É
possível comer ultraprocessados e se manter saudável? O que nutricionista diz
sobre meu carrinho de compras
Ir ao
supermercado virou um campo minado.
Estou
no corredor 15, lendo longas listas de ingredientes e me preocupando se o que
está no meu carrinho é bom para mim ou não.
Há cada
vez mais evidências de que uma parcela considerável dos alimentos que
consumimos pode ser prejudicial à nossa saúde, com os alimentos
ultraprocessados associados a uma série de problemas de saúde.
Mas já
chega de ficar na dúvida e entrar em pânico achando que estou envenenando meu
filho se der nuggets de frango para ele comer, então entreguei minha lista de
compras para uma nutricionista analisar.
Mas
tudo depende da classificação utilizada. De forma geral, os alimentos
ultraprocessados são produtos industriais que passam por várias etapas de
processamento e costumam conter ingredientes e aditivos que não são normalmente
usados em uma cozinha doméstica — como emulsificantes, aromatizantes, corantes
e adoçantes.
A
classificação mais utilizada em pesquisas sobre o tema, conhecida como NOVA,
não define um alimento como ultraprocessado simplesmente pelo número de
ingredientes que ele contém.
O que
importa é a combinação entre o grau de processamento e o tipo de ingredientes e
aditivos empregados na formulação.
Existe
um conjunto amplo e crescente de evidências associando o consumo elevado de
alimentos ultraprocessados a uma série de problemas de saúde, incluindo
obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e outros distúrbios metabólicos.
Estudos também investigam possíveis associações com problemas de saúde mental e
maior risco de morte prematura.
Mas
cientistas, médicos e nutricionistas ainda não chegaram a um consenso sobre o
motivo. Será que os efeitos se devem apenas ao alto teor de gordura, açúcar,
sal e calorias? Ou o próprio ultraprocessamento também desempenha um papel?
Estudos
mostram que mais da metade das calorias consumidas no Reino Unido vêm de
alimentos ultraprocessados. O médico Chris van Tulleken escreveu livros e
produziu documentários sobre os possíveis efeitos prejudiciais desses
alimentos. Ele me disse que são "quase impossíveis de evitar" — até
mesmo a dieta de sua própria família inclui alguns deles.
E minha
própria lista de compras também não está livre de alimentos ultraprocessados.
Maeve
Hanan, membro da Associação Britânica de Dietética, faz uma pausa enquanto
examina alguns itens da minha lista de compras semanal (havia mais frutas e
verduras, acredite) e aponta para uma caixa de cereais.
"Este
produto é ultraprocessado, mas costumo comprá-lo para a minha família. Ele traz
muitos benefícios para a saúde."
Hanan
afirma que existe uma "histeria crescente" em torno dos alimentos
ultraprocessados.
"Principalmente
porque a mensagem em torno deles é muito preto no branco", diz ela.
"Esta comida é boa. Esta comida é ruim."
"Isso
só alimenta o medo. E medo em relação à comida nunca é bom."
Então,
qual é a avaliação dela sobre minhas compras no supermercado?
Não é
tão ruim quanto eu esperava, para meu alívio. Embora haja alguns alimentos
ultraprocessados, isso não significa necessariamente que minha lista de compras
seja composta por alimentos pouco saudáveis. Na verdade, Hanan afirma que
"há uma boa variedade de alimentos que abrangem todos os grupos
alimentares".
O
simples fato de alguns produtos terem uma longa lista de ingredientes não os
torna "inerentemente ruins", explica ela. O valor nutricional é
"muito mais importante".
E
quanto aos alimentos que contêm ingredientes cujos nomes mal consigo pronunciar
— quanto mais reconhecer? Hanan usa como exemplo os nuggets de frango que
compro para meu filho.
"Existem
vitaminas e minerais que, por lei, os fabricantes no Reino Unido são obrigados
a adicionar à farinha de trigo branca, como carbonato de cálcio, niacina e
tiamina", diz ela.
Agentes
de fermentação, como o difosfato dissódico, são usados juntamente com o
bicarbonato de sódio para deixar a massa mais leve e crocante.
Hanan
afirma que até mesmo ingredientes com nomes que parecem mais químicos terão
sido testados e aprovados de acordo com as leis alimentares do Reino Unido.
"Mas,
embora os nuggets de frango sejam uma boa fonte de proteína", ela alerta,
"eles têm mais gordura e sal do que um simples peito de frango, então eu
os consumiria com moderação, como parte de uma dieta equilibrada."
Digo a
Hanan que meu filho geralmente come os nuggets com palitos de cenoura crua e
macarrão.
"Um
único alimento não torna sua dieta saudável ou não saudável", diz ela.
"O importante é encontrar esse equilíbrio ao longo do tempo."
Megan
Bamford acredita que eliminar os alimentos ultraprocessados de sua dieta a
ajudou a controlar a síndrome do intestino irritável e a dor crônica.
Mas
agora, como mãe de duas crianças pequenas, cozinhar tudo do zero nem sempre é
viável. Sua filha mais velha, Ella, de sete anos, tem dificuldades alimentares
desde pequena.
"Nem
sempre é fácil alimentar os filhos com aquilo que achamos que eles deveriam
comer", diz Megan. "No passado, Ella chegou a ficar doente por causa
de sua alimentação extremamente seletiva — não tivemos escolha a não ser dar a
ela alimentos ultraprocessados industrializados."
Assim,
a cozinha de Megan ainda está cheia de frutas, legumes, sementes e aveia, mas
agora também há cereais matinais, batatas fritas, biscoitos e outros alimentos
processados.
Ela
procura alimentos com cinco ingredientes ou menos.
"A
maioria dos salgadinhos, pizzas e cereais que compro não é comida
ultraprocessada", diz ela. "Estou satisfeita com isso. Alimento meus
filhos da melhor maneira possível e escolho as opções mais saudáveis que
encontro."
Embora
muitos alimentos ultraprocessados sejam ricos em gordura, açúcar e sal, que
sabemos que causam uma série de problemas de saúde, alguns cientistas afirmam
que ainda não se compreende totalmente o impacto do processamento nos
alimentos.
O autor
e cientista de alimentos Prof. David Julian McClements afirma que a "ideia
de alimento ultraprocessado não está muito bem definida".
"Focar
no processamento é um pouco uma distração", diz ele. "Não acho que
esse seja o principal problema aqui."
Alguns
estudos sugerem que, quanto mais processado é um alimento, mais fácil pode ser
consumi-lo em excesso. Outros associam o consumo de alimentos ultraprocessados
a alterações na nossa microbiota intestinal. Mas McClements afirma que não há
evidências conclusivas de que essas alterações, por si só, sejam
necessariamente prejudiciais à nossa saúde.
Mas,
considerando que ele trabalha com a indústria alimentícia, será que tem algum
interesse pessoal nessa questão?
"Qualquer
cientista de alimentos bem-sucedido trabalha muito com a indústria
alimentícia", diz McClements. "E acho que tentar eliminar os
alimentos ultraprocessados está atrasando a inovação."
Muitos
de nós levamos vidas agitadas, diz ele, e a conveniência é uma parte
fundamental da sociedade.
"O
que eu quero fazer é reformular os alimentos processados para torná-los mais
saudáveis", diz ele.
Quando
mencionei isso a Van Tulleken, ele fez uma pausa. Ele acabara de me mostrar o
alto teor de açúcar de vários cereais matinais, enquanto segurava uma caixa
vazia de um cereal muito açucarado e com sabor de chocolate. Senti uma pontada
de culpa, sabendo que meu filho de sete anos consegue comer várias tigelas de
uma só vez.
"Os
alimentos ultraprocessados são saborosos, irresistíveis e essa é a ideia",
diz Van Tulleken. "Claro, podemos tornar os alimentos ultraprocessados
mais saudáveis, mas aí eles não seriam tão gostosos."
"As
empresas alimentícias sabem muito bem como produzir alimentos saudáveis. O
motivo pelo qual não o fazem é porque isso não é lucrativo."
Ele
afirma que há cada vez mais evidências de que o processamento industrial dos
alimentos afeta nossa saúde e que as empresas controlam o mercado de alimentos
de uma forma "muito prejudicial".
"O
que precisamos, para começar, é de uma melhor rotulagem dos alimentos, para
sabermos quais têm alto teor de gordura, açúcar e sal — nutrientes que sabemos
estarem associados a problemas de saúde — e isso representa a maioria dos
alimentos ultraprocessados."
A
Federação de Alimentos e Bebidas, que representa os fabricantes de alimentos e
bebidas no Reino Unido, discorda veementemente das afirmações de van Tulleken.
A entidade afirma ter investido milhões de libras "em inovação para
produzir alimentos mais saudáveis" e que seus membros "reduziram o
sal, o açúcar e as calorias de seus produtos em quase um quinto apenas nos
últimos cinco anos".
"Este
trabalho", afirma a federação, "foi realizado em conformidade com a
regulamentação governamental e as orientações dietéticas, que se concentram no
conteúdo nutricional dos alimentos, e não no nível de processamento."
Então,
enquanto coloco quatro nuggets de frango no prato do meu filho — junto com as
cenouras e o macarrão — não sinto a vergonha e o pânico de sempre. Ele é um
menino ativo, não come nuggets todas as noites e já se alimentou de uma
variedade de alimentos ao longo do dia.
Ele me
dá um sorriso. "Este é o melhor jantar de todos os tempos, mamãe",
diz ele.
Um dia,
tenho certeza de que ele comerá menos alimentos sem graça, mas, por enquanto,
ele está saudável (espero) e feliz.
Fonte:
BBC News

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