O
que é a CNBB, entidade católica criticada por Flávio Bolsonaro
No
início dos anos 1950, o padre italiano Giovanni Maria Montini (1897-1978) — que
ainda não era nem bispo nem cardeal, mas já trabalhava na Cúria Romana —passou
a incentivar que os bispos de cada país se organizassem em entidades, a fim de
discutirem os problemas locais e, juntos, pudessem traçar programas de ações
pastorais.
Organizações
assim também teriam um papel facilitador: por meio dela, ficaria mais fácil a
comunicação das comunidades católicas com a cúpula do Vaticano.
Em
janeiro de 1952 seria criada a Conferência Episcopal Italiana. O modelo se
espalharia pelo mundo. Em outubro daquele mesmo ano, foi fundado no Rio de
Janeiro, então capital federal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB).
A
instituição foi criticada por Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da
República. O senador disse que a CNBB tem envolvimento nos posts que circulam
nas redes sociais dizendo que ele retiraria o papel de Nossa Senhora Aparecida
de padroeira do Brasil.
"O
PT já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com
ajuda de gente dentro da CNBB. Infelizmente", afirmou Flávio em visita a
Aracajú neste domingo (28/09), segundo o portal G1.
Em
1977, a sede da conferência foi transferida para Brasília. Quando Montini se
tornou papa Paulo 6º em 1963, entidades do tipo já eram praxe e a CNBB foi uma
das vozes mais ativas e participativas no Concílio Vaticano 2º, a série de
encontros realizados entre 1962 e 1965 em Roma com o intuito de modernizar a
Igreja Católica, trazendo para a pauta questões sociais contemporâneas.
Pesquisador
na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o teólogo Raylson
Araujo conta que esse formato de colegiado "ganharam muita força e foram
incentivadas principalmente como desdobramento do Concílio Vaticano 2º".
"O
papa Paulo 6º entendia que era uma maneira de a Igreja realizar melhor sua
missão", afirma o teólogo.
Segundo
o Código de Direito Canônico, catatau jurídico que rege a instituição católica,
o papel de tais conferências é fazer com que os bispos exerçam
"conjuntamente certas funções pastorais em favor dos fiéis do seu
território, a fim de promover o maior bem que a Igreja proporciona aos homens,
principalmente em formas e modalidades de apostolado devidamente adaptadas às
circunstâncias de tempo e lugar, de acordo com o direito".
"A
CNBB é um órgão de suma importância para a eficácia da ação evangelizadora da
Igreja e também de uma ação pastoral que seja transformadora", diz o
religioso Pedro Luiz Stringhini, bispo de Mogi das Cruzes.
"Não
tem poder hierárquico, mas é muito mais do que uma estrutura simbólica",
explica Stringhini.
"Com
sua sede próxima às estruturas do governo federal, é mais do que um poder, é um
serviço de comunhão e unidade que subsidia as igrejas particulares."
"A
CNBB é a expressão do magistério e autoridade dos bispos, em suas funções de
pastores a eles confiada, vivida em colegialidade, e expressa o magistério da
Igreja na realidade brasileira", explica o frade capuchinho Marcelo
Toyasnk Guimarães, assessor da Comissão Justiça e Paz da CNBB Sul 1 e
coordenador nacional da Pastoral da Moradia e Favela no Brasil.
"É
a legítima voz da Igreja a partir dos bispos, pastores que acompanham e
caminham com o povo de Deus nas respectivas dioceses, em vista de dinamizar a
missão evangelizadora da Igreja no Brasil para melhor promover a vida eclesial
e responder de modo mais eficaz aos desafios atuais."
Guimarães
explica que não é um papel hierárquico no sentido vertical, mas um colegiado de
pares.
"Nesse
sentido, [a entidade] não tem ingerência 'direta' no pastoreio, mas respeito às
decisões e conduções de cada bispo junto ao povo de Deus, na dinâmica cada vez
mais sinodal, de discernimento e decisões em conjunto entre o respectivo bispo
e o povo da diocese. A CNBB visa a ser espaço da comunhão e apoio desse
pastoreio, discernindo e buscando expressar, em colegialidade, o cuidado
pastoral de modo integrado diante de urgências e questões interligadas a nível
de região e de Brasil."
Todos
os bispos do país automaticamente passam a integrar o quadro da CNBB. Segundo
informações da própria entidade, são quase 500 os bispos brasileiros atualmente
— 318 na ativa e o restante, emérito, ou seja, aposentado das funções por conta
da idade.
Ex-coordenador
do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto
lembra que o papa Francisco foi um grande incentivador das conferências e
"papa Leão 14 parece seguir a mesma linha".
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O padre 'comunista'
Um dos
maiores entusiastas de sua fundação foi o religioso franciscano Hélder Câmara
(1909-1999). Na época ele era bispo auxiliar do Rio de Janeiro, mas se tornaria
conhecido nacionalmente sobretudo durante a ditadura militar, por sua defesa
dos direitos humanos e críticas ao regime — Câmara já era então arcebispo de
Olinda e Recife.
Texto
institucional do colegiado cita Câmara como "idealizador". Segundo as
palavras da própria organização, a função dela é congregar os bispos para que
"conjuntamente" eles possam exercer "funções pastorais em favor
de seus fiéis" e procurem "dinamizar a própria missão evangelizadora,
para melhor promover a vida eclesial, responder mais eficazmente aos desafios
contemporâneos […] e realizar evangelicamente seu serviço de amor, na
edificação de uam sociedade justa, fraterna e solidária […]."
Para
muitos, a CNBB tem o DNA do pensamento de Câmara, criticado por muitos
conservadores por seu ativismo não violento de defesa dos pobres — chamado por
detratores de "padre comunista" e "bispo vermelho". Câmara
nunca presidiu a entidade, mas foi o primeiro secretário-geral.
Câmara,
que não era comunista mas defensor da chamada Doutrina Social da Igreja — e da
ideia de que o cristianismo precisa estar ao lado dos pobres, costuma.
"Quando
dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que são pobres,
chamam-me de comunista", são os dizeres que ficaram célebres.
O bispo
Stringhini enfatiza que o colegiado tem "uma dimensão social muito forte,
sobretudo de atenção para com os mais pobres".
Mas se
historicamente a CNBB costuma ser tachada de um organismo com viés político
mais alinhado às pautas da esquerda, é importante lembrar que o seu
reconhecimento oficial, por lei federal, como entidade de utilidade pública
veio durante a ditadura. Em 11 de abril de 1967, quando exercia a presidência o
então vice Pedro Aleixo (1901-1975) publicou o decreto.
Além de
ter sido uma das vozes mais eloquentes da Igreja contra os abusos do regime
militar brasileiro, a CNBB em geral não se furta de posicionamentos políticos e
sociais.
Uma das
ações organizadas pelo colegiado desde os anos 1960, a Campanha da
Fraternidade, insere na pauta nacional temas importantes a partir da base, uma
vez que esses assuntos são debatidos e apresentados, de forma simples e
didática, a leigos que fazem parte de comunidades católicas em todos os rincões
do país.
Entre
os temas já trazidos pela campanha estão a violência contra populações LGBTQIA+
(em 2021), os encarcerados (em 1997), a discriminação racial (1988), o tráfico
humano (2014) e o desemprego (1999).
O
projeto, com essa ênfase em abordar assuntos espinhosos na premissa de
mobilizar comunidades de base e paróquias em todo o Brasil, com frequência é
criticado por setores políticos conservadores.
"A
Campanha da Fraternidade da Igreja Católica é sempre um momento em que você
vislumbra muito claramente quais são as posições da Igreja. Ali ela toca em
temas que geralmente esbarram no social", observa o historiador e teólogo
Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Aponta
a preocupação da Igreja Católica. E isso é também um recado ao governante de
plantão."
Não à
toa, lembra Moraes, sua sede fica em Brasília. "Isso mostra que ela está
no coração do poder e antenada com as necessidades nacionais", diz Moraes.
"Sua
ação por vezes é criticada porque supostamente estaria fazendo política. Mas
uma coisa não se desvincula da outra. É uma atuação contundente o papel de
atuação da Igreja", avalia Moraes.
Segundo
Ribeiro Neto, essa ênfase aos problemas sociais é natural em um órgão assim que
está na América Latina, por conta das desigualdades sociais que existem.
"Num dos países mais desiguais do mundo, onde grande parte da elite
política e econômica se declara católica, mas com poucas polêmicas doutrinais,
a CNBB historicamente se tornou principalmente uma voz importante sobre os
problemas sociopolíticos do país", analisa ele.
"Isso
a coloca no centro dos debates ideológicos e partidários do Brasil e
representa, sem dúvida, o seu grande desafio. Manter uma posição equidistante
dos polos ideológicos sem omitir-se de um juízo ético diante dos descalabros do
país é muito difícil", argumenta Ribeiro Neto.
Em
texto oficial, a CNBB explica que "favorece e articula as relações entre
as igrejas particulares do Brasil e a Santa Sé", e se relaciona "com
as outras conferências episcopais, particularmente as da América, e com o
Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam)".
"É
uma ponte de diálogo com Roma", sintetiza Araujo.
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Comando atual
O
presidente da entidade é escolhido por eleição interna a cada quatro anos.
Atualmente, o posto é ocupado por Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre —
seu mandato vai até 2027.
Cardeal
desde 2024, ele foi um dos sete brasileiros que participaram do conclave que
fez do americano Robert Prevost o papa Leão 14.
Poucos
dias antes do conclave, em entrevista exclusiva à BBC, Spengler reconheceu que
a entidade que preside tem um peso enorme, por ser "a maior conferência
[episcopal] do mundo", com "490 bispos" e "certamente um
lugar de destaque no contexto da catolicidade".
Spengler
acumula a presidência da CNBB com a presidência do Celam.
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Representação
Professor
na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor da instituição Lay
Centre, também na capital italiana, o vaticanista Filipe Domingues explica que
o poder da CNBB é de representação.
"Não
tem poder de jurisdição ou de tomada de decisões. Tem o poder de reunir os
bispos e ser um ambiente de troca, de diálogo", comenta.
"Como
o Brasil é muito grande e tem a maior conferência episcopal do mundo, é uma
forma de os bispos terem contato maior com os pares e uma relação mais próxima
com as realidades locais e os problemas que enfrentam, as soluções e propostas
pastorais e culturais de cada lugar", complementa Domingues.
"Tem
um poder de influência e de representação", afirma o vaticanista. "A
CNBB representa a Igreja no Brasil, mas eles [os bispos] não são a Igreja. Eles
falam em nome da Igreja. Mas a Igreja é muito mais: a maior parte da Igreja são
os fiéis leigos."
"Não
são instâncias acima dos bispos", esclarece Ribeiro Neto. "Cada bispo
governa sua diocese com autoridade própria e imediata, e a conferência não pode
substituí-lo. Suas declarações doutrinais só têm valor magisterial se aprovadas
por ao menos dois terços dos membros, se contando depois com o reconhecimento
da Santa Sé."
"Neste
sentido, não tem praticamente nenhum poder institucional ou mesmo simbólico.
Seu poder é mais de ordem moral, uma vez que suas indicações partem
supostamente da maioria do episcopado e cada bispo individualmente tende a
segui-as em espírito de unidade, mesmo que não concorde inteiramente",
acrescenta o sociólogo.
"Mas
existe sempre uma tensão interna na Igreja, pois os grupos descontentes com a
linha seguida por dada conferência episcopal tendem a relativizar sua
importância."
O
vaticanista Domingues ainda acrescenta que o colegiado tem a "função de
interpretar um pouco a realidade e tentar iluminar a realidade à luz do
evangelho". É por isso que a CNBB costuma se posicionar em momentos
importantes da história do país e também debater problemas nacionais.
"A
CNBB faz com que a própria Igreja pense, repense e reflita sobre sua ação em
solo brasileiro", define o historiador Moraes.
Fonte:
BBC News Brasil

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