Redenção
de Cam: a eugenia na arte brasileira
Há 130
anos, o pintor Modesto Brocos ganhava a Medalha de Ouro do Salão Nacional de
Belas Artes com a pintura A Redenção de Cam, hoje integrada ao acervo do Museu
Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.
Considerada
uma das principais referências iconográficas das doutrinas racistas que
vigoravam na Primeira República, a obra enaltece o projeto de branqueamento
racial da população por meio da miscigenação e se converteu em um símbolo das
aspirações do movimento eugenista brasileiro.
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Modesto Brocos
Pintada
poucos anos após a abolição da escravatura, A Redenção de Cam evidencia o
esforço da elite brasileira em reafirmar sua hegemonia no ordenamento político
e social do Brasil.
Buscando
criar uma sociedade que emulasse a Europa e que estivesse estruturada segundo o
ideário da supremacia branca, o governo brasileiro instituiu uma política
nacional de branqueamento, financiando a vinda de milhões de imigrantes
europeus e fomentando a miscigenação como meio de “diluir” e eliminar
gradualmente a presença de negros na população.
Esse
mesmo processo ocorreu em outros países da América Latina — nomeadamente na
Argentina, que recebeu mais de 6 milhões de imigrantes europeus entre o fim do
século 19 e o início do século 20.
O
pintor espanhol Modesto Brocos foi um dos milhões de europeus que imigraram
para o continente americano no século 19. Inicialmente radicado na Argentina,
Modesto Brocos se mudou para o Brasil em 1872, passando a trabalhar como
ilustrador.
No Rio
de Janeiro, Brocos frequentou os cursos da Academia Imperial de Belas Artes,
onde teve aulas com Victor Meirelles e Zeferino da Costa. Após uma série de
viagens de estudos na Europa, Brocos retornou ao Brasil para assumir o cargo de
professor de desenho figurado na Escola Nacional de Belas Artes, por convite de
Rodolfo Bernardelli.
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Religião, escravidão e a tese do branqueamento
“A
Redenção de Cam” se tornaria a obra mais conhecida de Modesto Brocos. O título
da pintura é uma referência ao episódio bíblico da maldição lançada por Noé
sobre seu filho mais novo, Cam, e todos os seus descendentes, conforme relatado
no livro de Gênesis. Punindo Cam por zombar de sua nudez e embriaguez, Noé
profetizou que os descendentes de seu filho seriam “servos dos servos de seus
irmãos”.
Não há
nenhuma passagem da Bíblia mencionando a cor da pele de Cam e de seus
descendentes. E é provável que o mito originalmente tivesse por objetivo
justificar o domínio dos israelitas sobre os cananeus. Posteriormente, durante
a Idade Média, a maldição de Cam foi utilizada como uma justificativa para a
servidão.
Ainda
no período medieval, surgiram interpretações alegando que os descendentes de
Cam tiveram a pele “escurecida pelo pecado”. Aos poucos, ideólogos cristãos
passaram a associar os povos de pele negra da África à descendência camita.
Tais
interpretações se tornaram prevalentes após o início da expansão colonial
europeia, quando foram utilizadas como justificativa moral para o comércio de
africanos escravizados, base do sistema colonial.
Na
argumentação dos escravagistas, o pecado de Cam seria o episódio desencadeador
e permanente de uma suposta “punição divina” imposta aos povos de pele negra. A
escravização dos africanos era apresentada como o cumprimento da “vontade de
Deus”.
O mito
da maldição de Cam teve forte influência no desenvolvimento das teorias raciais
oitocentistas, mas seguiu contornos próprios no Brasil. Na Europa, a emergência
de teorias antropológicas como o darwinismo social e o evolucionismo social
fortaleceriam a crença em diferenças somáticas e genéticas entre brancos e
negros, levando à rejeição da miscigenação e ao fortalecimento do pensamento
segregacionista.
Já no
Brasil, sobretudo após a década de 1870, registrou-se um forte apoio à tese do
branqueamento por meio da miscigenação, que foi encampada pelo Estado e passou
a influenciar as políticas de imigração.
João
Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional, foi um dos maiores defensores da
tese do branqueamento, propondo que por meio de casamentos inter-raciais seria
possível embranquecer toda a população brasileira em três gerações — o espaço
equivalente a um século.
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A Redenção de Cam
“A
Redenção de Cam” é um produto da forte presença da tese do branqueamento no
imaginário social do Brasil no fim do século 19. Na obra, Modesto Brocos
vislumbra a reversão da maldição de Cam como uma alegoria para exaltar o
branqueamento.
Se a
pele negra era uma consequência da maldição, o branqueamento através da
miscigenação seria um caminho para a redenção. A proposta, portanto, é de que a
purificação do povo negro somente seria obtida através de sua extinção.
A cena
é ambientada em frente a uma pobre habitação de pau a pique, onde estão
retratadas quatro pessoas, simbolizando três gerações de uma mesma família. Em
pé no canto direito está a avó negra. Ao centro, a mãe mestiça sentada com a
criança branca em seu colo. À esquerda, o pai, também branco, sentado no degrau
da porta, observando o filho com olhar oblíquo e ar de satisfação.
A
matriarca, com semblante emocionado, ergue as mãos aos céus, em gesto de
agradecimento pela “redenção”: o nascimento do neto branco, que, ao seu ver,
estaria liberto dos estigmas e das consequências nefastas da escravidão.
A
composição hierática, a postura das personagens e elementos como o manto azul
da mãe com o filho no colo remetem à iconografia tradicional da Virgem Maria
com o Menino Jesus, estabelecendo nuances de sacralização diretamente
relacionados à cor da pele — quanto mais escura, mais profana, quanto mais
clara, mais sagrada.
O bebê,
o personagem mais branco do quadro, evoca a figura de Jesus Cristo, “redentor”
da humanidade, reforçando o simbolismo do branqueamento como a “salvação” de um
povo. Ele observa a avó e estende a mão em sua direção, num gesto ambíguo que
parece sugerir uma benção.
A obra
foi premiada com a medalha de ouro no Salão Nacional de Belas Artes de 1895 e
recebeu fartos elogios da crítica, de Artur de Azevedo a Coelho Neto. O poeta
Olavo Bilac, membro da Sociedade Eugênica de São Paulo, exaltou a obra em um
texto laudatório da moral racista da época: “Vede a aurora-criança, como sorri
e fulgura, no colo da mulata – aurora filha do dilúvio, neta da noite. Cam está
redimido! Está gorada a praga de Noé!”.
Em
1911, a tela foi usada para ilustrar o artigo Sobre os Mestiços no Brasil,
escrito por João Batista de Lacerda e apresentado durante o I Congresso
Universal das Raças, em Londres. Defendendo a miscigenação como estratégia de
branqueamento, Lacerda descreveu a pintura como um exemplo do “negro passando a
branco, na terceira geração, por efeito do cruzamento de raças”, e fez um
prognóstico da sua tese, especulando que em cem anos a população negra estaria
extinta e os mestiços representariam, se muito, 3% da população brasileira.
A
Redenção de Cam se tornou um dos maiores símbolos do movimento eugênico
brasileiro, evidenciando o pensamento racista e elitista que caracterizou o
processo pós-abolicionista da Primeira República — enxergando a Europa como
modelo e símbolo do progresso e o negro como o atraso, o passado a ser
esquecido, apagado e reconstruído.
O autor
da obra, por sua vez, seria responsável por conceber outro manifesto eugenista
bem conhecido. Em 1930, Modesto Brocos publicou o livro Viagem a Marte, um
romance de ficção científica que retrata o planeta vermelho como uma “utopia
eugênica”, onde os brancos detém o poder e mantém uma política de reprodução
controlada. No livro, o autor propõe ideias como políticas de esterilização
forçada e o assassinato em massa de bebês considerados imperfeitos. E assevera
ter a esperança de que “tais ideias possam ser aproveitadas um dia”.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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