Tiago
Barbosa: A mídia brasileira é quem infecta a alma do país com o mal do
bolsonarismo
A lei
reprovou. A Justiça condenou. As urnas já repeliram. Democracia e humanidade
enjeitam - por asco e sobrevivência. Do Brasil e do mundo.
Mas há
um setor imune à urgência civilizatória de repugnar a vocação nefasta de Jair
Bolsonaro e o balaio de ideologias putrefatas.
A mídia
corporativa brasileira - ecossistema moldado para abastecer, normalizar,
legitimar e amplificar a figura tóxica e a seita alienada.
Engrenagem
incapaz - por cobiça financeira e viés de classe - de se opor ao extremismo
mesmo sob ameaças explícitas à sociedade onde opera.
Nem
golpe. Nem plano para matar autoridades. Nem carnificina na favela. Nem traição
ao país. Nem tornozeleira eletrônica violada.
Nada
abala a missão autoconferida pela mídia de propugnar o extremismo como legítimo
e apto a disputar o poder e corroer o destino do Brasil.
A
imprensa naturaliza o chorume do bolsonarismo e valida artificialmente
expoentes para influir na política pelo ódio e pela degradação social.
É quem
mantém viva uma pauta de racismos, moralismos, segregação, desigualdade,
violência - atrasos camuflados de opções técnicas para subverter a ideia de
nação.
É quem
enxerga valor político em situações dignas de polícia para fabricar impedimento
a projetos populares, inclusivos e coletivos.
É quem
faz de uma ex-primeira-dama cercada de suspeitas, fundamentalista e boca suja
alguém com cacife para atacar Lula - interlocutor das principais lideranças do
mundo.
É quem
transforma ameaças ao país sob conduta vira-lata em atos válidos com espaço
cativo no noticiário rendido a declarações.
É quem
trata como fontes reputadas um deputado traidor da pátria e seu espelho da
linhagem de ditador ao reverberar ameaça como análise e bloquear a percepção
real sobre crimes.
A mídia
introjeta posições de cunho extremista para dar verniz tolerável a agressões
políticas e policiais - a vitória do crime, nas ruas e no parlamento, é
noticiada como derrota de Lula.
A
adaptação é frequente na forma e no conteúdo para reciclar a ojeriza à esquerda
e renovar o vínculo antigo com o agente dessa campanha pelo retrocesso -
Bolsonaro.
A
imprensa tolerou o tributo à tortura no voto do golpe em Dilma, equiparou a um
professor na eleição, escalou apresentadores para enxergar virtudes na
personificação do fascismo.
Inútil
do exército ao congresso, sem projetos ou ações relevantes ao Brasil,
entusiasta da tortura e da milícia Bolsonaro foi alçado pela mídia à condição
de democrata e antissistema.
Cada
recuo ínfimo na truculência no governo era abençoado com tentativas de
humanizar as monstruosidades -
"mudou o tom", celebrava o noticiário.
Bolsonaro
gestava golpe - e a mídia propunha comoção sobre depressão pós-derrota.
Bolsonaro
é julgado - e a mídia se condói com
internamentos oportunistas.
Bolsonaro
é condenado - e a mídia ataca o tribunal e o processo.
Bolsonaro
está na iminência da pena - e a mídia amiga recomenda a regalia do lar.
A
docilidade contínua difundiu como aceitáveis tanto a figura como o imaginário
de Bolsonaro e ajudou a envenenar fração da opinião pública com princípios
nefastos e incivilidades.
Bolsonaro
pertence ao lixo da história - não à democracia. É caso de polícia - não
política. Merece desprezo e ostracismo - nunca a ribalta.
A
persistência do bolsonarismo entre parte dos brasileiros é sintoma de uma
sociedade adoecida pela inconsistência de formação democrática - reflexo de um
país calejado por desumanidades.
E a
mídia excita essa relutância.
Se
séria, humana e democrática, legaria Bolsonaro ao esquecimento para sanear a
convivência por um Brasil menos injusto, mais pacífico e coletivo.
Condenaria
família e séquito aferrado a ideais de violência embutidos em hipocrisia para
prevenir ódios, privilégios e retrocessos.
Mas é
hospedeira do vírus bolsonarista - mira, inocula e infecta a alma do país.
• Bolsonarismo tende à extinção, exceto em
um cenário, diz Castro Rocha
Em
entrevista ao jornalista Luis Nassif para o programa TV GGN 20H, João Cezar de
Castro Rocha fez uma previsão da extinção do bolsonarismo e da figura de Jair
Bolsonaro no cenário político nacional, mas alertou para um cenário contrário
que pode bagunçar o tabuleiro para 2026.
Para o
escritor e historiador, o bolsonarismo e a figura do ex-presidente já
apresentam sinais claros de enfraquecimento perante a opinião pública. A
esvaziada vigília organizada em frente ao condomínio Solar de Brasília 2, onde
o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpria prisão domiciliar, e as manifestações de
pouco impacto em frente à sede da Polícia Federal são sinais desse declínio. A
falta de comoção popular mais enfática em sua defesa, algo que já foi visto em
outras etapas históricas do Brasil, como as ocupações em frente aos quartéis
após a vitória de Lula em 2022, demonstram o derretimento do bolsonarismo como
força política. Castro Rocha exemplifica: “os caminhoneiros não pararam o
país”.
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Fragilidade física e mental
No
cenário atual, o fim do mito é questão de tempo, visto as rusgas na imagem do
líder. Mas o momento é extremamente delicado. O ex-presidente tem uma saúde
frágil e, em momentos em que a Justiça foi de encontro a ele, o hospital já foi
local para intimações. Bolsonaro também tem apresentado fraqueza mental,
especialmente nos últimos dias em que esteve em prisão domiciliar.
O
caso-chave é a tentativa de romper a tornozeleira. Mesmo que se sustente a tese
de que ele tenha rompido o equipamento por surto, curiosidade ou, segundo a
versão oficial da Polícia Federal, por um plano de fuga, em todas as situações
há sinais de um homem em conflito, mentalmente fragilizado e com saúde
debilitada.
E, para
João Cezar de Castro Rocha, é nessa fragilidade que se sustenta a única
possibilidade de reverter a queda do bolsonarismo.
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Mito, a vítima
O
grande receio do analista é a vitimização da figura de Bolsonaro como fato
político para 2026. Uma vitimização com um acontecimento concreto que possa
ocorrer durante o período em que está preso. Em 2018, já se viu o impacto do
fato político da facada, quase fatal, que o levou à presidência.
Castro
Rocha defende a tese de José Dirceu, duramente criticado pela entrevista
concedida à BBC News Brasil, em que afirma: “Bolsonaro não tem condições de ir
para a prisão comum”.
Não se
trata de pura compaixão com uma figura em deterioração física e imagética.
Existe um cálculo para evitar a criação de fatos políticos que possam vingar a
narrativa de vítimização de Bolsonaro.
“Não
podemos permitir a vitimização de Bolsonaro.”
Ele
analisa que, em prisão domiciliar, com atendimentos médicos constantes, não
haveria espaço para uma vitimização. E completa: “Se tiver um acontecimento
concreto…”, como no caso da facada, “um mártir pode mudar o rumo político de
uma nação.”
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O falso messias
A
figura de Jair Bolsonaro, como o messias salvador, também tem rusgas. Como
aponta Castro Rocha, um líder messiânico morre pela causa, no caso do
ex-presidente existe uma inversão de papeis.
“Bolsonaro
é um líder messiânico que sacrifica a causa para salvar a própria pele.”
Ele
cita a atitude de Carlos Marighella, líder da Ação Libertadora Nacional, após o
sequestro de um embaixador americano. Como a repressão seria muito forte,
inúmeras oportunidades foram dadas a ele para sair do país. A resposta de
Marighella foi “Um comandante morre com as suas tropas”. Ele ficou no Brasil
sabendo que estava condenado, conclui Rocha.
Diversos
são os exemplos de lideranças que marcaram a história pelo sacrifício em prol
da causa.
Dessa
forma, Castro Rocha conclui que a diferença essencial entre Bolsonaro e as
figuras messiânicas bíblicas, como Jesus, que aceitou a prisão e a morte em
nome de uma causa coletiva, está no fato de que o ex-presidente procura
preservar a própria sobrevivência política, e não o ideal que o projetou como
líder.
• A Justiça Tardia: Por que a prisão de
Jair Bolsonaro é um imperativo democrático. Por Larissa Ramina
A
tragédia nacional vivida durante o governo Jair Bolsonaro não se limita à
tentativa de golpe de Estado que culminou no 08 de janeiro, embora esta
represente o ápice simbólico de um projeto político que sempre flertou com a
ruptura institucional.
O que
se viveu entre 2018 e 2022 foi um processo sistemático de corrosão das bases
materiais e imateriais da democracia e da soberania, um ataque deliberado ao
tecido social, aos direitos fundamentais, à ciência, à cultura, às instituições
e aos bens ambientais que compõem o patrimônio comum do Estado brasileiro. E
não nos esqueçamos que foi a Operação Lava Jato, desastrosamente conduzida, que
pavimentou o caminho para a ascensão de um governo de extrema-direita, com
discurso autoritário e revisionista, que logo seria taxado de genocida por
líderes internacionais diante do colapso sanitário e civilizatório imposto ao
país.
A
destruição ambiental, adotada como agenda de governo, não foi apenas
consequência do negacionismo negligente — foi resultado de um conjunto de atos
deliberados: desmonte dos órgãos de fiscalização, perseguição a servidores,
estímulo aos garimpeiros ilegais, deslegitimação de tratados internacionais
ambientais, flexibilização de normas que protegiam biomas inteiros.
A
Amazônia ardeu, literalmente, diante da cumplicidade estatal. Povos originários
foram abandonados à própria sorte, expostos ao avanço da mineração, da
contaminação e das doenças. A omissão criminosa que resultou na morte de
centenas de Yanomami é apenas um dos exemplos mais brutais de um governo que
atacou a própria ideia de humanidade.
A
violência contra a população negra se intensificou em meio a políticas de
segurança baseadas na lógica do extermínio, enquanto discursos racistas e
discriminatórios foram normalizados. Mulheres, comunidades LGBTI e populações
vulneráveis foram alvos preferenciais de um governo que tratava direitos
fundamentais como obstáculos ideológicos. O feminicídio disparou; a misoginia
deixou de ser vício privado e tornou-se retórica de Estado.
Na
educação, o ataque foi igualmente profundo: universidades públicas foram
demonizadas, pesquisadores humilhados, bolsas cortadas, instituições
científicas sucateadas. Gerações de futuros médicos, engenheiros, professores e
cientistas tiveram suas trajetórias interrompidas. O apagão intelectual —
planejado e celebrado por figuras do governo — comprometeu a produção de
conhecimento e restringiu a autonomia nacional nas áreas de tecnologia,
inovação e política científica.
Na
saúde, o desmonte foi ainda mais dramático. A expulsão dos médicos cubanos
deixou centenas de municípios sem atendimento básico, sobretudo comunidades
indígenas e ribeirinhas. O SUS, patrimônio civilizatório brasileiro, foi
atacado em seu financiamento e em sua capacidade operacional. E então veio a
pandemia: uma gestão marcada pela sabotagem cotidiana das medidas sanitárias,
pelo negacionismo, pelas campanhas contra a vacinação e pela recusa deliberada
em adquirir imunizantes no momento adequado. Centenas de milhares de vidas
foram sacrificadas à ideologia, à incompetência e ao cálculo político.
A
cultura sofreu com censura velada e explícita: eliminação do Ministério da
Cultura, editais barrados, artistas perseguidos, bibliotecas destruídas, museus
abandonados. A produção audiovisual entrou em colapso diante da asfixia
promovida pela máquina estatal.
Como
quantificar tamanha destruição? Quanto valem as árvores derrubadas, as vidas
perdidas, os filmes que não foram produzidos, os cursos que não se
concretizaram, os talentos desperdiçados? Quanto vale a honra nacional manchada
por um presidente subserviente a interesses estrangeiros, que sabotou o
Itamaraty, alinhou-se ao que há de mais autoritário no cenário global e expôs o
Brasil ao ridículo perante a comunidade internacional? Quanto vale uma
soberania entregue voluntariamente diante de outras potências, inclusive por
meio da submissão a agendas extraterritoriais?
Os
danos do governo Bolsonaro são profundos, multidimensionais e de longa duração.
Afetam o meio ambiente, a saúde, a educação, a cultura, a economia, o prestígio
internacional, a democracia e a própria ideia de pertencimento coletivo. A
tentativa de golpe de Estado foi apenas o ponto culminante de um projeto
autoritário que vinha sendo construído dia após dia.
Por
isso, quando se decretou a prisão preventiva, tecnicamente fundamentada pela
cautela penal frente à provável tentativa de fuga, não se tratou de um ato de
perseguição política, mas de um gesto necessário para restaurar a legalidade e
reafirmar que nenhum líder está acima das instituições.
A
responsabilização de Jair Bolsonaro como líder da trama golpista, muito em
breve fundamento de sua prisão, não reparará as florestas destruídas, não
devolverá as vidas perdidas para a COVID-19 ou para a violência, não reverterá
integralmente o desmonte da educação e da ciência. Representa, antes, um marco
simbólico e prova de funcionamento das instituições de justiça a favor da
democracia, da soberania e do futuro do país.
Fazer
justiça, neste caso, é mais que punir um indivíduo: é restaurar a confiança na
ordem constitucional e reafirmar a dignidade de um país inteiro que sofreu
profundamente. A prisão – ainda que preventiva – de Jair Bolsonaro inaugura não
apenas um novo capítulo político, mas um compromisso com a memória, a verdade e
a responsabilidade — condições essenciais para que o Brasil volte a caminhar de
pé, com coragem e soberania.
Fonte:
Brasil 247/Jornal GGN

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