sábado, 22 de novembro de 2025

“Precisamos de outro sistema econômico que não dependa da cultura do usar e descartar”, diz professora espanhola

Margarita Mediavilla Pascual, professora titular da Escola de Engenharia Industrial da Universidade de Valladolid [Espanha], coordena o grupo de pesquisa Energia, Economia e Dinâmica de Sistemas (GEEDS). Seus estudos combinam economia, meio ambiente e tecnologia para entender como os recursos finitos, a acumulação de energia e a gestão de minerais críticos marcam os desafios que enfrentamos.

<><> Eis a entrevista.

·        Quais são os limites físicos considerados mais determinantes para alcançar um sistema energético verdadeiramente sustentável?

A transição para energias renováveis é complexa, e o ritmo lento em que está sendo implementada confirma isto. Desde o Protocolo de Kyoto de 1997, estamos dizendo que devemos abandonar os combustíveis fósseis e continuamos consumindo 80% energia de origem fóssil, exatamente a mesma porcentagem de 1997.

Gostaria de deixar claro que essa transição é necessária. O último relatório da Agência Internacional de Energia reconhece que já faz 20 anos que o petróleo convencional, ou seja, o barato e fácil de extrair, alcançou seu máximo de produção e, atualmente, extraímos 10% menos. Algo parecido aconteceu com o gás natural convencional, em 2018.

Esse é um sinal inequívoco de esgotamento. As empresas estão tentando suprir a demanda com recursos mais caros e muito mais poluentes, mas não será possível manter isto por muito tempo. A transição energética é inevitável.

·        Qual é o maior desafio, atualmente, no campo da energia?

O desafio técnico mais relevante é o armazenamento de energia. Nossa sociedade se baseia em combustíveis fósseis, que são energias já acumuladas que podemos usar quando quisermos. As energias renováveis são variáveis e nos fornecem, basicamente, eletricidade.

No momento, a melhor maneira de armazenar eletricidade é com as baterias, no entanto, as mais avançadas armazenam 24 vezes menos energia por quilograma do que a gasolina. Isto torna muito complicado substituir o petróleo em usos que requerem armazenar grande quantidade de energia em pouco peso, como o transporte de mercadorias, a aviação e a maquinaria agrícola.

·        Em relação aos minerais críticos, estamos preparados para enfrentar sua escassez?

Os minerais na crosta terrestre são limitados e, atualmente, mal os reciclamos. A maior parte termina em aterros sanitários e, uma vez lá, são praticamente irrecuperáveis. Se não mudarmos radicalmente, nas próximas décadas, teremos problemas com os minerais de tecnologias como as baterias, as redes elétricas e a computação.

Em um dos cenários de transição energética que meu grupo analisou, conjecturamos que todo o transporte de veículos leves fosse elétrico até 2050 e descobrimos que as reservas de cobre, cobalto, lítio, manganês, grafite em flocos e níquel se esgotariam antes desta data.

·        Em diversas ocasiões, você já ressaltou que o crescimento econômico contínuo não é compatível com os limites planetários. Quais alternativas a ciência propõe para garantir o bem-estar, sem depender do aumento constante do PIB?

O crescimento é o grande problema. Embora as limitações técnicas sejam importantes, a raiz da questão são as dinâmicas econômicas que sabotam todas as tentativas de alcançar um equilíbrio com a natureza. É óbvio que mesmo que sejam mais eficientes e diminuamos o impacto ambiental de cada uma de nossas atividades econômicas, se cada vez tivermos mais e mais atividade, não haverá eficiência que dê conta: o impacto acabará crescendo também.

·        Por que não escolher majoritariamente tecnologias sustentáveis, se já existem e poderiam garantir nosso bem-estar a longo prazo?

Na realidade, a tecnologia não é a chave do problema. Se realmente quiséssemos iniciar uma grande transição para estilos de vida que respeitem os limites do planeta, poderíamos, em algumas décadas, mudar para estilos de vida praticamente sustentáveis. A dificuldade está em que essas tecnologias sustentáveis, embora possam trazer muito bem-estar a longo prazo, não são as mais rentáveis, nem as que oferecem melhores prestações, nem as que oferecem benefícios a curto prazo. Isto vai contra as lógicas econômicas do mercado que prioriza o lucro imediato. Se, além disso, temos de crescer economicamente e sobreviver em uma economia globalizada e competitiva, não sobra tempo para fazer as coisas direito.

·        Como seria viver bem, sem um aumento do PIB?

A ciência já sabe como cultivar alimentos sem a necessidade de utilizar agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, já sabe como construir moradias com consumo energético muito baixo e baseadas em materiais recicláveis. Já sabemos como organizar nossas cidades para nos movimentar com bem pouca energia e como desenvolver produtos muito mais duráveis.

Contudo, temos um sistema econômico que não fomenta alternativas assim, mas, ao contrário, a obsolescência programada e a cultura do usar e descartar. Precisamos inventar outro sistema econômico que não necessite de comportamentos tão aberrantes para, simplesmente, funcionar.

·        Que novas formas de organização social e econômica seriam necessárias?

A vida humana, inclusive uma vida boa, não requer consumir mais ou a troca de serviços e mais consumo de energia a cada ano. Quem precisa inventar algo não são mais os e as profissionais da engenharia ou das ciências ‘duras’, mas, sim, os das ciências ‘brandas’: economistas, políticos e sociólogos.

·        As políticas climáticas também enfrentam o desafio de não reproduzir desigualdades. Como garantir uma transição energética justa?

Esta é uma pergunta muito complexa porque, no sistema econômico atual, as pessoas dependem da criação de postos de trabalho que proporcionem um salário. No entanto, as melhores políticas ambientais, aquelas que realmente podem inclinar a balança, são as que vendem menos coisas e produzem menos. Ou seja, têm uma “falha”: criam menos postos de trabalho.

Conforme El Roto dizia magistralmente: “A solução para a crise é muito simples, só se deve consumir mais para reativar a economia e consumir menos para não destruirmos o planeta”. Vivemos presos a dinâmicas perversas que fazem com que, para manter os empregos que nos permitem subsistir, tenhamos que destruir a natureza que é a base real de nossa vida.

·        O aspecto econômico continua sendo o fator determinante.

É necessária uma mudança profunda de modelo. Se quisermos realizar uma transição ecológica que realmente tenha impacto e não fique em medidas cosméticas, temos de nos questionar muito seriamente sobre como solucionar as grandes questões econômicas, como a desigualdade social, a distribuição dos bens e o emprego, sem a necessidade de recorrer ao crescimento econômico.

·        No Brasil, nesses dias, acontece a Cúpula do Clima COP30. Você considera que os compromissos atuais dos países são compatíveis com a urgência?

Estou bastante cansada de cúpulas internacionais onde compromissos são assinados só para serem sistematicamente descumpridos. Penso que deveríamos nos questionar muito seriamente para que servem as COPs. Sua incapacidade é o fracasso da governança global, que agora está muito mais frágil do que na primeira Cúpula da Terra, realizada justamente no Rio de Janeiro, em 1992. Se não formos capazes de fortalecer e democratizar as instituições de governança global, os esforços para gerir de forma minimante sensata os bens comuns globais, como a atmosfera, os oceanos e a biodiversidade, serão inúteis.

·        Seus modelos integram energia, economia e meio ambiente. O que é necessário para que esse tipo de conhecimento científico tenha mais peso nas decisões das Conferências das Partes da ONU sobre mudanças climáticas?

Apesar da pouca esperança de que os acordos dessas cúpulas sirvam para algo, essas ferramentas de análise podem servir para derrubar alguns paradigmas que estão causando muito dano, como o cientificismo e o reducionismo. Nossos modelos se baseiam em visões globais, sistêmicas, que analisam conjuntamente aspectos técnicos, ecológicos, sociais e econômicos, e isto permite tomar consciência dos múltiplos aspectos que criam os problemas. Servem para derrubar visões míopes ou interesseiras que querem nos fazer acreditar que a solução é, simplesmente, comprar uma nova tecnologia salvadora.

¨      Seis principais conclusões da cúpula climática do Brasil

A cúpula começou em 10 de novembro e, em princípio, deverá terminar no dia 21, embora o encerramento dessas reuniões seja sempre atrasado por horas ou dias devido à complexidade das negociações. A cúpula deste ano deve servir como um barômetro da luta internacional contra as mudanças climáticas em um contexto de extremo questionamento do multilateralismo. Estes são alguns dos pontos-chave da conferência.

<><> O momento mais difícil

A Cúpula de Belém é a trigésima COP realizada desde a adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, em 1992. Desse arcabouço geral surgiram, primeiro em 1997, o Protocolo de Quioto e, posteriormente, o Acordo de Paris, que este ano comemora seu décimo aniversário desde sua assinatura na COP realizada na capital francesa em 2015.

Mas a cúpula deste ano acontece no pior momento possível para a luta internacional contra as mudanças climáticas em pelo menos uma década. A ascensão de governos ultraconservadores, muitos dos quais alinhados com a negação das mudanças climáticas, está impactando as políticas climáticas e ambientais. Liderando essa onda está o governo Trump, que não participa da cúpula de Belém e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, uma medida que entrará em vigor em janeiro. Além disso, em diversos fóruns internacionais, o governo está adotando posturas ameaçadoras em relação a países que buscam avançar com medidas contra as mudanças climáticas. Prova dessa conjuntura crítica é a baixa participação de chefes de Estado na minicúpula realizada há uma semana, no início da COP30, organizada pelo governo brasileiro.

<><> Planos nacionais para o clima

O Acordo de Paris visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana, de modo que as mudanças climáticas resultantes permaneçam dentro de limites seguros. Especificamente, a meta era limitar o aquecimento a no máximo 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais e, idealmente, a 1,5 graus.

Para atingir esse objetivo, o acordo estipula que todos os países que o ratificaram, quase 200, devem apresentar planos para reduzir suas emissões, conhecidos pela sigla NDC.

A primeira rodada desses planos, que contém os compromissos até 2030, não colocou os países no caminho certo para manter o aquecimento abaixo de 1,5 ou 2 graus Celsius. A segunda rodada concentra-se em metas de redução de emissões até 2035. E também não corrige a situação.

<><> Muito longe da meta de 1,5 graus

Este segundo lote de NDCs deveria ter sido submetido em fevereiro de 2025. Mas praticamente nenhum país o fez. No final, apenas 114 países — 60% dos que ratificaram o Acordo de Paris — as submeteram à ONU, muitos deles depois do início da COP30. De acordo com os cálculos da ONU, a soma das NDCs (se de fato cumpridas) levaria a uma redução de 12% nas emissões até 2035, em comparação com os níveis de 2019. Para atingir a meta de 1,5 grau, essa redução precisaria ser de 55%, quatro vezes e meia maior do que o previsto nesses planos nacionais. Para a meta de 2 graus, a redução até 2035 precisaria ser de 35%, três vezes maior do que o estipulado nas NDCs submetidas pelos governos.

Os cálculos da ONU sugerem que, se as últimas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) forem cumpridas, o aquecimento poderá ser limitado a cerca de 2,5 graus, mas esta é uma estimativa repleta de incertezas.

Tudo isso poderia acontecer com promessas nacionais, mas o que de fato ocorreu nas últimas décadas é que as emissões aumentaram quase todos os anos. As emissões do principal gás de efeito estufa, o dióxido de carbono, voltarão a subir em 2025, segundo os especialistas que compilam o Orçamento Global de Carbono. Aliás, os cientistas acreditam que o limite de 1,5 grau será consistentemente ultrapassado na próxima década. A única possibilidade restante seria tornar essa ultrapassagem temporária e, em seguida, alcançar uma redução por meio da eliminação de outros gases de efeito estufa, como o metano, e das técnicas incertas de captura e armazenamento de dióxido de carbono da atmosfera. De qualquer forma, cada décimo de grau de aquecimento evitado reduzirá os impactos dessa crise.

<><> O que pode sair de Belém?

Durante essas três décadas de negociações e cúpulas, o foco tem sido nas emissões de gases de efeito estufa, mas não nos principais culpados: petróleo, gás e carvão. Muitos dos países envolvidos nas negociações são grandes exportadores desses combustíveis e são justamente eles que defendem que as medidas devem se concentrar nos próprios gases, em vez de restringir o consumo dos combustíveis que causam as emissões.

Na cúpula climática de Dubai, em 2023, houve uma menção direta aos combustíveis fósseis pela primeira vez nas observações finais, com um apelo para uma transição para longe do petróleo, gás e carvão. No entanto, no ano seguinte, na cúpula de Baku, nenhuma referência a esses combustíveis foi feita.

Na minicúpula de líderes que antecedeu a COP25, o presidente brasileiro e anfitrião da conferência, Luiz Inácio Lula da Silva, expressou a necessidade de um roteiro, entre outras coisas, para “superar a dependência de combustíveis fósseis”. Esse apelo foi acolhido por diversos países, incluindo Reino Unido, Alemanha, França e Colômbia, que pressionam para que o tema seja incluído nas discussões em Belém, algo que não constava da agenda oficial.

Esse roteiro tem sido o foco de alguns debates durante a primeira semana da cúpula. Em uma COP sem um foco claro — a anterior, por exemplo, foi inteiramente dedicada ao financiamento climático de países ricos para aqueles com menos recursos — ele pode se tornar o principal campo de batalha. É importante lembrar que as decisões nessas conferências são tomadas por consenso entre todos os negociadores, o que significa que os debates podem se arrastar indefinidamente.

<><> Os protestos e a democracia estão de volta

As palavras de Lula, defendendo um caminho para longe dos combustíveis fósseis, contrastam fortemente com as do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, proferidas exatamente um ano antes, na abertura da COP29 em Baku. O anfitrião descreveu os combustíveis fósseis, dos quais seu país depende em grande parte, como "uma dádiva de Deus". A presidência de cada cúpula desempenha um papel crucial na definição das negociações e dos temas que ganham destaque. E, em Baku, não houve menção à necessidade de se afastar dos principais contribuintes para o problema.

A sede de cada conferência alterna anualmente entre diferentes regiões do mundo. Os países de cada região precisam concordar com o local. Isso significou que as três conferências anteriores a Belém foram realizadas em países não democráticos, como Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão. Agora, a conferência retornou a uma democracia, o Brasil, e isso teve uma consequência imediata: ativistas puderam voltar a se manifestar livremente nas ruas da cidade anfitriã para exigir ações contra as mudanças climáticas, após um hiato de três anos. A grande marcha, que reuniu milhares de pessoas, aconteceu neste sábado e foi liderada por representantes de comunidades indígenas.

Na cúpula de Belém, outro dilema precisa ser resolvido, que novamente gira em torno do debate entre autoritarismo e democracia: onde será realizada a COP31? Turquia e Austrália disputam a sede, mas ainda não há acordo.

<><> Desinformação e negacionismo

A ascensão da extrema-direita, que está moldando a luta internacional contra as mudanças climáticas e alimentando o autoritarismo, está intimamente ligada, em muitos casos, à negação das mudanças climáticas. Essa negação, que ganha força apesar de as evidências científicas das mudanças climáticas serem mais robustas do que nunca e os efeitos do aquecimento global serem mais pronunciados do que nunca, está ela própria ligada à desinformação.

Os alertas contra o negacionismo e a desinformação também foram proeminentes nos discursos de Lula nesta conferência. E na semana passada, Brasil, Canadá, Chile, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Espanha, Suécia e Uruguai aderiram a uma declaração, também patrocinada pela ONU e Unesco, alertando para o “crescente impacto da desinformação, da informação errônea, do negacionismo, dos ataques deliberados contra jornalistas, defensores, cientistas, pesquisadores e outras vozes públicas ambientais, e outras táticas usadas para minar a integridade das informações sobre mudanças climáticas”. Os signatários se comprometeram a financiar projetos que combatam essas práticas e a pedir às empresas de tecnologia que “avaliem” se o design de seus algoritmos contribui “para minar a integridade do ecossistema de informações climáticas”.

 

Fonte: Entrevista para Eva Rodríguez, no Ethic. Tradução do Cepat, para IHU/El País

 

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