Sedução
– o doce charme da mercadoria
Em
1970, aos 18 anos de idade, fui levado “por engano” à OBAN da Rua Tutóia, onde
tive a oportunidade de conversar longamente com o Edgar de Almeida Martins,
entre uma sessão e outra de tortura. Meu companheiro de cela havia realizado
curso de guerrilha na China, em nome do PC do B, e integrou a Ala Vermelha, que
se desvinculou do partido. Nossas conversas giravam em torno da China, essa
grande desconhecida.
Falávamos
sobre diversos aspectos da sociedade chinesa e, embora eu não fosse uma pessoa
que “só pensa naquilo”, fiquei muito intrigado com os seus relatos sobre a
afetividade e a sexualidade dos chineses, em vivo contraste com a nossa cultura
afro-latina.
Fiquei
sabendo que os chineses eram muito recatados e discretos; e que manifestações
tanto públicas como privadas de afeto, sensualidade e sedução eram consideradas
de mau gosto. Beijos parisienses também não faziam parte de sua cultura. Os
chineses não se beijavam nunca, em nenhuma situação, nem em cumprimentos, nem
casados, nem nas alcovas. Os relacionamentos sexuais eram reservados a pessoas
casadas; homens e mulheres casavam virgens aos 28 anos de idade – de modo a
canalizar as suas energias à revolução – e a prostituição era considerada
crime.
Edgar
de Almeida Martins me contou uma piada que corria no corpo diplomático
estrangeiro à época. Um cônsul confidenciou para um militante do Partido
Comunista Chinês (PCCh) que a sua abstinência sexual estava lhe gerando sérios
problemas de saúde física. O militante, depois de ouvir o cônsul com atenção,
disse que iria resolver o problema, que ele aguardasse em seu quarto do hotel
às 16 horas do dia seguinte. Às 15 horas do dia seguinte, já sentindo o seu
humor em alta, por antecipação, o cônsul banhou-se, vestiu seu robe de chambre
de seda, perfumou-se e preparou um drink. Às 16 horas em ponto, ouviu leves
batidas ao batente e, garboso e sorridente, foi abrir a porta… para dar de cara
com um enfermeiro que, com uma injeção, resolveria o seu problema.
Quando
estive em Shang Hai, na primavera de 1987, lembrava com frequência das minhas
conversas com o Edgar de Almeida Martins em 1970. Mas, um dia, fiquei tão
envolvido conversando calorosamente com um casal de chineses e sua filha de
oito anos, que, ao sair da casa deles, sem pensar, dei um beijo na testa da
menina – que, no ato, se transformou em uma pedra de sal.
Quem vê
Shang Hai hoje não pode imaginar o que era a cidade em 1987, a pobreza que
reinava na mais cosmopolita das cidades da China – na primavera de 2026, quando
eu estava em Shang Hai, uma jovem em seus 30 anos de idade, Maggie, me disse
que ouviu falar da pobreza… mas nem gostava de pensar no assunto.
O país
tinha passado a Revolução de 1949, o Grande Salto Adiante, a crise e a fome de
1958 a 1962 e a radical e violenta Revolução Cultural de 1966 a 1976 – cujo
objetivo era promover a transformação ideológica da sociedade para se livrar
tanto da cultura tradicional chinesa como da cultura capitalista, que
valorizava a iniciativa privada e a competitividade, ao mesmo tempo em que
submetia o povo ao poder da mercadoria, do dinheiro e do capital.
Os
inimigos do povo – aristocratas, capitalistas, empresários e “revisionistas
traidores do comunismo” – foram encarcerados pela Guarda Vermelha para serem
reeducados com os valores da Revolução Comunista. Muitos não puderam colar
grau, isto é, morreram durante o aprendizado.
Já em
1987, a pragmática China vivia a grande virada, a valorização da iniciativa
privada, do empreendedorismo, da entrada de capital estrangeiro etc. Em meio à
pobreza que dominava o centro de Shang Hai, foi construído um prédio moderno,
símbolo eloquente da abertura econômica, inteiramente ocupado por empresas do
Japão – até então o arqui-inimigo nº. 1 da China, que havia se transformado em
formidável investidor, fonte de capital, tecnologia e conhecimento gerencial. O
povo estava muito confuso com a substituição de valores, da Revolução Cultural
para a mercantilização da economia – o povo estava exausto. Sentia-se no ar uma
gana de abandonar o barco. Mas só poderiam sair do país aqueles que tivessem
emprego garantido no exterior ou casassem com estrangeiros, o que eram
possibilidades muito remotas.
Em
1987, um rapaz de vinte e poucos anos se aproximou de mim, viramos amigos, mas
eu não tinha a menor condição de ajudá-lo, não tinha relações com empresários
que lhe garantissem um emprego no exterior. Uma mocinha, também em seus vinte e
poucos anos, “se apaixonou” por mim e faria tudo o que estivesse ao seu alcance
para poder me acompanhar – o que incluía ser amaldiçoada pelos amigos e pelos
pais por se relacionar com um estrangeiro.
Na
volta a Nova York, onde estava morando na época, levei muito tempo para me
livrar da energia negativa que trouxe impregnada da China. Dois anos depois, em
1989, a República Popular assistiu à maior mobilização social de sua história.
Mas tudo isso é passado, como diria a Maggie. Estamos agora na maior cidade do
país que ostenta a hegemonia do capitalismo internacional. Voltemos pois ao
assunto…
Quando
estive em Shang Hai em 2011 e 2013, mais do que com os arranha-céus, as grandes
avenidas e a teia de gigantescas vias expressas elevadas, fiquei impressionado
ao ver grandes painéis de propaganda que induziam ao consumo aquele povo pobre
que conheci em 1987. Também chamou a minha atenção que as modelos utilizadas
nas propagandas fossem todas ocidentais, como se o que estivesse sendo
oferecido fosse uma passagem para o Ocidente.
Agora,
em 2026, posso dizer que o Ocidente já chegou. A elite da cidade, em seus
shopping centers, bares e restaurantes, vive em Shang Hai como se estivesse
vivendo em Londres, a Londres do imaginário coletivo chinês – vi uma cafeteria
que ostentava British croissant (?) rebuscados com coberturas inusitadas, que
embrulhariam o estômago de qualquer francês.
Mas,
novamente, o que mais me impressionou em Shang Hai não foi a riqueza, a
sofisticação e a ocidentalização da cidade – foram os gigantescos painéis
eletrônicos que induzem a elite e a “coitada” da classe média ao consumo. Mais
ainda, me impressionou que as modelos estrangeiras de 2013 foram substituídas,
em 2026, por modelos nacionais em poses sensuais, principalmente de jovens e
doces sedutores masculinos. Mas que vende, vende. Então viva o consumismo! Viva
o crescimento econômico, viva o progresso, viva a modernidade e viva o
“comunismo”!
Entretanto…
os chineses, tal como Edgar de Almeida Martins me descreveu em 1970, continuam,
até hoje, muito recatados e discretos em suas manifestações públicas de afeto,
sensualidade e sedução, consideradas de mau gosto, algo vulgar, primitivo
(“coisa de macaco”, segundo eles). Agregue-se a esta característica cultural,
que “os chineses trabalham duro”, isto é, muitas horas e intensamente, num
ritmo de trabalho insano – chegam a fazer ilegais jornadas 997 (12 horas, das 9
às 21h, 7 dias por semana) e vivem exaustos, estafados, sem muito tempo e
disposição para relacionamentos afetivos.
Mas,
para a elite, chique é se sentir ocidental e, para a ampla classe média, chique
é ser elite, em um país extremamente estratificado, em que 60% da população
sobrevive com limitados direitos trabalhistas e sociais. Se sentir ocidental
implica consumir marcas e grifes internacionais, valorizar a cultura do
Ocidente e, por que não, a liberdade de expressão.
Fiquei
muito surpreso ao ouvir jovens comentarem comigo, sem nenhuma reserva, “A China
não é um país livre”. Qual será o impacto dessas imagens que induzem ao consumo
tanto de marcas e grifes internacionais como de tratamentos dentários? Qual
será o impacto na cultura chinesa das imagens sensuais e sedutoras dos modelos
que os chineses estão ganhando de brinde?
Algumas
jovens já estão até saindo das telas e começando a pôr as suas manguinhas de
fora, desafiando o padrão cultural chinês com roupas algo sensuais e
comportamentos algo sedutores. Também se destacam as jovens com roupas de
bonecas antigas de louça. Falando em bonecas, cada criança é cuidada, com
exclusividade, por 14 adultos (pai e mãe nascidos em 2006, 4 avós em 1986 e 8
bisavós em 1966; não estou considerando os 16 trisavós nascidos em 1946, com 80
anos de idade, que elevaria para 30 o número de adultos cuidando de uma só
criança). Então, não é de se admirar que as meninas, tratadas como bonecas por
tantos adultos, queiram se vestir e se portar como tal.
O
número de filhos por mulher na China continua caindo, mesmo depois de o país
ter abandonado a política de filho único em 2015 – 1,8 em 2017, 1,3 em 2020 e
1,0 em 2024. A cosmopolita Shang Hai registrou 0,7 filho por mulher em 2024 – é
raro ver crianças na cidade, fico muito emocionado quando as vejo nas calçadas
e nos parques, porque, para mim, criança é sinônimo de vida. Mas o percentual
de jovens mulheres na China que não querem ter filhos aumentou de 5% em 2012
para 47% em 2023.
Um dia,
passando pela Yan’An Road, ao lado da minha casa, avistei um bando de
adolescentes apinhados na monumental escadaria do jardim do Centro de
Exposições de Shang Hai. Formavam dois grupos, um de vaidosos jovens
fantasiados, fazendo poses sensuais; e outro de ávidos fotógrafos registrando o
evento amador. Um dos fotógrafos pediu para tirar uma foto minha. Perguntei a
ele para quê, ele achou que eu não entendia inglês e traduziu o texto no
celular para o árabe – ele queria uma foto minha com o meu barrete palestino.
Fonte:
Por Samuel Kilsztajn, em A Terra é Redonda

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