Bernardo
Kocher: A paz e o “micro-genocídio”
Desde o
anúncio do acordo de cessação de hostilidades, descontinuando a fase mais
robusta da política social genocida contra o povo palestino realizada pelo
Estado sionista, em 13 de outubro de 2025, foi iniciada na mídia main
stream e nos canais independentes da rede mundial de computadores uma
discussão acerbada. Esta tem como ponto central a polêmica sobre a
possibilidade desta nova pactuação ser efetiva ou simplesmente mais um passo na
longa caminhada pela sobrevivência dos habitantes originais da Palestina. A
falsa sensação de que foi criado um mecanismo de paz duradouro se deu devido ao
fato de que no encontro que selou o acordo, no balneário de Sharm el Sheik,
Egito, Donald Trump, Abdul Fatah al-Sisi, Recep Tayyip Erdogan e o emir do
Catar, Tamim bin Hamad Al Thani, assinaram um documento que segundo o
presidente norte-americano abriria uma “nova” fase da História do Oriente Médio
e poria fim a mais de três mil anos de conflitos. A cerimônia foi presenciada
por outros cerca de vinte governantes e, bizarramente, as partes diretamente
envolvidas não estiveram presentes.
Tal
situação nos obriga à reflexão dentro do quadro analítico que estamos avaliando
desde outubro de 2023 em 25 artigos publicados anteriormente
neste Opera Mundi. Nestes tomamos como pressuposto que o que
ocorre na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, no Estado sionista, nos Estados Unidos
da América, Europa Ocidental e no Oriente Médio em geral, é produto de um
processo de execução de uma política social genocida e que esta deve ser vista
como um “sistema” de relações econômicas, políticas, ideológico-culturais e
sociais. Por este ângulo, não faz sentido considerar apenas que após dois anos
exatos (coincidência?), desde o início da política social genocida até a pactuação,
a destruição da Faixa de Gaza e a ocupação brutal dos colonos sionistas na
Cisjordânia estaria encerrada. O que o acordo assinado no Egito trouxe foi
apenas a diminuição da intensidade da aplicação da política social genocida
contra o povo palestino na Faixa de Gaza, mas não na Cisjordânia. O Líbano e a
Síria também sofrem impactos diretos desta ação dos sionistas após fevereiro de
2025.
Esta
paralisação da fase mais aguda de agressões poderia ter ocorrido em janeiro
deste ano, e de fato o Estado sionista cessou (temporariamente) os bombardeios,
principal manifestação àquela altura da política social genocida. Isto produziu
cenas memoráveis da população da cidade de Gaza retornando em massa do sul do
enclave, onde estava temporariamente abrigada. Este episódio ocorreu devido ao
fato de uma nova administração ter iniciado nos Estados Unidos da América e o
Estado sionista ter sido obrigado a respeitar uma espécie de ritual de aguardo
do início dos comandos que seriam emitidos pelos novos governantes e
administradores norte-americanos sobre o que fazer na Palestina. O que não está
claro é o porquê dos bombardeios e a nova tentativa de ocupação selvagem da
Faixa de Gaza terem reiniciado em março de 2025. A primeira fase do acordo
firmado sob a chancela do presidente Donald Trump, em 4 de fevereiro de 2025,
foi cumprido: libertação dos cativos sionistas e dos cidadãos palestinos presos
de forma ilegal. A segunda fase do plano, que previa o início de um processo de
gentrificação da Faixa de Gaza e a formação de um governo no enclave sem a
participação dos habitantes locais, jamais foi posta em prática. O projeto
elaborado e divulgado histrionicamente era voltado principalmente para a cidade
de Gaza, destinada para a construção de zonas residenciais e comerciais, além
da infra-estrutura para processamento da produção off shore de
gás que pertence ao povo palestino. Parecia que o plano de transformar o
enclave numa zona de habitações de luxo, de atividades econômico-financeiras e
de lazer para consumidores com alto poder de compra seria um devaneio a mais na
coleção de análises e propostas hilárias que o governante máximo
norte-americano não se cansa de produzir.
Por
algum motivo não esclarecido, mas plenamente inscrito no interior da correlação
de forças de todos os países envolvidos, foram reiniciados os bombardeios
aéreos contra a população civil indefesa e sem abrigo. Os sionistas também
retornaram a agressão contra a população da Cisjordânia com mais força,
desrespeitaram o acordo com o Líbano firmado em novembro de 2024 bombardeando o
sul do país e matando cidadãos libaneses a esmo, iniciaram a invasão do
território sírio após 8 de dezembro do ano passado, declararam (e perderam) a
guerra de doze dias contra o Irã foi (entre 13 e 24 de junho) com pleno apoio
externo e, finalmente, por várias vezes o Iêmen foi bombardeado.
No
início do corrente ano também houve uma espécie de parada estratégica do Estado
sionista para recompor a correlação de forças internas para fins de reencontrar
o caminho do “macro-genocídio” a que fora obrigado a interromper pelo governo
norte-americano. O intervalo de cerca de dois meses na aplicação da política
social genocida contra o povo palestino recarregou as baterias desgastadas do
Estado sionista, o que ajudou a cumprir várias funções de ajuste na correlação
de forças e na capacidade narrativa dos que governam o país agressor. Este
interregno foi uma espécie de preparo para o retorno do “macro-genocídio” pois:
a) contentou e amenizou a oposição interna ao liberar um número razoável de
cativos; b) permitiu ao Estado sionista apurar sua inteligência no campo e
tentar determinar com precisão os locais onde os túneis estavam localizados no
sub-solo de Gaza; c) ajudou a recompor logísticas no fornecimento de bens e
serviços e reforçou fontes de financiamento; d) testou a coalização de poder
que sustenta o atual governo sionista (esta foi rompida após o acordo de paz de
fevereiro, provocando a saída de ministros de extrema-direita do governo mas a
coalizão não deixou de dar sustentação ao primeiro-ministro sionista); e)
localizou com melhor precisão a natureza da orientação do novo governo
norte-americano, informando aos governantes do Estado sionista quais pontos e
grupos de pressão que ainda estariam à disposição para defender seus
interesses.
Assim,
passados oito meses desde o reinício do “macro-genocídio” as negociações
indiretas entre o Estado sionista e a resistência palestina alcançaram um novo
acordo. Seus termos não são diferentes dos vários que foram colocados
anteriormente sobre a mesa de negociação em outras oportunidades. A posição
refratária do Estado sionista a qualquer tipo de compromisso com a cessação da
sua orientação genocida chegou mesmo a atentar contra a vida dos negociadores
da resistência palestina que estavam a postos para realizar as negociações em
Doha, Catar, em 9 de setembro de 2025. Esta ação, conjugada entre o Estado
sionista e seu principal mantenedor, os Estados Unidos da América, ocorreu
poucas semanas antes da assinatura do acordo que atualmente vige. O ataque
sofisticado com mísseis lançados em direção ao sítio onde os negociadores se
localizavam criou uma crise sem precedentes na percepção dos países do Oriente
Médio sobre o papel do Estado sionista, já que o Catar é um país tão alinhado
com a orientação norte-americana para o Oriente Médio tanto quanto o próprio
Estado sionista. O mal-estar e a decepção dos países árabes que suportam a ação
norte-americana e a de seu preposto ainda não podem ser mensurados. De qualquer
forma, o episódio demonstrou (mais uma vez) que existe uma consorciação figadal
entre os atacantes, já que os EUA tinham condições de intervir no ataque já que
possui no Catar a sua maior base militar do Oriente Médio, contando com
equipamentos de defesa contra ataques aéreos. Esta disposição para o ataque (do
Estado sionista com apoio dos EUA) junto com a indisposição de defesa dos EUA é
a prova de que os dois países possuem posição firmada contra todos os países
árabes/muçulmanos do Oriente Médio, não importando qual a posição que estes
assumam.
A
oposição a qualquer tipo de acordo (e o não cumprimento dos que foram firmados)
é a regra da conduta do Estado sionista; a exceção foi a aceitação deste
procedimento. Isto faz com que tenhamos que analisar o complexo contexto que se
abriu com o novo acordo considerando que a regra foi e está (ao menos no
momento) dominada no momento pela exceção.
Por que
a resistência em cessar a política social genocida? Da mesma forma, por que
repentinamente esta foi estancada? Os elementos que explicam estas duas
situações estão longe de estarem claros no presente momento e talvez nunca
sejam totalmente elucidados quais motivos levaram à mudança repentina de
posição tanto do mentor imperialista quanto do preposto sub-imperialista.
Alguns termos podem ser alinhados para dar luz ao novo contexto. O primeiro foi
o grave esgotamento e divisão política da sociedade civil sionista; esta não
deixou, em sua maioria, de apoiar o que se passava em Gaza, ignorando
solenemente o sofrimento do povo palestino. Seu primeiro e quase exclusivo
objetivo era fazer a extração dos reféns do cativeiro. Tal stress foi
metabolizado de forma direta, pelos parentes e amigos dos cativos, e indireta,
pela sociedade civil sionista laica. Ela tentava evitar a formação de um ethos de
fraqueza de suas convicções fantasiosas que os sionistas alimentam desde sempre
sobre a legitimidade do processo de ocupação de um território que não lhes
pertence. A longa permanência dos cativos sionistas da Faixa de Gaza ensejou um
sentimento desconfortável nos sionistas laicos: introduziu uma impotência, a
sensação de perda do controle da situação e insegurança que incidem nas
convicções sobre a natureza da sua sociedade. Este desconforto emocional
dificultava lidar com suas dúvidas e fraquezas – ocultadas por décadas de
massacre contra o povo palestino convivendo com o ocultamento socialmente
legitimado desta situação -, em meio a uma situação que não era nova (lembremos
que o soldado Gilad Shalit foi cativo entre 2006 e 2011) mas inusitada pelo
número e extensão social dos envolvidos. Todos os cativos pertenciam aos judeus
laicos, daí a sensação de isolamento e insegurança ter sido amplificada, por
medo de que os judeus religiosos que ocupam o poder há décadas terem abandonado
a sua causa. Esta situação de debilidade foi captada e construída
brilhantemente pelo governo sionista no imediato 7 de setembro de 2023, quando
elaborou a palavra de ordem de que os episódios daquele dia punham o Estado
sionista sob uma “ameaça existencial”. Mesmo não concordando com as orientações
do seu governo, a oposição política da sociedade civil laica incorporou esta
palavra de ordem numa dimensão emocional crucial para justificar seu apoio ao
projeto sionista. Por outro lado, o desinteresse do governo em colocar a
libertação dos cativos que estavam na Faixa de Gaza catapultou os cidadãos
laicos para uma crise existencial ainda maior: a sua crise tornou-se dupla, em
relação a situação dos cativos e em relação ao posicionamento da política
governamental. Daí a pressão sobre o governo para reverter esta situação,
priorizar o fim do conflito e criar as condições do retorno dos cativos, tornou-se
a única agenda possível para aplacar suas mágoas!
Não
acreditamos que quaisquer empecilhos materiais (economia em crise por fuga de
investimentos, destruição da infra-estrutura, escassez de bens e serviços,
dificuldades logísticas de importação ou exportação de mercadorias) ou inibição
grave da reprodução da vida social tenham influenciado a decisão do governo. O
acordo de fevereiro de 2025 foi imposto de fora para dentro e tem sido
reelaborado internamente como meio de mais uma vez ser um restart para
recolocar a máquina opressiva do sionismo a um nível de operação máximo. Agora
o sionismo já conta com os resultados catastróficos sobre a vida social da
Faixa de Gaza que a destruição da sua infra-estrutura e de parte significativa
da sua demografia causou. Nesta nova conjuntura, a da prevalência do “micro-genocídio”,
os empecilhos a serem criados para evitar a reconstrução física da
infra-estrutura será a forma material da continuidade da política social
genocida.
Além do
visto acima, devemos considerar que os planos megalômanos do presidente
norte-americano, tornados públicos por meios de divulgação utilizando
inteligência artificial em fevereiro de 2025, podem em alguma medida serem
implementados. Em outubro de 2025 mais de cinquenta por cento do território do
enclave quedavam sob controle direto do poder militar sionista. Esta situação
de vantagem no terreno dá ao sionismo interno a possibilidade de fazer com
maestria algo que sempre praticaram: administrar o tempo para que melhores
condições surjam para executar algum plano de ação, seja ele qual for. Ocupar a
Faixa de Gaza com interesses norte-americanos ou com novas colônias de
fanáticos sionistas religiosos, ocupar o sul da Síria ou do Líbano com a mesma
intenção colonizadora, ameaçar todos os países ao seu alcance com retaliações
caso não se alinhem aos interesses do Estado sionista, etc., são objetivos que
não são incompatíveis uns com os outros e até se alimentam mutuamente. Esta é,
enfim, a execução do sionismo externo, uma projeção para o mundo exterior do
sionismo interno e com ele interagindo dinamicamente.
Externamente
vários fatores também contribuíram para o fim de bombardeios. Um deles é a
política interna norte-americana. Além das posições absolutamente randômicas
que o chefe de Estado não se cansa de pronunciar, o consenso interno sobre o
apoio que o país fornece ao Estado sionista está sendo questionado em escala
ascendente. O mesmo pode ser dito entre os demais países desenvolvidos, dos
quais cinco deles (Grã-Bretanha, Austrália, Canadá, França e Portugal)
reconheceram a Palestina como Estado independente em 21 e 22 de setembro de
2025. Mesmo que não sejam implementadas medidas para viabilizar materialmente o
reconhecimento público e oficial deste ente nacional, a aceitação da existência
de um Estado da Palestina representa uma forma de expressar que parcela da
população destes países pode estar perigosamente se desengajando da versão
sionista. Os movimentos sociais que ocuparam as ruas de diversas cidades
durante toda a fase do “macro-genocídio” mantiveram e até fortaleceram suas
palavras de ordem. Mesmo com a aplicação de medidas repressivas brutais pela
polícia, os manifestantes foram desenvolvendo cada vez mais convicções,
ampliando o número de cidadãos que passaram a se manifestar sobre o assunto e
formulando análises e slogans que em muito superaram a
plasticidade argumentativa dos sionistas e seus defensores. Ou seja, as
manifestações estavam literalmente ganhando corações e mentes e vencendo a
batalha cognitiva sobre o que se passa (e o mais importante, o que se passou, a
História) na ocupação da Palestina pelos sionistas.
O
assassinato do ativista de extrema direita norte-americano, Charles Kirk, em 10
de setembro de 2025, dias antes do fechamento do acordo sobre Gaza, também deve
ser considerado como fator de escalada de formação de opiniões contrárias à
continuidade do apoio ao Estado sionista e da sua política social genocida.
Neste caso, uma eventual perda de eficiência do lobby sionista
e sua narrativa carente de comprovação nos fatos históricos é grave. A
anunciada dissensão do ativista e formador de opinião de direita, alvejado
aparentemente sem motivação objetiva ocorreu, no entanto, após ficar claro que
ele estava se afastando e induzindo parcelas da juventude a rever o papel do
seu país em relação à dependência dos interesses exclusivos do Estado sionista
no deep state norte-americano. Este movimento indicava que ele
estava comprometendo o apoio futuro ao projeto de ocupação estrangeira da
Palestina. Sua mensagem se dirigia aos jovens, futuros cidadãos com poder e
influência no Estado e na sociedade. Com pouco mais de trinta anos de idade,
Charles Kirk tornou-se referência crítica do apoio irrestrito ao lobby sionista,
obtido por influência política e métodos suspeitos de conduta na obtenção de
apoio nas instituições internacionais e recursos financeiros e militares que
são drenados para o Estado sionista. Tornou-se público que algumas semanas
antes da sua morte que ele recusou o financiamento direto do Estado sionista
para suas atividades de proselitismo político. O primeiro-ministro sionista foi
questionado pela imprensa sobre uma eventual participação dos seus serviços de
espionagem internacional no atentado que matou o jovem militante político. Não
existem bases objetivas para esta especulação, mas o simples fato deste
questionamento existir já aponta a corrosão do Estado sionista junto aos
formadores de opinião no país que é seu principal suporte político e
financiador.
Um
outro fator que indicamos para compreender a decisão de pôr fim ao
“macro-genocídio” é o fato de que vários sindicatos italianos decidiram pela
paralisação das atividades laborais em protesto contra a prisão dos membros da
frota de barcos civis de solidariedade com Gaza, a Sumud Global Flotilha. Em 22
de setembro de 2025 as manifestações paredistas alcançavam escala considerável
na Itália. Sob o lema “Bloqueemos tudo”, uma chamada para estancar o envio de
produtos para o Estado sionista, centenas de milhares de manifestantes de
várias atividades econômicas em cidades europeias se manifestaram. A greve
geral italiana, cuja profundidade e extensão não temos condições de analisar no
momento, poderia ter sido o início de uma insurgência da classe trabalhadora
contra a política social genocida contra o povo palestino pelo Estado sionista.
Dissemos “poderia”, já que o acordo assinado em 13 de outubro mas divulgado
anteriormente, fez refluir as manifestações de protesto da classe trabalhadora.
Não temos condições de afirmar positivamente se esta manifestação do mundo do
trabalho influenciou ou não o estancamento do “macro-genocídio”, mas a greve
geral italiana aponta para a única barreira que separa a civilização da
barbárie: a insurgência da classe trabalhadora. Também não temos no momento
condições de estabelecer se o que ocorreu poderia ter iniciado uma ação mais
ampla (tanto na pauta quanto no número de trabalhadores, atividades e países
envolvidos) alcançando um questionamento das estruturas das relações sociais de
produção capitalistas como a base da implementação da política social genocida
contra o povo palestino. Esta incerteza existe por que a decisão de participar
passivamente do acordo foi imposta ao Estado sionista pelo presidente Donald
Trump, e este governante possui uma ação política tipicamente bonapartista. Tal
situação nubla a percepção real da expressão dos interesses das classes
sociais.
De
qualquer forma, o acordo não trouxe a paz definitiva. Apenas transformou o que
era explícito e exposto (o “macro-genocidio”) em uma ação menos intensa que
remete a conduta do Estado sionista contra o povo palestino aos parâmetros
existentes no pré-7 de outubro de 2023 (o “micro-genocidio”). O acordo não
produziu mudanças fundamentais e estruturais na condição de espoliação física,
social e moral do povo palestino já que todo o cenário para uma ação
contundente tanto do sionismo interno quanto do sionismo externo apenas se
colocaram num compasso de espera para que numa conjuntura propícia possam
formar o que em artigos anteriores chamamos de pax israelensis.
Antes
da terceirização da assinatura do acordo que dizia respeito às suas ações, o
sionismo meticulosamente acelerou a eliminação de atores e meios materiais
relevantes para a defesa e elaboração de propostas para a sociedade palestina,
o que poderia constituir uma nação palestina enquanto uma dimensão simbólica.
Atualmente está em curso, em meio a um cenário criado pela instauração do
“micro-genocídio”, o meticuloso apagamento visual do que foi registrado pela
população palestina durante o “macro-genocídio”. Notícias estão sendo
veiculadas pela rede mundial de computadores de que as plataformas de exibição
de vídeos curtos estão apagando esta auto-produção de filmagens que comprovam
que o que estava em curso era a aplicação de uma política social genocida. Isto
indica que nesta nova fase uma batalha cognitiva está em marcha. O sionismo
administra com habilidade e meios materiais e políticos a memória coletiva para
que no futuro esta possa ser dissolvida. Nesta ação deliberada de ocultamento
do que já foi demonstrado publicamente devemos considerar que uma luta pelo
controle da narrativa é significativo, o que influenciará no médio prazo a
produção de análises sobre o que tem ocorrido na Palestina desde 7 de outubro
de 2023. Se esta tendência se confirmar, o conhecimento a ser produzido pelas
próximas gerações ficará restrito a poucos filmes disponíveis e, portanto, mais
difícil de provocar engajamento da sociedade civil. O apagamento proposital dos
registros de imagens produziria no futuro o desconhecimento, o ceticismo e a
dúvida sobre o que está acontecendo na Palestina. Algo similar ocorreu quando
os sionistas expulsaram o povo nativo e legítimo habitante da Palestina no
Nakba (“catástrofe”) palestino entre 1947 e 1951, e no Naksa (“revés”) em 1967.
Eles não deixaram à mostra senão resíduos do que havia ocorrido, baseando sua
ilegitimidade enquanto governantes do seu Estado contando com uma verdade que
não se explicitava em documentos ou na memória coletiva. Esta perda de
referencial factual só foi rompido quando Historiadores israelenses conhecidos
como os “Novos Historiadores” pesquisaram na década de 1980 os documentos
tornados públicos pelo Estado sionista e existentes em arquivos ingleses. Estas
fontes de pesquisa demonstram a intenção da expulsão da população palestina de
seu país contradizendo totalmente as parvoíces que os sionistas insistem em
tornarem públicas e cujo conteúdo não nos prestaremos a reproduzir neste
artigo.
A nova
visão sobre o ocorrido nas décadas anteriores só foi possível quando da eclosão
da primeira Intifada em 1987. Ela tanto valorizou as descobertas dos “Novos
Historiadores” quanto mais uma vez obscureceu a importância destas mesmas
descobertas, já que o Estado sionista e sua sociedade preferiram acreditar que
também havia naquele momento uma ameaça existencial. Nem mesmo os Acordos de
Oslo (consequência direta da Primeira Intifada) construiu na sociedade civil
sionista a legitimidade e aceitação plena da pesquisa acadêmica que os próprios
historiadores israelenses deram vida. Acrescente-se que Historiadores
palestinos (Arif al-Arif, Elias Khouri e Walid Khalidi que já vinham escrevendo
sobre esta mesma situação, questionando que a questão palestina foi iniciada
com o êxodo voluntário dos próprios que seguiam ordens emanadas pelos seus
líderes), mas não alcançaram a repercussão devida entre o grande público do que
havia se passado na Palestina.
O mais
significativo apagamento seletivo da memória socialmente construída sobre a
política social genocida contra o povo palestino foi o apagamento da página do
Instagram do jornalista Saleh Aljafarawi, morto em 12 de outubro de 2025, um
dia antes da assinatura do acordo em Sharm el Sheik. Ele foi atingido
mortalmente ao cobrir confronto entre o Hamas e as milícias criminosas
financiadas pelo Estado sionista com o fim de dividir e infligir caos e
desordem na sociedade palestina para enfraquecer a resistência à ocupação. Não
duvidamos que este assassinato possa ter sido uma encomenda dos sionistas aos
seus aliados. Ao longo dos dois anos da aplicação da política social genocida
contra o povo palestino Saleh Aljafarawi tornou-se uma voz presente, crítica, afetuosa
e ativa ao registrar e analisar jornalisticamente o martírio de seu povo.
Indiscutivelmente suas convicções políticas, religiosas e profissionais
representaram unidade e esperança de dias melhores. Ele lutou com seus meios de
vida contra a política social genocida e sua orientação de cancelamento
simbólico e memorial da História da Palestina e seu povo.
Fonte:
Opera Mundi

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