As
personalidades históricas cuja origem negra você talvez não conheça
Machado
de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos e idealizador da
Academia Brasileira de Letras (ABL), não era branco — como muitas imagens em
livros escolares o retratam.
Assim
como Chiquinha Gonzaga, um dos pilares mais importantes da música brasileira,
que já foi interpretada por atrizes brancas.
E
talvez você não saiba, mas o Brasil já teve um presidente considerado negro:
Nilo Peçanha governou o país de 1909 a 1910.
"Toda
pessoa afro que, ao longo da história, foi muito importante para a humanidade,
acabou embranquecida ou neutralizada", diz à BBC News Brasil o filósofo e
teólogo David Santos, frade franciscano e fundador da organização Educafro
Brasil.
Para a
pesquisadora em política públicas Roberta Basilio, a omissão da origem negra de
personalidades históricas tem a ver com uma "necessidade de negar que uma
pessoa negra possa ser tão genial".
"O
racismo precisa embranquecer as personalidades porque assim fica 'mais fácil'
reconhecer a genialidade, o talento e a potência dessas pessoas", diz
Basílio, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Especialistas
entrevistados pela BBC News Brasil alertam para os limites de se usar termos e
discussões contemporâneas sobre raça ao falar de histórias de outras épocas,
quando muitos desses termos nem existiam.
Mas
eles também apontaram para a importância desse tipo de resgate por movimentos
antirracistas atuais — até porque muitas dessas figuras sofreram racismo em
vida.
Fim do
Mais lidas
A
seguir, confira histórias de personalidades famosas que foram
"embranquecidas" ou tiveram sua origem negra pouco enfatizada ao
longo do tempo.
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Machado de Assis
Quando
Machado de Assis (1839-1908) morreu, sua certidão de óbito afirmava que sua cor
era "branca".
E foi
com tons clareados que sua imagem povoou contracapas de suas obras e páginas de
apostilas escolares durante todo o século 20.
Sabe-se
que ele era filho de pai pardo, alforriado, e mãe branca.
Em
vida, era considerado mulato. Ou "pessoa de cor", como se dizia
comumente na época.
Isso é
possível de notar pelas poucas fotografias do escritor e também por cartas da
época.
Em 6 de
junho de 1871, por exemplo, o poeta português Gonçalves Crespo (1846-1883)
redigiu uma missiva ao brasileiro na qual afirmou que nutria "uma certa
simpatia" por ele "quando me disseram que era… de cor como eu".
No
obituário publicado no Jornal do Commercio — escrito pelo jornalista e escritor
José Veríssimo (1857-1916), que era seu amigo —, Assis foi definido como
"mulato".
Em
conferências proferidas entre 1915 e 1917 sobre o legado de Machado, o
jornalista, advogado e crítico Alfredo Pujol (1865-1930) pontuou que o escritor
era filho "de um casal de gente de cor" e teria sofrido
"agruras" por conta de "preconceitos de cor".
E na
biografia escrita por Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), publicada em 1936, o
escritor é chamado de "mulatinho", "mestiço" e
"pardinho" pela autora.
Gradualmente,
contudo, Machado de Assis foi "embranquecido" em imagens reproduzidas
em livros, inclusive os didáticos.
Há, no
entanto, esforços para tentar reverter esse processo.
Em
2021, a Universidade Zumbi dos Palmares lançou uma campanha com um
abaixo-assinado pressionando que as editoras deixassem de imprimir e
comercializar livros em que o escritor aparecesse como branco.
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Lima Barreto
Outro
exemplo importante é o escritor Lima Barreto (1881-1922).
Filho
de pais negros e neto de escravizados, ele sofreu preconceito ao longo da vida
e parecia ter consciência racial — demonstrando isso em sua obra.
O
romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha é considerado de teor
autobiográfico por retratar preconceitos raciais e sociais.
Conforme
revelado em seu póstumo livro Diário Íntimo, quando tinha 23 anos, ele anotou
que tinha a ideia de escrever um "romance em que se descrevam a vida e o
trabalho dos negros numa fazenda".
Barreto
afirmou que pretendia fazer um "Germinal negro", aludindo ao clássico
romance Germinal, do francês Émile Zola (1840-1902).
Na
biografia Lima Barreto: Triste Visionário, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz
destaca que os conflitos de cunho racial estavam sempre em evidência nos
escritos de Barreto, seja nas tramas de seus livros, seja em suas anotações
pessoais.
A
pesquisadora relata que quando o escritor, adolescente, ingressou na Escola
Politécnica do Rio de Janeiro e se viu como único afrodescendente em uma turma
formada por brancos, filhos da elite, adquiriu consciência de sua negritude — e
de como o racismo operava.
Livros
como o de Schwarcz têm contribuído para dar a devida contextualização racial a
essas personalidades brasileiras.
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Chiquinha Gonzaga
Para a
pesquisadora Roberta Basilio, a mídia historicamente teve um papel nos
"embranquecimentos" — como na escolha de atores e atrizes com peles
mais claras que as pessoas reais retratadas nas novelas.
Basílio
cita como exemplo a minissérie da Globo que contou a história de Chiquinha
Gonzaga (1847-1935) em 1999.
Na
trama, a musicista foi intepretada por duas atrizes brancas: Gabriela Duarte,
quando jovem, e Regina Duarte, mais velha.
Chiquinha
era filha de uma negra liberta com um militar branco.
Ela não
só tinha consciência de sua origem racial como se envolveu intensamente na luta
abolicionista durante a segunda metade do século 20.
A
musicista tinha muitos amigos negros e vendia partituras para comprar cartas de
alforria — e, assim, libertar escravizados.
Mas não
há registros de que se via como negra. Em sua época, tinha a pele considerada
morena.
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Nilo Peçanha
Fato é
que, em seu tempo, oposicionistas classificavam o presidente como mulato como
forma de desaboná-lo.
Traços
negros eram enfatizados em charges para atacá-lo.
Na
juventude, Nilo Peçanha participou da luta abolicionista e da campanha
republicana.
Senador
de 1997 a 1999, o ator e intelectual negro Abdias do Nascimento (1914-2011),
autor de obras como O Genocídio do Negro Brasileiro, enalteceu políticos
afrodescendentes em seu discurso de posse e se lembrou da omissão da origem
negra de Peçanha ao longo da história.
Nascimento
contou que, certa vez, chegou a aventar a possibilidade de escrever ele próprio
um livro sobre "os grandes africanos que ajudaram a construir este
país". Para tanto, procurou um descendente de Peçanha.
"Resultado:
fui repreendido por esse membro da família, que não admitia sequer a mestiçagem
[dele], considerando tal versão uma infâmia", proferiu, em seu discurso.
Na
fala, Abdias do Nascimento não se limitou a abordar a negritude de Nilo
Peçanha.
Ele
recordou outros políticos que, para ele, seriam considerados negros. E citou
dois também ex-presidentes que, segundo suas pesquisas, teriam ancestralidade
africana: Rodrigues Alves (1848-1919), que presidiu o país de 1902 a 1906; e
Tancredo Neves (1910-1985), o primeiro civil escolhido para comandar o país
após a ditadura, que morreu antes de tomar posse.
Para
Nascimento, os biógrafos de Rodrigues Alves se fixaram na nacionalidade
portuguesa do pai do ex-presidente para ignorar a sua negritude, origem de sua
mãe afro-brasileira, Isabel Perpétua.
Sobre
Tancredo Neves, Nascimento disse que não seria "leviano" afirmar que
em suas "veias" corria "também o nobre sangue africano".
Para
tanto, dizia levar "em consideração seus traços fisionômicos, assim como
de muitos de seus familiares".
Abdias
do Nascimento conhecia Tancredo Neves pessoalmente. Ele era deputado federal
nos anos 1980 e integrou o colégio eleitoral que escolheu o mineiro para ser
presidente na redemocratização.
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Pedro Lessa
Um
pouco depois da presidência de Nilo Peçanha, o Supremo Tribunal Federal (STF)
teve seu primeiro membro afrodescendente, o jurista Pedro Lessa (1859-1921).
Ele se
considerava mulato e foi nomeado em 1907.
No
entanto, sua ascendência negra era tabu mesmo dentro da família.
Em
reportagem publicada em 2014 pela Folha de S. Paulo, uma de suas bisnetas,
Lúcia Lessa, contou que só na adolescência soube que o ilustre antepassado
tinha essa origem — e que, quando perguntada sobre, a mãe tentou desconversar.
"Uma
vez, minha irmã perguntou à minha mãe se ele era negro. Minha mãe tentou
desconversar. Só com o tempo fomos entendendo isso", contou a bisneta ao
jornal.
Presidente
do Brasil de 1919 a 1922, o jurista Epitácio Pessoa (1865-1942) era um dos
muitos que debochavam das raízes africanas de Lessa com frases e termos
racistas.
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Os irmãos Rebouças
Os
irmãos André Rebouças (1838-1898) e Antônio Rebouças (1839-1874) são
considerados os primeiros engenheiros negros do país e ganharam notoriedade
profissional em vida.
André
Rebouças foi um ativo militante pelo fim do regime escravocrata, integrando a
Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e a Confederação Abolicionista.
Também
foi um dos criadores dos estatutos da Associação Central de Emancipação dos
Escravos.
Nessa
época, viajou aos Estados Unidos — onde, segundo relatos, sofreu preconceito
racial.
Mais
tarde, nos anos 1890, trabalhou em Luanda, na Angola, por 15 meses. Também
morou em Moçambique e na atual África do Sul.
Só
então passou a entender o continente africano como sua "terra de
origem" e a se declarar como homem negro.
Essa
experiência é contada no livro Cartas da África - Registro de Correspondência
1891-1893, organizado pela historiadora Hebe Mattos, professora na Universidade
Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Nessas
cartas, Rebouças refere-se a si próprio como "africano" e como
"Negro André", como constatou a historiadora.
Já
Antônio especializou-se em construção de portos marítimos e estradas de ferro
na Europa, para onde foi em 1858 — ficaria quatro anos aprendendo técnicas
inovadoras no velho continente.
Voltou
ao Brasil e planejou obras importantes, como a ferrovia que liga Curitiba a
Paranaguá. Mas morreu cedo, aos 35 anos, vítima de malária — antes, inclusive,
do auge da luta abolicionista.
De
acordo com Hebe Mattos, a questão racial permeou a trajetória da família
Rebouças — que, apesar de ter circulado na elite da época, sofria preconceito,
com comentários racistas e xingamentos evocando sua cor da pele.
A mãe
dos irmãos Rebouças era branca, mas o pai deles era filho de um alfaiate com
uma mulher que algumas fontes acadêmicas dizem ter sido uma escravizada
alforriada, outras nascida livre.
O
político e advogado Antônio Pereira Rebouças (1798-1880) pisava em ovos ao se
posicionar na alta sociedade soteropolitana, que frequentava.
Defendia
medidas que diminuíssem a escravidão do Brasil, como o fim do tráfico negreiro,
mas tomava cuidado em seus posicionamentos porque temia ser visto como radical.
Ele se
definia como "liberal moderado" e afirmava acreditar na igualdade dos
direitos civis para todos os brasileiros — deixando implícito que a cor da pele
não deveria ser empecilho. Mas era contra revoltas e motins, argumentando que
as mudanças deveriam vir pela política.
André
Rebouças, que viu o Brasil pós-abolição, teve um fim de vida melancólico,
decepcionado. Ele argumentava que sem a democratização no acesso a terras e
propriedades, o problema racial do país não seria resolvido.
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O risco do anacronismo
Em
outras partes do mundo, a origem negra de personalidades notáveis também vem
sendo resgatada.
Autor
de O Conde de Monte Cristo e de Os Três Mosqueteiros, o francês Alexandre Dumas
(1802-1870) era neto de uma ex-escravizada e, nos últimos anos, tem tido sua
negritude destacada por movimentos antirracistas.
O
poeta, escritor e dramaturgo russo Alexandre Pushkin (1799-1837) é outro
exemplo.
Seu
bisavô materno era um africano que foi sequestrado de sua terra natal e acabou
criado na corte como afilhado da então imperatriz.
Mas faz
sentido colocar a questão da negritude olhando para personagens que talvez não
questionassem isso — ou, se o faziam, era com outros critérios que não os
atuais?
Para
David Santos, sim.
"Todos
eles são vítimas de uma sociedade que nunca trabalhou o letramento racial como
proposta do reino de Deus. Eles não escolheram negar sua identidade afro",
diz o frade franciscano e teólogo.
"A
sociedade de seu tempo impôs a eles essa postura. Resgatá-los, hoje, é nossa
missão."
O
historiador Philippe Arthur dos Reis, professor na Universidade Federal de São
Carlos (Ufscar), faz uma ressalva: ele considera a palavra
"embranquecimento" inadequada nesta discussão.
"Por
causa da própria concepção de negritude e de branquitude, que se diferencia com
o passar do tempo", aponta.
A
questão do racismo, lembra ele, é um problema da modernidade.
A
linguista Ana Azevedo Bezerra Felicio, pesquisadora, ativista e autora do livro
O amor não está à venda, ratifica isso. Ela aponta que "negro" é uma
categoria surgida com os movimentos antiescravagistas.
"É
muito importante olharmos para a diversidade no passado para refletirmos como a
nossa sociedade veio a ficar dividida deste jeito, mesmo que essas divisões
[étnicas] não fossem tão relevantes no passado", diz ela.
Para
Roberta Basílio, o resgate da negritude de personalidades já consagradas, como
Machado de Assis, tem um efeito importante porque as pessoas já reconhecem
"o talento e a inteligência" dessas figuras.
Em
outras palavras, parte-se da obra já celebrada para acrescentar o lembrete: foi
uma pessoa negra quem fez.
"Mostramos
que somos potência. E eu digo nós porque sou uma mulher negra. E isso tem um
peso muito grande para nós, como representatividade", frisa ela, lembrando
que, em seus tempos de escola, os protagonistas da história eram sempre brancos
e os negros, inferiorizados.
Para
Reis, trazer à tona a identidade negra de tais figuras importantes tem um
impacto "simbólico" e "afetivo".
"Mas
a simples menção a isso não resolve o problema. Tem de ter a efetiva
transformação dos espaços", cobra o professor.
Fonte:
BBC News Brasil

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