quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Aldo Fornazieri: Manifesto do temor e da esperança

O Brasil encontra-se numa encruzilhada. A mais temível e ameaçadora encruzilhada desde a redemocratização. Nem a vitória de Jair Bolsonaro e nem a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 foram tão ameaçadoras quanto o perigo que nos olha com os olhos ameaçadores neste momento. As instituições democráticas, mal ou bem, estavam aparelhadas, tanto para absorver a vitória da extrema-direita em 2018, quanto para resistir e repudiar a tentativa de golpe em 2023.

Agora não. Uma vitória de Flávio Bolsonaro implicará que ele subirá a rampa do Planalto com a legitimidade eleitoral. Implicará que ele será acompanhado pela maioria de um Congresso mais conservador na próxima legislatura. Encontrará um Supremo Tribunal Federal, que foi o sustentáculo da democracia nos últimos tempos, completamente cindido, dilacerado pela crise interna. 

Mais do que isso: poderá indicar de 4 a 5 novos ministros do STF, estabelecendo um domínio tanto no Congresso, quanto na Corte Constitucional. Não terá os freios e contrapesos em nenhum lugar. Poderá mudar a Constituição de acordo com a sua vontade arbitrária. Não precisará apelar para os militares para implantar um regime de exceção. Terá condições de estabelecer uma longa hegemonia, de 15 ou 20 anos, da extrema-direita.

Se vencer, o bolsonarismo terá condições de arrasar direitos, de sacrificar a liberdade, de escavar mais fundo o foço das desigualdades, de pisotear a soberania, de instituir a violência e a bukelização da repressão contra a juventude, os movimentos sociais e a oposição. 

Se vencer, a extrema-direita terá condições de fazer, no Brasil e na América Latina, com o apoio do trumpismo, a experimentação das novas formas de dominação, calcadas no estrangulamento da democracia, na supressão de direito, na destruição de políticas públicas, na predação do meio ambiente, na violência associada às novas tecnologias e à inteligência artificial, no domínio tecnocrático dos super ricos, no racismo, na teocratização do Estado e sua utilização como instrumento da corrupção e do crime organizado, na degradação moral da sociedade, na guerra como solução dos conflitos geopolíticos e no fascismo apocalíptico do fim dos tempos. 

Uma vitória da extrema-direita no Brasil terá um impacto enorme na Amárica Latina, no Ocidente e no Mundo. Será um marco crucial para definir as linhas civilizatórias do futuro. A ameaça que paira sobre o Brasil é medonha. Somente os apascentados burocratas da política, os eternos enamorados da arrogância e da incompetência, talvez não a considerarão.  Precisamos ter consciência dela, temê-la, para gerar as forças e as vitudes necessárias para enfrentá-la e derrotá-la.

A linha que separa o abismo e um mínimo de normalidade democrática é muito tênue. Olhar para o mundo hoje com senso crítico é experimentar sobressaltos no coração, tantos são os riscos e desafios. As poucas certezas são cada vez mais destroçadas pelos golpes de ameaças implacáveis. Somos cada vez mais o resultado do embate entre o que nos assusta e o que nos move, com a redução crescente sobre a nossa capacidade de incidir sobre o curso dos acontecimentos. 

Não podemos confundir temor com covardia. Ao longo dos séculos, os soldados que experimentaram os mais terríveis temores nas trincheiras, foram os que se lançaram com maior coragem e ousadia nos combates. Tinham consciência do perigo. 

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A falta de consciência dos riscos e ameaças gera a indolência, porque quando as pessoas não percebem a gravidade do perigo se entregam a arrogância, geradora de acomodação, da apatia e da negligência. O temor das ameaças deve ser o sinal de alerta, a sentinela em prontidão, que nos move para a ação.

Não podemos assistir inertes a apatia, o desânimo, a falta de engajamento dos democratas e progressistas diante dos imensos riscos que representa a não reeleição de Lula. É urgente a necessidade de mobilizar todas as forças possíveis para se engajem na campanha, pois a derrota da extrema-direita depende de todos nós. Precisamos colocar em marcha a nossa imensa força coletiva. Força capaz de evitar a tragédia e construir a vitória.

Não podemos aceitar que a dignidade da política seja destruída, que o interesse público seja pisoteado pelos criminosos interesses particulares, que os direitos sejam esmagados pelo assalto das elites aos recursos públicos.

Não podemos aceitar que a mentira destrua a verdade, que o cinismo, a hipocrisia e o crime institucionalizado tomem de assalto os Três Poderes, que o obscurantismo religioso destroce a razão e a ciência, que a liberdade seja sacrificada no altar da intolerância fascista.

Tudo o que foi conquistado com a redemocratização e com os governos progressistas é obra de milhões de pessoas, frutos de suas lutas. Neste momento de grandes riscos e incertezas precisamos prestar contas a todas e todos os que lutaram. Precisamos honrar a abnegação dos que se sacrificaram anonimamente. A responsabilidade é de todos nós. Mas ela pesa mais sobre os líderes políticos, a começar pelo presidente Lula, pelos dirigentes dos partidos, pelos candidatos. 

Se o temor não pode nos paralisar, a esperança não pode ser a passividade, otimismo ingênuo. A campanha não pode ser conduzida com a marca da negligência acerca das ameaças que pairam sobre o Brasil, seu futuro, sobre as novas gerações. 

Todos sabemos que o Brasil não vive um momento glorioso; que o governo ficou aquém do que esperávamos. Mas só a vitória permitirá reparar erros, inovar, fazer melhor. 

Temos poucas horas, poucos dias para definir esse jogo. Precisamos medir o nosso temor pela dimensão da nossa esperança. Precisamos acreditar na capacidade dos progressistas e das esquerdas de reinventarem caminhos mais prolíficos, mobilizadores, apaixonantes. Não podemos deixar que a luz das lamparinas que carregamos seja engolfada pela trevosa noite da extrema-direita e do bolsonarismo. 

Precisamos decidir que legado vamos deixar para as gerações futuras. Precisamos dizer se queremos que a solidariedade triunfe sobre o egoísmo. Se a liberdade e a igualdade são inseparáveis para que todos possam ter escolhas atraentes e significativas em suas vidas. 

Precisamos querer que as mães das favelas não chorem mais porque seus filhos choram de fome. Precisamos vencer para que a violência não destroce famílias e que pais e mães não enterrem seus filhos. Precisamos dar um basta à violência que brutaliza as mulheres e ao racismo que dilacera a alma dos negros e negras. 

Tudo isso depende de nós. Mas repetimos: A responsabilidade maior recai sobre os líderes. Resta pouco tempo para decidir se somos capazes de rejuvenescer a esperança para que ela possa produzir novas flores e novos frutos.

¨      A hora é de escolha eleitoral. Discussão sobre indicação para o STF é para depois. Por Denise Assis

É um risco a sociedade brasileira abrir uma discussão em torno da escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em pleno processo eleitoral. Ou melhor, em sua reta final. Primeiro, porque traz de volta a pauta STF, que com as bênçãos de Nossa Senhora Aparecida, esteve fora da disputa nesta última semana. Segundo, porque a Constituição Federal é clara, no Artigo 101:

Art. 101. O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de setenta anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 122, de 2022)

Parágrafo único. Os Ministros do Supremo Tribunal Federal serão nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal.

Qualquer mudança ou delegação a colegiados ou grupos é transferência de poder, desnecessariamente. Se não, vejamos:

II. Indicação pelo Presidente

Após a abertura da vaga, cabe ao Presidente da República indicar um novo ministro para ocupá-la. De acordo com a Constituição Federal, o Presidente possui autonomia para fazer a escolha, sem a obrigação de seguir uma lista predeterminada de candidatos. Essa prerrogativa confere ao Presidente a responsabilidade de selecionar um nome que considere adequado para o cargo.

O rito, todos nós já deveríamos conhecer:

III. Sabatina no Senado

A indicação do Presidente é submetida a uma sabatina no Senado Federal, onde os senadores têm a oportunidade de questionar o indicado sobre diversos aspectos relacionados à sua formação, experiência profissional e posicionamentos jurídicos. A sabatina é um momento crucial para que os senadores possam avaliar a qualificação e o alinhamento do indicado com os princípios e valores que regem a Constituição e o ordenamento jurídico do país. Ato seguinte, o presidente nomeia e pronto.

Toda a celeuma em torno da permanência por muitos anos no posto, segundo alguns, dando margem à acomodação ou busca de ascensão social ou riquezas, não está diretamente ligada ao modelo de escolha, mas sim, a como e a quem se escolhe.

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 Sabemos que os jovens têm sonhos, anseios, e buscam ser bem-sucedidos. Quando limitamos a sua trajetória social a um salário X (R$ 46.366,19 de salário-base), e que não permite que eles saiam do quadradinho, embora em um cargo honorífico, não os estamos premiando, mas dizendo a eles que optem pelo “sacerdócio” de servir ao país dentro das limitações que o cargo impõe.

O ideal talvez não fosse mudar as regras, mas fazer as escolhas dentro de critérios até há pouco tempo, mais usados. Buscar perfis entre advogados com trajetória feita, beirando os 60 anos, com a vida estabelecida, sem precisar projetar grandes conquistas financeiras, poderia ser uma saída. Encurta-se a permanência no exercício no STF, ao mesmo tempo que reduz a ganância -, teoricamente.

Deve ser mesmo muito difícil para jovens em plena atividade, com escritórios bem montados e promissores, terem de abrir mão ou transferir para parentes, a tarefa de amealhar mais bens e riqueza. (Certamente isso leva a desvios, para os que não trazem de casa o código de conduta).

De todo modo, inserir esse tema tão delicado na pauta, pode incrementar o discurso contra a Corte e, ainda, embolar a escolha eleitoral adicionando a ela a postura e a ética dentro do Supremo.

Não interessa à corte, onde há ministros – o que se há de fazer? -, tomando conta da eleição, e não interessa ao meio político, onde há segmentos que adorarão pegar carona em frases ditas em um contexto de sugestão, como verdades. A mídia, pelo visto, gostou e já está adotando “sugestões” como “plataformas”, na falta de espaço para discutir outros temas.

 

Fonte: Brasil 247

 

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