segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Por que os ricos e poderosos não conseguiam dizer não a Epstein

Foi um dos grandes acontecimentos em Washington em 2019.

Todas as atenções estavam voltadas para o ex-advogado de Donald TrumpMichael Cohen, que estava testemunhando perante uma comissão da Câmara dos Representantes dos EUA (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) sobre seu antigo chefe.

Uma integrante democrata da comissão, Stacey Plaskett, estava se preparando para questionar Cohen e foi vista em frente às câmeras enviando mensagens de texto para alguém em seu telefone.

Esta semana, a identidade da outra pessoa nessa troca de mensagens veio à tona: o bilionário condenado por crimes sexuais Jeffrey Epstein.

E-mails que se tornaram públicos após uma intimação feita ao espólio do financista mostram que Epstein sugeriu a Plaskett perguntar sobre um funcionário específico do conglomerado Trump.

Ela seguiu o conselho, ao que Epstein respondeu com uma mensagem: "Bom trabalho".

O episódio, que soou familiar para muita gente, dá ideia da extensão da influência do bilionário na elite americana.

Plaskett, representante do território das Ilhas Virgens Americanas na Câmara, negou que estivesse buscando o conselho de Epstein. Ela afirma que trocava mensagens com muitas pessoas naquele dia, incluindo Epstein, que era um de seus eleitores.

Como ex-advogada, ela diz que aprendeu a colher informações de todas as fontes — até mesmo de pessoas de quem não gostava.

"O comportamento perverso de Epstein me enoja. Apoio fortemente as pessoas que foram vítimas dele e admiro a coragem delas. Há muito tempo acredito e defendo que todos os arquivos relacionados a Epstein sejam divulgados", declarou a representante à BBC.

Plaskett ressalta que a troca de mensagens ocorreu antes da prisão do financista por tráfico sexual. Mas foi bem depois de sua condenação em 2008 por solicitação de prostituição, crime tipificado na lei penal americana.

Sua ilha particular nas Ilhas Virgens Americanas também havia sido mencionada em uma investigação contundente do Miami Herald no ano anterior como um dos locais onde ele teria abusado sexualmente de várias meninas menores de idade.

Seis meses depois da conversa de Plaskett com Epstein, o magnata seria encontrado morto em sua cela — resultado de um suicídio, de acordo com o legista encarregado do caso.

Sua morte e as conspirações que a cercaram desencadearam um acerto de contas que teve repercussões em Washington e Wall Street e derrubou alguns de seus antigos amigos.

<><> O fator Epstein

A troca de mensagens com a parlamentar democrata foi apenas uma entre muitas presentes no conjunto de mais de 20 mil páginas de documentos pessoais de Epstein divulgados recentemente, que demonstraram mais uma vez a capacidade do bilionário de circular pela elite mesmo após sua condenação criminal.

Como e por que esses relacionamentos sobreviveram enquanto outros amigos cortaram laços revela tanto sobre a dinâmica dos círculos sociais no topo da sociedade americana quanto sobre a influência de Epstein.

"Ele era um monstro diabólico, mas ao mesmo tempo era brilhante, no sentido de que conseguia manter essa incrível rede com algumas das pessoas mais poderosas do mundo", diz Barry Levine, autor de The Spider: Inside the Criminal Web of Jeffrey Epstein and Ghislaine Maxwell ("A Aranha: Por Dentro da Teia Criminal de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell", em tradução literal).

"Ele tinha um certo carisma que o colocava em uma posição em que as pessoas recorriam a ele."

<><> 'Colecionador de pessoas'

Epstein se considerava um "colecionador de pessoas", alguém que fazia conexões para fins transacionais, observa Levine.

"Ele usava as informações que obtinha... com a intenção, no final das contas, de obter favores, dinheiro ou, num sentido mais sombrio, eu acho, de chantagear alguns desses indivíduos."

A relação entre Epstein e o político britânico Lord Peter Mandelson se tornou alvo de escrutínio no Reino Unido e levou à demissão de Mandelson do cargo de embaixador do nos EUA em setembro.

Documentos divulgados pelo Congresso mostram que ele manteve contato com Epstein até o final de 2016, depois da condenação de 2008.

Em um e-mail de novembro de 2015, Epstein lhe parabeniza após seu aniversário: "63 anos. Você conseguiu."

Lord Mandelson responde cerca de 90 minutos depois, dizendo: "Por pouco. Decidi prolongar minha vida passando mais tempo nos EUA".

Ele negou veementemente qualquer conhecimento dos crimes ou irregularidades de Epstein e expressou arrependimento pela comunicação contínua entre eles.

<><> O círculo de Epstein

Os documentos divulgados pelo espólio de Epstein revelam um círculo social eclético, composto por acadêmicos renomados, empresários e políticos.

Levine afirma que não seria exagero dizer que alguns dos conhecidos mais casuais de Epstein talvez não soubessem sobre seus abusos e que outros possam ter ficado impressionados o suficiente com suas conexões influentes para ignorar os crimes que ele cometia.

"As pessoas esquecem as coisas", pontua. "As credenciais dele entre os poderosos eram extremamente altas, e acho que provavelmente muitas pessoas simplesmente ignoraram a condenação contra ele."

Outros podem ter ficado deslumbrados com sua riqueza, sugeriram jornalistas e pessoas que o conheciam.

"Uma sentença de prisão não importa mais", disse David Patrick Columbia, fundador do New York Social Diary, ao site de notícias Daily Beast em 2011, após a primeira condenação de Epstein. "A única coisa que faz você ser ostracizado na sociedade nova-iorquina é a pobreza."

O ex-secretário do Tesouro dos EUA Larry Summers, que também foi presidente da Universidade de Harvard, pediu conselhos amorosos a Epstein, inclusive em uma troca de mensagens em novembro de 2018 — o mesmo mês em que a investigação do Herald foi publicada — na qual ele pareceu encaminhar um e-mail de uma mulher perguntando como deveria reagir.

Epstein respondeu: "Ela já está começando a parecer carente :) legal."

As interações de Summers com seu ex-confidente voltaram a assombrá-lo na semana passada, levando-o a anunciar que se afastaria de seus compromissos públicos e deixaria de lecionar em Harvard.

"Estou profundamente envergonhado de minhas ações e reconheço a dor que elas causaram", disse Summers.

Epstein também teria usado suas habilidades financeiras para ajudar o renomado linguista Noam Chomsky, com quem trocou diversas mensagens ao longo dos anos e a quem convidou para se hospedar em suas casas.

A adulação era mútua. Em uma carta de apoio sem data incluída no conjunto de e-mails, Chomsky elogiou Epstein, dizendo que os dois tiveram "muitas conversas longas e frequentemente profundas".

O intelectual de 96 anos havia dito anteriormente ao Wall Street Journal que Epstein o havia ajudado a transferir dinheiro entre contas sem cobrar "um centavo sequer".

"Eu o conhecia e nos encontrávamos ocasionalmente", afirmou ele. "O que se sabia sobre Jeffrey Epstein era que ele havia sido condenado por um crime e cumprido sua pena. De acordo com as leis e normas dos EUA, isso significa ficha limpa."

Chomsky não respondeu ao pedido de comentário da BBC.

Ele era um dos clientes famosos de Epstein, muitos dos quais o financista ajudou a economizar bilhões de dólares. Levine observa que o magnata "entendia o código tributário e as finanças até certo ponto melhor do que talvez as pessoas mais bem pagas de Wall Street".

<><> Os que cortaram laços

Ao longo das 23 mil páginas dos documentos de Epstein, o nome de Donald Trump aparece mais do que talvez qualquer outro.

Trump, contudo, não enviou nem recebeu nenhuma das mensagens, tendo rompido relações com Epstein.

Em 2002, Trump descreveu Epstein como um "cara fantástico". Epstein comentaria mais tarde: "Eu fui o amigo mais próximo de Donald por 10 anos".

Mas o relacionamento se deteriorou, segundo Trump, quando eles se desentenderam no início dos anos 2000, dois anos antes da primeira prisão de Epstein. Em 2008, Trump já dizia que não era "fã dele".

Ele negou ter qualquer conhecimento sobre os crimes de tráfico sexual de Epstein. A Casa Branca também afirmou que o presidente expulsou Epstein de seu clube "décadas atrás por assediar suas funcionárias".

Levine pontua que há muitas pessoas que hoje se envergonham de terem trocado mensagens com Epstein após suas condenações, embora isso não sugira que eles tenham participado de nenhum de seus crimes.

"Todos, sem exceção, se arrependem do dia em que se comunicaram com Jeffrey Epstein ou passaram tempo com ele", ressalta. "É uma das histórias mais inacreditáveis ​​do nosso tempo: poder, privilégio, predação."

Houve uma pessoa pelo menos que disse ter entendido imediatamente que Epstein era "nojento".

Howard Lutnick, secretário de comércio dos EUA, que foi vizinho do magnata por 10 anos, disse ao podcast do New York Post que seu primeiro encontro com Epstein foi o último.

Pouco depois de Lutnick se mudar para o bairro nova-iorquino do Upper East Side em 2005, ele diz que Epstein deu a ele e à sua esposa uma visita guiada à sua grande residência.

Na sala de jantar de Epstein, depois de ver uma maca de massagem cercada por velas, Lutnick perguntou com que frequência ele a usava.

"Ele disse: 'Todos os dias'. E então ele se aproximou de mim de uma forma estranha e disse: 'E o tipo certo de massagem'."

Lutnick disse que ele e sua esposa trocaram olhares, se desculparam e saíram.

"Decidi que nunca mais estaria na mesma sala que aquela pessoa repugnante."

¨      De professor de matemática a bilionário: quem era Jeffrey Epstein, acusado de tráfico sexual de menores

"Não sou um predador sexual, sou um infrator", declarou Jeffrey Epstein ao New York Post em 2011. "Essa é a diferença entre um assassino e uma pessoa que rouba um pão", acrescentou.

Em 10 de agosto de 2019, oito anos depois dessa declaração, o magnata financeiro americano foi encontrado morto em uma cela na cidade de Nova York enquanto esperava julgamento por acusações de tráfico sexual.

Embora ele tenha tentado minimizar sua reputação já manchada, a história de Epstein é a de um criminoso sexual multimilionário condenado, cuja fortuna e amizades pareciam tê-lo libertado da justiça no passado.

Mas depois de uma longa investigação, em julho de 2019, ele, que era amigo do príncipe Andrew da Inglaterra e dos ex-presidentes dos Estados Unidos Bill Clinton e Donald Trump, foi preso pelo FBI quando voltava das férias na Europa.

Mais de 4 anos após sua morte, seu caso continua surpreendendo e impactando com novos aspectos.

Agora, um juiz federal de Nova York ordenou a publicação de arquivos que revelam nomes de conhecidas figuras públicas relacionadas ao empresário.

Mas quem foi Jeffrey Epstein, protagonista de um dos maiores escândalos de tráfico sexual dos últimos tempos?

<><> Como ele entrou na elite americana

Epstein, um bilionário, investidor de sucesso e bem relacionado na esfera política e econômica americana, começou sua carreira como professor de matemática e física na escola de elite Dalton School, em Nova York.

Por recomendação do pai de um estudante, em 1976 ingressou no banco de investimentos Bear Stearns, onde se tornou sócio da empresa.

Foi lá que construiu sua rede de contatos entre as pessoas mais ricas dos Estados Unidos.

"Dada a sua formação matemática, nós o colocamos em nossa divisão de produtos especializados, onde ele aconselha nossos clientes mais ricos sobre as implicações fiscais de seus investimentos", disse Jimmy Cayne, CEO do Bear Stearns, à New York Magazine em 2002.

Essa recomendação aos seus clientes sobre certas transações com vantagens fiscais lhe rendeu o respeito dos seus superiores.

Além disso, expandiu seus contatos a tal ponto que em 1982 lançou sua própria empresa de investimentos: J. Epstein and Co.

A empresa aceitou apenas clientes com ativos superiores a US$ 1 bilhão e foi um sucesso instantâneo.

<><> Celebridades, artistas e políticos

Epstein logo começou a gastar sua fortuna (em uma mansão na Flórida, um rancho no Novo México e uma das maiores casas de Manhattan) e a socializar com celebridades, artistas e políticos.

“Conheço Jeff há 15 anos. Ele é um cara fantástico”, disse Donald Trump à revista New York em 2002.

"É muito divertido estar com ele. Dizem até que ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, e muitas delas são mais jovens. Não há dúvida: Jeffrey gosta de sua vida social", acrescentou Trump.

O magnata levou figuras conhecidas em seu jato particular, como o ex-presidente Clinton ou os atores Kevin Spacey e Chris Tucker. Ele fez uma oferta frustrada para comprar a revista New York com o então produtor de cinema Harvey Weinstein em 2003, mesmo ano em que fez uma doação de US$ 30 milhões para a Universidade de Harvard.

Mas ele também se esforçou para manter sua vida privada e evitou eventos sociais e jantares em restaurantes.

Rosa Monckton, ex-presidente-executiva da Tiffany & Co, disse à Vanity Fair em 2003 que Epstein era "muito enigmático".

<><> Acordo controverso

Mas a vida de luxo dele começou a ruir em 2005, quando os pais de uma menina de 14 anos disseram à polícia da Flórida que Epstein tinha abusado sexualmente da filha deles na sua casa em Palm Beach.

A menina contou o ocorrido e identificou outros dois menores que estavam na casa naquele mesmo dia, que por sua vez identificaram outros.

Antes de a polícia da Flórida levar o caso ao FBI, já tinham identificado três dezenas de possíveis vítimas.

De acordo com um extenso relatório do Miami Herald, que analisou mais de 2.000 documentos, e-mails e provas da investigação federal, a maioria das meninas eram de áreas pobres.

Epstein teria dado dinheiro em troca de uma massagem em sua residência, oferta que na maioria dos casos terminava em algum tipo de troca sexual.

Uma busca policial na propriedade encontrou fotos de meninas por toda a casa.

No entanto, em 2008, os promotores chegaram a um polêmico acordo com o magnata.

Dessa forma, ele conseguiu evitar acusações federais de tráfico sexual, aceitando 13 meses de prisão e sendo registrado no registro federal de criminosos sexuais.

Ele escapou assim de uma possível sentença de prisão perpétua.

Entre os procuradores envolvidos nesse acordo estava Alexander Acosta, que foi secretário do Trabalho na administração Trump e renunciou após a descoberta do escândalo.

Após sua condenação, Epstein manteve suas propriedades e bens.

<><> Prisão em 2019 e morte

Mas em julho de 2019 o caso voltou à luz pública depois que Epstein foi preso em Nova York.

Os promotores buscavam o confisco de sua mansão naquela cidade, onde ocorreram alguns de seus supostos crimes.

Depois que o tribunal negou que ele pudesse pagar uma fiança, o bilionário foi detido no Centro Correcional Metropolitano de Nova York.

O magnata foi acusado de traficar dezenas de meninas, explorá-las e abusar sexualmente delas e até pagá-las para procurarem outras adolescentes.

Foi dito que ele prometeu financiar a sua educação universitária ou impulsionar as suas carreiras no mundo da moda.

A imprensa chegou a batizar seu jato particular de “Lolita Express”, em referência aos menores que transportou de um estado para outro entre 1999 e 2007.

Epstein sempre afirmou acreditar que todos tinham mais de 18 anos e que o sexo era consensual.

Enquanto estava sob custódia, ele foi levado brevemente ao hospital devido ao que foi amplamente divulgado como lesões no pescoço, sobre as quais nem os funcionários da prisão nem seus advogados comentaram oficialmente.

Na sua última aparição no tribunal, em 31 de julho de 2019, ficou claro que passaria pelo menos um ano na prisão, pois o julgamento contra ele só ocorreria no verão de 2020.

O empresário sempre negou qualquer irregularidade e se declarou inocente das acusações contra ele.

Em agosto de 2019, Epstein foi encontrado morto em sua cela.

<><> O caso de sua ex-noiva, Ghislaine Maxwell

Após sua morte, sua ex-namorada, Ghislaine Maxwell, ganhou destaque.

A filha mais nova do magnata da imprensa britânica Robert Maxwell foi presa em julho de 2020 sob suspeita de ajudar Epstein nos casos de abuso infantil, recrutando e preparando vítimas menores.

Em dezembro de 2021, um júri da cidade de Nova Iorque a considerou culpada de cinco das seis acusações, incluindo a mais grave: tráfico sexual de menores.

Por esse motivo, a mulher pode pegar 20 anos de prisão.

Algumas das acusações datam de 1994 a 1997, altura em que, segundo a acusação, ela era uma das associadas mais próximas de Epstein e tinha uma “relação íntima” com ele.

Em dezembro de 2020, uma das mulheres que se declarou vítima de Epstein disse à BBC que Maxwell controlava as mulheres que estavam ao serviço do bilionário.

"Ghislaine controlava as meninas. Ela era como a madame", disse Sarah Ransome no programa Panorama da BBC.

Maxwell apresentou Epstein a muitos de seus amigos ricos e poderosos, incluindo Bill Clinton e o príncipe Andrew.

E embora se acredite que o relacionamento romântico de Maxwell e Epstein tenha durado apenas alguns anos, ela continuou trabalhando com ele muito depois.

Nos documentos judiciais, ex-funcionários da mansão Epstein em Palm Beach a descrevem como a administradora da casa, que supervisionava a equipe e cuidava das finanças.

Num perfil da Vanity Fair publicado em 2003, Epstein disse que Maxwell não era uma funcionária remunerada, mas sim sua “melhor amiga”.

Durante o julgamento, os promotores acusaram Maxwell de preparar as meninas para serem abusadas por Epstein. Sua defesa alegou que ela estava sendo usada como bode expiatório dos crimes do magnata após sua morte.

Após sua condenação, Maxwell disse: “O maior arrependimento da minha vida foi conhecer Jeffrey Epstein”.

Ela também lamentou a dor que as vítimas sentiram, acrescentando: “Espero que a minha condenação, juntamente com o meu duro encarceramento, as ajude a conseguir colocar um ponto final”.

 

Fonte: BBC News

 

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