recuar a abril de 2018 (-3,2%). Desde que a medição começou em 2004, apenas cinco meses foram mais negativos nos últimos 22 anos.

Desabam os setores que mais empregam na economia (comércio, indústria e construção). O mercado se prepara para entrar em recessão técnica ao terminar setembro e somar dois trimestres consecutivos de uma economia que encolhe e que vê o investimento externo direto (IED) diminuir a mínimos históricos há 13 meses.

"O cenário futuro apresenta riscos significativos e poderia manter a pobreza em alta", aponta o relatório "Evolução da Incidência da Pobreza e da Indigência" do Centro de Economia Política Argentina (CEPA) publicado nesta sexta-feira (25).

"As cestas básicas continuam num nível elevado (acima da inflação). Estima-se um aprofundamento das perdas do poder aquisitivo do salário mínimo e dos planos sociais (cujo montante permanece congelado). A aposentadoria mínima também continuará a perder poder de compra", prevê o estudo.

<><> Números contraditórios

O CEPA também ressalta que a queda do índice de pobreza registrada até o ano passado foi fruto de uma mudança na metodologia do estudo no começo do governo Milei.

"Essa melhora estatística ? e não uma melhora real no bem-estar dos lares ? explica uma parte significativa da diminuição registrada da pobreza", conclui a análise.

O governo Milei passou a medir com mais detalhe a receita gerada pelo trabalho informal, o único que tem crescido no país devido à destruição do emprego formal. Os dados oficiais indicam que esse segmento informal teve aumento real do salário, quando outras medições indicam que, quem sai do sistema formal ao informal, tem uma perda de, pelo menos, 35% na remuneração.

Além disso, Milei impediu a aplicação da nova fórmula para o cálculo do aumento de preços, acertada com o FMI. Na nova metodologia, os serviços têm mais peso, justamente o item que teria mais aumento em 2026. A atual inflação mede itens como DVD e fitas VHS, distorcendo o verdadeiro valor da inflação mensal.

"Ao analisar a evolução do salário do emprego não-registrado (informal) publicada mensalmente pelo Indec, observa-se que, entre a posse de Milei e março de 2026, esse segmento salarial cresceu 36,3% em termos reais, desvinculando-se significativamente do resto dos trabalhadores. Os salários do emprego não-registrado ganharam quase 37 pontos acima da inflação?", questiona o relatório para logo afirmar: "Isso entra em contradição com o contexto econômico e com o próprio relatório do mercado de trabalho, publicado pelo Indec, no qual o mercado se contrai, as taxas de emprego caem e o desemprego aumenta".

¨      Sob Milei, Argentina fecha 31 mil empresas e 245 mil empregos formais

 A Argentina sob o comando do presidente Javier Milei fechou 31,3 mil empresas, 6,1% do total das companhias registradas no país. Além disso, 245 mil postos formais de emprego foram encerrados em 31 meses.  

"Se observarmos os dados do governo Milei, vemos que, durante essa gestão, o número de empresas caiu tanto quanto na pandemia", diz o último informe Monitor Mensal de Empresas, da Fundar, centro de pesquisas da Argentina.

O balanço da Fundar sobre as empresas argentinas abrange os meses de novembro de 2023, quando Milei assumiu o governo, até junho de 2026. Dos 18 setores pesquisados, 14 tiveram queda no número de empresas, prejudicando 23 das 24 províncias argentinas.  

A única exceção é a província de Neuquém, onde a exploração de gás natural de Vaca Muerta tem impulsionado as exportações argentinas.  

A indústria do país vizinho também vem apresentando retração, no acumulado de 12 meses, de 2,6%, fechados em julho deste ano. A indústria de equipamentos eletrônicos e médicos tem o pior resultado, com queda acumulada de 19,1% em um ano, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

Entre as 709 companhias que fecharam as portas no último mês, estão algumas com mais de 50 anos de atividade como a Din S.A. (Grupo Govan) do ramo da metalurgia, e a Clan Issime do ramo têxtil.  

A Fundar destaca que a Clan Issime, no seu auge, "chegou a ter 129 funcionários, 14 lojas próprias e mais de cem pontos de venda terceirizados; no momento do fechamento, restavam 9 trabalhadores na fábrica". 

<><> Desemprego 

O fechamento de empresas tem afetado o nível de empregos no país ao longo do governo Milei. Entre novembro de 2023 e junho de 2024, se perderam 245,6 mil empregos privados registrados, queda de 3,9% do total, segundo levantamento do Centro de Economia Política Argentina (Cepa). 

A perda foi compensada, em parte, por um aumento dos trabalhadores autônomos de 169 mil no período, crescimento de 8,3% nesse perfil de emprego. "Os empregos perdidos são parcialmente substituídos por atividades desprotegidas", diz o informe da Cepa. 

Com isso, a taxa de desemprego na Argentina subiu 0,3 pontos percentuais (p.p.) no primeiro semestre de 2026, se comparado com o mesmo período de 2025, chegando a 7,9% da população economicamente ativa, calcula o Indec. 

<><> Inflação vs empregos  

A queda no emprego, na renda das famílias e na indústria da Argentina contrasta com os números positivos da inflação do país, que caiu de uma taxa anual de 289%, em abril de 2024, para 33,5%, em agosto deste ano, considerando o acumulado dos 12 meses anteriores.  

O professor de economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Paulo Gala comentou à Agência Brasil que a estabilidade inflacionária no país vizinho é frágil.  

Segundo o especialista, essa estabilidade é resultado do corte de gastos públicos, dos empréstimos bilionários com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e de uma moeda sobrevalorizada. Porém, ele explica que o peso mais valorizado prejudica a indústria do país.  

"A moeda sobrevalorizada ajuda a controlar a inflação, só que ela detona o setor industrial. Estamos vendo agora é a contração industrial, perda de empregos industriais, desemprego com quase 8% e o crescimento perdendo muito fôlego", afirmou.  

A dívida externa de US$ 350 bilhões é outro elemento apontado pelo economista que revela a fragilidade da situação econômica do principal parceiro comercial do Brasil na América Latina.  

<><> The Economist 

A agenda econômica do governo de Javier Milei, desde o início do seu mandato, tem recebido apoio de setores do mercado financeiro e da mídia especializada que defendem uma agenda considerada liberal ou neoliberal na economia, com desregulação trabalhista, corte de gastos e abertura comercial.  

Mesmo publicações entusiastas da agenda de Milei, como a publicação inglesa The Economist, tem alertado para problemas na gestão econômica.  

Em editorial crítico ao governo da Casa Rosada, publicado neste mês, a The Economist escreveu que o país precisa de mais crescimento, e menos "gritaria", em alusão ao estilo histriônico do político argentino.   

"Os salários reais ainda são menores do que quando ele assumiu o cargo; empregos formais estão desaparecendo", destacou a revista, acrescentado que " Milei se mostrou relutante em aceitar que seus esforços para conter a inflação tenham prejudicado o crescimento". 

<><> Governo Milei 

Em discurso durante conferência sobre a economia argentina, no final de agosto, o presidente Javier Milei rebateu as análises negativas sobre o desempenho econômico do país. 

Ele destacou que são positivos os indicadores de exportações, consumo privado, inflação e do Produto Interno Bruto (PIB), que cresceu 4,4% em 2025, após uma retração de 1,3% em 2024.  

"Se fosse realmente o caso de todas as empresas estarem fechando e nenhuma abrindo, o desemprego teria que estar disparando, e o desemprego não está disparando", justificou.    

Milei ainda criticou empresários que dependam do Estado. "Queremos ser grandes? Precisamos amadurecer, e esses capitalistas de compadrio precisam falir", disse.

¨      Crise de Milei afeta empresa de camisinhas: ‘já não sabemos o que fazer para argentinos transarem’

A crise econômica na Argentina do presidente de extrema direita Javier Milei também é uma “crise do desejo”. Ao menos é o que diz um comunicado da Kopelco, fabricante da marca de preservativos Tulipán, uma das mais conhecidas desse mercado no país.

Na nota, divulgada em suas redes sociais no dia 18 de setembro, a empresa argumenta que há “uma crise do desejo na Argentina” para justificar a demissão de 60% dos seus funcionários.

“Após décadas investindo em inovação, pesquisa e desenvolvimento, lamentamos informar que estamos enfrentando uma situação crítica. Já não sabemos o que fazer para que os argentinos transem”, salienta a Kopelco no comunicado.

A empresa também afirma ter registrado, nos últimos meses, a maior queda nas vendas de camisinhas dos últimos 40 anos, o que contribuiu para a decisão de demitir mais da metade dos empregados.

O comunicado acrescenta que “durante todo esse tempo, nós trabalhamos para melhorar a experiência dos argentinos com o sexo, criando com novos preservativos, géis íntimos e brinquedos sexuais”.

“Porém, hoje existe uma variável que nenhum laboratório consegue controlar: estamos diante de uma crise de desejo na Argentina”, completa a nota.

<><> Situação econômica

A “crise do desejo” alegada pela fabricante das camisinhas Tulipán acompanha uma crise econômica demonstrada em relatório divulgado esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec).

Segundo o informe, a Argentina registrou, no primeiro semestre de 2026 um aumento de 4,1 pontos percentuais dos níveis de pobreza, que passaram a atingir 32,3% da população – equivalente cerca de 15,5 milhões de pessoas.

A indigência também teve um crescimento de 1,2 ponto. Segundo o relatório, essa situação afeta atualmente 7,5% dos habitantes – cerca de 3,6 milhões de pessoas.

O relatório mostra que a Argentina passou a ter cerca de dois milhões de novos pobres a partir deste terceiro ano de mandato do governo de extrema direita de Milei.

O documento aponta os altos índices de inflação, a perda do poder de compra, a redução do emprego formal e a retração da atividade econômica em setores estratégicos da economia como fatores que podem ter contribuído com o aumento da pobreza.

 

Fonte: Opera Mundi/UOL/Agencia Brasil

 

 

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