quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Sedução – o doce charme da mercadoria

Em 1970, aos 18 anos de idade, fui levado “por engano” à OBAN da Rua Tutóia, onde tive a oportunidade de conversar longamente com o Edgar de Almeida Martins, entre uma sessão e outra de tortura. Meu companheiro de cela havia realizado curso de guerrilha na China, em nome do PC do B, e integrou a Ala Vermelha, que se desvinculou do partido. Nossas conversas giravam em torno da China, essa grande desconhecida.

Falávamos sobre diversos aspectos da sociedade chinesa e, embora eu não fosse uma pessoa que “só pensa naquilo”, fiquei muito intrigado com os seus relatos sobre a afetividade e a sexualidade dos chineses, em vivo contraste com a nossa cultura afro-latina.

Fiquei sabendo que os chineses eram muito recatados e discretos; e que manifestações tanto públicas como privadas de afeto, sensualidade e sedução eram consideradas de mau gosto. Beijos parisienses também não faziam parte de sua cultura. Os chineses não se beijavam nunca, em nenhuma situação, nem em cumprimentos, nem casados, nem nas alcovas. Os relacionamentos sexuais eram reservados a pessoas casadas; homens e mulheres casavam virgens aos 28 anos de idade – de modo a canalizar as suas energias à revolução – e a prostituição era considerada crime.

Edgar de Almeida Martins me contou uma piada que corria no corpo diplomático estrangeiro à época. Um cônsul confidenciou para um militante do Partido Comunista Chinês (PCCh) que a sua abstinência sexual estava lhe gerando sérios problemas de saúde física. O militante, depois de ouvir o cônsul com atenção, disse que iria resolver o problema, que ele aguardasse em seu quarto do hotel às 16 horas do dia seguinte. Às 15 horas do dia seguinte, já sentindo o seu humor em alta, por antecipação, o cônsul banhou-se, vestiu seu robe de chambre de seda, perfumou-se e preparou um drink. Às 16 horas em ponto, ouviu leves batidas ao batente e, garboso e sorridente, foi abrir a porta… para dar de cara com um enfermeiro que, com uma injeção, resolveria o seu problema.

Quando estive em Shang Hai, na primavera de 1987, lembrava com frequência das minhas conversas com o Edgar de Almeida Martins em 1970. Mas, um dia, fiquei tão envolvido conversando calorosamente com um casal de chineses e sua filha de oito anos, que, ao sair da casa deles, sem pensar, dei um beijo na testa da menina – que, no ato, se transformou em uma pedra de sal.

Quem vê Shang Hai hoje não pode imaginar o que era a cidade em 1987, a pobreza que reinava na mais cosmopolita das cidades da China – na primavera de 2026, quando eu estava em Shang Hai, uma jovem em seus 30 anos de idade, Maggie, me disse que ouviu falar da pobreza… mas nem gostava de pensar no assunto.

O país tinha passado a Revolução de 1949, o Grande Salto Adiante, a crise e a fome de 1958 a 1962 e a radical e violenta Revolução Cultural de 1966 a 1976 – cujo objetivo era promover a transformação ideológica da sociedade para se livrar tanto da cultura tradicional chinesa como da cultura capitalista, que valorizava a iniciativa privada e a competitividade, ao mesmo tempo em que submetia o povo ao poder da mercadoria, do dinheiro e do capital.

Os inimigos do povo – aristocratas, capitalistas, empresários e “revisionistas traidores do comunismo” – foram encarcerados pela Guarda Vermelha para serem reeducados com os valores da Revolução Comunista. Muitos não puderam colar grau, isto é, morreram durante o aprendizado.

Já em 1987, a pragmática China vivia a grande virada, a valorização da iniciativa privada, do empreendedorismo, da entrada de capital estrangeiro etc. Em meio à pobreza que dominava o centro de Shang Hai, foi construído um prédio moderno, símbolo eloquente da abertura econômica, inteiramente ocupado por empresas do Japão – até então o arqui-inimigo nº. 1 da China, que havia se transformado em formidável investidor, fonte de capital, tecnologia e conhecimento gerencial. O povo estava muito confuso com a substituição de valores, da Revolução Cultural para a mercantilização da economia – o povo estava exausto. Sentia-se no ar uma gana de abandonar o barco. Mas só poderiam sair do país aqueles que tivessem emprego garantido no exterior ou casassem com estrangeiros, o que eram possibilidades muito remotas.

Em 1987, um rapaz de vinte e poucos anos se aproximou de mim, viramos amigos, mas eu não tinha a menor condição de ajudá-lo, não tinha relações com empresários que lhe garantissem um emprego no exterior. Uma mocinha, também em seus vinte e poucos anos, “se apaixonou” por mim e faria tudo o que estivesse ao seu alcance para poder me acompanhar – o que incluía ser amaldiçoada pelos amigos e pelos pais por se relacionar com um estrangeiro.

Na volta a Nova York, onde estava morando na época, levei muito tempo para me livrar da energia negativa que trouxe impregnada da China. Dois anos depois, em 1989, a República Popular assistiu à maior mobilização social de sua história. Mas tudo isso é passado, como diria a Maggie. Estamos agora na maior cidade do país que ostenta a hegemonia do capitalismo internacional. Voltemos pois ao assunto…

Quando estive em Shang Hai em 2011 e 2013, mais do que com os arranha-céus, as grandes avenidas e a teia de gigantescas vias expressas elevadas, fiquei impressionado ao ver grandes painéis de propaganda que induziam ao consumo aquele povo pobre que conheci em 1987. Também chamou a minha atenção que as modelos utilizadas nas propagandas fossem todas ocidentais, como se o que estivesse sendo oferecido fosse uma passagem para o Ocidente.

Agora, em 2026, posso dizer que o Ocidente já chegou. A elite da cidade, em seus shopping centers, bares e restaurantes, vive em Shang Hai como se estivesse vivendo em Londres, a Londres do imaginário coletivo chinês – vi uma cafeteria que ostentava British croissant (?) rebuscados com coberturas inusitadas, que embrulhariam o estômago de qualquer francês.

Mas, novamente, o que mais me impressionou em Shang Hai não foi a riqueza, a sofisticação e a ocidentalização da cidade – foram os gigantescos painéis eletrônicos que induzem a elite e a “coitada” da classe média ao consumo. Mais ainda, me impressionou que as modelos estrangeiras de 2013 foram substituídas, em 2026, por modelos nacionais em poses sensuais, principalmente de jovens e doces sedutores masculinos. Mas que vende, vende. Então viva o consumismo! Viva o crescimento econômico, viva o progresso, viva a modernidade e viva o “comunismo”!

Entretanto… os chineses, tal como Edgar de Almeida Martins me descreveu em 1970, continuam, até hoje, muito recatados e discretos em suas manifestações públicas de afeto, sensualidade e sedução, consideradas de mau gosto, algo vulgar, primitivo (“coisa de macaco”, segundo eles). Agregue-se a esta característica cultural, que “os chineses trabalham duro”, isto é, muitas horas e intensamente, num ritmo de trabalho insano – chegam a fazer ilegais jornadas 997 (12 horas, das 9 às 21h, 7 dias por semana) e vivem exaustos, estafados, sem muito tempo e disposição para relacionamentos afetivos.

Mas, para a elite, chique é se sentir ocidental e, para a ampla classe média, chique é ser elite, em um país extremamente estratificado, em que 60% da população sobrevive com limitados direitos trabalhistas e sociais. Se sentir ocidental implica consumir marcas e grifes internacionais, valorizar a cultura do Ocidente e, por que não, a liberdade de expressão.

Fiquei muito surpreso ao ouvir jovens comentarem comigo, sem nenhuma reserva, “A China não é um país livre”. Qual será o impacto dessas imagens que induzem ao consumo tanto de marcas e grifes internacionais como de tratamentos dentários? Qual será o impacto na cultura chinesa das imagens sensuais e sedutoras dos modelos que os chineses estão ganhando de brinde?

Algumas jovens já estão até saindo das telas e começando a pôr as suas manguinhas de fora, desafiando o padrão cultural chinês com roupas algo sensuais e comportamentos algo sedutores. Também se destacam as jovens com roupas de bonecas antigas de louça. Falando em bonecas, cada criança é cuidada, com exclusividade, por 14 adultos (pai e mãe nascidos em 2006, 4 avós em 1986 e 8 bisavós em 1966; não estou considerando os 16 trisavós nascidos em 1946, com 80 anos de idade, que elevaria para 30 o número de adultos cuidando de uma só criança). Então, não é de se admirar que as meninas, tratadas como bonecas por tantos adultos, queiram se vestir e se portar como tal.

O número de filhos por mulher na China continua caindo, mesmo depois de o país ter abandonado a política de filho único em 2015 – 1,8 em 2017, 1,3 em 2020 e 1,0 em 2024. A cosmopolita Shang Hai registrou 0,7 filho por mulher em 2024 – é raro ver crianças na cidade, fico muito emocionado quando as vejo nas calçadas e nos parques, porque, para mim, criança é sinônimo de vida. Mas o percentual de jovens mulheres na China que não querem ter filhos aumentou de 5% em 2012 para 47% em 2023.

Um dia, passando pela Yan’An Road, ao lado da minha casa, avistei um bando de adolescentes apinhados na monumental escadaria do jardim do Centro de Exposições de Shang Hai. Formavam dois grupos, um de vaidosos jovens fantasiados, fazendo poses sensuais; e outro de ávidos fotógrafos registrando o evento amador. Um dos fotógrafos pediu para tirar uma foto minha. Perguntei a ele para quê, ele achou que eu não entendia inglês e traduziu o texto no celular para o árabe – ele queria uma foto minha com o meu barrete palestino.

 

Fonte: Por Samuel Kilsztajn, em A Terra é Redonda

 

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