sábado, 22 de novembro de 2025

Eleições no Chile: Jeanette Jara tem tarefa árdua de atingir despolitizados e “direita democrática”

A vitória de Jeannette Jara no primeiro turno eleitoral do Chile tem um sabor agridoce para a esquerda. A candidata comunista ganhou com 26,83% dos votos contra o ultradireitista José Antonio Kast, que obteve 23,96%. Ambos disputarão o segundo turno em 14 de dezembro. Em um surpreendente terceiro lugar ficou o populista de direita Franco Parisi com 19,61%, fora das previsões das pesquisas, e deslocando o libertário ultradireitista Johannes Kaiser, que obteve 13,93%.

“Não deixem que o medo congele seus corações. Não acreditem em soluções imaginárias, cabeças que se escondem atrás de um vidro blindado. Nosso futuro está em nossas meninas e meninos”, disse Jara a seus simpatizantes reunidos do lado de fora do bunker, perto do Palácio de La Moneda, no centro da capital. A candidata de uma aliança composta por partidos de esquerda e centro-esquerda reivindicou as políticas do governo de Gabriel Boric, entre elas, a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, o aumento das pensões e do salário mínimo.

Continua após o anúncio

No caminho, ficou interrompida a promessa de Boric de mudar a Constituição herdada do ditador Augusto Pinochet (1973–1990), após o estopim social de 2019.

<><> “Dois projetos de país”

“Quase a metade dos chilenos e chilenas não votaram nem por mim nem por Kast”, disse Jara. “A eles nós vamos escutar. Que saibam que existem dois projetos de país e duas lideranças distintas”, afirmou a ex-ministra do Trabalho, ao mesmo tempo que antecipou que vai incorporar propostas de outros partidos fora de sua coalizão.

Os resultados, nos quais a união das forças de direita tem maioria, coincidem com o cenário mostrado pelas pesquisas. Embora Jara tenha ficado em primeiro lugar, os votos de Kast, Kaiser e Matthei, referência da direita tradicional que obteve 12,53% dos sufrágios, somam 51%. Matthei e Kaiser já anunciaram seu apoio ao ultradireitista. Os chilenos também votaram para renovar a Câmara dos Deputados e metade do Senado.

O sociólogo e professor da Universidade do Chile, Manuel Antonio Garretón, afirma ao Página/12 que o que se comprovou com esta eleição é que “os setores de direita democrática são minoritários e a direita chilena definiu claramente seu caráter autoritário, somando as candidaturas de Kast e Kaiser. Matthei, por sua vez, já havia se comprometido a apoiar os setores que são estritamente os representantes de Pinochet na terra e já o fez”.

Para Garretón, o desafio para a esquerda de olho no segundo turno é falar ao eleitorado de Matthei e Parisi. “A tarefa principal hoje para os setores de esquerda é captar um eleitorado que não está representado pelas cúpulas dos setores de direita, e é a esse eleitorado que é preciso falar, é preciso falar às pessoas que votaram em Matthei e em Parisi, além de, claro, manter o discurso a partir de uma posição de esquerda”.

<><> Parisi, o fator surpresa

Cristian Leporati, professor de Comunicação Política da Universidade Diego Portales, havia antecipado ao Página/12 que Parisi cresceria em votos por ser esta eleição presidencial a primeira com voto obrigatório. “O eleitorado de Parisi é o que se conhece como ‘cidadão de shopping’, que vive se endividando, que no fundo é um aspiracional de classe média, filho do neoliberalismo, consumista e profundamente exposto às oscilações econômicas.”

Continua após o anúncio

Garretón vislumbra um cenário aberto. “A votação de Parisi expressa um voto de descontentamento de um eleitor que não gosta da política, que prefere algo novo e que, sobretudo, não tem uma ideologia coerente, o medo da incerteza, as demandas individuais e a necessidade de uma certa ordem”.

Parisi não representa uma direita populista?, pergunta-se ao especialista. “Sim, claro, mas isso não é ideológico. Há algo menos ideológico do que a direita populista? Prometer qualquer coisa a qualquer preço. O caso parece um pouco mais complicado porque Parisi é economista, foi inclusive decano de Economia da Universidade do Chile. Aí o populismo é mais complicado”.

<><> “Agradeço a Deus”

Como orador final da noite, Kast falou a seus seguidores desde Barrio Alto, no setor mais opulento de Santiago. “Agradeço a Deus”, disse exultante. O candidato do Partido Republicano é ultracatólico, negacionista e ultraliberal em suas propostas. “A oposição derrotou um governo fracassado. A vitória real será quando fecharmos as fronteiras à imigração ilegal. Uma salva de palmas aos nossos carabineiros, agentes penitenciários e forças armadas”, disse, sob aplausos.

Continua após o anúncio

Antes, Kast havia aparecido com Matthei e, separadamente, com Kaiser. “A unidade é fundamental e temos um mês para continuar trabalhando”, antecipou.

Apesar de ser um dos países mais seguros do continente, o aumento do crime nos últimos anos impulsionou a extrema-direita e seu plano de deportações em massa e combate frontal à delinquência. Os homicídios aumentaram 140% na última década, passando de uma taxa de 2,5 para 6 por cada 100 mil habitantes, segundo o governo.

<><> Copiar o “estilo Bukele”

Kast direcionou sua campanha de mão dura contra os 337 mil migrantes em condição irregular, em sua maioria venezuelanos, a quem responsabiliza pelo aumento da insegurança. Ao estilo Bukele em El Salvador, o líder do Partido Republicano promete deportações em massa e um “escudo fronteiriço” para impedir o ingresso de estrangeiros sem documentos, incluindo cercas metálicas e valas. “A maioria das pessoas vai dizer que tem medo”, afirmou após votar neste domingo.

A população migrante dobrou em sete anos e alcançou 8,8% do total em 2024 neste país de 20 milhões de habitantes, segundo dados oficiais. Neste domingo (16), a candidata governista criticou seus rivais por “exacerbar o temor”. Isso não “serve para governar um país (…) é preciso ter capacidade de acordo, ter capacidade de diálogo”, afirmou Jara após votar em Conchalí, o bairro popular onde cresceu.

A ex-ministra do Trabalho antecipou em campanha que não terá “nenhum complexo em matéria de segurança”, mas que também garantirá que os chilenos tenham “a segurança de chegar ao fim do mês”. Um de seus planos contra o crime organizado é o levantamento do sigilo bancário para atacar suas finanças.

A 35 anos do fim da ditadura, os chilenos decidirão no segundo turno eleitoral se o país continuará na trilha progressista ou se, ao contrário, optará por uma ultradireita recarregada.

¨      Veja as propostas dos candidatos do segundo turno

Jeannette Jara e José Antonio Kast se enfrentarão no segundo turno da eleição presidencial do Chile, marcado para 14 de dezembro.

Os candidatos são de espectros políticos totalmente opostos -- Jara é comunista, e Kast, ultradireitista --, refletindo uma tendência regional marcada pelo declínio da competitividade dos movimentos tradicionais.

Veja abaixo quais são as propostas dos dois candidatos do segundo turno da eleição presidencial do Chile.

<><> Quais são as propostas de Jeannette Jara?

Ao longo de sua campanha, Jeannette Jara prometeu aprofundar as reformas sociais, fortalecer a segurança pública sem recorrer à militarização e combater o crime organizado e o narcotráfico.

Ela afirmou que seu programa de governo terá três pilares: desenvolvimento impulsionado pela demanda interna, bairros dignos e cidadania plena.

“Esses pilares representam um compromisso com a reorganização das prioridades do modelo de desenvolvimento chileno, colocando o bem-estar do povo no centro, e não os lucros de poucos”, declara o programa.

Assim, Jara também prometeu manter as políticas de bem-estar social implementadas durante o governo do presidente Gabriel Boric, ao mesmo tempo que deve expandir as pensões e melhorar o acesso à moradia popular.

A candidata defende a autonomia do Chile em relação à política externa e afirmou, durante o encerramento de sua campanha, que "as relações internacionais são conduzidas pelo chefe de Estado... e, neste caso, serei eu, como Presidente da República".

De toda forma, pensando nas relações comerciais do Chile com os Estados Unidos, Jara reconheceu a importância de manter relações diplomáticas estáveis.

Por fim, no domingo (16), ela disse que fortalecerá o controle da imigração e que vai combater o crime organizado, incluindo com revogação de sigilo bancário.

"Vamos insistir para que o Chile revogue o sigilo bancário e siga o rastro do dinheiro sujo", pontuou Jara.

<><> Quais são as propostas de José Kast?

Para esta campanha, José Kast moderou em parte seu discurso, evitando alguns temas polêmicos -- como o apoio à ditadura de Augusto Pinochet --, e se concentrou em temas de lei e ordem.

De toda forma, adotou propostas de linha dura contra o crime e imigração -- incluindo propostas como a construção de uma vala para conter a entrada ilegal no país --, com uma plataforma que tem sido comparada à de figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro (PL).

Seu estilo de comunicação direto e seu conservadorismo ferrenho têm reforçado sua popularidade entre os eleitores de direita do Chile.

Kast prometeu fechar as fronteiras para imigrantes irregulares, combater o crime organizado e acabar com as longas filas de espera nos hospitais.

Ele visitou as megaprisões de El Salvador, construídas pelo presidente Nayib Bukele, defendendo a construção de locais do tipo e uma zona de fronteira militarizada.

Sobre a imigração, prometeu construir uma força policial especializada nos moldes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), que seria encarregada de rastrear imigrantes irregulares e deportá-los rapidamente.

O plano econômico de Kast inclui leis trabalhistas mais flexíveis, cortes nos impostos corporativos e menos regulamentação — embora se espere que ele modere os cortes de gastos considerados irrealistas, à medida que reformula sua plataforma para incorporar as de seus principais rivais de direita.

Além disso, o ultradireitista já afirmou anteriormente que revogaria os direitos limitados ao aborto no Chile e proibiria a venda da pílula do dia seguinte. Ele tem se concentrado em outras questões nesta eleição, mas disse que não mudou de opinião.

"Eu apoio a vida desde a concepção até a morte natural", destacou Kast quando questionado sobre o assunto durante o último debate televisionado.

¨      Kast promete governo por decretos e mais repressão contra povo Mapuche

Não desperdiçaram um único dia. Nesta segunda-feira (17), em uma corrida contra o tempo prevista para ser áspera, a centro-esquerdista Jeannette Jara e o ultradireitista José Antonio Kast retomaram a campanha após as eleições presidenciais do domingo (16), de olho no segundo turno de 14 de dezembro, quando se definirá qual deles governará o Chile.

Jara tem um duríssimo desafio, dada a somatória de votos das três candidaturas direitistas, que acumularam 50,3% dos sufrágios emitidos no domingo passado. Há também os 19,7 pontos obtidos pelo populista Franco Parisi, do Partido de la Gente (PDG), que, contra todos os prognósticos, terminou em terceiro lugar e cujos eleitores são uma mistura variada e complexa. Parisi venceu nas quatro primeiras regiões do norte, onde a atividade principal é a mineração e por onde ingressam os migrantes irregulares, setor que está no centro da contenda.

Jara retomou os discursos no modesto município de La Pintana, no sul da capital, onde obteve quase 31% das preferências, seguida por Parisi com 26,7%. Acompanhada da prefeita democrata-cristã Claudia Pizarro, a centro-esquerdista fez uma promessa aos moradores:

“Em meu governo, a segurança pública vai ser uma prioridade, não a partir do eslogan da mão dura, mas a partir da realidade. Vamos ter mais carabineros nas ruas, nas zonas populares onde há muito poucos”, assegurou. A insegurança está no cerne das urgências, ainda mais para os moradores de comunas pobres. Na noite de domingo (16), a oficialista fez um aceno aos eleitores de Parisi, afirmando que acolhia a proposta de eliminar o imposto de consumo de 19% sobre os medicamentos.

Continua após o anúncio

Segundo o analista Cristián Fuentes, “é um eleitorado volátil, sem fronteiras definidas. Tem os votantes do norte que são anti-imigrantes, mas há também gente de setores médios aspiracionais, individualistas. São antipolítica e antisistema, é difícil fazer aí um discurso geral.”

Fuentes acrescenta que “entre os votantes de Evelyn Matthei (da direita histórica e que no início da contenda era a clara favorita), Jara pode captar votos de mulheres porque Kast é amplamente conhecido como misógino”.

Quanto ao segundo turno, “essa é outra eleição, mas a direita tem vantagem. Por melhor que seja a campanha de Jara, vai ser muito difícil”, adianta.

Kast viajou a La Araucanía, onde obteve 32,5 pontos e a primeira maioria, uma região marcada pelo conflito entre o povo Mapuche e o Estado — o que ele promete encerrar mediante o uso da força. Os Mapuche lutam para proteger o território ante a exploração de corporações extrativistas.

Continua após o anúncio

<><> Congresso dominado pela direita

Na eleição parlamentar, o bloco de Kast — Cambio por Chile, com os partidos Republicano, Nacional Libertário e Social Cristão — alcançou 42 deputados, 27 a mais que na atual legislatura, o que os converte na principal força individual.

Enquanto isso, Chile Vamos — a aliança histórica dos partidos União Democrata Independente (UDI), Renovação Nacional (RN) e Evolução Política (Evópoli) — passou de 53 deputados para apenas 34.

No Senado, que renovou metade das 50 cadeiras, Cambio por Chile elegeu seis e totalizou sete; enquanto Chile Vamos perdeu sete e ficou com 18. Esse avanço da direita sobre ambas as câmaras talvez seja o pior resultado para a esquerda frente aos próximos quatro anos.

“Chile Vamos tem que se repensar, está no chão e tem que mudar de nome, entre outras coisas, o piñerismo foi derrotado”, ressaltou o analista Fuentes, para quem “a direita está para voltar às suas bases, o que não é mais do que um neopinochetismo”.

“O Congresso será complexo, sobretudo a Câmara de Deputados, que estará muito fragmentada, com 14 parlamentares do PDG [Partido de la Gente], que podem ir para qualquer lado. Se o vencedor for Kast, afirmou que tudo o que puder será por decreto”, lembrou Fuentes.

<><> O primeiro turno no Chile

Jara ganhou o primeiro turno da eleição presidencial no Chile, celebrada neste domingo (16), com 26,8% dos votos, impondo-se a Kast, que obteve 23,9% das preferências.

Foi um resultado muito mais estreito do que o previsto por analistas e pesquisas, o que augura um desfecho muito competitivo, talvez mais favorável à direita histórica, cujos aspirantes obtiveram altas votações e sobre os quais não se sabe com certeza como se comportarão no segundo turno.

“As primeiras graças quero dar a Deus, este é um primeiro passo, mas o mais importante é o que vem adiante: derrotar um governo fracassado. E dizemos ao crime organizado que as fronteiras serão fechadas, porque vamos além”, declarou Kast logo no início de seu discurso na noite do domingo (16).

A revelação da disputa dominical foi Franco Parisi, um economista populista que adotou como lema de campanha “nem fachos nem comunachos” e que, com zero presença na contingência política do país, chegou em terceiro. Há quatro anos, foi aspirante presidencial, competindo do exterior, por estar foragido dos tribunais de família. Seus eleitores serão decisivos no segundo turno.

Johannes Kaiser, um ultradireitista cujo crescimento chamou a atenção nas últimas semanas, chegou em quarto, com 13,9% das preferências. A grande perdedora foi Evelyn Matthei, da direita histórica, pós-pinochetista, que terminou em quinto lugar, com 12,5%, um fracasso de grandes dimensões considerando que ela era favorita há seis meses, quando começou uma debacle às mãos de seus rivais ultradireitistas. Na noite do domingo (16), ela expressou seu respaldo a Kast, tal como exigiam os poderes fáticos empresariais que o reivindicaram por meses, diante da evidência de seu colapso eleitoral.

Enquanto isso, Jeannette Jara, no discurso de sua vitória provisória, se esmerou em convocar eleitores da direita e independentes que eventualmente poderiam apoiá-la no segundo turno. Ela se impôs em grandes municípios populares do país.

“Quero saudar especialmente aqueles que tiveram que enfrentar grandes problemas. Em primeiro lugar, Evelyn Matthei, que foi vítima de uma campanha horrível que se baseou em instalar mentiras, em desacreditá-la. Esses fatos na política não podem ser permitidos”, expressou, ao apelar aos eleitores da direitista.

“Quero saudar a surpresa da noite, Franco Parisi, quero felicitá-lo porque soube interpretar, com medidas radicais e inovadoras, um grande sentir cidadão, e é obrigação nossa escutar o povo”, enfatizou, invocando a inevitável busca de apoios.

¨      Pesquisa indica que Kast teria 61% dos votos e Jara 39%

Apenas dois dias depois do primeiro turno das eleições presidenciais do Chile, a pesquisa UDD Citizen Panel divulgou uma sondagem antecipada para o segundo turno, em 14 de dezembro, no qual José Antonio Kast (Republicano) e Jeannette Jara (Partido Comunista) disputarão o segundo turno.

Segundo o jornal El Mercurio, a pesquisa foi realizada entre as 21h30 do último domingo (16) e o meio-dia de segunda-feira (17).

Quando questionados sobre em qual candidato votariam caso o segundo turno fosse no próximo domingo (23), 61% dos entrevistados disseram que votariam em José Antonio Kast, enquanto 39% disseram que votariam em Jeannette Jara.

Se excluirmos os 12% que responderam que não votariam ou que anulariam seu voto, Kast alcançaria 54% contra 34% de Jara.

 

Fonte: Página 12/Diálogos do Sul Global/CNN Brasil

 

Nenhum comentário: