José
Luiz Fiori: A maior ameaça vem da Europa
No dia
10 de setembro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen, em seu
discurso sobre o “estado da união” frente ao Parlamento Europeu, declarou que a
“Europa está numa guerra”. E completou seu argumento dizendo que “as linhas de
batalha por uma nova ordem mundial baseada no poder estão sendo traçadas, e a
Europa precisa lutar por seus valores e pelo direito de escolher o seu
destino”. E neste momento, este é o pensamento dominante da elite política
e da grande imprensa europeia, conservadora e social-democrata. Todos
consideram que a Rússia é uma ameaça iminente, e que a Europa deve se preparar
para uma guerra inevitável no prazo máximo de uns 5 a 10 anos, e deve fazê-lo
com suas próprias forças, sem contar com o apoio dos EUA. Muitos consideram que
esta é a grande oportunidade, e talvez o único caminho possível para que a
Europa possa recuperar sua posição perdida dentro do Sistema Internacional.
Essa
visão dos europeus explica sua estratégia de prolongação da guerra na Ucrânia
por um, dois e até cinco anos, tempo necessário para que a Europa possa se
rearmar e se autonomizar do apoio militar norte-americano para enfrentar a
guerra que a UE e a OTAN estão prevendo. O problema imediato, entretanto, é que
se não houver uma negociação de paz, a Rússia deve vencer no campo de batalha
em muito menos tempo do que os europeus estão programando. Além disso, segundo
a opinião da maioria dos analistas militares, a Europa seguirá dependendo, por
muitos anos, de alguns “suportes críticos” fornecidos pelos EUA, como é o caso
da inteligência por satélites, dos foguetes de longo alcance, dos sistemas de
defesa aérea, do transporte pesado e dos sistemas digitais que permitem a
utilização simultânea de vários armamentos. Seriam necessários pelo menos dez
anos de esforço concentrado da parte dos europeus, sobretudo se tivermos em
conta que a França e a Inglaterra se encontram sem recursos e em situação quase
falimentar, enquanto a economia alemã está estagnada há cinco anos e enfrenta
um acelerado processo de desindustrialização, graças à suspensão europeia de
suas importações de petróleo e gás russos.
Neste
momento, o panorama europeu é sombrio e existe no ar um maldisfarçado
sentimento de derrota da União Europeia e da OTAN. No campo de batalha, as
forças ucranianas estão sendo derrotadas de maneira implacável pelas tropas
russas, apesar do enorme apoio financeiro, logístico e humano, e de todo o
armamento de última geração que os europeus e a OTAN seguem fornecendo aos
ucranianos. Soma-se a este sentimento de derrota o insucesso imediato do ataque
econômico massivo arquitetado pelos EUA e pelos europeus, visando quebrar a
espinha dorsal da economia russa e sua capacidade de seguir financiando sua
guerra contra a Ucrânia.
Além
disso, a União Europeia aparece dividida internamente, e já não existe mais
consenso com relação à própria guerra da Ucrânia, tendo em vista a posição
dissidente da Hungria, que vem conquistando novos apoios nas eleições recentes
realizadas na Eslováquia e na República Checa, além da oposição reticente da
Sérvia e da própria Turquia dentro da OTAN. Apesar da intervenção cada vez
explícita e direta de Bruxelas nas eleições dos países-membros, em favor de
seus aliados locais partidários do belicismo de Bruxelas. Além disso,
multiplicam-se as divergências internas com relação a outros assuntos, como no
caso da apropriação europeia das reservas russas depositadas em bancos
europeus, ou mesmo com relação ao novo “orçamento de guerra” proposto por
Bruxelas.
Para
driblar essas dissidências dentro da própria OTAN (sobretudo depois da
reaproximação entre EUA e Rússia), a Inglaterra propôs a criação da “coalizão
da boa vontade”, reunindo apenas os governos mais belicistas, e em particular a
própria Inglaterra, a França e a Alemanha. Esta mesma coalizão, entretanto,
aparece dividida e muito fraca, graças à oposição interna de suas populações. O
primeiro-ministro inglês, Keir Starmer (que lidera essa “coalizão da boa
vontade”), tem hoje apenas 13% de apoio da opinião pública inglesa, enquanto
seu sócio direto, Emannuel Macron, é apoiado por 14% e preside um país que está
praticamente sem governo. Por outro lado, o primeiro-ministro alemão, Friedrich
Merz, que tomou posse faz pouco tempo tem apenas 20% de apoio, e sua coalizão
de governo com os social-democratas está empatada nas pesquisas eleitorais com
a AfD, partido de oposição de direita contrário à continuação da guerra,
favorável a uma negociação com a Rússia e de oposição à linha atual da Comissão
Europeia. E por fim, a Polônia também está dividida e rachada, com um
presidente que não apoia a posição europeísta e belicista de seu
primeiro-ministro.
De
forma mais ampla, o que se constata é um sentimento generalizado de
insatisfação das populações com relação aos seus governantes e às próprias
instituições políticas europeias. Um quadro agravado pelo fato de que a Europa
esteja hoje nas mãos de uma geração de dirigentes políticos extremamente
medíocres, incapazes de formular alguma ideia ou algum projeto novo para a o
Velho Continente, que não seja sua estratégia de volta à guerra, prática mais
antiga e permanente dos europeus. Destacando-se o chanceler alemão por sua
completa falta de carisma, sua ignorância internacional e sua absoluta
incapacidade diplomática, num momento de tamanha gravidade, e dada a
importância central da Alemanha no tabuleiro europeu, Por isso mesmo, hoje
nenhum desses governantes tem capacidade hoje de mobilizar a juventude dos seus
países para lutar na Ucrânia, ou para se alistar a uma futura guerra contra a
Rússia.
Em
síntese, a Europa encontra-se estagnada, dividida e fragilizada, e suas elites
política e intelectual estão tomadas pelo desejo de guerra e revanche contra a
Rússia. Um ressentimento pela perda de sua força e influência imediatas, mas
sobretudo pela perda do poder e da centralidade que tiveram dentro do Sistema
Internacional nos últimos trezentos anos.
No
início do século XVIII, o diplomata francês Abbé de Saint Pierre publicou uma
obra fundamental na história das ideias e dos grandes debates internacionais,
sobre a “guerra e a paz”. Foi ele que formulou, pela primeira vez, a tese
de que uma das causas fundamentais de todas as guerras é o ressentimento dos
derrotados e seu desejo de reconquistar a posição que perderam. Esta tese de
Saint Pierre foi retomada posteriormente por vários outros autores, e foi
corroborada pela história das guerras da Espanha e da França nos séculos XVIII
e XIX; da Alemanha, nos séculos XIX e XX; e pela história mais recente da
retomada do poder militar pela China e pela Rússia, nos séculos XX e XXI. E
tudo indica que a grande candidata a ocupar a posição da “potência ressentida”
dessa primeira metade do século seja a Europa.
O
grande problema é que o ressentimento impede muitas vezes que se consiga fazer
uma avaliação realista da correlação de forças existente em determinada
situação de conflito. E é isto que está acontecendo com os governantes e
comandantes militares europeus ao avaliarem sua força, neste momento, frente ao
poder militar russo. Sobretudo depois que o presidente russo, Vladimir Putin
anunciou, em 28 de outubro último, o teste bem-sucedido do míssil cruzeiro
Burevestnik e do drone subaquático Poseidon, movidos a energia nuclear e com
alcance ilimitado. Duas armas que os especialistas e estrategas militares de
língua inglesa chamam de game-changing weapon. Ou seja, não há no
mundo tecnologia equivalente ou armamento capaz de interceptar ou destruir
esses mísseis, que já “sucatearam” antecipadamente o sistema antimísseis
projetado por Donald Trump – seu Golden Dome – que ficará
operacional apenas em 2030.
Muitos
preferem acreditar que se trate de um blefe russo, mas todas as evidências
indicam que os testes ocorreram e foram bem-sucedidos, e que hoje a assimetria
do poder de fogo entre a OTAN e a Rússia é de tal ordem que um erro de cálculo
dos europeus poderá significar o desaparecimento da própria Europa, com efeitos
catastróficos para o “resto da humanidade”. E a obsessão belicista dos atuais
governantes europeus sugere que eles estão dispostos a “pagar para ver”.
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Pode a Europa impedir uma "paz" injusta na
Ucrânia – e o que está em jogo se isso falhar?
Com o
futuro da Ucrânia novamente em jogo na geopolítica, a Europa enfrenta seu
próprio momento decisivo. Estará preparada para defender Kiev contra a
imposição de uma “paz” unilateral que beneficia Vladimir Putin e mina a segurança de todo o
continente?
Não é a
primeira vez que governos europeus são mantidos no escuro sobre propostas
secretas apoiadas pelos EUA para pôr fim à guerra da Rússia. Vazado para a
mídia na semana passada, o mais recente plano incendiário de 28 pontos era tão
tendencioso a favor da Rússia que há suspeitas de que tenha
sido parcialmente redigido no Kremlin (com direito a uma tradução russa malfeita ).
Os
termos deste plano chocantemente punitivo congelariam as linhas de batalha, mas
exigiriam que Kiev cedesse vastas áreas de território que ainda controla;
reduzisse drasticamente o tamanho de seu exército; aceitasse anistia pelas
atrocidades e crimes de guerra russos; e se retirasse definitivamente da OTAN.
Não é de admirar que o presidente Zelenskyy tenha dito a
seus compatriotas que
isso os colocava diante de um dos momentos mais difíceis de sua história.
No
entanto, com pressa de reivindicar o crédito pela paz – aparentemente a
qualquer preço – Donald Trump deu um ultimato à Ucrânia: aprovar a lista de
compras da Rússia até o Dia de Ação de Graças ou, subentendeu-se, correr o
risco de perder a ajuda militar e de inteligência dos EUA: um prazo nada festivo .
Os dias
que se seguiram pareceram uma repetição de agosto, quando Trump estendeu o
tapete vermelho para Putin no Alasca e deixou líderes europeus à margem,
correndo em massa para a Casa Branca, acompanhando Zelenskyy, para minimizar os
danos.
Desta
vez, apesar de Trump ter repreendido o presidente ucraniano pela "falta de
gratidão", as negociações de emergência em Genebra teriam ajustado o plano para
"preservar a soberania da Ucrânia". Trump suavizou seu discurso (e prazo),
afirmando que as negociações com a Ucrânia estão dando frutos e que seu enviado
especial, Steve Witkoff, retornará em breve a Moscou.
Se um
acordo mais aceitável estiver a caminho, pode ser porque a França, a Alemanha e o Reino Unido
ajudaram a Ucrânia a
resistir. Não se trata apenas de solidariedade: estes países podem ter de
enviar tropas para o terreno para garantir o cumprimento de um eventual acordo.
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Pé na porta
Não há,
contudo, motivos para acreditar que Moscou aceitará qualquer plano que não
envolva a capitulação de Kiev – ou mesmo que a Rússia busque pôr fim à guerra. “Putin não vê
problema algum em continuar a guerra”, disse Tatiana Stanovaya, do Centro
Carnegie Rússia-Eurásia, ao repórter de assuntos russos do Guardian, Pjotr Sauer.
Num
momento tão perigoso, cabe mais do que nunca à Europa exigir que a Ucrânia alcance uma paz justa – tanto por
razões morais como por interesse próprio, visando a segurança dos países
vizinhos europeus da Ucrânia.
Mas
como a Europa pode evitar uma manobra dos EUA, especialmente se Moscou mantiver
suas exigências territoriais descabidas e Trump perder a paciência com
Zelensky? Antecipar-se a qualquer cúpula entre Trump e Putin é fundamental,
dizem analistas. Os apoiadores europeus da Ucrânia precisam deixar claro para
Trump que a segurança da Ucrânia é a segurança
da Europa .
“Os
europeus reclamam de não estarem presentes nas negociações, mas eles têm poder
de ação”, disse Jana Kobzova, especialista em
Ucrânia do Conselho Europeu de Relações Exteriores, no podcast do think tank . “Eles podem
se fazer ouvir e dizer: ‘Estas são as coisas que não vamos tolerar’”.
A
Europa já está arcando com a maior parte do custo da resistência da Ucrânia,
mesmo que tenha se mostrado hesitante, dividida ou complacente demais para dar
a Kiev as cartas na manga necessárias para a negociação.
A peça
de influência europeia mais impactante pode se revelar um plano delicado (e, segundo a Bélgica, juridicamente
questionável) da UE para um "empréstimo de reparações" de € 140
bilhões para a Ucrânia , garantido por bilhões em depósitos do banco
central russo, congelados no Ocidente pelas sanções da UE. Os ativos
confiscados (em sua maioria mantidos em um depósito na Bélgica) poderiam
transformar a situação de quase falência da Ucrânia e
ajudá-la a vencer a guerra. Mas a proposta também estipulava o uso de US$ 100
bilhões desses ativos russos para investimento, com os EUA ficando com 50% dos
lucros. Agora, a UE precisa decidir urgentemente se quer priorizar os ativos ou
se buscará alternativas de financiamento.
Bruxelas
suspeita que a economia da Rússia esteja em pior estado do que admite, devido a
medidas como a nova proibição da UE às importações
de gás russo. "Eles [Moscou] querem que acreditemos que podem continuar
esta guerra para sempre. Isso não é verdade", disse Kaja Kallas, Alta
Representante da UE e ex-Primeira-Ministra da Estônia, à BBC.
Os
riscos são enormes para a Europa se Moscou conseguir alterar as fronteiras à
força. “Se a Ucrânia capitular conforme o plano da Rússia, a guerra no resto da
Europa estará um passo mais perto, e os europeus entendem isso. Portanto, não é
por bondade que eles se manteriam ao lado da Ucrânia, mas porque compreendem
que sua própria segurança está em jogo”, disse-me Nathalie Tocci, diretora do
Instituto Italiano de Relações Internacionais e colaboradora do Guardian
Europe.
Para
Tocci, o cenário mais provável a médio prazo não é a rendição da Ucrânia, mas
sim um em que os EUA e a Rússia (incentivados por linha-dura americanos,
incluindo JD Vance) cheguem a um acordo bilateral, deixando a Europa com a
Ucrânia.
“Nesse
cenário, os europeus deveriam parar de se iludir achando que podem trabalhar
com Trump na questão da Ucrânia. Deveriam agradecer sinceramente ao presidente
americano e persuadi-lo a se afastar e apostar em outro conflito para ganhar
seu Prêmio Nobel da Paz. De qualquer forma, a guerra continua por enquanto.”
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A UE convidou a Ucrânia a aderir ao clube, mas será que
isso algum dia acontecerá?
Volodymyr
Zelenskyy pode ser um líder em tempos de guerra, mas também luta para
concretizar ambições de tempos de paz: ele quer que a Ucrânia se torne um país
da UE – em breve. O incansável presidente da Ucrânia está intensificando a pressão sobre os
governos da UE para acelerar o lento processo de adesão: ele vê o sacrifício
coletivo de seu povo como uma luta “pelo futuro da Ucrânia, o futuro da Ucrânia
na União Europeia”. Esse sonho de 40 milhões de ucranianos obterem a cidadania
da UE é – teoricamente – compartilhado pelo próprio bloco. Nenhuma reunião em
Bruxelas hoje em dia está completa sem que a inclusão da Ucrânia seja
mencionada como um “imperativo geopolítico”.
Essa
linguagem apresenta a sobrevivência da Ucrânia e a segurança futura da Europa
como duas faces da mesma moeda. No entanto, durante anos após o "big bang" de 2004 , que trouxe à
Europa dez ex-estados do bloco oriental, não havia qualquer interesse em novos
membros, muito menos na Ucrânia. Os tanques de Putin mudaram tudo isso: poucos
meses após a invasão ilegal de 2022, Kiev solicitou e obteve o status de "país
candidato". Um ano depois, os governos europeus tomaram a decisão
histórica de iniciar negociações de adesão com um país em guerra, embora sem um
prazo definido. A vizinha Moldávia, ex-república soviética temida como a
próxima na mira de Putin, ascendeu ao topo da fila, juntamente com a Ucrânia.
Na
semana passada, a Comissão Europeia publicou sua avaliação oficial da situação de
10 países candidatos e colocou a Ucrânia e a Moldávia entre os quatro
principais candidatos, juntamente com a Albânia e Montenegro. Kaja Kallas,
chefe da diplomacia da UE, afirmou que é uma meta realista que esses quatro
países estejam na UE até 2030.
O
veredicto positivo da Ucrânia é objetivamente impressionante. Os ataques aéreos
russos bombardeiam sua rede elétrica todas as noites, seus cofres
estão quase vazios e milhões de pessoas são refugiadas, figurativamente
acampadas em outros lugares da Europa. Seus negociadores muitas vezes estão
literalmente em bunkers. Mas em Bruxelas, as autoridades estão otimistas com o
enorme esforço de reforma em andamento em Kiev, apesar das preocupações
persistentes com a corrupção. Detalhes de um suposto escândalo na operadora
estatal de energia da Ucrânia ainda estão surgindo . Mesmo assim,
afirmam que as negociações podem ser concluídas até o final de 2028. As
conversas com os pequenos Montenegro e Albânia podem ser finalizadas até 2026 e
2027, respectivamente.
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Não tão depressa
Existe,
no entanto, uma discrepância preocupante na realidade: o executivo da UE não
decide quem entra. Quem decide são os 27 governos da UE, que precisam chegar a
um consenso unânime em cada fase. E, pelo menos por enquanto, o autocrata
residente da UE, Viktor Orbán, está bloqueando a abertura formal das
negociações com Kiev. E como a Moldávia está agrupada com a Ucrânia, também
está num impasse.
Todas
as atenções estão voltadas para as eleições na Hungria em abril, que podem derrubar Orbán. Mas
outros governos da UE com preocupações políticas internas podem estar se
escondendo atrás da Hungria. Com partidos de extrema-direita em ascensão na
França, na Alemanha e já no governo em outros países, o contexto mais amplo
para a aceitação da Ucrânia é assustador.
Analistas
apontam para uma discrepância entre os compromissos verbais e as intenções
reais. "Não estou convencido de que muitos países da UE realmente desejem
que a Ucrânia seja um membro pleno, por diferentes razões", afirma um
observador atento do processo. "E isso é uma tragédia: porque a UE
ganharia na loteria se aceitasse a Ucrânia."
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Quais são os obstáculos?
O
argumento geopolítico para a admissão da Ucrânia pode ser ainda mais premente à
luz da “ guerra híbrida ” de Putin
contra a Europa, mas, dada a sua dimensão e complexidade, os obstáculos
políticos e orçamentais também o são. Mesmo após a conclusão das negociações, a
ratificação por todos os 27 Estados-membros – alguns exigem referendos – é
legalmente necessária para qualquer nova adesão. E embora o apoio público à admissão
da Ucrânia seja
certamente elevado na Suécia, Finlândia e Dinamarca, 41% da população em toda a
UE opõe-se a ela.
Partidos
de extrema-direita estão ganhando terreno e alguns deles são veementemente
antieuropeus e contrários ao alargamento da União Europeia. Com a Reunião
Nacional, de extrema-direita, de Marine Le Pen, provavelmente a caminho do
poder na França em 2027, um referendo francês sobre a permanência da Ucrânia
seria uma batalha árdua. Mesmo entre os países favoráveis ao alargamento, há
apreensão quanto aos custos envolvidos, dada a relativa pobreza
da Ucrânia e suas enormes necessidades de reconstrução.
Uma acirrada disputa sobre a apreensão de € 140 bilhões em ativos russos
congelados para
socorrer a Ucrânia antes que o país fique sem dinheiro em março ainda está em
curso. Enquanto isso, Polônia, Hungria e Eslováquia temem que suas economias
agrícolas sofram se a Ucrânia, uma grande nação agrícola e rival comercial, se
tornar elegível para subsídios agrícolas.
Tem-se
receio de que o alargamento, em termos mais amplos, possa desestabilizar em vez
de fortalecer a UE, a menos que sejam realizadas primeiro reformas internas
para evitar a paralisia num clube de cerca de 30 nações. Mas isso poderá levar
anos.
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Corações, mentes e cavalos de Troia
Autoridades
em Bruxelas podem ter soluções criativas para o veto de Orbán, como o
"antecipação", em que as negociações poderiam começar informalmente
até que o veto de Budapeste seja suspenso.
Fala-se
também em incluir novas e rigorosas salvaguardas legais e longos períodos
probatórios nos novos tratados de adesão para tranquilizar os céticos. Ninguém
quer novos membros que, no papel, pareçam operar segundo o Estado de Direito,
mas que se revelem " cavalos de Troia" .
Estão
sendo planejadas campanhas de relações públicas e “narrativas” para conquistar
os corações e as mentes dos cidadãos tanto nos países atuais quanto nos países
candidatos. É evidente, no entanto, que alimentar esperanças e depois deixar
milhões de pessoas em um limbo indefinido acarreta perigos. Como alertou na
semana passada a presidente da Moldávia, Maia Sandu, que em setembro superou a
interferência russa para obter uma notável vitória eleitoral pró-UE: “Se não
cumprirmos o prometido nos próximos três anos… qual será a mensagem para o
povo?”
Em entrevista exclusiva concedida a Luke Harding,
do jornal The Guardian, no domingo, Zelenskyy enfatizou os riscos de a
Rússia entrar em guerra contra outro país europeu antes do fim do conflito na
Ucrânia. Ele também destacou a resiliência da Ucrânia neste momento crítico e seu
amor pelos compatriotas. "Acredito que o povo [ucraniano] é unido por algo
maior do que a mera lógica."
Talvez a Europa também precise
de algo que ultrapasse a lógica .
Fonte: Outras
Palavras/The Guardian

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