segunda-feira, 1 de dezembro de 2025


 

Tiago Barbosa: A mídia brasileira é quem infecta a alma do país com o mal do bolsonarismo

A lei reprovou. A Justiça condenou. As urnas já repeliram. Democracia e humanidade enjeitam - por asco e sobrevivência. Do Brasil e do mundo.

Mas há um setor imune à urgência civilizatória de repugnar a vocação nefasta de Jair Bolsonaro e o balaio de ideologias putrefatas.

A mídia corporativa brasileira - ecossistema moldado para abastecer, normalizar, legitimar e amplificar a figura tóxica e a seita alienada.

Engrenagem incapaz - por cobiça financeira e viés de classe - de se opor ao extremismo mesmo sob ameaças explícitas à sociedade onde opera.

Nem golpe. Nem plano para matar autoridades. Nem carnificina na favela. Nem traição ao país. Nem tornozeleira eletrônica violada.

Nada abala a missão autoconferida pela mídia de propugnar o extremismo como legítimo e apto a disputar o poder e corroer o destino do Brasil.

A imprensa naturaliza o chorume do bolsonarismo e valida artificialmente expoentes para influir na política pelo ódio e pela degradação social.

É quem mantém viva uma pauta de racismos, moralismos, segregação, desigualdade, violência - atrasos camuflados de opções técnicas para subverter a ideia de nação.

É quem enxerga valor político em situações dignas de polícia para fabricar impedimento a projetos populares, inclusivos e coletivos.

É quem faz de uma ex-primeira-dama cercada de suspeitas, fundamentalista e boca suja alguém com cacife para atacar Lula - interlocutor das principais lideranças do mundo.

É quem transforma ameaças ao país sob conduta vira-lata em atos válidos com espaço cativo no noticiário rendido a declarações.

É quem trata como fontes reputadas um deputado traidor da pátria e seu espelho da linhagem de ditador ao reverberar ameaça como análise e bloquear a percepção real sobre crimes.

A mídia introjeta posições de cunho extremista para dar verniz tolerável a agressões políticas e policiais - a vitória do crime, nas ruas e no parlamento, é noticiada como derrota de Lula.

A adaptação é frequente na forma e no conteúdo para reciclar a ojeriza à esquerda e renovar o vínculo antigo com o agente dessa campanha pelo retrocesso - Bolsonaro.

A imprensa tolerou o tributo à tortura no voto do golpe em Dilma, equiparou a um professor na eleição, escalou apresentadores para enxergar virtudes na personificação do fascismo.

Inútil do exército ao congresso, sem projetos ou ações relevantes ao Brasil, entusiasta da tortura e da milícia Bolsonaro foi alçado pela mídia à condição de democrata e antissistema.

Cada recuo ínfimo na truculência no governo era abençoado com tentativas de humanizar  as monstruosidades - "mudou o tom", celebrava o noticiário.

Bolsonaro gestava golpe - e a mídia propunha comoção sobre depressão pós-derrota.

Bolsonaro é julgado - e a mídia se condói com  internamentos oportunistas.

Bolsonaro é condenado - e a mídia ataca o tribunal e o processo.

Bolsonaro está na iminência da pena - e a mídia amiga recomenda a regalia do lar.

A docilidade contínua difundiu como aceitáveis tanto a figura como o imaginário de Bolsonaro e ajudou a envenenar fração da opinião pública com princípios nefastos e incivilidades.

Bolsonaro pertence ao lixo da história - não à democracia. É caso de polícia - não política. Merece desprezo e ostracismo - nunca a ribalta.

A persistência do bolsonarismo entre parte dos brasileiros é sintoma de uma sociedade adoecida pela inconsistência de formação democrática - reflexo de um país calejado por desumanidades.

E a mídia excita essa relutância.

Se séria, humana e democrática, legaria Bolsonaro ao esquecimento para sanear a convivência por um Brasil menos injusto, mais pacífico e coletivo.

Condenaria família e séquito aferrado a ideais de violência embutidos em hipocrisia para prevenir ódios, privilégios e retrocessos.

Mas é hospedeira do vírus bolsonarista - mira, inocula e infecta a alma do país.

        Bolsonarismo tende à extinção, exceto em um cenário, diz Castro Rocha

Em entrevista ao jornalista Luis Nassif para o programa TV GGN 20H, João Cezar de Castro Rocha fez uma previsão da extinção do bolsonarismo e da figura de Jair Bolsonaro no cenário político nacional, mas alertou para um cenário contrário que pode bagunçar o tabuleiro para 2026.

Para o escritor e historiador, o bolsonarismo e a figura do ex-presidente já apresentam sinais claros de enfraquecimento perante a opinião pública. A esvaziada vigília organizada em frente ao condomínio Solar de Brasília 2, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpria prisão domiciliar, e as manifestações de pouco impacto em frente à sede da Polícia Federal são sinais desse declínio. A falta de comoção popular mais enfática em sua defesa, algo que já foi visto em outras etapas históricas do Brasil, como as ocupações em frente aos quartéis após a vitória de Lula em 2022, demonstram o derretimento do bolsonarismo como força política. Castro Rocha exemplifica: “os caminhoneiros não pararam o país”.

<><> Fragilidade física e mental

No cenário atual, o fim do mito é questão de tempo, visto as rusgas na imagem do líder. Mas o momento é extremamente delicado. O ex-presidente tem uma saúde frágil e, em momentos em que a Justiça foi de encontro a ele, o hospital já foi local para intimações. Bolsonaro também tem apresentado fraqueza mental, especialmente nos últimos dias em que esteve em prisão domiciliar.

O caso-chave é a tentativa de romper a tornozeleira. Mesmo que se sustente a tese de que ele tenha rompido o equipamento por surto, curiosidade ou, segundo a versão oficial da Polícia Federal, por um plano de fuga, em todas as situações há sinais de um homem em conflito, mentalmente fragilizado e com saúde debilitada.

E, para João Cezar de Castro Rocha, é nessa fragilidade que se sustenta a única possibilidade de reverter a queda do bolsonarismo.

<><> Mito, a vítima

O grande receio do analista é a vitimização da figura de Bolsonaro como fato político para 2026. Uma vitimização com um acontecimento concreto que possa ocorrer durante o período em que está preso. Em 2018, já se viu o impacto do fato político da facada, quase fatal, que o levou à presidência.

Castro Rocha defende a tese de José Dirceu, duramente criticado pela entrevista concedida à BBC News Brasil, em que afirma: “Bolsonaro não tem condições de ir para a prisão comum”.

Não se trata de pura compaixão com uma figura em deterioração física e imagética. Existe um cálculo para evitar a criação de fatos políticos que possam vingar a narrativa de vítimização de Bolsonaro.

“Não podemos permitir a vitimização de Bolsonaro.”

Ele analisa que, em prisão domiciliar, com atendimentos médicos constantes, não haveria espaço para uma vitimização. E completa: “Se tiver um acontecimento concreto…”, como no caso da facada, “um mártir pode mudar o rumo político de uma nação.”

<><> O falso messias

A figura de Jair Bolsonaro, como o messias salvador, também tem rusgas. Como aponta Castro Rocha, um líder messiânico morre pela causa, no caso do ex-presidente existe uma inversão de papeis.

“Bolsonaro é um líder messiânico que sacrifica a causa para salvar a própria pele.”

Ele cita a atitude de Carlos Marighella, líder da Ação Libertadora Nacional, após o sequestro de um embaixador americano. Como a repressão seria muito forte, inúmeras oportunidades foram dadas a ele para sair do país. A resposta de Marighella foi “Um comandante morre com as suas tropas”. Ele ficou no Brasil sabendo que estava condenado, conclui Rocha.

Diversos são os exemplos de lideranças que marcaram a história pelo sacrifício em prol da causa.

Dessa forma, Castro Rocha conclui que a diferença essencial entre Bolsonaro e as figuras messiânicas bíblicas, como Jesus, que aceitou a prisão e a morte em nome de uma causa coletiva, está no fato de que o ex-presidente procura preservar a própria sobrevivência política, e não o ideal que o projetou como líder.

        A Justiça Tardia: Por que a prisão de Jair Bolsonaro é um imperativo democrático. Por Larissa Ramina

A tragédia nacional vivida durante o governo Jair Bolsonaro não se limita à tentativa de golpe de Estado que culminou no 08 de janeiro, embora esta represente o ápice simbólico de um projeto político que sempre flertou com a ruptura institucional.

O que se viveu entre 2018 e 2022 foi um processo sistemático de corrosão das bases materiais e imateriais da democracia e da soberania, um ataque deliberado ao tecido social, aos direitos fundamentais, à ciência, à cultura, às instituições e aos bens ambientais que compõem o patrimônio comum do Estado brasileiro. E não nos esqueçamos que foi a Operação Lava Jato, desastrosamente conduzida, que pavimentou o caminho para a ascensão de um governo de extrema-direita, com discurso autoritário e revisionista, que logo seria taxado de genocida por líderes internacionais diante do colapso sanitário e civilizatório imposto ao país.

A destruição ambiental, adotada como agenda de governo, não foi apenas consequência do negacionismo negligente — foi resultado de um conjunto de atos deliberados: desmonte dos órgãos de fiscalização, perseguição a servidores, estímulo aos garimpeiros ilegais, deslegitimação de tratados internacionais ambientais, flexibilização de normas que protegiam biomas inteiros.

A Amazônia ardeu, literalmente, diante da cumplicidade estatal. Povos originários foram abandonados à própria sorte, expostos ao avanço da mineração, da contaminação e das doenças. A omissão criminosa que resultou na morte de centenas de Yanomami é apenas um dos exemplos mais brutais de um governo que atacou a própria ideia de humanidade.

A violência contra a população negra se intensificou em meio a políticas de segurança baseadas na lógica do extermínio, enquanto discursos racistas e discriminatórios foram normalizados. Mulheres, comunidades LGBTI e populações vulneráveis foram alvos preferenciais de um governo que tratava direitos fundamentais como obstáculos ideológicos. O feminicídio disparou; a misoginia deixou de ser vício privado e tornou-se retórica de Estado.

Na educação, o ataque foi igualmente profundo: universidades públicas foram demonizadas, pesquisadores humilhados, bolsas cortadas, instituições científicas sucateadas. Gerações de futuros médicos, engenheiros, professores e cientistas tiveram suas trajetórias interrompidas. O apagão intelectual — planejado e celebrado por figuras do governo — comprometeu a produção de conhecimento e restringiu a autonomia nacional nas áreas de tecnologia, inovação e política científica.

Na saúde, o desmonte foi ainda mais dramático. A expulsão dos médicos cubanos deixou centenas de municípios sem atendimento básico, sobretudo comunidades indígenas e ribeirinhas. O SUS, patrimônio civilizatório brasileiro, foi atacado em seu financiamento e em sua capacidade operacional. E então veio a pandemia: uma gestão marcada pela sabotagem cotidiana das medidas sanitárias, pelo negacionismo, pelas campanhas contra a vacinação e pela recusa deliberada em adquirir imunizantes no momento adequado. Centenas de milhares de vidas foram sacrificadas à ideologia, à incompetência e ao cálculo político.

A cultura sofreu com censura velada e explícita: eliminação do Ministério da Cultura, editais barrados, artistas perseguidos, bibliotecas destruídas, museus abandonados. A produção audiovisual entrou em colapso diante da asfixia promovida pela máquina estatal.

Como quantificar tamanha destruição? Quanto valem as árvores derrubadas, as vidas perdidas, os filmes que não foram produzidos, os cursos que não se concretizaram, os talentos desperdiçados? Quanto vale a honra nacional manchada por um presidente subserviente a interesses estrangeiros, que sabotou o Itamaraty, alinhou-se ao que há de mais autoritário no cenário global e expôs o Brasil ao ridículo perante a comunidade internacional? Quanto vale uma soberania entregue voluntariamente diante de outras potências, inclusive por meio da submissão a agendas extraterritoriais?

Os danos do governo Bolsonaro são profundos, multidimensionais e de longa duração. Afetam o meio ambiente, a saúde, a educação, a cultura, a economia, o prestígio internacional, a democracia e a própria ideia de pertencimento coletivo. A tentativa de golpe de Estado foi apenas o ponto culminante de um projeto autoritário que vinha sendo construído dia após dia.

Por isso, quando se decretou a prisão preventiva, tecnicamente fundamentada pela cautela penal frente à provável tentativa de fuga, não se tratou de um ato de perseguição política, mas de um gesto necessário para restaurar a legalidade e reafirmar que nenhum líder está acima das instituições.

A responsabilização de Jair Bolsonaro como líder da trama golpista, muito em breve fundamento de sua prisão, não reparará as florestas destruídas, não devolverá as vidas perdidas para a COVID-19 ou para a violência, não reverterá integralmente o desmonte da educação e da ciência. Representa, antes, um marco simbólico e prova de funcionamento das instituições de justiça a favor da democracia, da soberania e do futuro do país.

Fazer justiça, neste caso, é mais que punir um indivíduo: é restaurar a confiança na ordem constitucional e reafirmar a dignidade de um país inteiro que sofreu profundamente. A prisão – ainda que preventiva – de Jair Bolsonaro inaugura não apenas um novo capítulo político, mas um compromisso com a memória, a verdade e a responsabilidade — condições essenciais para que o Brasil volte a caminhar de pé, com coragem e soberania.

 

Fonte: Brasil 247/Jornal GGN


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