Um
guia para entender e superar as crises nas metrópoles brasileiras
possível
planejar a cidade sem gerar exclusão? Os espaços públicos e parques podem ser
abertos e democráticos, livres da mercantilização? As cidades podem se adaptar
para enfrentar a crise climática e transitar para um novo modelo de mobilidade?
O direito à habitação pode ser garantido para todas e todos? Os impactos da
pandemia nas cidades vieram para ficar? A proteção ao patrimônio urbano e
cultural pode conviver com uma cidade mais compacta e verticalizada? A cultura
pode ocupar o espaço público sem incomodar os moradores? Existe um caminho para
implementar uma nova política nacional de desenvolvimento urbano focada na
redução das desigualdades e na sustentabilidade climática?
O
Urbanismo na corda bamba, organizado em oito capítulos, reúne mais de cem
artigos que debatem e problematizam essas questões, com reflexões, análises
críticas e propostas, focadas em questões concretas que afetam as cidades
brasileiras. Ele contribui para entender a crise urbana e construir caminhos
para superá-la.
Os
textos foram selecionados dentre mais de trezentos artigos que publiquei nos
últimos anos em órgãos de imprensa, como CartaCapital e, sobretudo, Folha de
São Paulo, onde fui colunista de urbanismo entre 2017 e 2022. Agradeço a esses
veículos pela cessão dos direitos e ao arquiteto Miguel Fioretti, que reuniu e
organizou os artigos por assunto.
A
seleção privilegiou textos focados em temas urbanos, particularmente na cidade
de São Paulo. Por falta de espaço, foram excluídos artigos que trataram de
questões mais gerais, sobretudo de política nacional, em um período em que a
defesa da democracia, o enfrentamento do negacionismo e a resistência contra o
desmonte das políticas públicas tornou-se fundamental para o futuro no país.
Esses textos deverão ser publicados em outro livro.
Por que
o urbanismo, e por consequência as nossas cidades, está na corda bamba?
No
Brasil, a questão urbana demorou muito a ser tratada com a seriedade e
prioridade que deveria ter nas políticas públicas. Apenas em 1988, foi incluída
na nossa Constituição uma seção referente à política urbana, quatro séculos e
meio após a criação de São Vicente, a primeira vila fundada pelos portugueses,
e quando cerca de 75% da população brasileira, 110 milhões de habitantes, já
vivia em cidades. E isso só foi possível após uma ampla mobilização social,
organizada no Movimento Nacional pela Reforma Urbana, que reuniu mais de 130
mil assinaturas em defesa de uma emenda de iniciativa popular à Constituição. O
Estatuto da Cidade, que regulamentou esses artigos da Constituição, só foi
aprovado em 2001.
Esse
atraso é apenas um indicador do descaso com que o país tratou suas vilas,
cidades, aglomerações urbanas e regiões metropolitanas. Descaso que não é
desleixo, mas que fez parte de uma estratégia de dominação. Foi reflexo dos
interesses fundiários e rentistas que prevaleceram nas cidades, onde a terra
foi tratada como mercadoria e onde os proprietários evitaram, o mais que
puderam, que houvesse um controle público sobre o desenvolvimento urbano, que o
planejamento prevalecesse sobre os interesses privados e que a função social de
propriedade restringisse o exercício absoluto da propriedade privada.
Sérgio
Buarque de Holanda, no clássico Raízes do Brasil, destacou que os portugueses
teriam sido desleixados ao tratar dos núcleos urbanos no Brasil colonial, que
surgiram espontaneamente, sem ordenamento, ao contrário dos colonizadores
espanhóis, que estabeleceram regras rígidas para a fundação, o planejamento e a
estruturação urbana na América Hispânica, as chamadas Ordenações Filipinas. Não
foi bem assim.
O
professor Nestor Goulart Reis Filho contestou Holanda e mostrou que não foi
desleixo, mas uma política deliberada. Enquanto a maior parte das vilas criadas
na colônia cresceram ao “deus dará” sob o controle dos “homens bons”,
desordenadas e sem estruturação urbana, a coroa portuguesa, que tinha baixa
capacidade de investimento, concentrou recursos e planejou apenas as chamadas
“cidades reais”, que eram estratégicas para garantir o domínio sobre o
território, deixando o restante a cargo dos particulares, a quem delegou a
responsabilidade de fundar e cuidar dos núcleos urbanos de acordo com seus
interesses.
Essa
desigualdade na maneira como o Estado tratou as cidades deixou raízes no
processo de urbanização brasileiro, que se desdobrou no século xx em outro
formato, mas com a mesma lógica, que combina privilégio para uns com abandono
para a maioria. Processo que foi chamado por Lucio Kowarick de “A lógica da
desordem”, capítulo central do livro São Paulo 1975: crescimento e pobreza.
Para Kowarick, a lógica do desenvolvimento urbano capitalista nos países pobres
gera uma espoliação urbana, em que os trabalhadores são privados de serviços
básicos e condições dignas de vida. A prioridade dada aos automóveis, com
grandes investimentos no sistema viário, e a precarização do transporte
coletivo, utilizado pela maioria da população, faz parte dessa mesma lógica.
Raquel
Rolnik denomina esse processo como o “Planejamento da Desigualdade”, buscando
mostrar o caráter deliberado do modelo. Na segunda metade do século xx, quando
as cidades brasileiras foram as que mais cresceram no mundo, o poder público
apenas cuidou e priorizou, com planos, projetos, intervenções, fiscalização e
controle urbano, os territórios que eram prioritários para o mercado
imobiliário, para as empresas e para a elite.
Enquanto
isso, as periferias se expandiram de forma especulativa. Da noite para o dia,
surgiram loteamentos clandestinos, com ruas estreitas, mobilidade deficiente,
ausência de calçadas, infraestrutura e equipamentos públicos, onde as moradias
eram autoconstruídas pelos próprios trabalhadores de baixa renda, que adquiriam
lotes à prestação. Essa era, para Ermínia Maricato, “a arquitetura possível”.
Essa
desigualdade urbana se revela de forma acintosa em São Paulo. Nas sobras desses
loteamentos populares, nos vazios urbanos, fundos de vale, áreas íngremes ou
alagadiças, de risco e impróprias para a urbanização, surgiram as favelas, que
hoje são as áreas mais densas da cidade, caracterizando o chamado racismo
ambiental, que faz da população pobre, periférica e negra a que mais sofre com
os eventos extremos provocados pela crise climática.
Flávio
Villaça, em Espaço intraurbano, ressalta que o quadrante sudoeste se tornou a
área privilegiada da cidade, recebendo investimentos públicos e privados de
grande dimensão, que garantiram um padrão de urbanização de qualidade
incomparável com as extensas periferias.
Esse
modelo, injusto e insustentável, de desenvolvimento urbano do século xx, gerou
o que denomino “desigualdade estrutural da cidade”. Ele está baseado na
exclusão socioterritorial, na prioridade para o automóvel em detrimento do
transporte coletivo e da mobilidade ativa, no abandono e na desertificação dos
espaços públicos, na ocupação dos fundos de vale, no desprezo ao meio ambiente,
nas longas distâncias entre a moradia e o trabalho, na violência urbana, de
gênero e da raça. Alterar esse modelo é o grande desafio do século xxi, que
exige uma forte articulação técnico-política. É nesse contexto que se insere
este livro.
Tratando
de diferentes temas urbanos, os artigos apresentam e debatem, a partir de
questões concretas, as estratégias, as propostas e as dificuldades para mudar
esse modelo de desenvolvimento urbano, refletindo minha atuação como
pesquisador, gestor público e crítico dos equívocos praticados pelos governos.
Há
décadas tenho trabalhado, junto como outros urbanistas e lideranças dos
movimentos sociais, para construir as bases desse novo modelo. Essa construção
está baseada em princípios de diferentes vertentes urbanísticas.
Por um
lado, os novos instrumentos urbanísticos propostos pelo movimento da reforma
urbana e regulamentados no Estatuto da Cidade, que visam combater a
desigualdade estrutural das cidades brasileiras, como a função social da
propriedade, o direito à moradia em áreas bem localizadas, a recuperação da
mais-valia gerada por investimentos públicos e o combate à especulação
imobiliária.
Por
outro, princípios urbanísticos contemporâneos que se contrapõem ao modelo
insustentável adotado em São Paulo e na maioria das cidades brasileiras. Como
os propostos pelo Congresso do Novo Urbanismo, que defende a criação de
comunidades compactas, caminháveis e de uso misto, em oposição à dispersão
urbana e à dependência excessiva de automóveis; pelo Desenvolvimento Orientado
ao Transporte (tod), que defende a alta densidade ao redor de eixos de
transporte público (Peter Calthorpe); pela Cidade de Quinze Minutos, que
introduziu o conceito da proximidade entre as várias atividades humanas nas
cidades (Carlos Moreno); pela Cidade para Pessoas (Jan Gehl) e Cidade
Caminhável (Jeff Speck), que defendem o uso humano do espaço público e a
prioridade para o pedestre; e a Cidade-Esponja, que visa liberar as várzeas de
construções, transformando-as em áreas verdes e solos permeáveis para absorver,
armazenar e reutilizar a água da chuva, evitando enchentes (Kongjian Yu).
Esses
conceitos, teorias e práticas apontam caminhos para enfrentar os grandes
desafios urbanos do século xxi: a desigualdade socioterritorial e a crise
climática e sanitária, que trazem como consequência a violência urbana, os
eventos extremos, os desastres ambientais, as pandemias e uma cidade insalubre.
Mas não
é fácil superar a lógica que predomina em nossas cidades e que gerou a crise
urbana em que vivemos. Os avanços logrados em algumas gestões são interrompidos
pelas seguintes, que atendem aos tradicionais interesses econômicos e a
paradigmas superados, mas persistentes, que continuam a prevalecer.
Este
livro aponta avanços e retrocessos na tentativa de mudar as cidades. Acredito
(se não acreditasse, não escreveria e não me mobilizaria) que existe um caminho
político e urbanístico para superar a crise que as afeta. Mas convivemos com
forças que não querem mudanças; os obstáculos, sobretudo de natureza política,
são imensos. É por isso que as cidades brasileiras vivem em situação delicada,
de grande instabilidade, perigo ou equilíbrio frágil. Em alerta, à espera de um
megacongestionamento, de um novo desastre ambiental ou climático, de um furto
de celular, de um acidente no trânsito, de um novo despejo ou de mais um
desmatamento.
É por
isso que o urbanismo está na corda bamba.
Fonte:
Por Nabil Bonduki, em Jacobin Brasil

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