Associação
de servidores da Bahia denuncia fraudes em consignados do Banco Master
Em ação
direta de inconstitucionalidade ajuizada no Tribunal de Justiça da Bahia (TJ)
segunda-feira passada (24), a Associação dos Funcionários Públicos do Estado da
Bahia (Afpeb) denuncia uma série de fraudes em empréstimos consignados
concedidos aos servidores estaduais pelo cartão Credcesta, que até este ano era
o principal braço de negócios do Banco Master. No processo, a Afpeb pede a
anulação dos decretos que garantiram ao Master a exclusividade sobre os
contratos de consignados com a categoria, baixados em 2018 e 2022 pelo então
governador Rui Costa (PT), e a suspensão dos descontos em folha até o
julgamento final da ação pela corte.
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Batom na gola
A
ofensiva jurídica da associação dos servidores contra o Credcesta é baseada em
dezenas de documentos e contracheques de 20 funcionários públicos estaduais com
indícios de fraude e descontos ilegais. De acordo com a Afpeb, a partir de
2019, quando assumiu o controle dos consignados do estado como herança da
privatização da Ebal (leia-se Cesta do Povo), o "Banco Master passou a
realizar ofertas maciças de crédito via Credcesta, incluindo ligações
telefônicas insistentes e abordagens agressivas para contratação de
empréstimos" e que foram
constatados inúmeros "casos de descontos em folha efetuados sem a devida
autorização dos servidores".
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Além da conta
Em
conversa com a coluna, o advogado da associação, Jorge Falcão Rios, disse que,
além dos descontos ilegais, há indícios claros de cobrança de taxas de juros extorsivas, com
encargos que, em alguns contratos, ultrapassaram 100% ao ano. "Essas
condutas abusivas, incluindo cobranças por compras no cartão que não foram de
fato efetuadas pelo beneficiário, endividaram severamente inúmeros funcionários
públicos, que viram grande parte de seus vencimentos ser consumida pelo
pagamento de dívidas do Credcesta", acrescentou Rios.
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Ecos do passado
Na ação
ao TJ, distribuída para a desembargadora Gardênia Pereira Duarte, Jorge Rios
acrescentou ainda decisões judiciais de primeira instância que comprovaram
fraudes nos consignados operados pelo Banco Master - cujos fundadores, o
mineiro Daniel Vorcaro e o baiano Augusto Lima, o Guga, foram presos pela
Polícia Federal no último dia 17 por suspeita de cometer crimes contra o
sistema financeiro, investigados pela Operação Compliance Zero. Entre os casos,
está o de uma servidora que, ano passado, teve descontos de cerca de R$ 800 por
uma compra realizada na loja online da Apple por um cartão emitido em seu nome
sem autorização.
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Sem perdão
"No
caso, não vislumbro a hipótese de engano justificável, uma vez que não houve
qualquer prova de que a autora (a servidora) tenha solicitado ou contratado o
cartão de crédito em questão. Ademais, as características das transações
contestadas evidenciam a ocorrência de fraude, situação na qual a instituição
financeira deve ser responsabilizada, conforme entendimento firmado pelo
Superior Tribunal de Justiça", destacou a juíza Livia de Melo Barbosa, da
1ª vara dos Juizados Especiais do Consumidor da Capital, em decisão que
condenou o Banco Master a indenizar a servidora por danos morais e materiais.
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Fio da meada
Fora os
pepinos com a Polícia Federal decorrentes de operações fraudulentas
bilionárias, a história do Banco Master com os empréstimos consignados para
servidores do governo estadual e de pelo menos 40 prefeituras baianas, incluindo a de Salvador, é um rocambole
recheado de pontos obscuros. Em 2018, a Ebal, dona do Credcesta, foi
privatizada e arrematada em leilão pela NGV Participações e Empreendimentos,
comandada pelo empresário Joel Feldman.
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Passa e repassa
Cerca
de um ano depois, o negócio foi transferido para o Banco Máxima, antigo nome do
Master. Em meio às suspeitas sobre fraudes na instituição financeira, Guga Lima
rompeu a sociedade com Daniel Vorcaro no fim de 2024 e levou com ele os
contratos de consignados com o
funcionalismo público, agora sob gestão do recém-fundado Banco Pleno.
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Alerta amarelo
"Esse
quadro revela não apenas a quebra da confiança na instituição, mas também um
elevado risco de lesão a milhares de consumidores que contrataram seus serviços
- como é o caso dos servidores públicos que contraíram empréstimos consignados
vinculados ao programa Credcesta", ressaltou o advogado Joel Falcão Rios,
na ação movida junto ao Tribunal de Justiça.
• Banco Master está entre os investigados
por irregularidades em crédito consignado a servidores de MT
O Banco
Master, que foi liquidado pelo Banco Central e virou alvo da Polícia Federal
por suspeita de fabricar carteiras de crédito falsas nesta terça-feira (18),
também está entre as instituições financeiras que forneciam crédito consignado
de forma irregular aos servidores de Mato Grosso, conforme investigado pelo
Tribunal de Contas do estado (TCE-MT) e denunciado pelo Sindicato dos
Profissionais da Área Instrumental do Governo (Sinpaig).
O total
descontado pelo Banco Master em crédito consignado aos servidores do estado, em
2025, chega a mais de R$ 37 milhões, de acordo com Sinpaig. Desde 2024,
contudo, o banco passou a alavancar esse tipo de modalidade de crédito em
diferentes estados e municípios do país.
Em
nota, a defesa do banco disse que as carteiras de créditos alvos da PF foram
captadas junto a terceiros, prática comum no mercado financeiro. Destacou ainda
que na documentação fora do padrão, o banco substituiu essas carteiras feitas
por terceiros e fez a recompra do saldo.
O g1
procurou a Secretaria Estadual de Planejamento e Gestão (Seplag), mas não
obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Essa
liberação de crédito consignado faz parte do caso em que mais de 70% dos
servidores estaduais ficaram superendividados com essa modalidade de empréstimo
com até 15 instituições financeiras, o que entrou no radar do TCE-MT.
Entre
as instituições que ofertavam esse crédito está o Banco Master. No dia 22 de
janeiro, segundo o Diário Oficial do estado, a Seplag por meio do governo
estadual autorizou empréstimo com vigência de 12 de dezembro de 2024 até 11 de
dezembro de 2026. Em outro documento, de junho de 2023, o contrato de crédito
consignado foi autorizado para vigorar de 30 de maio de 2023 até 29 de maio de
2028.
No
entanto, com a investigação em andamento contra o banco, os contratos foram
suspensos até que as irregularidades apontadas sejam esclarecidas.
Já em
outubro, o Tribunal de Contas decidiu, por unanimidade, que "não foram
identificados nos autos do processo da Mesa Técnica elementos que indiquem a
responsabilidade de gestores ou agentes públicos do Poder Executivo pelas
irregularidades relacionadas à contratação de empréstimos consignados por
servidores públicos."
O TCE
determinou ainda a implementação de programas de renegociação de dívidas e de
educação financeira aos servidores atingidos.
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Endividamento
Uma
consultora financeira ouvida pelo g1 analisou contratos e Cédula de Crédito
Bancária (CCBs), faturas entre outros documentos emitidos pela instituição
financeira, bem como análises sobre os créditos consignados dos servidores e
afirmou que dois pontos chamam atenção no caso do Banco Master: o seguro
prestamista — usado em caso de morte quita o saldo devedor da operação —
identificado em todas as operações oferecido com venda casada e o parcelamento
do limite do cartão de crédito. São os dois pontos relevantes, segundo ela, que
contribuem para endividar os servidores.
Isso
ocorreu porque, em alguns casos, a oferta do cartão de crédito era ofertada de
forma distorcida quanto a modalidade, afinal o Banco Master ofertava o saque do
limite integral do cartão de crédito, com o parcelamento imediato da fatura,
onerando muito o saldo devedor a pagar.
Ao
analisar os contratos e CCBs identificou que o valor cobrado e embutido
referente ao seguro prestamista eram valores entre R$ 600 a R$ 900 sem o
consentimento e nem mesmo a ciência e concordância do servidor, o que gerava
uma venda casada. O que de fato ocorria era a oferta do limite parcelado,
distorcendo assim a modalidade do crédito que é "pós pago", que usou
em um determinado mês e pagou no próximo mês.
"Contudo,
há indícios de que o banco teria utilizado esse cartão de forma irregular,
transformando-o na prática em empréstimos consignados com juros abusivos,
chegando a 5,65% ao mês, impactando diretamente servidores públicos do
estado", informou o Sinpaig, em mensagem enviada aos servidores após a
deflagração da operação da PF sobre o Banco Master.
💰Medidas
Em
agosto, o TCE encontrou mais de 60 mil contratos com irregularidades na
concessão do crédito consignado. Por isso, o tribunal encaminhou uma série de
recomendações à Seplag que publicou decreto estabelecendo limites e condições
para a oferta de crédito consignado na folha de pagamento dos servidores. Isso
inclui civis, militares, ativos e inativos, e seus pensionistas no âmbito do
governo estadual.
Segundo
o decreto, fica proibido o uso de dados do sistema de consignados para
marketing e busca comercial, proíbe a contratação por telefone, venda casada e
a utilização de cartão de crédito e cartão de benefício em consignados. A
partir do decreto fica obrigatório a forma presencial para contratação de
crédito por idosos, aposentados e pensionistas.
O
decreto ainda estabeleceu que apenas instituições com presença física no estado
poderão operar. Isso inclui juros limitados ao teto do Conselho Nacional de
Previdência Social (INSS), que atualmente está em 1,85%.
Além
disso, a margem para o consignado passa a ser única e limitada a 35%, com
parcelas reduzidas a no máximo 96, com carência máxima de 60 dias e número de
empréstimos limitados em até cinco por servidor.
• Banco Master: o desastre que ninguém
quis evitar. Por André Vieira
O
colapso do Banco Master abriu um rombo superior a R$ 40 bilhões no Fundo
Garantidor de Créditos (FGC), mas o país ainda se recusa a nomear a raiz do
problema: todo o sistema foi leniente. O Banco Central de Roberto Campos Neto
foi leniente, o FGC foi leniente, os bancos foram lenientes, a imprensa oficial
da Faria Lima foi leniente — e até as plataformas que distribuíram CDBs de 150%
do CDI, e que seguem, de forma nada genial, oferecendo produtos de 200% ou
mais, praticaram a forma mais lucrativa de cegueira voluntária. A narrativa
dominante da liquidação do Master fala em “CDBs garantidos pelo FGC”,
“originação de carteiras fraudulentas” e “impasse com o Banco de Brasília”.
Tudo verdade. Mas verdades que, combinadas, omitem a verdade maior: ninguém
quis interromper o fluxo enquanto o fluxo rendia.
A
Febraban circulou pelo acostamento moral que rege o setor: em público, uma
castidade quase doutrinária; nos bastidores, a alegação de que “alertou”. Mas
alertas privados não são responsabilidade — são álibis. Agora que os bancos
terão de recompor o FGC, as críticas subterrâneas ao BC de Campos Neto soam
como o lamento de quem tolerou até a hora em que a tolerância ficou cara. E
mesmo assim há limites. Parte relevante do sistema ainda idolatra Campos Neto,
sobretudo no ecossistema das plataformas digitais (Nubank), onde ele é tratado
como patrono das fintechs e de sua agenda tributária. Criticar a leniência do
BC sem mencionar esse núcleo de poder é, na prática, admitir o grau de captura
institucional que o setor aceita — e esses agentes operam dentro dessa captura
com total naturalidade.
A
dimensão filosófica é inevitável. O caso Master materializa o “paradoxo da
tolerância” de Karl Popper na sua versão mais prática: instituições toleram
desvios enquanto lucram com eles, até que o desvio se torna grande demais para
ser absorvido — e então todos fingem surpresa. É esse ambiente de
permissividade que agora produz figuras como o “outsider” Daniel Vorcaro, para
o encanto do público, com seus jatos transcontinentais, festas milionárias e
mansões grandiosas.
O
episódio expõe o verdadeiro limite da tolerância financeira no Brasil: largo o
suficiente para permitir aberrações, estreito o bastante para punir o coletivo
quando a narrativa implode. O silêncio público da Febraban, o desconforto
tardio do FGC, as críticas calibradas ao BC de Campos Neto, a disciplina
oficialista dos Pravdas da Faria Lima e a indulgência das plataformas de
captação e distribuição formam uma confissão implícita. Todos viram. Todos
toleraram. Todos lucraram — menos alguns incautos investidores com exposição
acima do teto do FGC ou servidores públicos que tiveram suas poupanças
alienadas por gestores de má-fé. Agora, a fatura de mais de R$ 40 bilhões
revela o custo real dessa tolerância — um preço que, como sempre, ninguém
admite ter ajudado a construir.
• LÍDER DA OPOSIÇÃO, PEDE APURAÇÃO DO TC E
DO MP SOBRE ESCALADA DE EMPRÉSTIMOS DO GOVERNO DA BAHIA
O
deputado estadual Tiago Correia (PSDB), líder da bancada de Oposição na
Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), formulou representações ao Tribunal de
Contas do Estado (TCE-BA) e ao Ministério Público da Bahia (MP-BA) pedindo
apuração sobre o volume de empréstimos solicitados e contratados pelo Governo
do Estado. O documento é subscrito pelos 19 integrantes do bloco.
Em dois
anos e nove meses de mandato, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) já solicitou
22 empréstimos, no total de R$ 26 bilhões, volume superior ao contratado pelos
dois governos anteriores somados. Nesta quarta-feira (26), uma articulação da
oposição conseguiu barrar a votação de um dos pedidos no valor de R$ 2 bilhões.
Na
representação, os parlamentares pedem que o MP-BA instaure um procedimento
investigatório para apurar possível desvio de finalidade na contratação dos
empréstimos, analise potenciais irregularidades eleitorais e administrativas na
concentração de operações de crédito em ano pré-eleitoral e avalie também a
eventual responsabilização civil, administrativa ou por improbidade de agentes
públicos envolvidos.
Ao
TCE-BA, a bancada Oposição requereu a realização de auditoria específica sobre
as 22 operações de crédito solicitadas pelo Governo e que a Corte de Contas
exija a demonstração da capacidade de pagamento do Estado e dos impactos nos
exercícios futuros, assim como verifique a compatibilidade entre os empréstimos
contratados e as obras efetivamente executadas. No final do ano passado uma
auditoria do próprio TCE já havia alertado para o volume expressivo de obras
paralisadas na Bahia e enviou os dados às comissões de Finanças e de
Infraestrutura da Assembleia Legislativa.
A
oposição ainda solicitou do TCE a “determinação da suspensão cautelar de novas
contratações, caso identifique risco ao equilíbrio fiscal ou inconsistências
técnicas” e a “inclusão entre as prioridades de fiscalização a análise das 926
obras paralisadas na Bahia, verificando origem dos recursos, contratos, valores
pagos e responsáveis”, em referência ao apontamento feito pelo Tribunal de
Contas da União (TCU).
“Os
fatos narrados evidenciam um cenário grave e crescente de endividamento sem
transparência, possível desperdício de recursos públicos e prática potencial de
desvio de finalidade, justificando plenamente a atuação dos órgãos de
controle”, destaca o líder da oposição, Tiago Correia.
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Assinam a representação os deputados:
Tiago
Correia (PSDB)
Alan
Sanches (União Brasil)
Cafu
Barreto (PSD)
Diego
Castro (PL)
Emerson
Penalva (PDT)
Jordávio
Ramos (PSDB)
José de
Arimateia (Republicanos)
Júnior
Nascimento (União Brasil)
Jurailton
Santos (Republicanos)
Kátia
Oliveira (União Brasil)
Leandro
de Jesus (PL)
Luciano
Simões (União Brasil)
Manuel
Rocha (União Brasil)
Marcelo
Veiga (União Brasil)
Nelson
Leal (PP)
Paulo
Câmara (PSDB)
Pedro
Tavares (União Brasil)
Robinho
(União Brasil)
Samuel
Júnior (Republicanos)
Sandro
Régis (União Brasil)
Fonte:
Metro 1/g1/Bahia Econômica

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