O
problema da esquerda é a Segurança?
A
disputa eleitoral de 2026 promete eletrizar o país. O ano nem começou e o
debate sobre as táticas políticas e eleitorais já está aquecido. No movimento
mais recente, figuras destacadas entre a esquerda passaram a argumentar em
favor da centralidade de um programa de Segurança Pública para Lula. Em vídeo,
o ex-ministro José Dirceu alertou tanto para a urgência de ações contra o crime
organizado quanto para a necessidade de elas respeitarem o Estado de direito,
diferenciando-se das posições puramente repressoras do bolsonarismo.
Renato
Rovai, diretor da revista Fórum, foi além. Para ele, Lula deve criar uma
secretaria de Segurança Pública diretamente vinculada à Presidência (portanto,
autônoma em relação ao Ministério da Justiça) e colocá-la sob o comando de
Ricardo Cappelli, ex-interventor da área no Distrito Federal (após a tentativa
de golpe de 2023). Por sua vez, Cappelli, embora à frente da Agência Brasileira
de Desenvolvimento Industrial, tem comparecido às redes sociais para falar… de
Segurança. Numa série de textos e vídeos, ele sustenta que, ao tratar do tema,
a esquerda precisa combinar inteligência e planejamento com uso efetivo da
força; que é preciso superar as “visões românticas” e recuperar os territórios
hoje controlados por facções criminosas e milícias; e, finalmente, que “este é
o último flanco que pode ameaçar 2026”.
Há
bases reais para esse frisson em torno da Segurança. Em toda a América Latina,
do México ao Chile, a ultradireita identificou no tema um novo filão político e
eleitoral — riquíssimo — a explorar. No Brasil, a tendência preencheu um vazio
criado pelo declínio de Bolsonaro. Escancarou-se no final de outubro, quando o
governo do Rio de Janeiro planejou e praticou um massacre contra as comunidades
do Alemão e da Penha. Apesar das mais de 120 mortes e dos múltiplos sinais de
selvageria da polícia, a chacina teve apoio majoritário da população, oprimida
pelo controle que grupos armados exercem sobre vastas áreas das metrópoles. Por
fim, há de fato entre a esquerda imensas lacunas teóricas e práticas a respeito
do tema, visto em geral com preconceito e desenvolvido solitariamente por um
pequeno grupo de pesquisadores. Superar este déficit é necessário e urgente.
No
entanto, esta ausência não será solucionada no curto espaço de tempo até as
eleições. As tentativas de manipulação da ultradireita devem e podem ser
neutralizadas. Mas transformar este movimento na estratégia principal da
esquerda rumo às eleições seria cair numa cilada. Primeiro, porque significaria
transferir o combate para o campo mais favorável ao adversário. Segundo, porque
desviaria a atenção das enormes tarefas que ainda estão pendentes para que a
candidatura Lula torne-se vencedora e — mais que isso — proponha um horizonte e
um caminho para a reconstrução do país em novas bases.
* * *
Desviar
para a Segurança o centro da atividade e da reflexão política colocaria em
grave risco a recuperação vivida pelo governo Lula nos últimos seis meses. A
partir de junho, o Palácio do Planalto rompeu com a passividade diante das
forças conservadoras, que havia adotado nos primeiros dois anos e meio de
mandato. Emparedado no Congresso, retomou a bandeira da justiça tributária.
Associou as resistências dos parlamentares à defesa dos privilégios das elites.
Pouco mais tarde, pressionado pelo tarifaço de Donald Trump, respondeu
altivamente, diferenciando-se das posturas submissas adotadas pelos governantes
de blocos e países mais poderosos, como União Europeia e Japão.
Os
resultados foram rápidos e notáveis. A curva de popularidade do governo, que
era negativa e piorava, inverteu-se. Lula 3 recuperou apoio dos setores que
serão decisivos para dar-lhe impulso em 2026: as mulheres, os nordestinos, os
mais pobres. Como consequência, a própria correlação de forças no Congresso
inverteu-se, com o governo conquistando vitórias decisivas. Uma primeira
mudança real no Imposto de Renda, que se arrastava há muitos anos na poeira dos
escaninhos parlamentares e terá resultados sensíveis na renda da grande maioria
das famílias, foi aprovada por unanimidade. Ao final de outubro, o cenário
político e eleitoral para 2026 parecia invertido. Todas as pesquisas de opinião
sinalizavam vitória relativamente folgada de Lula diante de qualquer um de seus
adversários.
Ocorre
que o giro do governo limitou-se essencialmente, até o momento, ao plano da
retórica — e aí está seu calcanhar-de-aquiles. Para que o novo ânimo social se
consolide, o discurso que remete às injustiças históricas precisa
materializar-se em mudanças sensíveis nas condições de vida e, mais adiante, na
imagem de outro país possível. Isso não ocorreu. O desemprego é o mais baixo em
muitos anos, mas as ocupações disponíveis são precárias, mal remuneradas e sem
direitos. As calçadas estão coalhadas de sem-teto. A fila de espera por uma
aposentadoria é maior do que foi no governo Bolsonaro. A reforma agrária está
estancada. Não há sinais de reverter a regressão produtiva que, há 40 anos,
reprimariza a economia e mantém o país
cada vez mais distante das grandes transformações tecnológicas do século. Falta
dinheiro para tudo: o novo discurso não demoveu nem Fernando Haddad, nem Lula,
de seu compromisso com um “ajuste fiscal” e um “déficit zero” anacrônicos. No
plano externo, o governo cogita oferecer, em troca de redução das tarifas de
Trump, acesso dos EUA às terras raras brasileiras e parcerias com as big techs
norte-americanas.
É nessa
brecha entre a retórica combativa e as condições de vida estagnadas no presente
e no futuro que a direita pôde penetrar, com a pauta da Segurança. Seu discurso
tem duas dimensões. Primeiro, apoderar-se do desejo de mudanças, apequenando-o
(“Se a vida não muda, que pelo menos seja possível circular sem risco de vida e
— principalmente — que a morte dos ‘malfeitores’ alivie a nossa dor”). Segundo,
mudar a pauta. O imaginário coletivo precisa estar voltado para o medo, não
para a luta contra as injustiças.
Vistas
as coisas em sua real dimensão, fica clara a arapuca de aceitar o combate nos
termos propostos pela ultradireita. A resposta principal ao discurso do medo
não pode ser tentar dirigi-lo, mas abrir as cortinas de outro país possível. O
esforço pode começar pelas pautas que o próprio governo já diz ter encampado —
mas hesita em concretizar. O fim da escala 6×1 e o passe livre nacional não
podem se reduzir a jogadas de marketing pré-eleições. Precisam converter-se em
metas de mobilização concreta. Movimentos da sociedade civil (onde se
originaram) e governo (que parece disposto a abraçá-los) deveriam atuar juntos
para promover manifestações, espalhar comitês pelo país, incluir as propostas
na agenda do Congresso. Tensionar a agenda política em nome dos direitos
sociais. Expor a diferença entre projetos.
Fatos
recentes, como a eleição de Zohran Mamdani à prefeitura de Nova York — com um
programa avançado e milhares de ativistas nas ruas — mostram haver espaço para
sacudir conjunturas adversas. É possível romper o marasmo de mobilizações,
mesmo quando se apresentam propostas de mudança que contrariam a lógica
neoliberal. Elas passam a ser vistas como viáveis pelo próprio senso comum,
quando há algum esforço de politização — e não se teme contrariar interesses
poderosos. Temas como o endividamento sufocante da população, os aluguéis
submetidos à especulação imobiliária ou as contas de consumo escorchantes dos
serviços públicos privatizados pedem para entrar na agenda de uma esquerda que
não se conforme com os limites de uma vida submetida aos mercados.
Num
horizonte um pouco mais distante, o das transformações estruturais, pode-se
suscitar a proposta muito contemporânea de garantia, pelo Estado, de trabalho
digno para quem o reivindique. É um caminho tanto para reverter na prática as
contrarreformas trabalhistas quanto para realizar as obras de infraestrutura
necessárias para modernizar o país. Permite iniciar, por exemplo, a
transformação urbanística das periferias, a construção de redes de transporte
público que reduzam as horas perdidas nos deslocamentos nas metrópoles, a
reconstrução da rede ferroviária brasileira ou a despoluição dos rios urbanos.
A
garantia de Segurança Pública aparece, neste contexto, como mais um direito
indispensável, numa lógica de reconstrução nacional. Não se trata de postergar
o debate do tema, nem de reduzir sua importância. Suas especificidades têm, é
claro, de ser tratadas desde já. Pensadores como Luís Eduardo Soares têm
construído há muitos anos, com base em experiências concretas de gestão,
caminhos para agir. São abordagens orgânicas. Nelas, a Segurança surge como
parte de um programa de transformações que pode conquistar o apoio das
maiorias. Vão muito além de propor, como receita mágica para 2026, Lula 3 +
Pulso Firme.
* * *
A
política brasileira reduziu-se tanto a marketing, nas últimas décadas, que a
disputa de projetos parece às vezes nostálgica. O problema é agravado pela
necessidade de derrotar a ultradireita. Ela se repetirá em 2026 e exigirá de
novo a formação de uma frente ampla nas eleições majoritárias.
Esta
contingência não precisa paralisar quem enxerga os limites do jogo eleitoral
existente. As eleições parlamentares oferecem uma brecha possível. Delas
participarão centenas de candidatas e candidatos comprometidos com a
transformação mais profunda do país. No momento, estão atomizados. Submetidos à
lógica institucional, restringem-se a disputar os votos de seu eleitorado.
O
cenário mudará caso seja possível articular a tempo algo como uma Plataforma
Popular. Se construída coletivamente, ela poderá apresentar à sociedade uma
visão comum dos dramas do país e das transformações necessárias. Dará dimensão
nacional a candidaturas que, de outra forma, poderiam passar despercebidas.
Permitirá a elas participar da disputa contra a ultradireita sem se dissolver
nas generalidades da Frente Amplíssima.
* * *
Uma das
piores características da nova cena política criada pelo pensamento único e
pelas redes sociais é o apagamento das ideias de “projeto”, “futuro” e
“horizonte”. Agora, cada última emergência (e elas não param de se suceder umas
às outras) aparece como o único incêndio a apagar, aquilo a que todas as demais
pautas devem se submeter — não importa a relevância estratégica que tenha. É
possível reverter esta sentença — mesmo em termos tão urgentes como a Segurança
Pública.
Fonte:
Por Antonio Martins, em Outras Palavras

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