quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Ricardo Queiroz Pinheiro: Bolsonaro e Aparecida - quando a trollagem volta para casa

O episódio de Nossa Senhora Aparecida colocou Flávio Bolsonaro dentro de uma máquina de comunicação que o próprio bolsonarismo ajudou a construir. A história que o atingiu dá um salto que as provas disponíveis não autorizam, mas esse salto é construído com fatos reais.

O projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil existiu. Foi apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, que depois se tornou assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro. O hoje candidato Flávio e sua mulher, Fernanda, foram batizados na Comunidade das Nações, fundada por JB Carvalho. Carvalho escreveu defendendo que Aparecida deixasse de ocupar essa posição e que Jesus Cristo fosse reconhecido como único Senhor do Brasil, endossando a proposta de Galli. Flávio manteve relação com a igreja e, já candidato, afirmou que decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

Nenhum desses fatos, isolado, prova que Flávio pretenda retirar o título de Aparecida. Mas a junção deles torna pobre resumir toda a história a uma invenção sem qualquer base. Há uma rede política e religiosa concreta, personagens relacionados e ideias que efetivamente circulam nesse ambiente. A distorção aparece quando essa proximidade é convertida diretamente em intenção comprovada.

Rodrigo Nunes ajuda a entender o que aconteceu. Filósofo e professor de teoria política, lançou em 2022 “Do transe à vertigem: ensaios sobre o bolsonarismo e um mundo em transição“, livro em que mostra como conservadorismo religioso, ressentimento, guerra cultural e redes digitais compõem uma eficiente rede de comunicação.

Um dos mecanismos que Nunes analisa é a trollagem: lança-se uma formulação forte, ela circula rapidamente e sempre existe a possibilidade de recuo. Se funciona, permanece; se encontra resistência, pode virar exagero, brincadeira ou interpretação equivocada.

Foi uma vantagem comunicacional explorada durante anos pelo bolsonarismo. Uma associação simples circulava numa frase enquanto o adversário precisava de páginas para reconstruir datas, documentos e contexto. Quase sempre partia de um fragmento verdadeiro, ampliado até virar certeza. Agora Flávio precisa explicar justamente que associação não é prova, proximidade não significa adesão e indícios não demonstram automaticamente uma intenção.

Há ainda o problema de sua própria credibilidade. Um levantamento do veículo Aos Fatos encontrou dezenas de declarações enganosas de Flávio apenas no caso Daniel Vorcaro, algumas posteriormente contrariadas por mensagens e encontros conhecidos. Isso não demonstra que esteja mentindo sobre Aparecida. Significa que sua negativa, por si só, não pode encerrar a apuração.

A ironia do episódio está aí. O bolsonarismo ajudou a consolidar uma comunicação baseada em suspeita, associação e desconfiança dos desmentidos. Quando essa gramática retorna contra um Bolsonaro, ele passa a exigir contexto, mediação e rigor na relação entre os fatos.

A trollagem voltou para casa. E encontrou um ambiente que o próprio bolsonarismo ajudou a construir, no qual Flávio vai ter de responder a ela todos os dias até domingo, dia da eleição.

•        'Disputa' em torno de Nossa Senhora Aparecida leva fake news ao centro da eleição presidencial, destaca imprensa internacional

Uma "disputa religiosa desencadeada por notícias falsas" envolvendo Nossa Senhora Aparecida abriu um "novo e improvável campo de batalha" na última semana antes da eleição presidencial, segundo reportagem pubicada pela agência internacional de notícias Bloomberg.

O tema, que tomou conta do debate público e das redes sociais no Brasil nos últimos dias, também ganhou espaço na cobertura da imprensa internacional sobre o pleito de 4 de outubro.

Com uma reportagem intitulada "Notícias falsas voltam a agitar a eleição presidencial no Brasil", a agência internacional especializada em economia e mercado financeiro detalhou o que chamou de "a mais recente reviravolta" da campanha eleitoral de 2026.

"Um novo e improvável campo de batalha surgiu no Brasil na reta final antes da eleição presidencial: uma disputa religiosa desencadeada por notícias falsas", diz a Bloomberg.

"É a mais recente reviravolta em uma campanha já sequestrada pela maior fraude bancária da história do país e por uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal", continua o texto, em referência ao escândalo do Banco Master e a recente crise entre ministros do STF.

A agência de notícias destaca que a nova disputa entre os dois principais candidatos à presidente, o atual mandatário Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), foi criada por notícias falsas envolvendo a padroeira do Brasil.

Tratam-se das postagens que circulam nas redes sociais nos últimos dias associando Flávio Bolsonaro a uma suposta articulação para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

Na semana passada, o candidato do PL desmentiu a ideia de que, se eleito, pretende apoiar um suposto projeto de lei nessa direção.

"Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto", afirmou Flávio em um vídeo no qual acusa o PT de explorar eleitoralmente o caso.

Não existe um projeto apresentado por Flávio para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

O texto no centro da história é o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado em 12 de dezembro de 2007 pelo então deputado federal Victório Galli, de Mato Grosso, hoje filiado ao Progressistas.

A Câmara dos Deputados informa que a proposta está arquivada. Seu objetivo era alterar a Lei nº 6.802, de 1980, para substituir a expressão "padroeira do Brasil" por "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos".

A tramitação terminou em 2008. Segundo a Câmara, o projeto foi arquivado naquele ano.

<><> Disputa 'pode estar afetando a corrida eleitoral'

Segundo a reportagem publicada pela Bloomberg, a "desinformação se tornou uma característica recorrente das eleições brasileiras", com as autoridades eleitorais interferindo para ordenar a remoção de dezenas de publicações falsas ou enganosas nas eleições de 2022.

Dessa vez, diz a agência, a disputa em torno de Nossa Senhora "pode até estar afetando a corrida eleitoral", com uma pesquisa divulgada na segunda-feira (28/10) sugerindo que o apoio a Lula entre os católicos aumentou.

Segundo pesquisa BTG/Nexus, o petista avançou três pontos percentuais entre eleitores católicos, indo de 44% para 47% em uma semana na pesquisa estimulada. Já Flávio Bolsonaro oscilou negativamente um ponto percentual nesse grupo religioso, de 34% para 33%.

No Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula está com 41% de intenção de voto no primeiro turno, seguido pelo bolsonarista, que aparece com 36% da preferência do eleitorado.

Nas simulações de segundo turno, quando o cenário mais provável até aqui é mesmo de uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, o presidente voltou a aparecer à frente do senador, segundo as pesquisas divulgadas até a segunda-feira (28/09).

Lula aparece com 45% e Flávio, com 44%. Em caso de haver segundo turno, a votação será em 25 de outubro.

"No entanto, a violência, a corrupção e a economia são as maiores preocupações dos brasileiros", diz ainda a Bloomberg. "Com Lula e Bolsonaro praticamente empatados, esta corrida eleitoral promete ainda mais reviravoltas", completa a reportagem.

<><> 'Controvérsia alimentada pela esquerda'

A disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida também foi foco de outras reportagens na imprensa internacional.

O espanhol El País destacou como a "controvérsia alimentada pela esquerda" envolveu até mesmo líderes da Igreja Católica no país e a Suprema Corte, em uma controvérsia "que pode influenciar uma eleição extremamente acirrada".

"Desde quinta-feira à noite, houve declarações, notas oficiais, acusações mútuas e decisões judiciais contraditórias. As falsidades, que continuam a circular nas redes sociais, podem afetar o que se configura como uma eleição muito acirrada", diz o jornal.

"Diversos perfis de esquerda compartilharam a publicação original nas redes sociais, que dizia: 'A família miliciana odeia tanto as mulheres negras que ataca a Virgem Aparecida', e foi publicada originalmente por um humorista chamado Antonio Tabet", lê-se no texto em espanhol.

"Embora ele não tenha mencionado a família Bolsonaro nominalmente, a referência era clara para os brasileiros que acompanham os acontecimentos políticos atuais."

O El País destacou ainda que, após as postagens viralizarem, Flávio disse, sem apresentar provas, que "gente de dentro" da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) articulou a disseminação da fake news.

"A Igreja Católica no Brasil é conhecida por seus laços estreitos com a esquerda. O órgão máximo de representação dos bispos em Roma respondeu com uma declaração afirmando que 'mentiras não se combatem com mentiras'", diz a reportagem.

Outra matéria, da agência de notícias italiana Ansa, apontou ainda que, em reação à polêmica, o vice-presidente da chapa de Lula, Geraldo Alckmin, gravou um vídeo no qual afirma ter recebido mensagens de católicos "preocupados com a direção que o país está tomando".

"A controvérsia surge num contexto em que bispos e arcebispos da Igreja Católica têm defendido publicamente, nas últimas semanas, a soberania nacional e o compromisso com os setores mais pobres da população, posições semelhantes às defendidas pelo católico Lula", diz o texto distribuído pela Ansa.

<><> 'Tudo isso em um estado constitucionalmente laico'

A imprensa internacional também destacou como a disputa voltou a colocar em lados opostos ministros do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na sexta-feira (25/9), André Mendonça, vice-presidente do TSE e também ministro do Supremo, determinou a remoção das publicações nas redes sociais que associavam Flávio Bolsonaro a um suposto projeto para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira do Brasil.

No domingo (27/9), Flávio Dino, ministro do STF, derrubou a ordem de Mendonça; por fim, na noite de segunda-feira (28/9), o também ministro do Supremo Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e fez voltar a valer, ao menos provisoriamente, a determinação dada por Mendonça no âmbito da Justiça Eleitoral.

Em sua reportagem, a agência Bloomberg destacou que "tudo isso acontece em um estado constitucionalmente laico".

No texto publicado no jornal El País, a jornalista Naiara Galarraga Gortázar, correspondente no Brasil, também recorda o histórico do Brasil com notícias falsas em período eleitoral.

"Lembre-se que essa tática, agora explorada pela esquerda, já foi usada pelos apoiadores de Bolsonaro nas duas últimas eleições. Em 2018, espalharam a notícia falsa de que o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, que substituiu o então preso Lula, distribuiria um 'kit gay' nas escolas; em 2022, voltaram a fomentar o pânico moral divulgando a notícia falsa de que Lula fecharia igrejas", diz a reportagem.

"Na época, o PT protestou veementemente e recorreu aos tribunais eleitorais para que as mensagens fossem retiradas. Agora são os apoiadores de Bolsonaro que exigem a mesma coisa, enquanto a esquerda se envolve na bandeira da liberdade de expressão."

Segundo o El País, ambos os lados sabem que uma pequena margem de votos provavelmente decidirá a eleição.

"Apenas uma ínfima porcentagem de eleitores permanece indecisa. Enquanto isso, os favoritos estão apelando para o voto estratégico, na esperança de resolver a eleição neste domingo, enquanto os outros candidatos perdem terreno", diz o texto.

 

Fonte: Opera Mundi/BBC News Brasil

 

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