domingo, 30 de novembro de 2025

Alemanha elaborou 'plano secreto de guerra' contra a Rússia

Rodovias que viram pistas de pouso para aviões, 'cidades' erguidas em duas semanas e uma logística para trazer 800 mil soldados alemães, americanos e de outros países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para o front em caso de uma guerra com a Rússia .

Esses são alguns dos principais pontos do "OPLAN DEU”, o plano secreto da Alemanha para responder a um eventual ataque de Moscou num futuro próximo.

O documento de 1,2 mil páginas foi traçado há cerca de dois anos e meio por membros do alto escalão do Exército Alemão, revela uma matéria do jornal americano The Wall Street Journal desta quarta-feira (26/11).

De acordo com a reportagem, oficiais do exército alemão acreditavam, a princípio, que a Rússia estaria pronta para atacar a Otan a partir de 2029. No entanto, uma série de eventos recentes de sabotagem, espionagem e invasão do espaço aéreo europeu, atribuídos a Moscou, levantam a suspeita de que um ataque por parte do país de Vladimir Putin possa ocorrer antes mesmo desse prazo.

Um cessar-fogo com a Ucrânia, que vem sendo pressionada pelos Estados Unidos, também pode dar tempo e recursos para a Rússia preparar uma agressão a aliados da Otan, acrescentam analistas ouvidos pelo WSJ.

Caso ocorra uma guerra entre Rússia e as potenciais ocidentais, a Alemanha teria um papel primordial pela localização geográfica, já que, com os Alpes formando uma barreira natural, as tropas da Otan teriam de cruzar o país para chegar à Europa Oriental.

Além de detalhes logísticos envolvendo linhas férreas, rodovias, portos e caminhos pelos quais tropas e suprimentos seriam transportados, o plano também delineia como soldados e veículos seriam protegidos, alimentados e hospedados nesse deslocamento.

Ainda de acordo com o WSJ, o OPLAN DEU também serviria para dissuadir a Rússia de uma eventual intenção de atacar os territórios da Otan. "O objetivo é prevenir a guerra deixando bem claro para nossos inimigos que, se eles nos atacarem, não serão bem-sucedidos", disse um oficial de alto escalão e um dos autores do plano ao jornal.

<><> Mudança de mentalidade

A reportagem destaca como um dos principais desafios do plano justamente a mentalidade que foi adotada pela Alemanha após a Guerra Fria e a reunificação do país, em 1990. Um "otimismo pacífico" acabou fazendo com que Berlim deixasse de lado o investimento em infraestruturas de uso dual, que haviam sido pensadas para o caso de o Alemanha ficar no meio a um conflito global, como entre americanos e soviéticos.

Um dos exemplos de estrutura de uso dual foram as autobahns , cuja construção previa a sua conversão para uma pista de pouso de aeronaves de grande porte. Para isso, os guarda-corpos podiam ser facilmente removidos, assim como a divisão central das faixas. Além disso, havia tanques subterrâneos de combustível e estruturas para a montagem instantânea de torres de controle aéreo.

No entanto, após os anos 1990, esses projetos foram deixados de lado – e muitas das estradas mais recentes não possuem essa função de uso dual.

Segundo o WSJ, o governo alemão acredita que 20% das rodovias e 25% das pontes precisam de reformas para permitir a passagem de veículos de grande porte. Para os portos do Mar do Norte e Báltico, estão sendo calculados investimentos de 15 bilhões de euros (R$ 93 bilhões), dos quais 3 bilhões somente para projetos que permitam o uso dual de infraestrutura.

O plano de guerra da Alemanha também cita a necessidade de que sejam facilitadas as parcerias com o setor privado caso a ameaça russa se concretize. Empresas já vêm sendo acionadas para treinamentos, como foi o caso da Rheinmetall , especializada em logística, que assinou um contrato de 260 milhões de euros para dar suporte às tropas alemãs e da Otan, diz a reportagem.

Nos últimos meses, a Rheinmetall efetuou, em 14 dias, a construção completa de um acampamento para 500 soldados, com alojamento, cinco postos de combustíveis, um refeitório e vigilância por drones, uma espécie de "cidade construída do nada em 14 dias e desmontada em sete", contou uma fonte da Rheimetall ao jornal americano.

A operação, no entanto, revelou também as limitações da infraestrutura alemã: não houve capacidade para acomodar todos os veículos e o terreno era irregular, obrigando a empresa a transportar soldados de um lado para o outro.

Mesmo assim, as forças armadas alemãs têm sido otimistas quanto à implementação do plano, ressalta o Wall Street Journal. "Considerando que começamops do zero no início de 2023, estamos muito satisfeitos com o ponto onde estamos hoje. É um projeto muito sofisticado", disse um dos coautores do OPLAN DEU ao jornal.

¨      Putin fala em trégua caso Ucrânia recue completamente no Donbas

Durante uma coletiva de imprensa realizada no Quirguistão, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse que poderia aceitar um cessar-fogo com a Ucrânia, com uma condição: que o país vizinho retire completamente as suas tropas da região do Donbas.

“Se as forças ucranianas se retirarem dos territórios que ainda ocupam (no Donbas), podemos assinar uma trégua e acabar com os combates. Se não o fizerem, iremos alcançar esse objetivo pela via militar”, disse o mandatário russo.

A declaração aconteceu em coletiva realizada após a reunião da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), em Bishkek, capital do Quirguistão.

Em outro momento da entrevista, Putin disse que as forças russas continuam avançando no território do Donbas e assegurou que, em breve, conquistarão definitivamente a região de Zaporizhzhia, onde, segundo ele, “o cenário no campo de batalha mostra que o colapso da resistência ucraniana é iminente”.

“Estamos [as forças russas] avançando rapidamente pelo norte da região e quando completarmos esse movimento estaremos cercando praticamente toda a área fortificada que ainda resiste”, explicou o mandatário russo.

Vale lembrar que a OTSC possui seis países-membros, todos eles ex-integrantes da antiga União Soviética. Além do Quirguistão, anfitrião da reunião deste ano, e da Rússia, que lidera a entidade, também formam parte a Armênia, o Azerbaijão, o Cazaquistão e o Tajiquistão.

<><> Visitas norte-americanas

A declaração de Putin acontece em meio às negociações para um acordo de paz permanente, em esforço que vem sendo mediado pelos Estados Unidos visando colocar um fim definitivo à guerra iniciada em fevereiro de 2022.

Em coletiva na última terça-feira (25/11), o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que fez alterações no plano original, produzindo um “documento aprimorado, com contribuições apresentadas por ambos os lados”.

O Kremlin admitiu, dias atrás, que está negociando uma data na semana que vem para um encontro presencial entre o presidente Putin e o enviado especial de Washington, Steve Witkoff, para discutir a última proposta apresentada pela Casa Branca.

Em paralelo a esse encontro, os Estados Unidos enviarão a Kiev o secretário do Exército, Dan Driscoll, com a missão de realizar o mesmo diálogo com o líder ucraniano Volodymyr Zelensky.

<><> 28 pontos

A proposta original dos Estados Unidos, anunciada na semana anterior, continha 28 pontos, incluindo o reconhecimento da Crimeia e do Donbas como território legítimo da Rússia e a definição do idioma russo como língua oficial em ambos os territórios.

Também estipulava que a Ucrânia não poderá ser aceita como membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e será obrigada a reduzir o tamanho das suas forças armadas.

Outro ponto importante seria a obrigação aos Estados Unidos e à União Europeia de levantar gradualmente todas as sanções econômicas impostas à Rússia.

Finalmente, a Ucrânia se comprometeria a realizar eleições presidenciais dentro de um prazo máximo de 100 dias após a entrada em vigor do documento.

Resta saber quais desses pontos foram alterados, quais foram mantidos e como ficou o texto que será discutido entre Moscou e Kiev a partir de agora.

•        Putin reforça ameaça e diz que só haverá paz se Ucrânia ceder territórios

O presidente russo Vladimir Putin reforçou suas principais exigências para o fim da guerra na Ucrânia, afirmando que a Rússia só abandonará as armas se as tropas de Kiev se retirarem do território reivindicado por Moscou.

Putin tem pressionado pelo reconhecimento legal dos territórios ucranianos que a Rússia tomou à força.

Eles incluem a península da Crimeia, que foi ilegalmente anexada em 2014, e Donbas, composto por Luhansk e Donetsk, que tem hoje sua maior parte ocupada por Moscou.

Para Kiev, que já descartou abrir mão das partes de Donbas que ainda controla, recompensar a Rússia por sua agressão está fora de questão.

Ao falar com repórteres durante uma viagem ao Quirguistão, Putin acusou Kiev de querer lutar "até o último ucraniano" — algo que, segundo ele, a Rússia também estava, "a princípio", pronta para fazer.

Ele repetiu sua posição de que a Rússia está motivada nos campos de batalha e que a luta só vai acabar quando as tropas ucranianas se retirarem dos territórios em disputa.

"Se eles não abrirem mão, conquistaremos isso pela força das armas", afirmou.

Ainda assim, os lentos avanços da Rússia no leste da Ucrânia têm tido um custo significativo em termos de mão de obra.

Segundo o Instituto para Estudo de Guerra, sediado nos Estados Unidos, nesse ritmo, Moscou levaria quase mais dois anos para tomar o restante da região de Donetsk.

A declaração deste quinta-feira foi a primeira em que Putin abordou os intensos movimentos diplomáticos da última semana, quando os EUA e a Ucrânia mantiveram discussões intensas sobre um plano de paz supostamente elaborado em outubro por autoridades americanas e russas.

O plano, fortemente inclinado às exigências de Moscou, foi posteriormente revisado.

Contudo, acredita-se que ele não trate da questão dos territórios ocupados que, juntamente com garantias de segurança para a Ucrânia, é o maior ponto de discórdia entre Moscou e Kiev.

Putin disse que o novo rascunho do plano já foi apresentado à Rússia e que poderia se tornar uma "base" para um futuro acordos para encerrar a guerra.

Apesar disso, ele acrescentou que era "absolutamente necessário" discutir "certos pontos específicos que precisam ser colocados em linguagem diplomática".

Questionado sobre a possibilidade da Crimeia e Donbas serem reconhecidas sob controle russo, mas não legalmente, Putin disse: "Esse é o ponto da nossa discussão com nossos colegas americanos".

Ele confirmou que uma delegação dos EUA, incluindo o enviado especial Steve Witkoff, é esperada em Moscou na primeira metade da próxima semana.

O presidente americano, Donald Trump, disse a repórteres que Witkoff pode ir para Moscou acompanhado de seu genro, Jared Kushner.

Enquanto isso, o principal assessor presidencial da Ucrânia, Andriy Yermak, disse que o secretário do Exército dos EUA, Dan Driscoll, deve visita Kiev no final da semana.

Na quarta-feira, Trump disse que havia "apenas alguns pontos de discordância restantes" entre Rússia e Ucrânia, indicando que qualquer reunião com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky para discutir esses pontos estava condicionada à assinatura de um acordo de paz.

Durante sua conversa com repórteres, Putin mais uma vez expressou seu desprezo pela liderança ucraniana, que ele disse considerar ilegítima.

Por isso, "não adiantava" assinar qualquer documento com eles, acrescentou.

A Ucrânia está sob lei marcial desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022, e, por isso, não pôde realizar as eleições programadas.

No início do ano, o Parlamento ucraniano votou de forma unânime para afirmar a legitimidade do presidente Zelensky, cujo mandato terminou no primeiro semestre.

Putin também descartou os alertas de líderes europeus de que a Rússia poderia atacar o continente europeu nas próximas décadas.

"Isso nos parece ridículo", disse.

A Casa Branca e Donald Trump têm se mostrado otimistas sobre os recentes esforços diplomáticos para negociações de paz, mas os europeus têm expressado repetidamente seu ceticismo em relação a Putin realmente acabar com a guerra.

Nesta quarta (26/11), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, acusou a Rússia de manter uma mentalidade pós-Segunda Guerra Mundial e de ver o continente europeu como uma "esfera de influência", na qual nações soberana poderiam ser "divididas".

¨      Ucranianos estão voltando a falar russo em escolas em Kiev

Após o início da invasão russa em grande escala , em fevereiro de 2022, muitos na Ucrânia passaram a falar exclusivamente ucraniano, deixando o russo de lado no dia a dia. O país é considerado bilíngue. Embora o ucraniano fosse a língua oficial do país, o russo predominava em várias regiões do leste. Com o início da guerra, muitos se recusaram a usar o idioma do país invasor.

No entanto, com o tempo, esse impulso emocional inicial parece ter diminuído, e alguns ucranianos que falam russo voltaram a usar seu idioma nativo. Um número significativo de jovens em idade escolar, e às vezes até mesmo professores, continua a se comunicar em russo.

De acordo com um estudo do Serviço Estatal para a Qualidade da Educação, realizado em cooperação com o Comissário para a Proteção do Ucraniano como Língua Oficial, entre abril e maio de 2025, o uso do ucraniano nas escolas está aumentando de forma geral. O estudo constatou que 48% dos alunos entrevistados na Ucrânia se comunicam exclusivamente em ucraniano, o que representa um aumento de sete pontos percentuais em comparação com o ano letivo anterior.

Contudo, essa constatação não se aplica igualmente a todas as regiões: os resultados são particularmente impressionantes na capital, Kiev, onde se observa até mesmo uma tendência negativa. A porcentagem de alunos que usam exclusivamente o ucraniano em suas escolas diminuiu dez pontos percentuais em comparação com o ano letivo passado, chegando agora a apenas 17%.

<><> Ucraniano em sala de aula, russo nos intervalos

Oksana (que prefere não revelar seu nome verdadeiro) é professora em uma escola em Kiev. "Em sala de aula, as crianças falam ucraniano, mas quando o sinal toca para o intervalo, elas começam a falar russo entre si", relata. "Temos até um menino que quer falar russo em sala de aula. A família dele fala russo e ele não entende bem ucraniano", conta Oksana.

A aluna Iryna, que frequenta outra escola em Kiev, relata algo semelhante. "A maioria das meninas da nossa turma fala ucraniano, mas quase todos os meninos falam russo", explica Iryna. Ela própria fala ucraniano tanto em casa quanto na escola. Apenas ocasionalmente usa uma língua mista, difundida na Ucrânia, chamada "Surzhyk".

O declínio no uso do ucraniano entre os estudantes de Kiev pode ser atribuído ao grande número de imigrantes das regiões leste do país, onde a proporção de escolas de língua russa era maior, afirma Olena Ivanovska, Comissária para a Proteção da Língua Oficial.

A professora Oksana compartilha dessa observação. "Por exemplo, uma menina fala ucraniano comigo e, quando o pai a busca, ela imediatamente muda para o russo", explica. Segundo ela, a família é de deslocados internos do leste da Ucrânia.

Valentyna, mãe de um aluno do sétimo ano de outra escola de Kiev, acredita que há outro motivo para tantos estudantes falarem russo. "Na minha opinião, isso se deve à predominância de conteúdo em russo no YouTube e nas redes sociais. Eles também jogam jogos online nos quais a comunicação é em russo", disse.

<><> Como é a situação linguística no dia a dia?

O fato de muitas pessoas na capital ucraniana falarem russo não surpreende Oleksiy Antypovych, diretor do instituto de pesquisas Rating. "Em Kiev, cerca de 50% falam ucraniano, pouco menos de 20% russo e 30% falam ambos os idiomas. Aliás, o número de entrevistados que declaram falar russo em Kiev é o dobro da média ucraniana", afirmou, citando um estudo de seu instituto.

Os entrevistados da DW também observaram um retorno do russo ao cotidiano. "Com o início da invasão em larga escala, houve uma mobilização maciça de forças internas em relação aos nossos símbolos nacionais. Desde 2024, o idioma russo, especialmente em Kiev, voltou a estar presente nas ruas e deixou der ser algo malvisto", afirmou Antypovych.

<><> Ambiente de aprendizagem do ucraniano por lei?

Olena Ivanovska acredita que ainda há muito trabalho a ser feito para criar um ambiente de língua ucraniana nas escolas do país, inclusive fora da sala de aula. "O patriotismo por si só não basta. É preciso a vontade do Estado e uma política consistente em relação ao idioma usado por professores e administradores escolares."

Portanto, é importante "que o Parlamento aprove o projeto de lei para garantir um ambiente de aprendizagem em língua ucraniana nas instituições de ensino", afirma a Comissária para a Proteção da Língua Oficial.

O projeto de lei, apresentado ao Parlamento em outubro de 2024, define o termo "ambiente de aprendizagem em língua ucraniana". Ele estipula que o processo educacional abrange não apenas as aulas, mas também os intervalos, a comunicação nas dependências da escola e outras atividades educativas. Se a lei for aprovada, as autoridades serão obrigadas a desenvolver um sistema para avaliar a proficiência linguística das crianças. No entanto, não são previstas medidas contra alunos ou pais que se comuniquem em russo.

"Além disso, precisamos deixar claro para os pais que falam russo com seus filhos em casa que seus filhos estarão em desvantagem significativa quando começarem a frequentar a escola, em comparação com outras crianças cuja língua materna é o ucraniano", acrescenta Ivanovska.

<><> Importância da cultura pop

Novas leis por si só provavelmente não são suficientes. Além de instrumentos legais, também é necessário conteúdo ucraniano de alta qualidade, afirma a Comissária para a Proteção da Língua Oficial. O conhecido blogueiro ucraniano Andriy Shymanovsky chama a atenção para a grande importância e influência da cultura pop sobre as crianças.

"Não temos nenhum blogueiro infantil ucraniano criando conteúdo interessante sobre experimentos, pegadinhas e desafios", pontuou. Schymanowsky está convencido de que as crianças compartilham conteúdo em russo entre si porque geralmente o acham mais divertido.

"Se não houver nada engraçado em ucraniano, estamos em desvantagem. Além disso, as crianças hoje em dia jogam jogos de tiro populares, que em sua maioria não são em ucraniano. É por isso que precisamos de uma grande variedade de conteúdo em nosso idioma, e não apenas conteúdo acadêmico", acrescentou o blogueiro.

 

Fonte: Opera Mundi/BBC News Mundo/DW Brasil

 

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