Os
diferentes padrões econômicos da Amazônia
A
verdadeira invenção da Amazônia não está na floresta homogênea, mas no mosaico
de seis padrões econômicos que disputam o território, cada qual externalizando
custos sociais e ambientais de forma distinta
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Introdução
Para se
pensar a Amazônia contemporânea temos que ter em mente como sua formação
histórica se delineou, porém dificilmente, mesmo historicamente, poderemos
pensar um espaço homogêneo que defina o referido conceito de Amazônia. Num
momento em que a COP-30 possibilita uma ampla (re) descoberta da região, para
aqui referenciar um dos importantes estudiosos da Amazônia, mas pouco conhecido
nacionalmente, o professor Armando Mendes e seu trabalho A invenção da
Amazônia, vale tentar estabelecer uma certa padronização econômica para o
mosaico amazônico.
A
história econômica amazônica recente se estabelece em torno de alguns eixos
constituídos a partir de uma intervenção tríplice principalmente desde a década
de 1960. Citá-las faz-se necessário para compreensão dos modelos econômicos que
hoje definem a região.
Primeiramente
a intervenção estatal mais geral que se faz desde meados dos anos 1950, nos
referimos em particular a criação da SPVEA (Superintendência do Plano de
Valorização da Amazônia) e seu braço financeiro o BCB (Banco de crédito da
Borracha), ainda no governo de Vargas (1952), sendo que a posterior
transformação da SPVEA em SUDAM (Superintendência do desenvolvimento da
Amazônia), do BCB em BASA (Banco da Amazônia S. A.) e a criação da SUFRAMA
(Superintendência da Zona Franca de Manaus), já no governo da ditadura
militar-empresarial de 1964, são marcos deste processo de conformação da
Amazônia contemporânea.
O
segundo senhor interveniente da conformação desta realidade refere-se o capital
transnacional e nacional, ambos impondo, a sua maneira excludente e
concentradora de riquezas, o formato como se observa o atual “mosaico
amazônico”.
O
terceiro ator refere-se aos milhares de pequenos atores que se estabelecem nas
frentes migratórias de formação dos grandes territórios estaduais amazônicos.
Este
artigo busca conformar um mosaico amazônico, estabelecendo diferentes padrões
de desenvolvimento econômico e como estes processos integram a
contemporaneidade regional.
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Características gerais da população urbana amazônica
A
Região Norte, Amazônia no sentido restrito, abrange uma área de aproximadamente
5 milhões de Km2, o que representa quase 46% do território brasileiro. Sobre os
números populacionais, a região detém, segundo o Censo de 2022, aproximadamente
17 milhões de pessoas. A densidade demográfica regional é de 4,51 hab/Km2, bem
distante da densidade nacional que atinge 23,8 hab/Km2, demarcando claramente a
condição ainda considerável de uma região que está na fronteira de expansão
econômica brasileira e apresenta importantes áreas não habitadas, sendo que o
Pará e Rondônia são as duas unidades com maior densidade.
Aspecto
a ser ressaltado e melhor tratado refere-se as alterações das concentrações
urbanas na Amazônia nas últimas duas décadas.
Três
observações são importantes:
(i) observa-se crescimento populacional
regional superior ao nacional, mesmo que relativamente pequeno (0,82%);
(ii) as faixas de municípios médios (100 a 500
mil) são os que efetivamente se mantem o crescimento populacional, inclusive
observando-se o crescimento absoluto de municipalidades nas referidas faixas,
sendo que 2010 tínhamos vinte (20) municípios entre 100 e 500 mil habitantes,
em 2022, passamos a ter vinte e seis (26);
(iii) observa-se, especificamente, um crescimento
maior na faixa entre 250 e 500 mil habitantes, compondo o que denominaríamos de
centros regionais de integração, assim a taxa de crescimento geométrico nesta
faixa foi de 3,78%.
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Os diferentes padrões econômicos amazônicos
Três
grandes vetores nos conduzem na construção metodológica para se analisar a
Região Amazônica:
(1) a
presença de diferentes tipos de capital empresarial;
(2) as
características da rede urbana citadina;
(3) os
modos operandi e a intervenção do Estado nacional.
O que
caracteriza o discurso de senso comum a Região Amazônia é historicamente a
presença da floresta, porém o que se observa desde a expansão da acumulação
capitalista na região é um recorte complexo de relações sociais, produtivas e
ambientais.
Temos,
assim, seis grandes arranjos econômicos e sociais que constroem o mosaico
amazônico: Padrão extrativo mineral exportador, padrão maquilador de Manaus e
seu entorno, padrão de centros comerciais e administrativos regionais, padrão
de agronegócio exportador, padrão de produção energética integrada, padrão do
hinterland amazônico.
A
análise interna de cada padrão, com sua influência territorial abrangente
(Unidades Federativas) se dará com base em três elementos centrais:
(i) o consumo e produção de eletricidade e
combustíveis;
(ii) a geração de empregos e renda e a
qualidade dos mesmos;
(iii) os indicadores sociais tomando como base o
IDH.
A
construção metodológica e sua análise para tratamento dos padrões econômicos
são assentados na análise do PIB dos trinta maiores municípios regionais e dos
fatores de consumo e produção de energia elétrica e combustível.
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Características de Diferentes Padrões Econômicos na Amazônia (Região Norte)
Esse
padrão é o centro atual da economia paraense, sendo que se desenvolve em torno
do eixo de exploração mineral (ferro, bauxita, manganês, ouro, cobre, estanho),
tendo a maior participação do PIB estadual e muito expressivo no PIB regional.
O controle desta base econômica se dá através de grandes empresas nacionais e
transnacionais, sendo central a Companhia Vale, antiga CVRD.
Aqui
vale quatro observações importantes:
(i) primeiramente, a indústria extrativa gera
poucos empregos, o que acaba não externalizando ganhos econômicos para além das
localizações mais próximas, o que denominamos de “efeito enclave”;
(ii) segundo, as características tributárias
brasileiras, baseada na desoneração tributária para exportação acaba agravando
as contradições, sendo que o setor mineral constitui o maior exportador
brasileiro, junto com o agronegócio, mas contribui muito pouco com o esforço
fiscal e o financiamento de políticas públicas, como podem ser denotados nos
dados das Contas Nacionais, assim, por exemplo, o município de Belém representa
27,8% do total de impostos gerados no estado do Pará, enquanto Parauapebas,
principal município produtor de minério de ferro, representa somente 6,1%.
(iii) Terceiro, o setor extrativo mineral
constitui um grande importador de máquinas que são produzidas fora da região,
inclusive os serviços de manutenção acabam sendo importados, em função dos
tipos de contratos firmados;
(iv) quarto, é um padrão energético intensivo,
requerendo parcela importante da energia elétrica consumida na região.
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Padrão Maquilador de Manaus e seu entorno
O
modelo econômico baseado na Zona Franca de Manaus (ZFM) tem como origem projeto
interventor e de planejamento nacional brasileiro que remonta ao final dos anos
1950 e que se consolida com o estabelecimento da Zona franca de Manaus em 1967,
que inicia como uma área de livre comércio de importação, tendo um modelo
baseado em um polo industrial, de comércio e agropecuário.
A
consolidação do PIM será um aspecto importante para o desenvolvimento regional
e, também, para o formato de expansão do capitalismo na região, inclusive com
impactos ambientais diferenciados conforme o modelo implantado.
O PIM
responde por 18,3% do PIB regional, tendo algumas características marcantes:
(i) baseia-se em elevado subsídio fiscal, com
estimulo a implantação de segmentos de produtos linha branca para atenderem o
mercado nacional;
(ii) importante fator gerador de ocupações
formais na região;
(iii) constitui fator minimizador do desmatamento
na região amazônica;
(iv) apresenta baixa nacionalização de insumos
industriais complementares aos processos produtivos estabelecidos;
(v) apresenta ainda dependência de bases
energéticas de combustíveis fósseis.
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Padrão de centros comerciais e administrativos regionais
Os
centros comerciais e administrativos amazônicos foram a base territorial
regional durante a maior parte do século XX, algo que autores como Lamarão
denominaram de “padrão dentrítico regional”, cuja essência refere-se ao grau de
polarização econômica comercial das capitais e maiores núcleos demográficos, na
medida em que as condições de acesso eram em grande medida definidos pela
trafegabilidade dos rios amazônicos.
Esse
padrão foi rompido com as modificações ocorridas nos últimos sessenta anos,
quando se impõe uma lógica de expansão capitalista nacional. O peso econômico
dos referidos centros diminuiu bastante, porém ainda mantém o principal
estímulo econômico da densidade demográfica e da infraestrutura social, além da
importância administrativa.
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Padrão de agronegócio exportador
Resultante
da expansão do agronegócio a produção agrícola na Amazônia Legal cada vez mais
é ocupada pela produção de commodities, como a soja, cana-de-açúcar, milho e o
dendê, em detrimento de outras culturas de maior importância para a alimentação
dos habitantes locais e abastecimento do mercado interno, como o arroz, a
mandioca e o feijão.
Analisando
dados da Pesquisa Agrícola Municipal de 1990 até 2020, é possível observar o
aumento tanto absoluto como relativo da ocupação de terras para a produção de
commodities direcionadas ao mercado externo. Esse aumento de participação
relativa deve-se à inserção externa do Brasil, como fornecedor de commodities
agrícolas para o restante do mundo, com grande presença de corporações
transnacionais.
Vale
observar que no caso da produção de biodiesel, especificamente soja, etanol e
óleo de palma temos neste padrão, o fator energético como um condicionante a
mais para sua manutenção e expansão.
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Padrão de produção energética integrada
A
determinação de um padrão energético baseado em hidroeletricidade teve grande
importância na definição da Amazônia como uma fronteira de expansão econômica.
A construção de um conjunto de barragens e usinas que aproveitam o potencial
hídrico da gigantesca bacia hidrográfica amazônica estabeleceu um conjunto de
municípios que são parte do processo de desenvolvimento brasileiro da sua
matriz energética.
Falar
de um Padrão de Produção Energética relaciona-se a três pontos de análise
centrais para este estudo:
(i) a relação entre a dependência econômica
local e o fornecimento do insumo eletricidade para o SIN (sistema Integrado
Nacional);
(ii) o grau de influência dos grandes
empreendimentos energéticos (hídricos ou termelétricos) sobre os territórios e
a formação de grandes núcleos urbanos no seu entorno (Tucurui, Altamira,
Cacoal, Ji Paraná e outros) e os impactos sociais e ambientais que ocasionam;
(iii) a definição de políticas locais e nacionais
de melhoria das condições de vida das populações impactadas por projetos na
escala que foram desenvolvidos no Brasil.
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Padrão do hinterland amazônico
A
existência de um amplo conjunto de municipalidades que concentram a maior
parcela da população e do PIB regional, como pode ser visto no Quadro 1 e na
Tabela 2, representando mais de 30% do PIB regional e mais de 40% da população.
As características econômicas são vinculadas a produção agrária, pesqueira e
extrativa de subsistência, administração pública e pequena produção industrial.
Este
padrão é central para pensarmos políticas energéticas de produção distribuída e
pequenas usinas fotovoltaicas, possibilitando resolver os problemas dos
chamados sistemas isolados, em grande medida ainda presentes na Amazônia, como
se verá na quinta seção deste trabalho. Também, vale notar que a Amazônia
profunda constitui o centro das preocupações sociais e ambientais, sendo
necessário aprofundar a análise deste segmento em estudos futuros.
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Algumas Conclusões
Em
período recente, a região vem a cada ano ganhando destaque por conta da
extração mineral e da produção de soja. Esse quadro de expansão produtiva é
acompanhado de intenso processo de desmatamento. Tem-se, então, o crescimento
de atividades minerárias e agrárias de um lado e, de outro, o aumento da
devastação de recursos florestais.
Com o
comportamento do setor exportador brasileiro em anos recentes, o país passa a
ocupar um lugar na Divisão Internacional do Trabalho (DIT) de grande produtor
de commodities e/ou produtos primários – soja, carne e minério de ferro,
principalmente. Tem-se, então, uma preocupação quanto ao diferencial de
crescimento do setor industrial, com elaboração de produtos com maior valor
agregado, em relação ao setor exportador de produtos básicos.
Nesse
contexto, a Amazônia passa a ter relevância no cenário nacional como região
exportadora de produtos primários, com destaque a produtos da extração mineral
(minério de ferro, principalmente), boi vivo e, na zona fronteiriça com o
Centro-Oeste, especialmente Tocantins, Rondônia e o Pará, ganhando relevância a
produção de soja e outros cereais, da mesma forma se avança na crescente
urbanização da região, aspectos que devem e são centrais para se pensar
mecanismos de proteção florestal e para decisões de políticas públicas a serem
assentadas localmente, sendo necessário pensar a região não como um monolito
homogêneo, e sim como um mosaico em crescente mudanças, sendo que os padrões
acima delineados são somente parte da complexidade que envolve a “invenção da
Amazônia”.
Fonte:
Por José Raimundo Trindade, em A Terra é Redonda

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