Nordeste
em fúria: 151 anos da Revolta do Quebra-Quilos
em 31
de outubro de 1874, tinha início a Revolta do Quebra-Quilos, um dos principais
levantes populares ocorridos no Nordeste do Brasil durante o Segundo Reinado.
A
revolta surgiu em função do descontentamento da população com a adoção do
sistema métrico decimal, que foi imposto através de multas, taxas, cobranças e
prisões.
Acreditando
que o novo sistema fora criado para facilitar fraudes e explorar a população,
os rebeldes invadiram feiras e mercados para destruir as balanças. Depois,
passaram a atacar as prefeituras e Câmaras Municipais e a invadir as cadeias
para libertar os prisioneiros.
O
movimento se estendeu por meses e se espalhou por dezenas de cidades da
Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Alagoas e Piauí. Em 1876, os levantes
chegaram a Minas Gerais.
Movimento
surgiu após a população se mostrar aborrecida com a adoção do sistema métrico
decimal exigido em multas, taxas, cobranças e prisões
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A adoção do sistema métrico
O
reinado de Dom Pedro II foi caracterizado por múltiplas tentativas de
implementar um processo de modernização conservadora. O governo imperial
ansiava por ver país na órbita das “nações avançadas” da Europa, mas, ao mesmo
tempo, pretendia manter inalteradas as estruturas sociais e políticas herdadas
do período colonial.
Assim,
o Brasil seria um dos primeiros países do continente a construir ferrovias e
redes de telégrafos, mas também seria o último a abolir a escravidão. Dentre os
projetos que compunham o arcabouço da “modernização conservadora” do Império
estava a adoção do sistema métrico decimal — um sistema de medidas que havia
surgido na Revolução Francesa e que, aos poucos, se espalhava pelo mundo.
A ideia
de um padrão de medidas universal era uma reivindicação antiga que visava
facilitar a integração do comércio, a produção da indústria e até a realização
de pesquisas científicas. A sua implementação, no entanto, foi bastante
atribulada em todo o mundo. Em muitos locais, a imposição do sistema francês
era interpretada como um apagamento das tradições nacionais.
Houve
também muita resistência e desconfiança dos camponeses e pequenos comerciantes,
tanto pelo apego às tradições quanto pela crença de que a medida visava, de
alguma forma, rejudica-los. Países como
México e Colômbia registraram violentos levantes populares contra a adoção do
novo sistema de medidas. E, ainda hoje, há três nações que seguem se recusando
a adotar o padrão métrico internacional: Estados Unidos, Libéria e Mianmar.
No
Brasil, a rejeição ao sistema decimal foi particularmente forte no Nordeste,
refletindo o contexto de crise que a região atravessava. A economia regional,
centrada na cana-de-açúcar, no algodão e na pecuária, vivia um momento de
declínio e a pobreza estava em ascensão.
Com o
fim da Guerra de Secessão nos Estados Unidos, houve a retomada da produção de
algodão nos estados do Sul, diminuindo a demanda pelas exportações do Nordeste.
O cultivo da cana-de-açúcar enfrentava a crescente concorrência das ilhas do
Caribe, enquanto a pecuária extensiva sofria com a falta de pastos durante as
secas periódicas. As estiagens de 1872 e 1873 haviam dizimado rebanhos e
forçado os camponeses a migrarem para as vilas em busca de trabalho.
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As queixas do povo
A lei
que estabelecia o uso do sistema métrico francês no Brasil foi sancionada em
1862, prevendo um prazo de dez anos para a adaptação. O governo determinou a
criação de cursos sobre o sistema decimal nas escolas de instrução primária e
editou livros e panfletos sobre o assunto, mas havia uma barreira
intransponível para a difusão dessas informações: 82% da população brasileira
era analfabeta. A maioria das cidades não possuía sequer escolas de ensino
básico.
Quando
o novo sistema entrou em vigor em setembro de 1872, a população foi pega de
surpresa. Acostumados durante a vida inteira a usar medidas como o palmo, a
braça, a légua, o grão, o quartilho e a onça, os populares agora eram forçados
a adotar o uso do centímetro, do metro, do litro, do grama e do quilograma. A
adesão era obrigatória. Quem se recusasse a utilizar o novo sistema poderia ser
punido com multa ou até prisão.
A
imposição das novas medidas causou enorme descontentamento popular. O sistema
decimal, além de parecer confuso para quem não o conhecia, foi interpretado
como uma tentativa do governo de enganar a população e facilitar esquemas
fraudulentos. Nas feiras e nos mercados, o cenário era de brigas e
desentendimentos.
Camponeses,
comerciantes e fregueses acreditavam que estavam sendo prejudicados pelas novas
medidas. Pensavam que a conversão de preços não acompanhava a mudança no volume
dos produtos comercializados. Muitos achavam que as balanças poderiam estar
adulteradas. Multiplicavam-se as denúncias de corrupção contra fiscais e
agentes de coletoria, acusados de manipular registros e marcações.
Além da
desconfiança, a população se queixava do ônus gerado pela decisão. Com o novo
sistema, os comerciantes eram obrigados a comprar ou alugar novas balanças,
pesos e vasilhas de medidas certificadas. Esse custo foi repassado aos
fregueses, resultando no encarecimento dos produtos.
A
criação de novos impostos completava o quadro. O governo imperial havia
autorizado a instituição do “imposto de chão”, cobrado dos feirantes que
expunham seus produtos no chão da feira. As províncias aproveitaram a ocasião
para impor novas taxas incidindo sobre o funcionamento de matadouros, o
comércio de gado, a fabricação de rapadura, o uso de bancas nas feiras, etc.
O povo
se recusava a usar o novo sistema e as multas e prisões corriam soltas. Em
vários vilarejos do interior nordestino, as cadeias estavam lotadas de pessoas
presas por dívidas fiscais. Lavradores, pequenos comerciantes, artesãos e até
setores da elite local estavam fartos dos abusos.
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A Revolta do Quebra-Quilos
A
insatisfação generalizada desencadeou uma revolta popular. A insurreição teve
início em Fagundes, um povoado nos arredores de Campina Grande, no Agreste
paraibano. No dia 31 de outubro de 1874, um grupo de revoltosos invadiu a feira
da cidade e começou a quebrar as balanças e a inutilizar os pesos e recipientes
de medidas.
Os
protestos em Campina Grande continuaram nos dias seguintes e chegaram a um novo
patamar em 14 de novembro de 1874, quando um negro livre chamado João Vieira da
Silva, o João Carga d’Água, conclamou os populares à rebelião. A polícia foi
chamada para debelar a manifestação e João incitou o povo à resistência,
jogando tijolos de rapadura contra os policiais.
A ação
foi descrita por Geraldo Irinêo Joffily no livro “O quebra-quilo. A revolta dos
matutos contra os doutores”: “Os feirantes procuraram abrigo por trás dos
garajaus de rapadura. Foi aí que o negro João Carga d’Água, muito conhecido de
todos, jogou o primeiro tijolo de rapadura contra os da polícia, sendo imitado
por muitos, já que milhares de rapaduras de mais de meio quilo estavam
empilhadas sobre esteiras no pátio da feira; um rebolo de rapadura acertou em
cheio a cabeça do delegado, que ficou desacordado por muito tempo, enquanto os
soldados eram surrados pelas mulheres”.
Logo,
uma multidão participava do protesto. As balanças foram partidas a machadadas e
os pesos de ferro foram jogados em um açude da cidade. O levante não se limitou
à feira. Comandados por Manuel de Barros Souza e Alexandre Viveiros, colunas de
populares avançaram até a cadeia da cidade, onde libertaram todos os presos.
Depois, incendiaram o cartório local, depredaram os prédios do governo e
destruíram os arquivos da prefeitura.
Nas
portas dos prédios públicos, os insurgentes colaram cópias de um “Manifesto da
Sedição do Quebra-Quilos”: “É preciso um dilúvio de sangue para que desapareçam
eternamente desta terra os ladrões”, asseverava o documento. Cançonetas e
cordéis foram criados para exortar o povo à mobilização. “O quilo é roubo! Quem
pesa com quilo rouba o povo”, repetiam aos gritos os manifestantes.
A
notícia do levante viajou a galope e inspirou ações análogas nas cidades
vizinhas. Revoltas eclodiram por toda a província da Paraíba: Ingá, Cabaceiras,
Pilar, Areia, Alagoa Grande, Alagoa Nova, Bananeiras, São João do Cariri. Por
toda parte, os rebeldes atacavam feiras e mercados, invadiam os prédios
públicos e destruíam os arquivos e documentos.
A
Revolta do Quebra-Quilos se estendeu por meses e ultrapassou as divisas
paraibanas, se expandindo para as províncias de Pernambuco, Rio Grande do
Norte, Alagoas e Piauí. Mais de 70 cidades registraram rebeliões populares. No
ano seguinte, o levante chegou ao norte de Minas Gerais, onde vários vilarejos
também se insurgiram.
Preocupadas
com a crescente agitação social, as elites locais demandaram uma rígida
resposta do governo. Na imprensa, os rebeldes eram tratados como “matutos
fanáticos e ignorantes” que ameaçavam a paz e a segurança pública.
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A repressão
A
reação do governo imperial foi violenta. Tropas numerosas, armadas com fuzis e
canhões, foram despachadas até os povoados rebelados para esmagar o movimento.
Na Paraíba, as operações ficaram a cargo do coronel Severiano da Fonseca, irmão
do marechal Deodoro da Fonseca, o futuro proclamador da República.
A
repressão desatou atos de punição coletiva, resultando no assassinato não
apenas dos rebeldes, mas até de pessoas que eram apontadas como meros
simpatizantes da causa. Seguiram-se as prisões em massa, com centenas de
pessoas enviadas acorrentadas para o Rio de Janeiro.
O
capitão José Longuinho da Costa Leite ficaria conhecido por submeter os
insurgentes a torturas cruéis. Ele foi o inventor dos chamados “coletes de
ouro”. Faixas de couro cru eram costuradas ao redor do corpo dos prisioneiros,
após ficarem mergulhadas em água por horas. Quando secavam, as faixas encolhiam
e iam comprimindo o tórax das vítimas, causando asfixia, dores lancinantes e,
em muitos casos, uma morte lenta e agoniante.
Um
decreto imperial assinado em setembro de 1875 concedeu anistia aos envolvidos
na Revolta dos Quebra-Quilos, permitindo a libertação dos sobreviventes. Apesar
da brutalidade da repressão, a população seguiu se recusando a usar as novas
medidas.
Foi
somente a partir da Era Vargas que o processo de transição para o sistema
métrico decimal começou a se consolidar, em resposta às exigências da
industrialização. Ainda assim, em muitas localidades do Brasil, medidas como
“palmo”, “légua” e “braça” seguem em uso informal até hoje.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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