Trump
não tem problema em descartar aliados, diz pesquisador americano sobre relação
com Bolsonaro
Após
demonstrar forte apoio a Jair Bolsonaro neste ano — com anúncio de um tarifaço
sobre produtos brasileiros por causa do julgamento do ex-presidente — o governo
americano de Donald Trump estaria tomando agora atitudes mais pragmáticas em
relação ao país. A avaliação é de Christopher Sabatini, professor americano e
pesquisador sênior do programa América Latina, EUA e Américas da Chatham House,
um dos principais think tank (centro de estudos) britânicos, com sede em
Londres. "Trump é um pensador político muito pragmático e de longo prazo.
Direcionar toda a sua agenda política e de políticas públicas para o Brasil
para um presidente que agiu de uma forma realmente repreensível [como fez
Bolsonaro], eu acho que é uma aposta arriscada", disse Sabatini em
entrevista à BBC News Brasil.
Para o
pesquisador, Trump mostrou em sua carreira como empresário e político que nunca
teve problema em descartar aliados quando eles não servissem mais seus
interesses políticos.
O mesmo
poderia estar acontecendo agora em relação a Bolsonaro, segundo ele. "Eu
suspeito que se você é Trump, ao ver seu antigo aliado cometendo um ato muito
estranho e sendo preso, você pensa: 'Talvez isso não sirva aos meus interesses
políticos ou pessoais a longo prazo'".
Para o
pesquisador, o começo do cumprimento da sentença de Bolsonaro e a tentativa do
ex-presidente de interferir na sua tornozeleira eletrônica são episódios que
afastam as pessoas — sejam eleitores, empresários ou políticos como Trump — do
bolsonarismo. Por isso, ele acredita que existe um momento de inflexão da
direita brasileira em busca de um candidato mais moderado. Até agora, na sua
avaliação, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem
sido quem mais se mostrou capacitado para ocupar esse espaço. Ele acredita que
um candidato moderado apoiado pela direita e pelo bolsonarismo estaria em
posição mais favorável de vencer a eleição com alternativas "menos
tóxicas, menos prejudiciais, mas que ainda compartilhem a visão política e a
visão de mundo de Trump".
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Confira abaixo trechos da entrevista:.
• A prisão de Bolsonaro é um sinal de que
o país está avançando? Ou é o começo de mais uma crise política?
Christopher
Sabatini: Acho que há coisas importantes aqui. A primeira é o fato de o sistema
judiciário estar agindo de forma independente — reagindo da mesma maneira que
reagiria com qualquer criminoso ou qualquer pessoa condenada por um crime,
mostrando que não há impunidade, nem mesmo para os mais poderosos.
Jair
Bolsonaro tentou derreter sua tornozeleira eletrônica, e isso foi seguido
rapidamente por uma ordem do juiz para prendê-lo por risco de fuga. Isso
poderia e deveria acontecer com qualquer criminoso, e aconteceu com o
ex-presidente.
Acho
isso muito positivo. E, francamente, vendo as notícias e conversando com
amigos, me parece que a reação dos brasileiros — mesmo dos apoiadores de
Bolsonaro — não foi tão forte ou enfática quanto muitos teriam imaginado há
alguns meses.
Acho
que é um desenvolvimento positivo, porque reforça a ideia de que talvez o
bolsonarismo e o partido ao qual ele se agarrou precisam seguir em frente. Não
apenas [seguir adiante sem] o próprio Jair Bolsonaro, mas também sem sua
família, e buscando outros candidatos que possam representar uma versão mais
moderada de suas ideias.
Ele
ainda representa um setor significante do Brasil. Vimos isso na última eleição,
em que ele ganhou cerca de 49% dos votos. Mas a questão é: existe algum líder
mais moderado que possa ir além da personalidade de Bolsonaro e do bolsonarismo
para consolidar um movimento democrático viável?
• O senhor fala em voz mais moderada, mas
não seria provável vir uma voz ainda mais radical? Afinal, isso atrai muitos
eleitores...
Sabatini:
Sim. Talvez mal comparando, mas me lembro de Alberto Fujimori [ex-presidente do
Peru entre 1990 e 2000], no Peru, depois de renunciar e fugir para o Japão, e
depois tentar voltar e ser preso.
Ele
tinha muito apoio, mas a imagem pública de ver um ex-presidente na prisão tem
um efeito real em como os eleitores percebem esse presidente. Claro que sempre
haverá apoiadores radicais que o apoiarão. Mas acho que isso demonstra que o
sistema judiciário fará cumprir a justiça e as regras.
Acho
que o espetáculo de um presidente que tentou derreter sua tornozeleira
eletrônica é algo que chama atenção de várias organizações empresariais e de
líderes empresariais — que já estavam desconfortáveis com as atividades de
Eduardo [Bolsonaro].
Isso
demonstra que este é um movimento que ainda pode ter alguma ressonância em
termos de alguns valores, alguns interesses que não haviam sido representados
antes, mas que precisa recuperar alguma legitimidade democrática e alguma
alternância de liderança.
• A prisão de Bolsonaro foi bastante
espetacular, e há quem diga que isso possa angariar alguma simpatia ao
ex-presidente, com pessoas dizendo que ele está sendo humilhado. Bolsonaro pode
acabar ganhando algum apoio com esse episódio todo?
Sabatini:
Acho que os apoiadores ferrenhos dele vão defender essa causa de Jair Bolsonaro
como mártir, vítima de um sistema judiciário fora de controle. Mas não acho que
essa seja a narrativa [que irá prevalecer].
Para
muitos líderes empresariais que podem ter se sentido desconfortáveis com
Bolsonaro, mas que também se sentiam desconfortáveis com Lula, eu acho que o
espetáculo de ter um presidente na prisão que estava determinado a mostrar que
podia fugir, que depois admitiu que estava tendo alucinações e que achava que
sua tornozeleira eletrônica o estava ouvindo, é uma situação difícil.
É
difícil para o eleitorado indeciso — acima dos 30% ou 40% que são apoiadores de
Bolsonaro. É difícil para eleitores mais independentes continuar a apoiá-lo,
mesmo que ele seja visto como um mártir.
Ainda
não está claro se ele vai ficar na prisão mesmo pelos próximos 27 anos. Eles
[os juízes] consideraram que há risco de fuga. Ele foi preso porque temiam que
ele fugisse, e já havia rumores de que ele tentaria ir para a Argentina.
Não é
uma boa imagem para um ex-presidente. Não é uma boa imagem para o pai de um
movimento. E certamente não é uma boa imagem para um partido que afirma
representar a democracia.
Acho
que esse movimento - ou outro movimento - agora está percebendo que será
necessário um líder mais responsável, mais pragmático, menos personalista. Um
líder que talvez possa representar alguns desses interesses, mas sem Jair
Bolsonaro.
• Há alguns meses, a grande notícia no
Brasil era a intervenção de Donald Trump com seu tarifaço em favor de
Bolsonaro, demonstrando um forte apoio ao ex-presidente. Esse apoio desapareceu
agora?
Sabatini:
Acho que, de certa forma, Trump percebeu que para um presidente americano se
aliar abertamente a um presidente que tentou dar um golpe — neste caso de forma
mais direta do que Trump, mas com semelhanças muito óbvias — e que agora está
na prisão, é difícil.
Eu acho
que até mesmo o governo Trump agora percebe que talvez a imposição de tarifas
sobre o Brasil por causa de Jair Bolsonaro tenha sido um exagero. Sabemos que
ele ouviu muito de líderes empresariais brasileiros que estão mais alinhados,
de muitas maneiras, com os interesses políticos de longo prazo de Trump, e que
não são a favor dessa política.
Eu não
ficaria surpreso se Trump estivesse discretamente tentando recuar de sua
política agressiva e punitiva de apoio a Jair Bolsonaro. Ele pode falar em
defesa [de Bolsonaro], mas a verdade é que Trump é muito transacional, como
sabemos.
E,
agora, Luiz Inácio Lula Silva é o presidente do Brasil, e ele tem uma série de
problemas com o Brasil que precisam ser resolvidos.
Eu
ficaria surpreso se Trump agisse de forma tão agressiva e ruidosa como agiu na
defesa pessoal de Bolsonaro.
Se eu
fosse parte da liderança do Partido Liberal (PL), eu estaria pensando em tentar
fazer com que o partido se elegesse para conceder um indulto a Jair Bolsonaro,
em vez de lançar um candidato que prejudicaria o potencial desse partido de
vencer as eleições do ano que vem.
• Que candidato poderia prejudicar?
Sabatini:
Um dos filhos de Bolsonaro ou alguém que esteja diretamente ligado à família
Bolsonaro. Acho que há um certo nível de fadiga com os Bolsonaro entre certos
segmentos: eleitores independentes e líderes empresariais.
Trump é
um pensador político muito pragmático e de longo prazo. Direcionar toda a sua
agenda política e de políticas públicas para o Brasil para um presidente que
agiu de uma forma realmente repreensível, eu acho que é uma aposta arriscada.
O que
ajudaria [a direita brasileira] é tentar fazer o país seguir em frente sem Jair
Bolsonaro e buscar outras alternativas que sejam menos tóxicas, menos
prejudiciais, mas que ainda compartilhem a visão política e a visão de mundo de
Trump.
• Então você acha que para a direita
brasileira recuperar parte do apoio de Trump, ela teria que se distanciar de
Bolsonaro?
Sabatini:
Sim, eu acho que sim. Novamente, Trump é o tipo de pessoa que corta laços
facilmente com quem ele considera um empecilho.
Vimos
isso ao longo de sua carreira como empresário do imobiliário. Vimos isso
acontecer ao longo de sua carreira na política.
Só para
citar um exemplo, o que aconteceu com Rudy Giuliani [ex-prefeito de Nova York
que foi grande apoiador de Trump no primeiro mandato do presidente]? Ele se
tornou um constrangimento para Trump e Trump seguiu em frente sem ele. Rudy
Giuliani não aparece na Casa Branca.
Trump
percebe quando as pessoas afetam sua agenda política e não tem problema algum
em descartá-las.
E eu
suspeito que se você é Trump, ao ver seu antigo aliado cometendo um ato muito
estranho e sendo preso, você pensa: "Talvez isso não sirva aos meus
interesses políticos ou pessoais a longo prazo".
• A direita brasileira tem se provado
bastante forte, com resultados eleitorais expressivos em eleições locais e para
o Congresso. Com toda essa crise envolvendo Bolsonaro, a direita seguirá forte
na próxima eleição, na sua opinião?
Sabatini:
Acho que, em nível local, sim. Independentemente do que possamos pensar sobre
as visões claramente antidemocráticas, racistas e misóginas de Jair Bolsonaro e
sua política populista, a verdade é que ele preencheu um vácuo no Brasil. Ele
entendeu as correntes políticas no Brasil e ele as representa, queiramos ou
não.
Não
existe e nunca existiu realmente um partido de direita viável, um partido
conservador. E eu diria que Bolsonaro não é realmente conservador, ele é mais
populista. Mas ele representa algumas visões conservadoras em suas opiniões
políticas e econômicas, inclusive em suas visões sobre negócios e relações
exteriores.
Ele
preenche essa lacuna. E, a nível local, vimos que o partido [PL] se saiu muito
bem nas eleições legislativas. E acho que isso se reflete, em parte, na
coalizão que Lula construiu no Congresso.
Acho
que isso continuará. Mas essa consolidação do partido permanecerá enquanto ele
for forte e tiver um candidato presidencial viável
Acho
que este é um ponto de inflexão para o movimento bolsonarista. Ele continuará
sendo personalista, carismático e vertical. Ou pode evoluir para algo mais
institucional, com mudanças de liderança que não estejam atreladas a uma única
família — uma família bastante desastrada e pouco profissional que tenta se
manter no poder defendendo seu pai.
A
questão agora é se esse movimento vai amadurecer e virar um partido democrático
e representativo de verdade.
• Você vê algum candidato emergindo como
aquela figura que você mencionou, que poderia mobilizar a direita, e fazer com
que Trump o apoiasse novamente?
Sabatini:
Eu acho que o principal candidato agora é Tarcísio de Freitas. Ele é moderado.
Ele é pró-negócios. São Paulo ajuda muito nesse sentido. Acho que discretamente
ele tem sido muito bom em mobilizar empresários para a sua causa. Ele tem um
passado maleável. Ele serviu nos governos de Dilma Rousseff e Michel Temer e
Bolsonaro. Acho que ele é visto como muito mais pragmático.
Ele é
alguém que eu acho que poderia atrair Trump e também poderia preencher esse
vácuo de um líder não pertencente à família Bolsonaro no partido, mas que
represente uma relação mais pragmática, e particularmente com o setor privado,
do que Bolsonaro, com uma mão muito mais firme.
Muito
menos errático, muito menos populista, e, francamente, muito menos criminoso.
• Parece haver uma relutância por parte do
próprio Bolsonaro e de sua família em apoiar Tarcísio. Você acha que isso é
apenas uma estratégia para adiar a decisão de quem será candidato em 2026? Ou é
um sinal de que, no fim das contas, eles não vão apoiar Tarcísio e querem ter
seu próprio candidato da família Bolsonaro?
Sabatini:
Acho que há duas coisas aqui. Acho que sim, a intenção deles [de lançar um
candidato da família] é real porque eles veem isso como um projeto familiar.
Eles veem isso como um movimento personalista liderado pelo pai. E que existe
uma espécie de direito deles de concorrer. Mas não é assim que os partidos
funcionam ou deveriam funcionar.
Acho
que Eduardo também foi profundamente prejudicado por sua defesa das sanções.
Acho que há um certo cansaço em relação a Bolsonaro, e acho que o fato dele
estar na prisão aumenta isso.
Aqui
está o que eu acho que Tarcísio provavelmente poderia fazer para aumentar o
apoio da família Bolsonaro a ele como candidato. Primeiro, demonstrar que ele é
muito mais elegível do que Bolsonaro, do que os filhos de Jair Bolsonaro ou sua
esposa.
Mas, em
segundo lugar, prometer um indulto a Jair Bolsonaro. E a verdade é que Jair
Bolsonaro está pensando na própria sobrevivência. Ele pode escolher sair da
prisão de graça em vez de deixar sua família herdar o partido, e essa seria uma
decisão sábia.
Seria
também uma decisão sábia para o partido dele.
Fonte:
BBC News Brasil

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