Ricardo
Queiroz Pinheiro: Bolsonaro e Aparecida - quando a trollagem volta para casa
O
episódio de Nossa Senhora Aparecida colocou Flávio Bolsonaro dentro de uma
máquina de comunicação que o próprio bolsonarismo ajudou a construir. A
história que o atingiu dá um salto que as provas disponíveis não autorizam, mas
esse salto é construído com fatos reais.
O
projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil
existiu. Foi apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, que depois
se tornou assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro. O hoje
candidato Flávio e sua mulher, Fernanda, foram batizados na Comunidade das
Nações, fundada por JB Carvalho. Carvalho escreveu defendendo que Aparecida
deixasse de ocupar essa posição e que Jesus Cristo fosse reconhecido como único
Senhor do Brasil, endossando a proposta de Galli. Flávio manteve relação com a
igreja e, já candidato, afirmou que decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus
Cristo”.
Nenhum
desses fatos, isolado, prova que Flávio pretenda retirar o título de Aparecida.
Mas a junção deles torna pobre resumir toda a história a uma invenção sem
qualquer base. Há uma rede política e religiosa concreta, personagens
relacionados e ideias que efetivamente circulam nesse ambiente. A distorção
aparece quando essa proximidade é convertida diretamente em intenção
comprovada.
Rodrigo
Nunes ajuda a entender o que aconteceu. Filósofo e professor de teoria
política, lançou em 2022 “Do transe à vertigem: ensaios sobre o bolsonarismo e
um mundo em transição“, livro em que mostra como conservadorismo religioso,
ressentimento, guerra cultural e redes digitais compõem uma eficiente rede de
comunicação.
Um dos
mecanismos que Nunes analisa é a trollagem: lança-se uma formulação forte, ela
circula rapidamente e sempre existe a possibilidade de recuo. Se funciona,
permanece; se encontra resistência, pode virar exagero, brincadeira ou
interpretação equivocada.
Foi uma
vantagem comunicacional explorada durante anos pelo bolsonarismo. Uma
associação simples circulava numa frase enquanto o adversário precisava de
páginas para reconstruir datas, documentos e contexto. Quase sempre partia de
um fragmento verdadeiro, ampliado até virar certeza. Agora Flávio precisa
explicar justamente que associação não é prova, proximidade não significa
adesão e indícios não demonstram automaticamente uma intenção.
Há
ainda o problema de sua própria credibilidade. Um levantamento do veículo Aos
Fatos encontrou dezenas de declarações enganosas de Flávio apenas no caso
Daniel Vorcaro, algumas posteriormente contrariadas por mensagens e encontros
conhecidos. Isso não demonstra que esteja mentindo sobre Aparecida. Significa
que sua negativa, por si só, não pode encerrar a apuração.
A
ironia do episódio está aí. O bolsonarismo ajudou a consolidar uma comunicação
baseada em suspeita, associação e desconfiança dos desmentidos. Quando essa
gramática retorna contra um Bolsonaro, ele passa a exigir contexto, mediação e
rigor na relação entre os fatos.
A
trollagem voltou para casa. E encontrou um ambiente que o próprio bolsonarismo
ajudou a construir, no qual Flávio vai ter de responder a ela todos os dias até
domingo, dia da eleição.
• 'Disputa' em torno de Nossa Senhora
Aparecida leva fake news ao centro da eleição presidencial, destaca imprensa
internacional
Uma
"disputa religiosa desencadeada por notícias falsas" envolvendo Nossa
Senhora Aparecida abriu um "novo e improvável campo de batalha" na
última semana antes da eleição presidencial, segundo reportagem pubicada pela
agência internacional de notícias Bloomberg.
O tema,
que tomou conta do debate público e das redes sociais no Brasil nos últimos
dias, também ganhou espaço na cobertura da imprensa internacional sobre o
pleito de 4 de outubro.
Com uma
reportagem intitulada "Notícias falsas voltam a agitar a eleição
presidencial no Brasil", a agência internacional especializada em economia
e mercado financeiro detalhou o que chamou de "a mais recente
reviravolta" da campanha eleitoral de 2026.
"Um
novo e improvável campo de batalha surgiu no Brasil na reta final antes da
eleição presidencial: uma disputa religiosa desencadeada por notícias
falsas", diz a Bloomberg.
"É
a mais recente reviravolta em uma campanha já sequestrada pela maior fraude
bancária da história do país e por uma crise sem precedentes no Supremo
Tribunal Federal", continua o texto, em referência ao escândalo do Banco
Master e a recente crise entre ministros do STF.
A
agência de notícias destaca que a nova disputa entre os dois principais
candidatos à presidente, o atual mandatário Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o
senador Flávio Bolsonaro (PL), foi criada por notícias falsas envolvendo a
padroeira do Brasil.
Tratam-se
das postagens que circulam nas redes sociais nos últimos dias associando Flávio
Bolsonaro a uma suposta articulação para retirar de Nossa Senhora Aparecida o
título de padroeira do Brasil.
Na
semana passada, o candidato do PL desmentiu a ideia de que, se eleito, pretende
apoiar um suposto projeto de lei nessa direção.
"Isso
é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto",
afirmou Flávio em um vídeo no qual acusa o PT de explorar eleitoralmente o
caso.
Não
existe um projeto apresentado por Flávio para retirar de Nossa Senhora
Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
O texto
no centro da história é o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado em 12 de
dezembro de 2007 pelo então deputado federal Victório Galli, de Mato Grosso,
hoje filiado ao Progressistas.
A
Câmara dos Deputados informa que a proposta está arquivada. Seu objetivo era
alterar a Lei nº 6.802, de 1980, para substituir a expressão "padroeira do
Brasil" por "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos
romanos".
A
tramitação terminou em 2008. Segundo a Câmara, o projeto foi arquivado naquele
ano.
<><>
Disputa 'pode estar afetando a corrida eleitoral'
Segundo
a reportagem publicada pela Bloomberg, a "desinformação se tornou uma
característica recorrente das eleições brasileiras", com as autoridades
eleitorais interferindo para ordenar a remoção de dezenas de publicações falsas
ou enganosas nas eleições de 2022.
Dessa
vez, diz a agência, a disputa em torno de Nossa Senhora "pode até estar
afetando a corrida eleitoral", com uma pesquisa divulgada na segunda-feira
(28/10) sugerindo que o apoio a Lula entre os católicos aumentou.
Segundo
pesquisa BTG/Nexus, o petista avançou três pontos percentuais entre eleitores
católicos, indo de 44% para 47% em uma semana na pesquisa estimulada. Já Flávio
Bolsonaro oscilou negativamente um ponto percentual nesse grupo religioso, de
34% para 33%.
No
Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula está com 41% de intenção de
voto no primeiro turno, seguido pelo bolsonarista, que aparece com 36% da
preferência do eleitorado.
Nas
simulações de segundo turno, quando o cenário mais provável até aqui é mesmo de
uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, o presidente voltou a aparecer à
frente do senador, segundo as pesquisas divulgadas até a segunda-feira (28/09).
Lula
aparece com 45% e Flávio, com 44%. Em caso de haver segundo turno, a votação
será em 25 de outubro.
"No
entanto, a violência, a corrupção e a economia são as maiores preocupações dos
brasileiros", diz ainda a Bloomberg. "Com Lula e Bolsonaro
praticamente empatados, esta corrida eleitoral promete ainda mais
reviravoltas", completa a reportagem.
<><>
'Controvérsia alimentada pela esquerda'
A
disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida também foi foco de outras
reportagens na imprensa internacional.
O
espanhol El País destacou como a "controvérsia alimentada pela
esquerda" envolveu até mesmo líderes da Igreja Católica no país e a
Suprema Corte, em uma controvérsia "que pode influenciar uma eleição
extremamente acirrada".
"Desde
quinta-feira à noite, houve declarações, notas oficiais, acusações mútuas e
decisões judiciais contraditórias. As falsidades, que continuam a circular nas
redes sociais, podem afetar o que se configura como uma eleição muito
acirrada", diz o jornal.
"Diversos
perfis de esquerda compartilharam a publicação original nas redes sociais, que
dizia: 'A família miliciana odeia tanto as mulheres negras que ataca a Virgem
Aparecida', e foi publicada originalmente por um humorista chamado Antonio
Tabet", lê-se no texto em espanhol.
"Embora
ele não tenha mencionado a família Bolsonaro nominalmente, a referência era
clara para os brasileiros que acompanham os acontecimentos políticos
atuais."
O El
País destacou ainda que, após as postagens viralizarem, Flávio disse, sem
apresentar provas, que "gente de dentro" da Confederação Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) articulou a disseminação da fake news.
"A
Igreja Católica no Brasil é conhecida por seus laços estreitos com a esquerda.
O órgão máximo de representação dos bispos em Roma respondeu com uma declaração
afirmando que 'mentiras não se combatem com mentiras'", diz a reportagem.
Outra
matéria, da agência de notícias italiana Ansa, apontou ainda que, em reação à
polêmica, o vice-presidente da chapa de Lula, Geraldo Alckmin, gravou um vídeo
no qual afirma ter recebido mensagens de católicos "preocupados com a
direção que o país está tomando".
"A
controvérsia surge num contexto em que bispos e arcebispos da Igreja Católica
têm defendido publicamente, nas últimas semanas, a soberania nacional e o
compromisso com os setores mais pobres da população, posições semelhantes às
defendidas pelo católico Lula", diz o texto distribuído pela Ansa.
<><>
'Tudo isso em um estado constitucionalmente laico'
A
imprensa internacional também destacou como a disputa voltou a colocar em lados
opostos ministros do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Na
sexta-feira (25/9), André Mendonça, vice-presidente do TSE e também ministro do
Supremo, determinou a remoção das publicações nas redes sociais que associavam
Flávio Bolsonaro a um suposto projeto para retirar o título de Nossa Senhora
Aparecida de Padroeira do Brasil.
No
domingo (27/9), Flávio Dino, ministro do STF, derrubou a ordem de Mendonça; por
fim, na noite de segunda-feira (28/9), o também ministro do Supremo Luiz Fux
suspendeu a decisão de Dino e fez voltar a valer, ao menos provisoriamente, a
determinação dada por Mendonça no âmbito da Justiça Eleitoral.
Em sua
reportagem, a agência Bloomberg destacou que "tudo isso acontece em um
estado constitucionalmente laico".
No
texto publicado no jornal El País, a jornalista Naiara Galarraga Gortázar,
correspondente no Brasil, também recorda o histórico do Brasil com notícias
falsas em período eleitoral.
"Lembre-se
que essa tática, agora explorada pela esquerda, já foi usada pelos apoiadores
de Bolsonaro nas duas últimas eleições. Em 2018, espalharam a notícia falsa de
que o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, que
substituiu o então preso Lula, distribuiria um 'kit gay' nas escolas; em 2022,
voltaram a fomentar o pânico moral divulgando a notícia falsa de que Lula
fecharia igrejas", diz a reportagem.
"Na
época, o PT protestou veementemente e recorreu aos tribunais eleitorais para
que as mensagens fossem retiradas. Agora são os apoiadores de Bolsonaro que
exigem a mesma coisa, enquanto a esquerda se envolve na bandeira da liberdade
de expressão."
Segundo
o El País, ambos os lados sabem que uma pequena margem de votos provavelmente
decidirá a eleição.
"Apenas
uma ínfima porcentagem de eleitores permanece indecisa. Enquanto isso, os
favoritos estão apelando para o voto estratégico, na esperança de resolver a
eleição neste domingo, enquanto os outros candidatos perdem terreno", diz
o texto.
Fonte:
Opera Mundi/BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário