Relato
de uma imigrante: 'Eles pegaram meu bebê de mim duas horas depois dele nascer'
Quando
a filha de Keira nasceu, em novembro passado, ela teve apenas duas horas com a
bebê antes de a criança ser levada para os cuidados do Estado.
"Logo
que ela nasceu, comecei a contar os minutos", lembra Keira, 39. "Eu
olhava para o relógio o tempo todo para ver quanto ainda restava."
No
momento em que Zammi foi tirada de seus braços, Keira diz que chorou sem parar,
pedindo "desculpa" à filha. "Foi como se uma parte da minha alma
tivesse morrido."
Hoje,
Keira é uma das várias mães groenlandesas que vivem na Dinamarca continental e
lutam para recuperar os filhos afastados pelos serviços sociais.
Nesses
casos, bebês e crianças foram retirados das famílias após testes de competência
parental, conhecidos na Dinamarca como FKUs, usados para avaliar se os pais têm
condições de cuidar dos filhos.
Em maio
deste ano, o governo dinamarquês proibiu o uso desses testes em famílias
groenlandesas após décadas de críticas, mas eles continuam sendo aplicados a
outros grupos no país.
Essas
avaliações, que costumam levar meses, são usadas em casos complexos de
assistência social, quando as autoridades acreditam que há risco de negligência
ou violência.
Incluem
entrevistas com pais e filhos, uma série de tarefas cognitivas, como repetir
uma sequência de números de trás para frente, questionários de conhecimento
geral e avaliações de personalidade e estado emocional.
Defensores
do método afirmam que ele oferece uma avaliação mais objetiva, em comparação
com relatos considerados anedóticos ou subjetivos de assistentes sociais e
outros especialistas.
Críticos,
porém, afirmam que os testes não conseguem prever de maneira confiável se
alguém será um bom pai ou uma boa mãe.
Opositores
também sustentam há tempos que os exames se baseiam em normas culturais
dinamarquesas e lembram que são aplicados em dinamarquês, não em kalaallisut,
língua materna da maioria dos groenlandeses. Isso pode gerar mal-entendidos,
afirmam.
Os
groenlandeses são cidadãos dinamarqueses e podem viver e trabalhar no
continente. Milhares deles moram na Dinamarca, atraídos por oportunidades de
emprego, educação e acesso à saúde.
Pais
groenlandeses que vivem no país têm 5,6 vezes mais chance de ter os filhos
retirados de casa do que pais dinamarqueses, segundo o Centro Dinamarquês de
Pesquisa Social, instituto financiado pelo governo.
Em
maio, o governo dinamarquês anunciou que pretende revisar cerca de 300 casos de
crianças groenlandesas removidas à força de suas famílias, incluindo aqueles em
que foram aplicados os testes FKU.
Mas, em
outubro, a BBC constatou que apenas 10 casos em que os testes foram aplicados
haviam sido revisados, e nenhum resultou na devolução das crianças aos pais.
A
avaliação de Keira, feita em 2024 durante a gravidez, concluiu que ela não
tinha "competências parentais suficientes para cuidar do recém-nascido de
forma independente".
Ela
recorda que entre as perguntas estavam: "Quem é a Madre Teresa?" e
"Quanto tempo a luz do sol leva para chegar à Terra?".
Psicólogos
que defendem os testes dizem que questões desse tipo avaliam o conhecimento
geral dos pais e a compreensão de conceitos do cotidiano.
Keira
acrescenta que "me fizeram brincar com uma boneca e me criticaram por não
manter contato visual suficiente".
Ela
alega que, ao perguntar por que estava sendo avaliada daquela forma, ouviu da
psicóloga: "Para ver se você é civilizada o bastante, se consegue agir
como um ser humano".
A
autoridade local responsável pelo caso afirmou que não comenta situações
individuais e que decisões de colocar uma criança sob tutela são tomadas quando
há preocupação séria com a "saúde, o desenvolvimento e o bem-estar"
do menor de idade.
Em
2014, os outros dois filhos de Keira, então com nove anos e oito meses, foram
retirados de casa após um teste FKU concluir que suas habilidades parentais não
avançavam rápido o suficiente para atender às necessidades das crianças.
A mais
velha, Zoe, hoje com 21 anos, voltou para casa aos 18 e atualmente vive em seu
próprio apartamento, mas vê a mãe com frequência.
Keira
espera se reunir em breve, de forma permanente, com a filha Zammi.
O
governo dinamarquês afirmou que a revisão em andamento vai analisar se houve
erros na aplicação dos testes FKU em famílias groenlandesas.
Enquanto
isso, Keira pode ver Zammi, que está sob os cuidados temporários de uma outra
família, uma vez por semana, durante uma hora.
A cada
visita, leva flores e, às vezes, comida groenlandesa, como sopa de coração de
frango.
"Só
para que um pouco da cultura dela esteja com ela", diz.
<><>
'Senti a pior dor que alguém pode sentir'
Nem
todos os pais groenlandeses cujos filhos foram levados para abrigos após testes
FKU terão seus casos reavaliados.
O filho
de Johanne e Ulrik foi adotado em 2020, e o governo dinamarquês informou que
não vai revisar casos em que crianças já foram adotadas.
Johanne,
43, foi testada em 2019, durante a gravidez.
Assim
como Zammi, seu bebê deveria ser levado logo após o parto. Mas, como ele nasceu
prematuro no feriado de Boxing Day e os assistentes sociais estavam de folga,
ela e o marido, Ulrik, puderam ficar com o recém-nascido por 17 dias.
"Foi
o período mais feliz da minha vida como pai", diz Ulrik, 57.
"Estar
com meu filho, segurá-lo, trocar suas fraldas, garantir que Johanne tirasse
leite antes de dormir."
Até
que, um dia, dois assistentes sociais e dois policiais chegaram à casa do casal
para levar o bebê. Eles dizem que imploraram para que isso não acontecesse.
Johanne pediu para amamentá-lo pela última vez.
"Enquanto
eu vestia meu filho para entregá-lo aos pais adotivos, que estavam a caminho,
senti a pior dor que alguém pode sentir", afirma Ulrik.
Johanne
havia sido submetida ao teste porque dois filhos de um relacionamento anterior,
então com cinco e seis anos, foram levados em 2010 após uma avaliação FKU. A
análise de 2019 a descreve como "narcisista" e com "retardo
mental" — classificações da Organização Mundial da Saúde (OMS) que estavam
em uso à época —, mas ela rejeita ambas.
Em
teoria, não há aprovação ou reprovação nos testes FKU. Eles são apenas um dos
fatores considerados pelas autoridades locais ao decidir se uma criança deve
ser levada para um abrigo.
Mas o
psicólogo Isak Nellemann, que aplicava os testes FKU no passado, diz que, na
prática, eles "são muito importantes, quase o mais importante, porque,
quando o resultado é ruim, em cerca de 90% [dos casos] os pais perdem seus
filhos".
Nellemann
afirma que alguns testes carecem de validade científica e foram desenvolvidos
para estudar traços de personalidade, não para prever capacidade parental.
Já Turi
Frederiksen, psicóloga sênior cuja equipe aplica os testes atualmente, defende
o método e diz que, embora não sejam perfeitos, "são ferramentas
psicológicas valiosas e abrangentes".
Ela
também nega a existência de viés contra os groenlandeses.
Em
2019, quando Johanne respondeu a um teste de Rorschach — em que a pessoa diz o
que vê em manchas de tinta —, afirmou ter visto uma mulher eviscerando uma
foca, cena comum na cultura de caça da Groenlândia.
Johanne
afirma que, ao ouvir a resposta, a psicóloga a chamou de "bárbara".
O
conselho local responsável pela avaliação do casal em 2019 não comentou
diretamente a acusação.
Afirmou
apenas que o relatório "indicou preocupação significativa com as
habilidades parentais do casal" e também "com o estilo de vida geral
dos pais e seu nível funcional no cotidiano".
<><>
'Eu nunca vi seus primeiros passos'
Após a
retirada do filho de Johanne e Ulrik, o casal pôde vê-lo em visitas semanais e
breves até a adoção, em 2020. Desde então, não o viram mais.
"Eu
nunca vi os primeiros passos dele, a primeira palavra, o primeiro dente, o
primeiro dia de escola", diz Johanne.
Poucos
dias após o nascimento, eles o batizaram, criando um registro oficial com nomes
e endereço.
"Precisávamos
criar um rastro de papel para que ele pudesse voltar para nós", afirma
Johanne.
A
advogada deles, Jeanette Gjørret, pretende levar o caso à Corte Europeia de
Direitos Humanos.
A
ministra de Assuntos Sociais da Dinamarca, Sophie Hæstorp Andersen, disse à BBC
que o governo não reabrirá casos de adoção porque essas crianças agora vivem
com uma "família amorosa e cuidadora". Questionada sobre o andamento
da revisão, afirma que "parece lento, mas estamos começando".
Segundo
ela, decisões de retirar e colocar crianças para adoção fazem parte de um
"processo muito rigoroso, em que avaliamos a capacidade da família de
cuidar da criança não por um ou dois anos, mas por um longo período".
O
argumento é repetido por Tordis Jacobsen, coordenadora de equipes de
assistência social em Aalborg Kommune, no norte da Dinamarca. Ela afirma que a
retirada de uma criança na Dinamarca nunca é feita de forma leviana.
Segundo
ela, sinais de risco costumam ser identificados primeiro por escolas ou
hospitais. E, nos casos de adoção definitiva, a decisão passa pela aprovação de
um juiz.
Pilunnguaq
é uma das poucas mães groenlandesas que conseguiram retomar a guarda de um
filho.
Ela e a
filha, colocada sob tutela aos 1 ano, se reencontraram há alguns meses. A
menina agora tem 6 anos.
Aos 39
anos, Pilunnguaq diz que recebeu a notícia inesperada por telefone, em uma
ligação do Serviço Social.
"Comecei
a chorar e a rir ao mesmo tempo. Não conseguia acreditar. Só pensava: 'Meu
Deus, ela está voltando para casa.'"
Os três
filhos de Pilunnguaq foram colocados sob tutela em 2021. Os outros dois tinham
6 e 9 anos.
Ela
afirma que concordou com a medida temporária enquanto buscava uma nova casa
adequada para as crianças.
Pilunnguaq
diz que acreditava que os filhos voltariam em pouco tempo, mas acabou submetida
a uma avaliação de capacidade parental.
A
conclusão foi que ela apresentava um padrão de "relacionamentos
disfuncionais" e era considerada inapta para cuidar das crianças.
<><>
'Eles podem levá-la em uma hora'
Alguns
meses depois de a filha de seis anos voltar para casa, Pilunnguaq foi informada
pela autoridade local de que os outros dois filhos mais velhos retornarão a ela
em dezembro.
A
decisão de devolver as crianças foi tomada pela própria autoridade local, e não
recomendada pela revisão do governo, que se recusou a comentar o caso.
Passar
mais de quatro anos separados dificultou a reconstrução da relação com a filha.
"Se
eu for ao banheiro e fechar a porta, ela entra em pânico e diz: 'Mãe, não
consegui te achar'", diz Pilunnguaq.
Ela
também afirma sentir medo de perder a filha novamente. "Eles podem levá-la
a qualquer hora. Podem fazer isso de novo."
Keira
agora se prepara para o primeiro aniversário de Zammi, ausente de casa. Ela
está construindo um trenó tradicional groenlandês de madeira à mão, com um urso
polar desenhado na frente.
No
início deste mês, soube que a filha não voltará para casa, pelo menos por
enquanto, mas mantém a esperança.
Keira
ainda mantém um berço ao lado da cama e outro na sala, com fotos de Zammi
emolduradas nas paredes, além de roupas de bebê e fraldas.
"Não
vou parar de lutar pelos meus filhos. Se eu não terminar esta luta, será a luta
deles no futuro."
Fonte:
BBC News

Nenhum comentário:
Postar um comentário