'Interferir
na eleição do Brasil tende a sair pela culatra e Trump sabe disso', diz Ian
Bremmer
Poucos
analistas têm a leitura do tabuleiro global que Ian
Bremmer tem.
Fundador e presidente do Eurasia Group, a maior consultoria de risco político
do mundo, e do GZERO Media, ele é uma das vozes mais ouvidas quando o assunto é
geopolítica e poder e acompanha de perto a relação entre o Brasil e os Estados
Unidos de Donald Trump.
A menos
de uma semana do primeiro turno, Bremmer conversou
com a BBC News Brasil. Ele vê uma eleição "incrivelmente apertada" e
atribui a Lula uma vantagem mínima, dada a força do cargo.
Bremmer
também faz uma aposta que contraria a expectativa dominante em alguns setores
no Brasil: não acredita que o governo Trump vá se envolver
diretamente no pleito.
A interferência virá, diz, mas por outra via, a das redes sociais e da
desinformação.
Ele
aponta o Supremo Tribunal Federal como o novo
epicentro dos escândalos de corrupção no país, detalha o que mudaria numa
eventual Presidência de Flávio Bolsonaro e crava que, mesmo com um governo
alinhado a Washington, o principal parceiro comercial do Brasil seguirá sendo a
China.
Sobre a
região, avalia que a remoção de Nicolás Maduro pelos EUA é popular na América
Latina, e prevê que a pressão sobre Cuba deve terminar em algum tipo de acordo
econômico, não em invasão.
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Confira os principais trechos da entrevista:
·
Estamos a menos de uma semana do primeiro turno. Como
você lê, daí, esta eleição, e quanto ela de fato importa para Washington?
Ian
Bremmer –
Antes de tudo, é uma eleição incrivelmente apertada. Houve uma janela para um
terceiro candidato, porque tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro são figuras muito
impopulares. Há muita insatisfação entre os brasileiros com os dois.
Mais de
60% dizem que sua renda disponível caiu no último ano. Há uma sensação de
estagnação na economia, de insegurança e de corrupção, que é um problema enorme
para os dois lados. Quando você olha para os temas com que os eleitores
realmente se importam, eles preferiam ter outra pessoa concorrendo. Mas [é
Flávio ou Lula. E há mais gente infeliz do que feliz [com esse cenário].
Nesse
aspecto, o Brasil se parece muito com os Estados Unidos: é muito polarizado, as
pessoas estão muito irritadas, o sistema ficou muito corrupto, e a sensação é
de que querem "pôr os bandidos para fora".
Vemos
as pesquisas e vemos uma realidade em que o incumbente [ocupante do cargo]
sempre leva uma vantagem significativa. Se você me obrigasse a apostar, eu
diria que Lula está à frente por muito pouco; parece mais provável que ele se
reeleja. É nesse ponto que a eleição está neste momento.
Para os
Estados Unidos, claro, Trump é fortemente favorável a Flávio. Mas recuou de
tudo aquilo de que falava meses atrás: usar o dólar como arma, as relações
comerciais, as sanções contra autoridades brasileiras. E recuou porque o
governo Trump entende que, se intervier, é mais provável que prejudique Flávio
do que o ajude. Lula usaria a bandeira da interferência americana a seu favor
nas urnas. Por isso têm sido muito cautelosos.
Se Lula
vencer, a relação comercial com os EUA seguirá tensa, a China é o parceiro
comercial mais importante do Brasil. Mas não há, no caso brasileiro, o foco
pesado de segurança que existe no México, na América Central, na Venezuela ou
na Colômbia, onde houve muito mais intervenção por causa do narcotráfico. No
Brasil, não é assim, e é por isso que a relação entre os dois países é mais
estável.
·
O PT vem dizendo nos últimos dias que, se no segundo
turno o governo Trump perceber que Lula vai vencer, talvez tente alguma coisa.
Você acredita nisso?
Bremmer
– Acho
que, claro, você vai ver muitas contas de direita, com dinheiro por trás, nas
redes sociais, algumas delas sediadas nos Estados Unidos, promovendo Flávio,
minando Lula, disseminando desinformação.
Isso é
um problema muito real para as democracias no mundo todo. Mas não acredito que
o governo dos Estados Unidos vá se envolver diretamente nessa relação. Não
veremos isso do lado comercial, nem, acho, do lado das sanções da Lei
Magnitsky, justamente porque Trump entende, e, mais importante, as pessoas em
torno dele entendem, que é provável que saia pela culatra.
·
Se Flávio Bolsonaro vencer, como você acha que a relação
entre Brasil e Estados Unidos vai evoluir?
Bremmer
– Primeiro,
os mercados vão gostar. A economia brasileira deve reagir. Na parte econômica,
um governo Flávio seria mais duro no fiscal, com prioridade para um choque de
credibilidade fiscal via reforma constitucional, algo que ele quer empurrar
entre o segundo turno e a posse, com desaceleração do crescimento das despesas
obrigatórias.
É um
movimento bem recebido pelo mercado, que Trump vai gostar, que o secretário do
Tesouro vai gostar, e muita gente ao redor de Trump vai falar bem da economia
brasileira. Nesse sentido, veriam Flávio como tão amistoso quanto veem [Javier]
Milei na Argentina. Ele seria bem-vindo.
Flávio
é muito associado ao governo Trump e à rede internacional alinhada ao MAGA [o
movimento trumpista Make America Great Again].
O irmão
dele, Eduardo, passou boa parte do último ano fazendo lobby ativo na Casa
Branca, na época, para impor medidas punitivas ao Brasil, sanções e tarifas
apresentadas como pressão para libertar o ex-presidente Jair Bolsonaro da
prisão.
Mas,
apesar desse alinhamento, não acho que haveria uma mudança tão importante nas
relações. Ação militar americana no Brasil, algo plausível num país como o
México, está completamente fora de questão, mesmo sob Lula. Não é uma tensão.
Se
Flávio entrar, eu veria o Brasil se alinhando imediatamente a Washington em
segurança. Aderiria ao Escudo das Américas, como vários outros países
latino-americanos.
Designaria
facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. E baixaria
sistematicamente as barreiras à inteligência americana e às operações militares
conjuntas.
É para
isso que eu imagino que a situação fosse caminhar. Seria bem mais amistoso.
Mas, mesmo sob Flávio, o principal parceiro comercial do Brasil vai continuar
sendo a China. Isso já era verdade no governo [de Jair] Bolsonaro.
Você
vai lembrar que ele falava em odiar comunistas, em ser anti-China, tudo aquilo,
enquanto era candidato. E, assim que virou presidente, de repente era: bem,
precisamos continuar trabalhando com esses caras, porque são importantíssimos
para a nossa economia.
Há
muito pragmatismo que vem da posição do Brasil como membro do Brics, do Sul
Global, e como país que vende muito para a China e se beneficia de muita
tecnologia e de muitos bens manufaturados chineses.
·
Você vê um perigo não de fora, mas de dentro, de um
eventual governo de Flávio, para a democracia e para as instituições?
Bremmer
– Olha,
para mim, o que vimos depois da própria tentativa de golpe no Brasil foi que o
sistema judiciário respondeu, que os militares, que estavam de certo modo
comprometidos, responderam, e que o povo respondeu. É por isso que o
ex-presidente Bolsonaro está preso.
Agora,
o perigo é que o Supremo está comprometido. Ele é politizado no Brasil de um
jeito que não é nos Estados Unidos. Há escândalos de corrupção que sobem até o
Supremo. E, se Flávio for presidente, poderá nomear muitos ministros, e a corte
provavelmente será politizada na direção oposta.
Ainda
assim, acredito que, no fim, o fato de o Brasil ter um Judiciário forte de cima
a baixo, de funcionar sob o Estado de direito, de a democracia ser robusta, e
de o povo não querer que suas eleições sejam roubadas, tudo isso importa.
O
combate à corrupção é um motivador de voto muito significativo. E é só porque o
próprio Lula se envolveu em tanta coisa desse tipo que estão considerando
correr de volta para alguém como Flávio Bolsonaro, quando o Brasil precisa de
outras opções, e vai tê-las.
Então
acredito que o Brasil vai mostrar, ainda que já tenha passado por isso uma vez,
e isso significa que pode acontecer de novo, que as instituições vão
prevalecer.
As
manifestações pelo país mostraram que os brasileiros não toleraram a ideia de
Bolsonaro tentar subverter uma eleição democrática e nunca ter, ele próprio,
entregado o poder. Ele não fez isso, como Trump não fez nos Estados Unidos.
Permitiu que ocorresse, mas não disse "perdi a eleição".
Um país
precisa de uma transferência pacífica de poder, e os brasileiros se opõem
esmagadoramente a que não haja. Isso importa. Não é a Rússia, onde o povo
simplesmente engole.
·
Há um ponto: vivemos agora uma crise profunda no Supremo.
Para muita gente, ao menos metade dos ministros está comprometida. É um ponto
de risco, não acha?
Bremmer
–
Acho. O centro dos escândalos de corrupção neste momento envolve o STF, e é o
ministro Alexandre de Moraes, o mesmo juiz que conduziu a condenação e a prisão
de Jair Bolsonaro.
O que
se viu é que Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, preso por estar por trás
da maior fraude bancária da história do Brasil, vinha trocando mensagens com
Moraes, buscando a intervenção dele na investigação. E que a mulher de Moraes
recebeu cerca de RS$ 130 milhões em honorários advocatícios, muito acima dos
valores de mercado.
Desde
então, só surgiram mais indícios de que outros ministros possam estar
envolvidos com o Vorcaro. É um problema enorme para o Supremo.
Mas o
engraçado, e me deixa até feliz como quem observa de fora, é que há outros
países que, às vezes, fazem os Estados Unidos parecerem bons politicamente.
Porque
o Flávio Bolsonaro também está ligado a esse Vorcaro, trocava mensagens no
celular pessoal com ele, pedindo recursos para um filme biográfico sobre o pai.
Então a
coisa toda é péssima, é tão corrupta, é tão lamentável para o povo brasileiro
que a eleição gire principalmente em torno disso.
·
Olhando para a América Latina, você vê um movimento de
direita muito forte em vários países. Trump tem falado bastante nisso,
inclusive em usar forças militares na região. Acha que ele pode ir além?
Bremmer
– É
certamente possível. No México, isso tem sido uma linha vermelha, e houve muita
cooperação. Até agora, vejo Marco Rubio e Stephen Miller dizendo que a relação
é tão construtiva que não deveria haver esse tipo de intervenção.
Trump,
claro, segue falando, depois da Venezuela, em usar os militares
unilateralmente. E Cuba, claro, é o foco. Ali não se trata de um governo de
direita, e sim de um governo comunista, mas sem opção. Trump tem tido o cuidado
de dizer: posso invadir, mas não preciso; posso tomar o país, mas não tenho de
fazê-lo.
Eu
espero que algum tipo de acordo econômico seja anunciado, por causa da enorme
pressão das sanções a que Cuba está submetida por uma economia americana muito
maior.
Para os
outros países da região, o sucesso de Nayib Bukele, o presidente de El Salvador
que ficou conhecido pela dura política de encarceramento em massa contra as
gangues, tornou esse modelo mais atraente para líderes, seja em Honduras, no
Chile ou no Peru.
Eles
querem ser vistos como duros com o crime e querem trabalhar com os Estados
Unidos num tema que é popular nesses países. Lembre-se de que a remoção de
Maduro pelos americanos é bastante popular entre a maioria das populações
latino-americanas, não no resto do mundo, mas na América Latina, sim, porque se
preocupam com segurança, e por causa dos oito milhões de venezuelanos que foram
essencialmente exportados para esses países pelo desastre que Chávez e depois
Maduro representaram para a Venezuela, uma economia que deveria ser uma das
mais ricas do mundo, e que ele simplesmente destruiu.
Então
há uma disposição para se alinhar mais com as prioridades de Trump na região. É
a única parte do mundo onde os EUA tiveram mais sucesso na política externa,
não na Europa, não no Canadá, não no Oriente Médio, não com a Rússia e a
Ucrânia.
Na
América Latina, de modo geral, Trump tem hoje relações melhores com a maioria
desses governos do que tinha no primeiro mandato, ou do que Biden tinha.
Parte
disso se deve aos líderes de direita, mas parte se deve aos temas que preocupam
essas populações.
·
No passado, você disse que Trump anunciaria sanções
contra o Brasil, mas recuaria, e foi o que aconteceu. Que ele é movido mais por
fatores econômicos do que ideológicos. Essa equação se mantém, pensando, por
exemplo, nas terras raras?
Bremmer
–
Ah, sim. Lembre-se: Trump já foi democrata, hoje é republicano. Trump é sobre o
Trump. Ele quer fazer negócios, e vai fazê-los com ditaduras, seja com Xi
Jinping ou Kim Jong-un, com governos de esquerda ou de direita.
A
disposição dele de impor tarifas não teve nada a ver com governos de direita ou
de esquerda; as tarifas atingiram todos os países. O Japão tem um governo de
direita, a Coreia do Sul tem um governo de esquerda, e isso não afetou em nada
as relações comerciais, as negociações foram igualmente duras, com centenas de
bilhões de dólares de investimento comprometidos na economia americana. Não
dava para perceber diferença no alinhamento político dos dois países.
A
exceção são os países que realmente precisam do apoio do FMI. Aí Trump se
inclina a dar esse apoio à Argentina, e agora à Venezuela, com a amiga dele,
Delcy Rodríguez, que está governando o país, em vez do inimigo, Maduro, que
agora está preso no Brooklyn. Mas, para a maioria desses países, o foco de
Trump tem sido muito mais transacional, muito mais voltado a negócios e
economia.
·
Vimos no Brasil, geração após geração, a frustração com o
potencial não atingido. Você vê condições para o Brasil, não no curto prazo,
mas no médio, superar esses obstáculos históricos?
Bremmer
– A
demografia é boa. É um país incrível de visitar, adoro ir, seja ao Rio, uma das
cidades mais estonteantes, com uma das pessoas mais maravilhosas do mundo. Quem
assiste a uma partida de futebol no Brasil conhece a paixão. Quem já foi ao
Carnaval. Há uma comunidade empresarial forte, um setor bancário forte, um
setor corporativo forte. E o desmatamento também foi contido, o que é
importantíssimo para a Amazônia, a mais única, imensa e diversa floresta do
mundo.
Mas o
que os brasileiros realmente precisam, e não estão fazendo, é tecnologia.
Precisam apostar muito mais em inteligência artificial, nessas ferramentas
revolucionárias que vão mudar o planeta e que podem nos permitir atingir ou
superar as metas de desenvolvimento sustentável, se não nos explodirmos
primeiro. O Brasil vem ficando para trás nisso e precisa se concentrar muito
mais.
·
Você vê um fim para a guerra na Ucrânia?
Bremmer
– Infelizmente,
não. Acho que está escalando. Os ucranianos mostraram que conseguem, de fato,
realizar ataques muito maiores no fundo do território russo e ferir a economia
deles. Os russos estão construindo sua economia de guerra, aumentando suas
capacidades tecnologicamente. Este inverno vai ser muito duro também para os
ucranianos. É um ambiente muito perigoso, e está ficando cada vez mais.
Fonte:
BBC News Brasil

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