O
psiquiatra que determinou que nazistas ‘não eram loucos’ e podiam ser julgados.
Por quê?
Há 80
anos, o mundo fazia essa pergunta enquanto vinha à tona a dimensão da tragédia
deixada pelo fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e se revelavam os
horrores dos campos de concentração, onde o regime nazista matou e tentou
aniquilar judeus, ciganos, homossexuais e opositores políticos.
A
humanidade esperava respostas do Tribunal Militar Internacional instalado na
cidade alemã de Nuremberg, que a partir de 20 de novembro de 1945 julgou 24
altos comandos do deposto Terceiro Reich.
A
tarefa inédita de processar os líderes de uma nação derrotada em uma guerra não
foi simples. Os aliados precisaram resolver problemas legais e técnicos, como
definir os crimes imputados, quem os julgaria e qual seria o procedimento
adotado.
Embora
princípios fundamentais do direito penal democrático, como a não retroatividade
da lei — segundo a qual ninguém pode ser julgado por crimes não previstos
previamente no ordenamento jurídico — não tenham sido plenamente respeitados,
os vencedores tentaram corrigir essas falhas e conter críticas garantindo o
devido processo legal aos acusados.
Mas
antes de levar os dirigentes nazistas ao banco dos réus, era preciso esclarecer
uma dúvida crucial: eles estavam mentalmente aptos para enfrentar um julgamento
ou não? Essa tarefa ficou a cargo do psiquiatra americano Douglas M. Kelley.
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O preâmbulo
Por que
era importante determinar a sanidade mental dos acusados?
“As
garantias e direitos judiciais são inerentes a todo ser humano, sem exceção”,
afirma o advogado Carlos Ayala Corao, presidente da Comissão Internacional de
Juristas (ICJ, na sigla em inglês), em entrevista à BBC News Mundo (o serviço
em espanhol da BBC).
“Se uma
pessoa não age por livre-arbítrio, mas por uma doença ou transtorno médico
mental, o direito penal democrático a exclui de responsabilidade ou ao menos
considera isso um atenuante”, acrescenta Corao, também ex-presidente da
Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
A
conclusão a que chegaria Kelley, psiquiatra formado pela Universidade da
Califórnia (EUA) que se alistou no Exército dos Estados Unidos, onde alcançou o
posto de tenente-coronel, e que durante o conflito tratou soldados aliados que
lutaram na Europa por “fadiga de combate ou choque de guerra (hoje transtorno
de estresse pós-traumático)”, determinaria em grande medida o destino do
julgamento inédito e, portanto, dos acusados.
“Em
geral, os prisioneiros não são diferentes de um grupo de executivos de qualquer
outro lugar; ao contrário da opinião popular, não estão loucos nem são
super-homens”, concluiu Kelley, segundo revelou em entrevista de rádio
concedida no sexto dia do processo.
Como
Kelley chegou a esse diagnóstico? Ele “passou cerca de oito meses com os
líderes nazistas, principalmente no hotel de Luxemburgo, onde foram mantidos e
onde aplicou uma combinação de técnicas psiquiátricas”, afirma à BBC News Mundo
o jornalista americano Jack El-Hai, que estudou o trabalho do médico para o
livro O Nazista e o Psiquiatra.
Para a
obra, que inspirou o filme Nuremberg, com estreia prevista para fevereiro de
2026 no Brasil, estrelado pelos vencedores do Oscar Russell Crowe e Rami Malek,
o jornalista revisou 15 caixas com documentos, relatórios e registros escritos
por Kelley, nos quais anotou seus estudos sobre os nazistas. A família do
médico preservou o material por décadas.
“Kelley
entrevistou os acusados, mas também os submeteu a uma bateria de testes
psicológicos, como o teste de manchas de tinta de Rorschach, no qual lhes era
pedido que descrevessem o que viam em imagens abstratas”, acrescenta.
“Também
aplicou o teste de percepção temática, semelhante ao de Rorschach, mas com
fotografias reais ou ilustrações, no qual era pedido que contassem uma
história. Além disso, realizou testes de coeficiente intelectual (QI) e
descobriu que todos tinham inteligência média ou acima da média”, detalha.
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Brincando com fogo
Durante
suas investigações, Kelley demonstrou interesse particular por um dos acusados:
Hermann Goering, próximo de Adolf Hitler e ex-comandante da Luftwaffe (força
aérea da Alemanha durante o regime nazista).
“Goering
era o dirigente de maior hierarquia entre os capturados e Kelley se sentiu
intrigado por ele, em parte porque os dois compartilhavam traços de
personalidade: eram inteligentes, carismáticos, egocêntricos e um pouco
narcisistas”, afirma El-Hai.
“Kelley
nunca ignorou a crueldade e as decisões frias de Goering durante a guerra, mas
os dois desenvolveram uma relação que implicava certa admiração mútua, embora
não fosse uma amizade”, acrescenta.
O
psiquiatra deixou registro de sua impressão sobre o antigo “ás da aviação”
durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
“Goering
era encantador quando decidia ser; tinha uma excelente inteligência, grande
imaginação, muita energia e senso de humor”, escreveu Kelley, segundo
manuscritos disponíveis no Museu do Holocausto dos EUA.
“Todos
os dias, quando eu chegava à sua cela [de Goering], ele se levantava da
cadeira, me cumprimentava com um largo sorriso e a mão estendida, me
acompanhava até sua cama e dava leves batidas no centro: ‘Bom dia, doutor. Fico
muito feliz que tenha vindo me ver… por favor, sente-se’. Depois, se acomodava
ao meu lado com seu corpo grande, pronto para responder às minhas perguntas”,
relatou em outro documento.
Mas
Kelley não apenas determinou a sanidade mental de Goering, como também se
certificou de que ele não morresse na prisão por causa do sobrepeso — superior
a 120 quilos — e da dependência de codeína.
Por
isso, além de convencer o líder nazista a seguir uma dieta, reduziu
gradualmente a dose de drogas que ele consumia para lidar com a dor decorrente
de ferimentos sofridos na Primeira Guerra Mundial.
O
vínculo que criou com o paciente levou o psiquiatra a “cruzar linhas vermelhas”
que prejudicaram sua reputação para sempre, afirma El-Hai.
“Kelley
aceitou atuar como mensageiro e levar cartas escritas por Goering à esposa,
Emmy. Isso não foi autorizado pelo tribunal nem por qualquer governo aliado,
mas ele concordou em fazê-lo”, afirma o jornalista.
No
entanto, houve outra prova ainda maior da confiança que o antigo herdeiro de
Hitler depositou no psiquiatra.
“Goering
pediu a Kelley que, caso ele ou a esposa não sobrevivessem, adotasse sua filha
e a criasse nos Estados Unidos. Kelley discutiu a ideia com a própria esposa,
que se opôs”, afirma o biógrafo do médico.
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Temor pelo que encontrou
No
início de suas investigações, Kelley acreditava que os dirigentes nazistas
haviam sido contaminados por “um vírus” ou alguma doença que os levara a
planejar e ordenar as atrocidades pelas quais seriam julgados, diz El-Hai.
“Mas,
depois de concluir que os dirigentes nazistas não estavam mentalmente doentes e
que seu comportamento se encaixava no limite do normal — o que não significa
que fosse bom, mas que não podia ser atribuído a uma doença psiquiátrica —,
Kelley ficou apavorado”, afirma o biógrafo.
“Essa
constatação implicava que havia muitas pessoas como eles (os líderes nazistas)
entre nós, em qualquer país e em qualquer época”, acrescenta.
“Basicamente
eram pessoas normais, influenciadas pela mentira e pela burocracia. Criaturas
moldadas pelo próprio entorno, indivíduos que poderiam estar atrás de grandes
mesas em qualquer parte do mundo”, concluiu Kelley, segundo o livro Anatomy of
Malice: The Enigma of the Nazi War Criminals (Anatomia da Maldade: O Enigma dos
Criminosos de Guerra Nazistas, em tradução livre), do
Assim,
ao voltar aos EUA em 1946, o psiquiatra fez uma série de conferências e
escreveu artigos nos quais alertava para o risco de o fascismo também chegar ao
poder no país, como ocorreu antes na Alemanha, na Itália e em outras nações
europeias.
“Naquele
momento, muitos Estados eram governados por políticos que defendiam a
segregação racial e usavam técnicas semelhantes às dos nazistas para manipular
seus eleitores”, afirma El-Hai.
E como
se tudo isso não bastasse, Kelley também decidiu iniciar um novo ciclo
profissional.
“O
tempo que passou com os nazistas mudou o modo como Kelley pensava sobre a
natureza das doenças mentais e sobre se a psiquiatria era uma especialidade
viável para tratar pessoas como esses criminosos. E concluiu que não era”, diz
El-Hai.
“Se
essas pessoas eram normais, como a psiquiatria poderia explicar o que elas
fizeram? Por isso, nos últimos anos de sua vida, ele se dedicou à criminologia,
acreditando que talvez ali pudesse encontrar respostas”, afirma.
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Imitando o paciente
A
última evidência de que sua convivência com os nazistas, sobretudo com Goering,
marcou Kelley ocorreu em 1º de janeiro de 1958.
Naquele
dia, o psiquiatra, que após os julgamentos teve problemas com álcool e sofreu
de depressão, discutiu de forma acalorada com a esposa e, em um impulso, tomou
uma cápsula de cianeto. Morreu na hora.
Doze
anos antes, o antigo sucessor de Hitler havia tirado a própria vida da mesma
forma. O líder nazista se suicidou poucas horas antes da execução da sentença
de enforcamento, determinada pelo Tribunal Militar Internacional, que o
declarou culpado por conspiração contra a paz e por crimes de agressão, de
guerra e contra a humanidade.
“O
suicídio de Goering foi seu último ato de desafio, e acredito que o de Kelley
também foi”, diz El-Hai, que afirma não ter encontrado, nos documentos
consultados, qualquer indício de que o psiquiatra pensasse em se matar.
A
coincidência reforçou a suspeita de que Kelley teria entregue ao nazista a
cápsula de veneno, algo que nunca foi comprovado.
Fonte:
BBC News Mundo

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