segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Oliveiros Marques: A derrota da moral golpista

A história política brasileira é marcada por uma presença persistente e, muitas vezes, dominante das Forças Armadas na disputa pelo poder. Desde a Proclamação da República - que, longe de ser um movimento popular, foi um golpe militar articulado por Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant - uma espécie de “moral golpista” passou a habitar parte do imaginário e da cultura militar brasileira. Uma lógica segundo a qual homens armados teriam não apenas o direito, mas o dever de intervir quando julgassem que a Nação precisasse ser “corrigida”.

Essa mentalidade ressurgiu com força em diferentes momentos: em 1930, quando Getúlio Vargas chegou ao poder apoiado por um movimento militar; em 1937, quando instaurou o Estado Novo por meio de um autogolpe sustentado pelo oficialato; em 1945, quando foi deposto por aqueles que o haviam apoiado; e novamente em 1954, quando as pressões e ameaças de setores das Forças Armadas precipitaram o suicídio de Vargas. Cada um desses episódios reafirmou aos quartéis a sensação de autoridade sobre o destino nacional.

Em 1964, essa moral alcançou sua forma mais brutal. Oficiais se autoconcederam carta branca para depor um presidente legitimamente eleito e implantar uma ditadura que torturou, assassinou e desapareceu com centenas de brasileiros. Ao seu fim, não houve punição. Pelo contrário: houve anistia ampla, geral e irrestrita - e nela germinou a crença militar de que golpes, quando “necessários”, seriam tolerados.

O resultado dessa permissividade histórica reapareceu em 2022–2023, quando documentos, mensagens e testemunhos da Ação Penal 2668 revelaram militares da ativa e da reserva articulando a derrubada de um governo eleito. A tentativa foi derrotada em 8 de janeiro de 2023, mas a cultura que a sustentou permanece viva. E parte da sociedade - alimentada por discursos conspiratórios - seguiu acreditando em mitos salvacionistas e fantasias autoritárias.

A tese central aqui é simples: a ausência de punição dos golpistas do passado fortaleceu e naturalizou a moral golpista do presente. Cada vez que militares atentaram contra a democracia e saíram impunes, transmitiram aos seus sucessores a ideia de que a farda confere poder moderador - quando, na verdade, a Constituição lhes atribui apenas a defesa da Pátria, da lei e da ordem sob autoridade civil.

A repressão tardia, porém, necessária, começa agora. Com a condenação de centenas de réus e, sobretudo, com a decretação da prisão de Jair Bolsonaro - líder político da conspiração – e dos generais Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio e do ex-comandante da Marinha Almir Garnier, figuras centrais no ambiente de radicalização dentro dos quartéis, o Brasil abre uma nova fase.

Pela primeira vez desde 1889, um movimento golpista envolvendo altos oficiais é tratado como crime, não como divergência política. Pela primeira vez, a farda deixa de ser escudo. E pela primeira vez, a sociedade e as instituições deixam claro que não aceitarão novos ensaios autoritários.

Esse processo não encerra o problema, mas o enfrenta. É um freio de arrumação tardio, porém indispensável. A punição exemplar dos responsáveis - civis e militares - e a recusa firme a qualquer anistia são hoje uma obrigação democrática. Funcionam como herbicida aplicado nas raízes de uma erva daninha que cresceu por mais de um século.

Com as prisões decretadas de Bolsonaro, Augusto Heleno, Braga Netto, Paulo Sérgio e Paulo Garnier, o Brasil finalmente começa a derrotar a moral golpista. Um passo fundamental para que a democracia deixe de ser sempre provisória - e passe, enfim, a ser permanente.

•        Por que Eduardo, Carla Zambelli e Ramagem fugiram e Bolsonaro também iria fugir. Por Moisés Mendes

Além dos que já estão fora do Brasil, todos os bolsonaristas que planejam fugas são contagiados pelo mesmo otimismo: é preciso fugir agora, porque o cenário será outro em pouco tempo e eles voltarão.

Pensam assim os manés condenados pelo 8 de janeiro, que fugiram para a Argentina, e pensam do mesmo jeito Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem.

Ramagem resumiu, depois de admitir que mora em Miami, em um condomínio de luxo, como foragido da Justiça, o que planeja para daqui a pouco. Ele e a família irão voltar.

Imaginam que o sistema de que tanto falam – o político, o Judiciário e todos os sistemas institucionais – será enfim submetido a um controle que o bolsonarismo tentou, mas não exerceu a pleno no mandato criminoso encerrado em 2022.

Bolsonaro estava tentando fugir porque tinha a certeza de que um dia voltaria para controlar o sistema. Foragidos e exilados são otimistas. Sempre foi assim, desde a fuga de João VI para o Brasil. É assim em todos os tempos, à esquerda e à direita.

Foi assim quando Jango e Brizola fugiram do golpe. Foragidos e exilados com histórico de ativismo político, cada um com seus problemas, não pensam como o homem comum que foge da polícia e da Justiça. Este sabe que pode ser caçado para sempre.

O político acredita na reversão de humores, cenários e expectativas. A fuga é algo muito transitório e o asilo é uma situação reversível. É o que todos eles pensam, sendo democratas fugindo de ditaduras, como aconteceu após o golpe de 64, ou fascistas fugindo da Justiça, como acontece agora com figuras do bolsonarismo.

Eles têm o que o fugitivo comum não tem. Têm voto, base popular. O bolsonarismo tem também a certeza de que toda essa base, da estrutura social da extrema direita, do lastro político que importa, está intacta.

Não a estrutura militar golpista, hoje esfacelada, mas a civil, a das bases que se interligam por todos os meios e se articulam via centrão para ampliar presença no Congresso na eleição do ano que vem.

Eles não fogem por projetarem uma vida no exterior por um tempo médio ou longo. Fogem para escapar da ameaça imediata da cadeia e para recarregar energias e estratégias.

Mas sempre certos de que voltarão, porque o fascismo, mesmo abalado, ainda lateja, sustentado pelas lideranças e por quadros intermediários estaduais e municipais com poder paroquial, e pelos eleitores da velha direita que virou hospedeira do bolsonarismo.

Bolsonaro pode ser dado como morto, e Michelle e os filhos dele poderão até sofrer rejeição do centrão como alternativas para 2026, mas a índole da direita brasileira é agora bolsonarista.

É nisso que os foragidos apostam: que a reacomodação acontecerá já na eleição de 2026, com mais deputados e senadores. Será uma campanha sob comando não do bolsonarismo puro, mas muito mais de Ciro Nogueira, Gilberto Kassab e Valdemar Costa Neto.

A extrema direita tem certezas. Tentaram o golpe porque haviam sido convencidos de que daria certo. Fracassaram e convenceram-se da impunidade. Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos antes do 8 de janeiro para voltar vitorioso.

Voltou derrotado, mas circulou livre e solto até ser julgado e condenado, ficar retido em casa e, na ação mais desastrada, tentar manejar um ferro quente de solda.

Os Bolsonaros, Ramagem, Zambelli e os que planejam fugas apostam que fugirão e que voltarão, porque sempre haverá um centrão e porque os financiadores do golpe continuam impunes e articulados no vasto interiorzão, como os empresários que mandaram bloquear estradas e derrubar torres de alta tensão.

E sempre haverá militares fascistas de prontidão à espera da reversão. Por isso, Eduardo ainda não desistiu do projeto de sabotar o Brasil, Lula e Alexandre de Moraes, apesar da indiferença de Trump. Também há otimismo no desespero.

A nova investida pela anistia e a retomada das ameaças ao Supremo são decisivas nessa aposta. Há muito fascismo impune e em brasa sob o cadáver em cinzas de Bolsonaro.

•        Bolsonaro ainda à espera de um milagre. Por André Barroso

Quem se dedica à saudável missão de espantar, ruborizar, envergonhar apoiadores da extrema direita deve estar suando. A extrema direita não se espanta com mais nada. Nada tira a convicção de sua seita, nem mesmo toda a verdade revelada. Pela primeira vez, militares foram condenados por tentativa de golpe. As penas são até modestas em relação a outros lugares no mundo. A abolição violenta do Estado Democrático de Direito e o golpe de Estado deram a Bolsonaro, somados, 27 anos de prisão. Alguns países condenam à pena de morte por tentativa de golpe. Devemos agradecer a Bolsonaro, que sancionou a Lei 14.197, que trata dos crimes contra a soberania nacional. Nenhum brasileiro vivo teve o prazer de ver conspiradores presos até hoje.

Alguns podem se surpreender quando ouvem um filho pequeno ou até um neto cantando um funk proibidão, mas não se surpreendem com a prisão do vereador Ernane Aleixo, do PL, acusado de ajudar o TCP nas barricadas contra a polícia, ou a fuga para os Estados Unidos de Alexandre Ramagem (PL), que, assim como Carla Zambelli, desafia a Polícia Federal. Burgueses epatáveis estão por aí, mas o acúmulo de escárnios fornecidos pela extrema direita a seus ouvidos mostra uma insensibilidade e, se reagem, com certeza não é em público. Ramagem, seguindo o roteiro de Zambelli, terá completado o álbum de figurinhas desse momento no país.

Aquela máxima de que o próximo escândalo é sempre maior que o anterior serve sempre como cortina de fumaça. Então, estamos diante de prisões históricas de militares e de um ex-presidente. O escândalo do banco Master, que pode indicar muitos políticos do centrão envolvidos, não foi capaz de tirar o brilho do champanhe estourado na comemoração. Estamos chegando a um perigoso momento na nossa sociedade, em que nada mais nos surpreende ou nos revolta. Mas tudo que envolve Bolsonaro nesse momento, fora o ineditismo das condenações, dá holofote às falhas de caráter.

As diversas tentativas de livrar Bolsonaro da prisão, seja na Câmara, por políticos, seja na imprensa, seja pelos advogados e todos os meios legais, não impediram a chegada do momento da prisão. A chamada de Flávio Bolsonaro para uma vigília na frente do condomínio onde Jair estava em prisão domiciliar, conclamando o povo a lutar, chamou a atenção da Polícia Federal. Nesse meio-tempo, o ex-presidente tentou violar a tornozeleira eletrônica de forma tosca, dolosa e consciente, por meio de um ferro de solda. Quem tem um ferro de solda em casa? Alguém sugeriu isso? Alguém repassou isso?

A fuga pela extrema direita é um recurso final. Bolsonaro se hospedou na embaixada da Hungria quando perdeu o passaporte e Alexandre de Moraes não o prendeu. Bolsonaro teve carta com pedido de asilo político a Milei na Argentina e Alexandre de Moraes não o prendeu. Eduardo Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos e ajudou nas sanções contra o Brasil, e Alexandre de Moraes não o prendeu. Mas agora foi a gota d’água. Ele trocou a prisão em uma mansão com piscina por um quarto de 12 m².

Mesmo com três versões diferentes dadas à Polícia Federal, seus apoiadores replicam o que influenciadores da extrema direita falam. As três versões são estranhas e não impedem um discurso como o de Ricardo Nunes, que afirma que o ex-presidente é um homem honesto. Sempre tivemos inúmeros momentos de fala de Bolsonaro demonstrando o quanto era o contrário: forjando carteira de vacinação, desviando recursos públicos, comprando apartamentos com dinheiro vivo, desviando joias da Arábia Saudita, entre outros.

Bolsonaro não será página virada ainda. A extrema direita quer virar a página por causa da eleição, mas ainda vamos ouvir sobre o ex-presidente, seja através dos filhos, seja por tentativa de golpe por meio de uma anistia, seja por alguma fuga espetacular digna de filme. Mas, claro, tratando-se de Bolsonaro, dará errado. O próximo passo, claro, seria contratar Henri Charrière, do filme Papillon, ou o mágico Houdini para assessoria de fugas.

 

Fonte: Brasil 247

 

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