A
'reforma agrária' que ajudou imigrantes alemães e italianos a prosperarem no
Sul do Brasil
Os bons
índices econômicos e de desenvolvimento da região Sul, em geral melhores do que
a grande maioria do Brasil, são com frequência citados por quem acredita que
esta parte do país é excepcional e até mesmo superior aos outros Estados
brasileiros, o que por vezes alimenta atitudes apontadas como xenofóbicas.
Foi o
caso dos influenciadores catarinenses Jenifer Milbratz Stainzack e Cleiton
Stainzack, que viralizaram em julho deste ano com um vídeo em que ditavam
"regras" para quem deseja morar no seu Estado — que, segundo eles,
tornou-se o "novo sonho de consumo dos brasileiros".
Pouco
antes do vídeo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) havia
divulgado dados mostrando que Santa Catarina se tornou o principal destino de
migrantes de outros lugares do país.
"Se
vier com jeitinho ou corpo mole, volta enquanto é tempo", disse o casal,
que é de Pomerode, conhecida como a "cidade mais alemã do Brasil",
por conta da imigração germânica para lá.
Em
outro trecho, eles disseram que a esquerda "nunca governou" Santa
Catarina e que o "assistencialismo estatal" não teria vez no Estado.
Os dois
foram alvo de uma representação apresentada ao Ministério Público do Estado,
que recusou o caso ao dizer que a competência era federal.
O casal
se defendeu afirmando ter apresentado opiniões sobre o povo catarinense dentro
dos limites da liberdade de expressão.
Em
junho, também causou repercussão uma fala do governador de Santa Catarina,
Jorginho Mello (PL), sugerindo aos governadores de outros Estados do Sul que a
região se separasse do resto do Brasil.
"Daqui
a pouco, se o negócio não funcionar muito bem lá para cima, nós passamos uma
trena para o lado de cá e fazemos 'o Sul é nosso país', né?", disse em
referência ao movimento que há mais de 30 anos defende o separatismo sulista e
que tem como valor intrínseco uma suposta superioridade em relação ao restante
do país.
Esse
discurso muitas vezes está amparado na ideia de que o maior desenvolvimento
econômico de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul se deve aos povos
europeus que imigraram para lá ao longo dos séculos 19 e 20, em contraste com
outras partes do Brasil que não teriam recebidos tantos imigrantes europeus
assim.
Mas
especialistas entrevistados pela BBC News Brasil dizem que os bons indicadores
da região não são resultado de quem imigrou para lá, e sim da forma como isso
foi feito — com um modelo de colonização que incluiu a assistência
governamental aos imigrantes europeus e uma ocupação comparável ao que hoje é
conhecido como reforma agrária.
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Exploração x povoamento
De um
modo muito simplificado, é possível classificar a colonização do Sul ocorrida
do início de meados do século 19 ao início do século 20 no formato que costuma
ser classificado como ocupação para "de povoamento" — em
contraposição à colonização para exploração, que chegou antes a outras regiões
do Brasil.
Esse
"povoamento" do Sul foi feito por imigrantes principalmente do que
hoje é a Alemanha e a Itália, mas também são relevantes as comunidades de
origem polonesa, ucraniana e russa.
"A
questão não é quem colonizou, mas o modo de colonização que foi feito",
diz à BBC News Brasil o historiador Sergio Ribeiro Santos, professor na
Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Autor
do livro A Política de Colonização do Império, o historiador Paulo Pinheiro
Machado, professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destaca
que os imigrantes europeus ganharam terras cedidas pelos governos — primeiro
durante o Império e depois na República.
Além
disso, as autoridades forneceram auxílio e subsídios para a instalação desses
colonos nos primeiros meses de chegada, aponta o historiador.
Foram
produzidos ainda manuais para que esses europeus entendessem que lavrar a terra
brasileira significava trabalhar em outras condições.
O
próprio Machado, por exemplo, encontrou um material escrito por um engenheiro
francês que dizia: "Esqueça tudo o que você sabe sobre agricultura
europeia".
O
professor explica que os imigrantes europeus se apropriaram de técnicas dos
povos nativos do Brasil e também de descendentes de levas migratórias
anteriores.
"Ao
invés de insistir [em teses que se baseiam] no supremacismo, a pesquisa atual
vem notando que [o sucesso dessa imigração é porque] houve um aprendizado mútuo
entre imigrantes europeus e a população nacional", comenta o historiador.
O
historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie, compara a
colonização do Sul à de outras partes do Brasil, onde o objetivo era a produção
para exportação, com um modelo baseado no trabalho escravo e em grandes
lavouras.
Ou
seja, há também uma diferença no tempo: se a colonização de exploração no que é
hoje o Brasil começou cinco séculos atrás, o projeto intenso de ocupação da
região Sul tem dois séculos de história.
"A
colonização do Brasil no Norte e no que depois se chamou de Nordeste ocorreu no
período histórico onde o sistema mercantilista ainda trazia tradições medievais
muito fortes na mentalidade dos colonizadores", ressalta.
Já a
colonização do Sul veio em um período posterior, já sob ideais da modernidade e
do capitalismo e sob o esgotamento do modelo escravagista.
"São
fatores que interferem também na colonização, que passa a ser mais voltada para
o povoamento, para a o interiorização e para a sociabilização de um
território", aponta Missiato.
São
esses fatores — e não uma pretensa superioridade étnica, social ou cultural dos
colonos — que fizeram com que o modelo funcionasse a ponto de criar um relativo
desenvolvimento no Sul do país, diz Sergio Ribeiro Santos.
"Tem
muito mais a ver com o modelo de colonização do que efetivamente com quem foram
os que lá se instalaram", diz o historiador Santos.
Ele
lembra, por exemplo, que muitos dos escravizados tinham conhecimentos técnicos
qualificados que não existiam no território brasileiro da época.
Mas não
puderam exercer esses saberes justamente porque foram escravizados e obrigados
a trabalhar na agricultura do açúcar.
"Colocar
essa perspectiva [de uma suposta superioridade dos colonos europeus] é aplicar
um modelo racista e etnocentrista", define Santos.
"Essa
história é decorrente da colonização e dos processos de urbanização e não das
etnias."
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Reforma agrária?
Mas por
que as autoridades do Brasil concederam tais benesses aos imigrantes europeus
que se dirigiram ao Sul?
A ideia
era resolver dois problemas imediatos.
De um
lado, a necessidade de povoar terras — ocupar para não perder, em tempos de
definição das fronteiras.
Mas
havia outra questão: com os esforços agrícolas concentrados no plantio de
riquezas para a exportação — em um primeiro momento, a cana de açúcar, em
seguida, café e algodão —, o Império vivia uma situação de insegurança
alimentar.
"A
história brasileira tem um longo período de crise de abastecimento. Esse
campesinato europeu foi introduzido então para dinamizar a produção de
alimentos", conta Machado.
Havia
um terceiro motivo, nada nobre porém ancorado em teorias vigentes na Europa
daquela época: o interesse governamental de "branquear" o país.
"Os
documentos da época falam explicitamente sobre essas características de
eugenia, sobre o 'enxerto europeu' dentro do Brasil", diz o professor.
O
esforço visou capturar mão de obra principalmente de regiões europeias com
importância agrícola — muitas das quais, naquele momento, enfrentavam a
pobreza, conflitos e greves.
Eram
imigrantes pobres os que se aventuravam — no início, ainda sem muitos subsídios
do governo no Brasil, diz o professor da UFSC.
"Quando
começa esse processo no Sul do Brasil, ele não era completamente subvencionado
pelo governo. Então, muitos dos imigrantes acabaram por ter de pagar uma parte
da passagem transoceânica, uma viagem então muito cara a demorada",
explica.
De
acordo com os estudos do historiador, a maior parte desses europeus era formada
por pequenos proprietários — e, no Brasil, continuaram tendo pequenas
propriedades, em contraste com as grandes lavouras dos primeiros séculos de
colonização portuguesa.
"Eles
tinham propriedades muito pequenininhas [na Europa], que eram até valorizadas
na hora da venda. Muitos vendiam lá suas terras, coisa de 1, 2 ou 3 hectares. E
compravam aqui uma colônia de 25, 50 hectares, dependendo da condição
financeira", conta Machado.
"Aqui,
acabavam abrindo clareiras e fazendo as primeiras lavouras enquanto viviam de
auxílios do governo nos primeiros meses, enquanto não tinham ainda uma
safra."
O
historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual
Paulista (Unesp), lembra que esses camponeses europeus também tinham, entre
suas habilidades, o "artesanato rural" — atividades fabris que
transformavam matérias-primas do campo em produtos como tecidos e mobília.
Isso
possibilitava a adaptação e a transferência deles para outros ramos da
atividade econômica, inclusive em áreas urbanas, aponta Martinez.
Aos
olhos de hoje, há quem diga que esse modelo de "povoamento" no Sul
tem contornos de reforma agrária, já que terras foram distribuídas.
A
comparação pode ser feita, mas é preciso cuidado para não cair no anacronismo.
"A
reforma agrária é um assunto político bastante ligado à evolução política do
século 20", ressalta Machado.
"Mas
num sentido amplo, genérico, a gente pode dizer isso do Sul do Brasil. Os
Estados hoje entendidos como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, a serra
do Rio de Janeiro e o Espírito Santo foram regiões escolhidas pelo Império para
a implantação de um campesinato europeu", explica o historiador.
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Fundação do MST no Paraná
Para os
entrevistados, o modelo de distribuição de terras praticado historicamente no
Sul preparou o terreno para o florescimento das ideias de reforma agrária
contemporânea, inclusive na região.
O marco
fundador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), principal
organização que defende a pauta no Brasil, é um congresso ocorrido em Cascavel,
no Paraná, em 1984.
A
principal liderança história do grupo é o economista e ativista João Pedro
Stedile, gaúcho de Lagoa Vermelha.
Mais de
20 anos antes da criação do MST, o Rio Grande do Sul criou, sob o governo de
Leonel Brizola (1922-2004), o Instituto Gaúcho de Reforma Agrária, que
organizou um amplo programa de organização fundiária no estado.
Nos
anos 1960, no município gaúcho de Encruzilhada do Sul, foi criado o Movimento
dos Agricultores Sem Terra (Master), um dos precursores da luta pela reforma
agrária.
"Um
dos marcos da luta pela terra no Brasil foi o acampamento na [cidade de]
Encruzilhada Natalino, no norte do Rio Grande do Sul", lembra o
historiador Machado, sobre o movimento ocorrido na virada dos anos 1980.
"Existia
ali um misto de populações de loiros, claramente descendentes de europeus, com
negros e outros com feições de indígenas."
"Isso
nos leva a crer que, desde o início, a luta pela terra no Brasil juntou a
antiga população local com os descendentes dos colonos europeus", comenta.
Martinez
acrescenta que a tradição camponesa está "enraizada" nos Estados do
Sul.
"A
economia camponesa e a agricultura familiar abastecem o mercado interno,
sobretudo local e regional. Assegura preços mais baixos e melhor qualidade dos
alimentos. A sobrevivência e a consolidação dessa agricultura foi sempre um
desafio, diante da especulação e da concentração da propriedade rural em poucas
mãos. Estas estão empenhadas em atuar no mercado internacional, sem compromisso
com o desenvolvimento social e a preservação ambiental no Brasil, por
exemplo", opina.
Missiato
vê um paralelo entre a distribuição de terras do século 19 e a concepção de
reforma agrária do século 20. Para ele, há uma "pauta liberal" em
comum, com a terra sendo vista sob um olhar capitalista em ambos os casos.
"No
século 20, [a reforma agrária] tornou-se uma luta mais forte da esquerda
latino-americana. Mas sua origem está em uma perspectiva liberal, de liberdade
do uso da terra para o desenvolvimento capitalista", explica.
Fonte:
BBC News Brasil

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