“Precisamos
de outro sistema econômico que não dependa da cultura do usar e descartar”, diz
professora espanhola
Margarita
Mediavilla Pascual, professora titular da Escola de Engenharia Industrial da
Universidade de Valladolid [Espanha], coordena o grupo de pesquisa Energia,
Economia e Dinâmica de Sistemas (GEEDS). Seus estudos combinam economia, meio
ambiente e tecnologia para entender como os recursos finitos, a acumulação de
energia e a gestão de minerais críticos marcam os desafios que enfrentamos.
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Eis a entrevista.
·
Quais são os limites físicos considerados mais
determinantes para alcançar um sistema energético verdadeiramente sustentável?
A
transição para energias renováveis é complexa, e o
ritmo lento em que está sendo implementada confirma isto. Desde
o Protocolo de Kyoto de 1997, estamos dizendo que devemos abandonar
os combustíveis fósseis e continuamos
consumindo 80% energia de origem fóssil, exatamente a mesma porcentagem de
1997.
Gostaria
de deixar claro que essa transição é necessária. O último relatório
da Agência Internacional de Energia reconhece que já faz 20 anos que
o petróleo convencional, ou seja, o barato e fácil de extrair, alcançou seu
máximo de produção e, atualmente, extraímos 10% menos. Algo parecido aconteceu
com o gás natural convencional, em 2018.
Esse é
um sinal inequívoco de esgotamento. As empresas estão tentando suprir a demanda
com recursos mais caros e muito mais poluentes, mas não será possível manter
isto por muito tempo. A transição energética é inevitável.
·
Qual é o maior desafio, atualmente, no campo da energia?
O
desafio técnico mais relevante é o armazenamento de energia. Nossa sociedade se
baseia em combustíveis fósseis, que são energias já acumuladas que podemos
usar quando quisermos. As energias renováveis são variáveis e nos fornecem,
basicamente, eletricidade.
No
momento, a melhor maneira de armazenar eletricidade é com as baterias, no
entanto, as mais avançadas armazenam 24 vezes menos energia por quilograma do
que a gasolina. Isto torna muito complicado substituir o petróleo em usos que
requerem armazenar grande quantidade de energia em pouco peso, como o
transporte de mercadorias, a aviação e a maquinaria agrícola.
·
Em relação aos minerais críticos, estamos preparados para
enfrentar sua escassez?
Os
minerais na crosta terrestre são limitados e, atualmente, mal os reciclamos. A
maior parte termina em aterros sanitários e, uma vez lá, são praticamente
irrecuperáveis. Se não mudarmos radicalmente, nas próximas décadas, teremos
problemas com os minerais de tecnologias como as baterias, as redes elétricas e
a computação.
Em um
dos cenários de transição energética que meu grupo analisou,
conjecturamos que todo o transporte de veículos leves fosse elétrico até 2050 e
descobrimos que as reservas de cobre, cobalto, lítio, manganês, grafite em
flocos e níquel se esgotariam antes desta data.
·
Em diversas ocasiões, você já ressaltou que o crescimento
econômico contínuo não é compatível com os limites planetários. Quais
alternativas a ciência propõe para garantir o bem-estar, sem depender do
aumento constante do PIB?
O
crescimento é o grande problema. Embora as limitações técnicas sejam
importantes, a raiz da questão são as dinâmicas econômicas que sabotam todas as
tentativas de alcançar um equilíbrio com a natureza. É óbvio que mesmo que
sejam mais eficientes e diminuamos o impacto ambiental de cada uma de nossas
atividades econômicas, se cada vez tivermos mais e mais atividade, não haverá
eficiência que dê conta: o impacto acabará crescendo também.
·
Por que não escolher majoritariamente tecnologias
sustentáveis, se já existem e poderiam garantir nosso bem-estar a longo prazo?
Na
realidade, a tecnologia não é a chave do problema. Se realmente quiséssemos
iniciar uma grande transição para estilos de vida que respeitem os limites do planeta, poderíamos, em
algumas décadas, mudar para estilos de vida praticamente sustentáveis. A
dificuldade está em que essas tecnologias sustentáveis, embora possam
trazer muito bem-estar a longo prazo, não são as mais rentáveis, nem as que
oferecem melhores prestações, nem as que oferecem benefícios a curto prazo.
Isto vai contra as lógicas econômicas do mercado que prioriza o lucro imediato.
Se, além disso, temos de crescer economicamente e sobreviver em uma economia
globalizada e competitiva, não sobra tempo para fazer as coisas direito.
·
Como seria viver bem, sem um aumento do PIB?
A
ciência já sabe como cultivar alimentos sem a necessidade de utilizar
agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, já sabe como construir moradias com
consumo energético muito baixo e baseadas em materiais recicláveis. Já sabemos
como organizar nossas cidades para nos movimentar com bem pouca energia e como
desenvolver produtos muito mais duráveis.
Contudo,
temos um sistema econômico que não fomenta alternativas assim, mas, ao
contrário, a obsolescência
programada e
a cultura do usar e descartar. Precisamos inventar outro sistema econômico
que não necessite de comportamentos tão aberrantes para, simplesmente,
funcionar.
·
Que novas formas de organização social e econômica seriam
necessárias?
A vida
humana, inclusive uma vida boa, não requer consumir mais ou a troca de serviços
e mais consumo de energia a cada ano. Quem precisa inventar algo não são mais
os e as profissionais da engenharia ou das ciências ‘duras’, mas, sim, os das
ciências ‘brandas’: economistas, políticos e sociólogos.
·
As políticas climáticas também enfrentam o desafio de não
reproduzir desigualdades. Como garantir uma transição energética justa?
Esta é
uma pergunta muito complexa porque, no sistema econômico atual, as pessoas
dependem da criação de postos de trabalho que proporcionem um salário. No
entanto, as melhores políticas ambientais, aquelas que realmente podem inclinar
a balança, são as que vendem menos coisas e produzem menos. Ou seja, têm uma
“falha”: criam menos postos de trabalho.
Conforme El
Roto dizia magistralmente: “A solução para a crise é muito simples, só se
deve consumir mais para reativar a economia e consumir menos para não
destruirmos o planeta”. Vivemos presos a dinâmicas perversas que fazem com que,
para manter os empregos que nos permitem subsistir, tenhamos que destruir a
natureza que é a base real de nossa vida.
·
O aspecto econômico continua sendo o fator determinante.
É
necessária uma mudança profunda de modelo. Se quisermos realizar
uma transição ecológica que realmente tenha impacto e não fique em
medidas cosméticas, temos de nos questionar muito seriamente sobre como
solucionar as grandes questões econômicas, como a desigualdade social, a
distribuição dos bens e o emprego, sem a necessidade de recorrer ao crescimento
econômico.
·
No Brasil, nesses dias, acontece a Cúpula do Clima COP30.
Você considera que os compromissos atuais dos países são compatíveis com a
urgência?
Estou
bastante cansada de cúpulas internacionais onde compromissos são assinados só
para serem sistematicamente descumpridos. Penso que deveríamos nos questionar
muito seriamente para que servem as COPs. Sua incapacidade é o fracasso da
governança global, que agora está muito mais frágil do que na
primeira Cúpula da Terra, realizada justamente no Rio de Janeiro, em
1992. Se não formos capazes de fortalecer e democratizar as instituições
de governança global, os esforços para gerir de forma minimante sensata
os bens comuns globais, como a atmosfera, os oceanos e
a biodiversidade, serão inúteis.
·
Seus modelos integram energia, economia e meio ambiente.
O que é necessário para que esse tipo de conhecimento científico tenha mais
peso nas decisões das Conferências das Partes da ONU sobre mudanças climáticas?
Apesar
da pouca esperança de que os acordos dessas cúpulas sirvam para algo, essas
ferramentas de análise podem servir para derrubar alguns paradigmas que estão
causando muito dano, como o cientificismo e
o reducionismo. Nossos modelos se baseiam em visões globais,
sistêmicas, que analisam conjuntamente aspectos técnicos, ecológicos, sociais e
econômicos, e isto permite tomar consciência dos múltiplos aspectos que criam
os problemas. Servem para derrubar visões míopes ou interesseiras que querem
nos fazer acreditar que a solução é, simplesmente, comprar uma nova tecnologia
salvadora.
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Seis principais conclusões da cúpula climática do Brasil
A
cúpula começou em 10 de novembro e, em princípio, deverá terminar no dia 21,
embora o encerramento dessas reuniões seja sempre atrasado por horas ou dias
devido à complexidade das negociações. A cúpula deste ano deve servir como um
barômetro da luta internacional contra as mudanças climáticas em um contexto de
extremo questionamento do multilateralismo. Estes são alguns dos pontos-chave
da conferência.
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O momento mais difícil
A Cúpula
de Belém é a trigésima COP realizada desde a adoção da
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, em 1992. Desse
arcabouço geral surgiram, primeiro em 1997, o Protocolo de Quioto e,
posteriormente, o Acordo de Paris, que este ano
comemora seu décimo aniversário desde sua assinatura na COP realizada na
capital francesa em 2015.
Mas a
cúpula deste ano acontece no pior momento possível para a luta internacional
contra as mudanças climáticas em pelo menos
uma década. A ascensão de governos ultraconservadores, muitos dos quais
alinhados com a negação das mudanças climáticas, está impactando as políticas
climáticas e ambientais. Liderando essa onda está o governo Trump, que não participa
da cúpula de Belém e retirou os Estados
Unidos do Acordo de Paris, uma medida que entrará em vigor em janeiro. Além disso,
em diversos fóruns internacionais, o governo está adotando posturas ameaçadoras
em relação a países que buscam avançar com medidas contra as mudanças
climáticas. Prova dessa conjuntura crítica é a baixa participação de chefes de
Estado na minicúpula realizada há uma semana, no início da COP30,
organizada pelo governo brasileiro.
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Planos nacionais para o clima
O Acordo
de Paris visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa causadas pela
atividade humana, de modo que as mudanças climáticas resultantes
permaneçam dentro de limites seguros. Especificamente, a meta era limitar o
aquecimento a no máximo 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais e,
idealmente, a 1,5 graus.
Para
atingir esse objetivo, o acordo estipula que todos os países que o ratificaram,
quase 200, devem apresentar planos para reduzir suas emissões, conhecidos pela
sigla NDC.
A
primeira rodada desses planos, que contém os compromissos até 2030, não colocou
os países no caminho certo para manter o aquecimento abaixo de 1,5 ou 2 graus
Celsius. A segunda rodada concentra-se em metas de redução de emissões até
2035. E também não corrige a situação.
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Muito longe da meta de 1,5 graus
Este
segundo lote de NDCs deveria ter sido submetido em fevereiro de 2025.
Mas praticamente nenhum país o fez. No final, apenas 114 países — 60% dos que
ratificaram o Acordo de Paris — as submeteram à ONU, muitos
deles depois do início da COP30. De acordo com os cálculos da ONU, a soma
das NDCs (se de fato cumpridas) levaria a uma redução de 12% nas emissões até
2035, em comparação com os níveis de 2019. Para atingir a meta de 1,5 grau,
essa redução precisaria ser de 55%, quatro vezes e meia maior do que o previsto
nesses planos nacionais. Para a meta de 2 graus, a redução até 2035 precisaria
ser de 35%, três vezes maior do que o estipulado nas NDCs submetidas pelos
governos.
Os
cálculos da ONU sugerem que, se as últimas Contribuições
Nacionalmente Determinadas (NDCs) forem cumpridas, o aquecimento poderá ser
limitado a cerca de 2,5 graus, mas esta é uma estimativa repleta de incertezas.
Tudo
isso poderia acontecer com promessas nacionais, mas o que de fato ocorreu nas
últimas décadas é que as emissões aumentaram quase todos os anos. As emissões
do principal gás de efeito estufa, o dióxido de carbono, voltarão a subir em
2025, segundo os especialistas que compilam o Orçamento Global de Carbono.
Aliás, os cientistas acreditam que o limite de 1,5 grau será consistentemente
ultrapassado na próxima década. A única possibilidade restante seria tornar
essa ultrapassagem temporária e, em seguida, alcançar uma redução por meio da
eliminação de outros gases de efeito estufa, como o metano, e das técnicas
incertas de captura e armazenamento de dióxido de carbono da atmosfera. De
qualquer forma, cada décimo de grau de aquecimento evitado reduzirá os impactos
dessa crise.
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O que pode sair de Belém?
Durante
essas três décadas de negociações e cúpulas, o foco tem sido nas emissões de gases de
efeito estufa,
mas não nos principais culpados: petróleo, gás e carvão.
Muitos dos países envolvidos nas negociações são grandes exportadores desses
combustíveis e são justamente eles que defendem que as medidas devem se
concentrar nos próprios gases, em vez de restringir o consumo dos combustíveis
que causam as emissões.
Na
cúpula climática de Dubai, em 2023, houve uma menção direta aos combustíveis fósseis pela primeira
vez nas observações finais, com um apelo para uma transição para longe do
petróleo, gás e carvão. No entanto, no ano seguinte, na cúpula de Baku,
nenhuma referência a esses combustíveis foi feita.
Na
minicúpula de líderes que antecedeu a COP25, o presidente brasileiro e
anfitrião da conferência, Luiz Inácio Lula da
Silva,
expressou a necessidade de um roteiro, entre outras coisas, para “superar a
dependência de combustíveis fósseis”. Esse apelo foi acolhido por diversos
países,
incluindo Reino Unido, Alemanha, França e Colômbia,
que pressionam para que o tema seja incluído nas discussões em Belém, algo que
não constava da agenda oficial.
Esse
roteiro tem sido o foco de alguns debates durante a primeira semana da cúpula.
Em uma COP sem um foco claro — a anterior, por exemplo, foi
inteiramente dedicada ao financiamento climático de países ricos para aqueles
com menos recursos — ele pode se tornar o principal campo de batalha. É
importante lembrar que as decisões nessas conferências são tomadas por consenso
entre todos os negociadores, o que significa que os debates podem se arrastar
indefinidamente.
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Os protestos e a democracia estão de volta
As
palavras de Lula, defendendo um caminho para longe
dos combustíveis fósseis, contrastam fortemente com as do presidente
do Azerbaijão, Ilham Aliyev, proferidas
exatamente um ano antes, na abertura da COP29 em Baku. O
anfitrião descreveu os combustíveis fósseis, dos quais seu país depende em
grande parte, como "uma dádiva de Deus". A presidência de cada cúpula
desempenha um papel crucial na definição das negociações e dos temas que ganham
destaque. E, em Baku, não houve menção à necessidade de se afastar dos
principais contribuintes para o problema.
A sede
de cada conferência alterna anualmente entre diferentes regiões do mundo. Os
países de cada região precisam concordar com o local. Isso significou que as
três conferências anteriores a Belém foram realizadas em países não
democráticos, como Egito, Emirados Árabes
Unidos e Azerbaijão. Agora, a conferência retornou a uma democracia,
o Brasil, e isso teve uma consequência imediata: ativistas puderam voltar
a se manifestar livremente nas ruas da cidade anfitriã para exigir ações contra
as mudanças climáticas, após um hiato de três anos. A grande marcha, que reuniu
milhares de pessoas, aconteceu neste sábado e foi liderada por representantes
de comunidades indígenas.
Na
cúpula de Belém, outro dilema precisa ser resolvido, que novamente gira em
torno do debate entre autoritarismo e democracia: onde será realizada
a COP31? Turquia e Austrália disputam a sede, mas
ainda não há acordo.
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Desinformação e negacionismo
A
ascensão da extrema-direita, que está moldando a
luta internacional contra as mudanças climáticas e alimentando o autoritarismo,
está intimamente ligada, em muitos casos, à negação das mudanças climáticas.
Essa negação, que ganha força apesar de as evidências científicas das mudanças
climáticas serem mais robustas do que nunca e os efeitos do aquecimento global
serem mais pronunciados do que nunca, está ela própria ligada à desinformação.
Os
alertas contra o negacionismo e a desinformação também foram proeminentes nos
discursos de Lula nesta conferência. E na semana
passada, Brasil, Canadá, Chile, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Espanha, Suécia e Uruguai aderiram
a uma declaração, também patrocinada pela ONU e Unesco,
alertando para o “crescente impacto da desinformação, da informação errônea, do
negacionismo, dos ataques deliberados contra jornalistas, defensores,
cientistas, pesquisadores e outras vozes públicas ambientais, e outras táticas
usadas para minar a integridade das informações sobre mudanças climáticas”. Os
signatários se comprometeram a financiar projetos que combatam essas práticas e
a pedir às empresas de tecnologia que “avaliem” se o design de seus algoritmos
contribui “para minar a integridade do ecossistema de informações climáticas”.
Fonte:
Entrevista para Eva Rodríguez, no Ethic. Tradução do Cepat, para IHU/El País

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