Açúcar
na primeira infância pode deixar marcas no cérebro e elevar risco de ansiedade
na vida adulta
O
consumo de açúcar durante a gestação e
os primeiros dois anos de vida pode estar relacionado à saúde mental e ao
desenvolvimento cerebral décadas mais tarde. Um estudo da Universidade de
Surrey, publicado na revista Translational Psychiatry, encontrou associação
entre menor exposição ao açúcar nos primeiros 1.000 dias de vida e menor risco
de ansiedade na idade adulta, além de diferenças em determinadas
regiões cerebrais e na preferência por alimentos doces.
Para
investigar essa relação, os pesquisadores recorreram a um cenário histórico
incomum: o racionamento de açúcar adotado no Reino Unido no período pós-Segunda
Guerra Mundial. A medida restringiu o acesso da população ao ingrediente
durante anos e foi retirada gradualmente, criando diferenças na quantidade de
açúcar disponível para pessoas que nasceram em períodos próximos.
A
equipe analisou informações de mais de 45 mil participantes do UK Biobank,
nascidos entre 1951 e 1956. Os pesquisadores compararam pessoas que estiveram
submetidas ao racionamento durante a gestação e por diferentes períodos após o
nascimento — até 6, 12, 18 ou 24 meses — com indivíduos que não passaram por
essa restrição. Também foram considerados participantes que vivenciaram o
racionamento somente no período intrauterino e grupos de comparação formados
por pessoas nascidas quando a medida já havia terminado no Reino Unido ou na
Irlanda.
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Efeito aparece décadas depois
Entre
os participantes, a exposição mais prolongada a um ambiente com menor
disponibilidade de açúcar esteve associada a menor risco de ansiedade na vida
adulta. A associação foi particularmente observada entre as mulheres que
vivenciaram maior exposição ao açúcar durante os primeiros períodos da vida.
Os
pesquisadores também encontraram uma relação entre menor exposição precoce ao
açúcar e menor preferência por alimentos doces na idade adulta. Pessoas que
passaram mais tempo sob o racionamento, inclusive durante a gestação e até os
24 meses de idade, apresentaram menor inclinação por sabores doces décadas
depois.
O
resultado sugere que a alimentação nos primeiros anos pode participar da
formação de preferências alimentares que permanecem ao longo da vida. Essa
possibilidade ganha relevância em um contexto no qual alimentos e bebidas com
grandes quantidades de açúcares adicionados fazem parte da alimentação
cotidiana em diversas populações.
A
pesquisa também identificou uma possível relação com a depressão. Entretanto,
essa associação perdeu força depois que os pesquisadores fizeram ajustes
estatísticos, indicando que fatores relacionados à alimentação e ao estilo de
vida na idade adulta podem ter participação importante nesse resultado.
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Imagens do cérebro revelam diferenças
A
investigação foi além dos diagnósticos de saúde mental. Os cientistas cruzaram
os dados sobre exposição ao racionamento com exames de imagem cerebral e
encontraram diferenças no volume de matéria cinzenta em 80 das 139 regiões
analisadas.
Em uma
avaliação mais detalhada, 11 dessas regiões apresentaram diferenças
significativas entre a maior parte dos grupos submetidos ao racionamento e
aqueles que nunca passaram pela restrição. Algumas dessas áreas estavam
localizadas no cerebelo, estrutura tradicionalmente associada à coordenação
motora, mas que também participa de processos cognitivos e emocionais.
Os
resultados reforçam a hipótese de que o ambiente nutricional durante períodos
sensíveis do desenvolvimento pode estar relacionado a alterações duradouras no
cérebro. Ainda assim, a existência de uma associação entre exposição ao açúcar
e diferenças cerebrais não permite afirmar que o consumo do ingrediente tenha
causado diretamente essas alterações.
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Um experimento histórico involuntário
O caso
do racionamento britânico oferece aos pesquisadores uma oportunidade rara para
estudar os efeitos de diferentes níveis de exposição ao açúcar ao longo dos
primeiros anos de vida. Durante aquele período, grande parte da população teve
o consumo do ingrediente limitado por circunstâncias externas, enquanto a
oferta aumentou progressivamente após o fim da política.
Esse
contexto histórico é especialmente relevante porque permite comparar pessoas
com idades semelhantes que tiveram experiências nutricionais diferentes no
início da vida. A análise, porém, continua sendo observacional. Por isso,
fatores genéticos, condições socioeconômicas, alimentação posterior, hábitos de
vida e outras características podem ter influenciado os resultados.
O
tamanho da amostra é outro ponto importante. Mais de 45 mil participantes foram
incluídos na análise, mas os dados pertencem a uma geração específica, nascida
em meados do século 20. Os padrões
alimentares, os produtos disponíveis e os níveis de consumo de açúcar daquele período são diferentes dos
encontrados atualmente.
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Os primeiros 1.000 dias ganham atenção
A
chamada janela dos primeiros 1.000 dias — que compreende aproximadamente o
período da gestação até os dois primeiros anos de vida — é considerada uma fase
de intenso desenvolvimento do organismo. Nesse intervalo, cérebro, sistema
imunológico, metabolismo e outros sistemas passam por transformações
aceleradas.
Estudos
anteriores já relacionaram a alimentação nesse período a diferentes aspectos da
saúde ao longo da vida. A nova pesquisa acrescenta evidências sobre possíveis
conexões entre a exposição ao açúcar, preferências alimentares, características
cerebrais e saúde mental na idade
adulta.
Os
autores destacam que o estudo pode contribuir para discussões sobre alimentação
infantil e políticas de saúde pública. A principal implicação está na
importância de compreender como escolhas e ambientes alimentares durante
períodos de desenvolvimento podem repercutir muito além da infância.
Fonte:
eCycle

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