quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Pepe Escobar: China prioriza desenvolvimento enquanto EUA reforçam lógica de espoliação geopolítica

Em vídeo publicado no Pepe Café, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar analisa o avanço das tensões geopolíticas em torno da Rússia, China e Estados Unidos. Segundo o analista, o momento global é marcado pela combinação de “ressentimento e demência imperial” de Washington, que opera simultaneamente tentativas de guerra híbrida contra países do Sul Global e iniciativas de sedução diplomática de aliados estratégicos.

<><> Estratégia de Trump na Ásia Central e o jogo duplo dos “stan”

Pepe Escobar relata o recente jantar do presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, com os líderes de cinco países da Ásia Central — Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão. O jornalista destaca o comportamento calculado desses chefes de Estado: “Eles jogaram o jogo à perfeição, alisaram a cabeça, as costas, os ombros do rei da selva”, descreve Escobar.

Os presentes “virtuais” incluíram promessas de investimentos e abertura para negócios envolvendo recursos naturais e terras raras. Uma das declarações mais emblemáticas, segundo Escobar, veio do presidente cazaque Kassym-Jomart Tokayev, que afirmou que Trump poderia ser visto como “presidente do mundo”.

Mas o movimento decisivo veio dois dias depois, quando Tokayev foi a Moscou encontrar-se com Vladimir Putin, onde anunciou uma parceria estratégica Rússia–Cazaquistão. Para Escobar, isso demonstra que: “Não estamos no terreno das narrativas, isso é vida real. Geopolítica na prática.”

<><> Peso geoeconômico do Cazaquistão e as amarras com Rússia e China

O Cazaquistão tem papel central na integração euroasiática. O país é:

•        Produtor relevante de petróleo;

•        Parceiro dos BRICS, ao lado do Uzbequistão;

•        Membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), que reúne Rússia, China, Índia, Paquistão, Irã e países da Ásia Central;

•        Integrante da União Econômica Euroasiática;

•        Elo fundamental das Novas Rotas da Seda (BRI).

Escobar enfatiza que todos os trens chineses que cruzam a Eurásia rumo à Europa passam pelo porto seco de Khorgos. Por isso, afirma categoricamente:

“O Cazaquistão não vai comprar uma briga barata com Rússia ou China por causa de promessas miríficas do rei da selva na Casa Branca.”

<><> Venezuela, Síria e Irã: pontos de tensão no tabuleiro de guerra híbrida

Escobar afirma que o “império do caos” segue avançando com estratégias para fragmentar Estados nacionais, apontando que a Síria permanece sob disputa envolvendo Estados Unidos, Turquia, Israel e Rússia.

No caso venezuelano, descreve um cenário incerto: “Ninguém sabe o que vai acontecer na Venezuela, mas todos sabem o que pode acontecer, e todas as opções são as mais horrendas possíveis.”

Ele cita precedentes de ações militares americanas e golpes violentos que podem ser replicados contra Caracas. Sobre o Irã, sustenta que qualquer ofensiva enfrentará uma reação dura e sem precedentes.

<><> América Latina e a resistência política

O analista elogia o discurso do presidente colombiano Gustavo Petro durante a cúpula UE–CELAC, realizada em Santa Marta, quando o líder advertiu os europeus sobre ataques e riscos sobre o Caribe. Para Escobar: “Pelo menos tem vozes no Sul Global que se elevam.”

<><> O colapso das narrativas ocidentais

Escobar critica a imprensa ocidental, especialmente a BBC, acusando-a de fabricar narrativas falsas sobre Trump. Ele afirma:

“Está provado para quem ainda precisava de provas de que a BBC mente.”

Relata ainda uma operação fracassada atribuída ao MI6 para capturar um avião russo MIG-31 equipado com míssil Kinzhal.

<><> Rússia e China enxergam “imaturidade estratégica” nos EUA

Segundo Escobar, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, tem repetido que Moscou enviou a Washington propostas com base em entendimentos prévios, mas: “Ele não sabe se eles receberam ou mesmo se leram, porque não dá a impressão de nada.”

Sobre a China, o analista afirma que o país simplesmente ignora provocações e segue seu roteiro interno: “A gente está no nosso projeto de desenvolvimento nacional.”

<><> Huawei rompe bloqueio tecnológico e ameaça hegemonia dos EUA

A parte mais impactante da análise refere-se ao avanço tecnológico da Huawei, que desenvolve um sistema próprio de litografia capaz de produzir chips de 3 nanômetros — etapa fundamental para autonomia em inteligência artificial.

Os testes já ocorrem no centro de pesquisas da empresa em Dongguan, Guandong, e podem entrar em produção em 2026.

Escobar afirma que, se isso acontecer:

“A China vira de ponta-cabeça o mercado mundial de semicondutores.”

Além disso, destaca uma diretriz recente:  “Qualquer banco de dados afiliado ao Estado na China está proibido de usar chips estrangeiros.”

Para ele, isso acelera um ecossistema tecnológico totalmente soberano, baseado em pesquisa e desenvolvimento massivos.

<><> Conclusão: o choque entre narrativas e realidade

Pepe Escobar descreve um cenário global onde Washington mantém métodos agressivos, mas perde capacidade de ditar rumos. Já China e Rússia aprofundam soberania e integração no eixo euroasiático.

O analista encerra com uma mensagem de resistência:

“A luta continua sempre. A luta vai ser cada vez mais ferrenha.”

•        A China não falha ao planejar, nem falha por não planejar. Por Josef Gregory Mahoney

Cheguei à chamada “idade da razão” durante o primeiro mandato de Ronald Reagan (1981-1985), e recordo com nitidez duas lições que moldaram minha visão de mundo. Ambas vieram de meu pai e foram reforçadas por um ambiente cultural hegemonicamente anticomunista em plena Guerra Fria.

A primeira era sua frase recorrente: “Quem não planeja, planeja falhar.” A segunda era sua admiração por Milton Friedman, economista símbolo do neoliberalismo e autor de Free to Choose (Livre para Escolher), de 1979, um livro que inspirou Reagan a proclamar: “O governo não é a solução para o nosso problema; o governo é o problema.”Décadas depois, essa crença ainda ecoa na Casa Branca sob o governo do presidente Donald Trump, cuja política de desmonte do Estado levou à paralisação de serviços públicos e ao aumento da pobreza entre trabalhadores federais norte-americanos, muitos dos quais dependem hoje de bancos de alimentos.

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<><> O fracasso planejado dos Estados Unidos

Desde os anos 1970, os EUA atravessam um ciclo contínuo de declínio. O sistema americano parece ter normalizado a crise como mecanismo de controle social, perpetuando a concentração de poder nas mãos de elites econômicas. Nas escolas, aprendíamos não apenas a desprezar o planejamento estatal, mas também a demonizar qualquer país que o praticasse — especialmente os socialistas.

A ironia é que a famosa frase “Quem não planeja, planeja falhar” é atribuída a Benjamin Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos. Ele escreveu originalmente: “Ao deixar de se preparar, você está se preparando para falhar.” Franklin, no entanto, ajudou a criar um sistema político que, por design, limitava a capacidade do governo de organizar e planejar o próprio futuro.A expressão também é associada ao filósofo Herbert Spencer, criador do conceito de “sobrevivência do mais apto”, usado depois por Darwin. Spencer defendia o individualismo extremo e o “darwinismo social”, teoria que justificava a exclusão dos pobres e o racismo científico. Ambos — Franklin e Spencer — eram homens de sua época: acreditavam na superioridade de sua raça e gênero, e promoveram ideias misóginas e escravocratas.

<><> A visão racista e o mito da superioridade ocidental

Apesar de Franklin admirar aspectos da filosofia confuciana, via os chineses como “selvagens nobres”. Spencer foi ainda mais longe, descrevendo a China como uma “civilização fracassada”, habitada por um povo “servil e sem criatividade”. Essas ideias ecoam até hoje no discurso político americano, como mostrou a declaração recente do vice-presidente J.D. Vance, ao justificar a guerra comercial contra Pequim: “Pegamos dinheiro emprestado de camponeses chineses para comprar o que esses camponeses fabricam.”

<><> O êxito do planejamento chinês

Desde 1949, a República Popular da China passou por fases desafiadoras em seu planejamento centralizado, mas o balanço histórico é inquestionavelmente positivo. Nenhum outro país conseguiu avanços tão profundos em desenvolvimento humano, justiça social e rejuvenescimento nacional em tão pouco tempo.A recente Quarta Sessão Plenária do 20º Comitê Central do Partido Comunista da China, realizada em Pequim entre 20 e 23 de outubro, reafirmou esse caminho. O principal resultado foi a aprovação das Recomendações para a formulação do 15º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Econômico e Social Nacional, que servirá como guia estratégico até 2030, com o objetivo de alcançar a modernização socialista até 2035.

<><> A nova etapa do socialismo moderno

O novo plano prioriza a construção de um sistema industrial moderno, fortalecendo a autossuficiência tecnológica e a inovação científica em áreas como computação quântica e biomanufatura. Também busca expandir o mercado interno, aumentar o consumo doméstico em setores como saúde e cultura, e reduzir a dependência das flutuações do comércio global.Além disso, a China reafirma sua vocação de motor do crescimento mundial, promovendo a abertura econômica de alto padrão, a cooperação internacional e o compromisso com o desenvolvimento verde, mantendo suas metas de neutralidade de carbono e de combate às mudanças climáticas.

<><> Planejar é governar com responsabilidade

O planejamento é o núcleo de uma governança responsável. É a chave do sucesso chinês na erradicação da pobreza extrema e na promoção da igualdade entre gêneros e etnias. Em um mundo cada vez mais marcado pela improvisação política e pela desigualdade sistêmica, a China demonstra que planejar não é apenas prever o futuro — é criar um futuro melhor para todos.

Franklin e Spencer, com suas contradições e preconceitos, não poderiam imaginar que o verdadeiro exemplo do valor do planejamento viria, séculos depois, do Oriente que eles desprezavam.

¨      O que EUA ganham ao ajudar Coreia do Sul a construir submarinos nucleares

O governo da Coreia do Sul finalizou um acordo para construir submarinos de propulsão nuclear em parceria com os Estados Unidos.

Os EUA aprovaram os "submarinos de ataque" e concordaram em cooperar no fornecimento de combustível, de acordo com um documento divulgado pela Casa Branca na quinta-feira (13/11).

O acordo representa um passo significativo nas relações da Coreia do Sul com os EUA e surge em meio a um período de crescentes tensões na península coreana envolvendo a Coreia do Norte, que possui armas nucleares, e a China, que tem uma política expansionista.

Segundo especialistas, a estratégia de Washington é colocar pressão tanto sobre a Coreia do Norte quanto sobre a China.

<><> O que está no acordo?

O acordo sobre submarinos entre os EUA e a Coreia do Sul surge após os líderes de ambos os países terem firmado um amplo tratado comercial no início do mês passado, que prevê a redução das tarifas recíprocas de 25% para 15%.

O presidente dos EUA, Donald Trump, havia imposto uma tarifa de 25% sobre Seul no início deste ano, tarifa que o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, conseguiu negociar para 15%, depois que Seul anunciou que investiria US$ 350 bilhões nos EUA, incluindo US$ 200 bilhões em investimentos em dinheiro e US$ 150 bilhões em construção naval.

Em um comunicado divulgado pela Casa Branca na quinta-feira, os EUA afirmaram ter "dado aprovação para que a República da Coreia construa submarinos de ataque movidos a energia nuclear... [e que] trabalharão em estreita colaboração para avançar com os requisitos deste projeto, incluindo as formas de obtenção de combustível".

Em uma publicação anterior em sua plataforma de mídia social Truth Social, Trump havia dito que os navios seriam construídos em um estaleiro na Filadélfia administrado pelo conglomerado sul-coreano Hanwha.

Apenas seis países possuem atualmente submarinos estratégicos movidos a energia nuclear: os EUA, a China, a Rússia, o Reino Unido, a França e a Índia. O Brasil está desenvolvendo seu primeiro submarino nuclear — o Álvaro Alberto — com data de conclusão prevista para 2029.

A Coreia do Sul já possui cerca de 20 submarinos, mas todos são movidos a diesel e, portanto, precisam emergir com muito mais frequência. Os submarinos nucleares são capazes de operar distâncias maiores e com maior velocidade.

"Dei autorização para construir um submarino de propulsão nuclear, em vez dos submarinos a diesel antiquados e muito menos ágeis que eles têm agora", escreveu Trump no Truth Social.

A Coreia do Sul é uma potência em energia nuclear civil. O país teve um programa de armas nucleares na década de 1970, mas o abandonou após pressão dos EUA.

Assim, sua capacidade de enriquecer ou reprocessar urânio é limitada pelos EUA, já que a Coreia do Sul depende inteiramente de importações.

<><> Por que a Coreia do Sul quer submarinos nucleares?

A nova cooperação tem como objetivo reagir à Coreia do Norte, que revelou recentemente estar desenvolvendo seu próprio programa de submarinos nucleares.

Lee havia dito a Trump em uma cúpula de líderes no mês passado que a Coreia do Sul precisava de submarinos nucleares.

Em uma entrevista na televisão na semana passada, Ahn Gyu-back, Ministro da Defesa da Coreia do Sul, disse que os submarinos nucleares seriam uma "motivo de orgulho" para a Coreia do Sul e um grande passo no fortalecimento da defesa do país contra o Norte.

A capacidade bélica dos submarinos nucleares manteria o líder norte-coreano Kim Jong Un "acordado à noite", disse o ministro.

<><> A Coreia do Norte tem submarinos nucleares?

A Coreia do Norte também tem investido em um programa de submarinos nucleares – possivelmente com a ajuda da Rússia, de acordo com autoridades sul-coreanas.

Em março de 2025, a Coreia do Norte divulgou imagens do que alegava ser um submarino de propulsão nuclear em construção, mostrando Kim visitando o estaleiro.

Acredita-se que a Coreia do Norte terá os submarinos nos próximos anos.

Estima-se que a Coreia do Norte também possua um arsenal de aproximadamente 50 armas nucleares, como parte de seu programa nuclear mais amplo.

Jo Bee-yun, pesquisadora do Instituto Sejong, sugeriu que a aquisição de submarinos nucleares por Seul ajudará o país a se manter competitivo na crescente corrida armamentista do Leste Asiático.

"O fato de a Coreia do Norte possuir armas nucleares é comprovado", disse ela à BBC. "A aquisição de submarinos nucleares pela Coreia do Sul é apenas um passo em uma tendência maior de aumento da tensão."

<><> Isso vai aumentar as tensões na península da Coreia?

Não está claro o quanto os submarinos de propulsão nuclear contribuirão para as capacidades de defesa da Coreia do Sul – e, embora sejam muito caros, eles não alteram significativamente o equilíbrio de poder na península coreana, segundo alguns especialistas.

Yang Uk, pesquisador do Instituto Asan de Estudos Políticos, disse à BBC que o principal objetivo dos submarinos nucleares é assegurar aos eleitores sul-coreanos que seu governo está respondendo à ameaça nuclear da Coreia do Norte.

"A Coreia do Sul não pode desenvolver suas próprias armas nucleares para se contrapor às da Coreia do Norte", disse Yang. "O que eles podem fazer? Colocar submarinos nucleares em operação."

Yang acredita que a Coreia do Norte poderá se beneficiar com a mudança, pois ela reforça sua justificativa para manter armas nucleares — o que significa que se tornará mais difícil exigir que Pyongyang abandone seu arsenal nuclear.

Jo, no entanto, enfatizou a vantagem estratégica que a Coreia do Sul pode obter com o novo acordo de submarinos, descrevendo-o como uma "grande mudança" que "significa que a Coreia do Sul agora é um ator regional".

"A melhor característica de um submarino nuclear é a sua velocidade", disse ela. "Agora ele pode ir rápido e longe, e a Coreia do Sul pode operar em conjunto com mais países."

<><> O que os EUA ganham?

Para Washington, o apoio ao programa de submarinos nucleares da Coreia do Sul provavelmente visa pressionar tanto a Coreia do Norte quanto a China.

"Trump transferiu o ônus dos gastos com defesa para a Coreia do Sul", explicou Yang. "A Coreia do Sul expandirá consideravelmente seu orçamento de defesa. Ela atuará como representante dos EUA, pressionando a China e a Coreia do Norte."

Os EUA e a China há muito competem por influência estratégica na Coreia do Sul, deixando Seul numa situação geopolítica delicada. Mais recentemente, a China tem intensificado sua atividade naval perto da fronteira marítima da Coreia do Sul – uma ação semelhante às observadas no Mar da China Meridional.

Pequim deve estar "furiosa" com o acordo de submarinos nucleares da Coreia do Sul com os EUA, disse Yang.

Após o anúncio do acordo, o embaixador chinês na Coreia do Sul, Dai Bing, disse esperar que a Coreia do Sul "lidasse com essa questão de forma prudente, levando em consideração as preocupações de todos os lados".

E acrescentou ainda que Pequim estava dialogando com Seul sobre o assunto por meio de canais diplomáticos, enfatizando que "a situação (de segurança) na Península Coreana e na região ainda é complexa e delicada".

Embora o presidente Trump tenha afirmado que os submarinos seriam construídos na Filadélfia e trariam empregos para os EUA, as autoridades sul-coreanas têm insistido que eles devem ser construídos localmente, onde as instalações existentes podem entregá-los em um prazo muito mais curto.

Segundo relatos, o próprio primeiro-ministro da Coreia do Sul, Kim Min-seok, afirmou durante uma audiência parlamentar que o estaleiro de propriedade sul-coreana na Filadélfia "não tinha capacidade" para construir tais embarcações.

A Hanwha, proprietária do estaleiro, ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Mas agora que um acordo foi alcançado, o próximo passo é ajustar o acordo nuclear entre os dois países, permitindo que os EUA forneçam combustível nuclear e estabeleçam limites para seu uso militar.

 

Fonte: Brasil 247/BBC News em Seul

 

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