Emissões
'ocultas' do petróleo do Brasil anulam quase 70% da redução do desmatamento
O
governo brasileiro chegou à COP30, conferência da ONU sobre as mudanças
climáticas, comemorando a redução, pelo terceiro ano seguido, nas taxas de
desmatamento, maior fonte de emissões dos gases do efeito estufa do país.
Entre
2022 e 2025, a queda no desmatamento na Amazônia Legal foi de 50% e essa queda
vem sendo apresentada pelo governo como um exemplo da contribuição do Brasil
para o combate às mudanças climáticas.
"Esse
é um dos principais compromissos do meu governo. Já reduzimos o desmatamento em
mais de 50%. Registramos a menor taxa de desmatamento na Amazônia em 11
anos", disse o presidente Lula em um discurso em Belém, durante a Cúpula
de Líderes, evento que antecedeu o início da COP30.
Para o
governo, a redução do desmatamento é uma demonstração de que ele estaria
fazendo o seu "dever de casa", diminuindo sua principal fonte de
emissão dos gases do efeito estufa.
Em 2022
(ano mais recente disponível), segundo o projeto Climate Watch, o Brasil era o
quinto maior emissor do mundo, atrás da Rússia, Índia, Estados Unidos e China.
Mas
dados coletados pela organização não-governamental Instituto de Energia e Meio
Ambiente (IEMA) apontam que quase 70% de tudo o que o Brasil deixou de emitir
para atmosfera ao reduzir as suas taxas de desmatamento em 2024 foi compensado
pela exportação de petróleo do país, que está em ritmo crescente desde 2021.
Isto
porque apesar de este petróleo exportado não ser queimado no Brasil, ele será
queimado em outros lugares e, como o planeta Terra é um sistema fechado, suas
emissões contribuem para as mudanças climáticas da mesma maneira.
O IEMA
chamou isso de "emissões ocultas", porque não entram na conta das
emissões do Brasil, e sim na dos países que queimaram esse combustível e
lançaram o carbono na atmosfera, conforme prevê o Acordo de Paris.
Mesmo
assim, ambientalistas alertam para o fato de que o apetite do Brasil pela
exportação de petróleo contribui para o agravamento das mudanças climáticas
apesar do esforço feito pelos órgãos de controle para conter o desmatamento
dentro de casa.
Em nota
enviada à BBC News Brasil, o Ministério do Meio Ambiente disse que, conforme as
normas do Acordo de Paris, "não há base para atribuir responsabilidade a
nenhum país pela compensação de emissões de (GEE) em função de suas exportações
de petróleo".
A pasta
disse ainda que desde 2022, a redução nas taxas de desmatamento evitou a
emissão de 733,9 milhões de toneladas de CO2.
O
Ministério de Minas em Energia enviou nota dizendo que "o petróleo
brasileiro possui uma das menores intensidades de carbono do mundo" e que
sem repor suas reservas de petróleo o país poderia voltar a ser importador do
produto em 2040.
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Queda no desmatamento, acelerador no petróleo
De
acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa
(SEEG) produzido pela organização Observatório do Clima, o Brasil emitiu 2,14
bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera em 2024.
O
volume é 15% menor do que o registrado em 2023. Segundo a entidade, a queda é
resultado da redução nas taxas de desmatamento do Brasil nos últimos anos.
De
acordo com dados do programa de monitoramento Prodes, do Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Amazônia Legal caiu de 11.594
quilômetros quadrados no período que engloba agosto de 2021 a julho de 2022 —
último ano do governo de Jair Bolsonaro (PL) — para 5.796 quilômetros quadrados
entre agosto de 2024 e julho de 2025 (dado mais recente).
Mas os
dados oficiais apontam que, ao mesmo tempo em que o governo Lula intensificou o
combate ao desmatamento em biomas como a Amazônia e Cerrado, derrubando esses
índices, o Brasil também intensificou suas exportações de petróleo.
Segundo
o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o
Brasil aumentou em 138% o volume de petróleo exportado entre 2015 e 2024. Em
2015, o país exportou 265 milhões de barris. No ano passado, foram 632 milhões
de barris.
Especialistas
apontam que esse aumento é resultado da entrada em atividade dos poços da
camada pré-sal.
O
principal comprador desse petróleo é a China (19%), maior emissor individual de
gases do efeito estufa do mundo. Em seguida vêm os Estados Unidos, que
compraram 5% de todo o petróleo bruto exportado pelo Brasil.
Os
engenheiros e engenheiras do IEMA calcularam a quantidade de carbono contida na
quantidade de floresta amazônica que o Brasil deixou de desmatar em 2024 e
comparou com a quantidade de carbono existente no petróleo que o Brasil
exportou no mesmo período.
Segundo
eles, a queda no desmatamento na Amazônia em 2024 resultou em uma
"economia" de aproximadamente 371 milhões de toneladas de CO2 que
seriam jogadas na atmosfera.
Por
outro lado, as "emissões ocultas" da exportação de petróleo feita
pelo Brasil somaram 260 milhões de toneladas de CO2, ou equivalente a 70% de
tudo o que foi "economizado" com a redução do desmatamento.
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Cobertor curto
O
pesquisador do IEMA, Felipe Barcellos, explica porquê as "emissões
ocultas" não entram na conta brasileira.
"Pelas
regras do Acordo de Paris, só podem entrar no inventário de emissões aquele
carbono que é emitido dentro do território nacional. Dessa forma, o carbono que
é emitido pela queima do petróleo exportado pelo Brasil vai entrar na conta do
país que comprar esse produto. Do contrário, a gente poderia ter uma dupla
contagem", diz.
Esse
inventário faz parte das chamadas Contribuições Nacionais Determinadas,
conhecidas pela sigla em inglês NDC (National Determined Contributions). Cada
um dos 195 países que fazem parte do Acordo de Paris precisa divulgar o seu
número, indicando como eles pretendem atingir as metas estabelecidas pelo
tratado para impedir que a temperatura do planeta suba acima de 1,5ºC até 2100.
A NDC
do Brasil é considerada por ambientalistas como ambiciosa e prevê reduzir de
59% a 67% as emissões do Brasil até 2035 na comparação com os níveis observados
em 2005.
Barcellos
explica que, pelas regras do Acordo de Paris, a NDC brasileira não inclui as
emissões geradas pelo petróleo que o Brasil exporta.
No
entanto, Barcellos pondera que como parte do governo federal defende a abertura
de novas frentes de exploração de petróleo, entre elas a que está localizada na
bacia sedimentar da Foz do Amazonas, o papel do Brasil no conjunto das emissões
globais passa a chamar cada vez mais atenção.
"Se
a gente comparar as emissões da exportação com o que a gente reduziu de
desmatamento na Amazônia, estamos em níveis muito próximos. Essa economia acaba
sendo consumida por essas emissões para as quais o Brasil, de alguma forma,
contribuiu", afirma.
De
acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), o Brasil é hoje o oitavo
maior produtor de petróleo do mundo, atrás de Estados Unidos, Rússia, Canadá,
Iraque, China e Emirados Árabes Unidos. Em 2023, no entanto, o governo federal
lançou um programa para ampliar a produção do país com a meta de levar o Brasil
à quarta posição no ranking mundial.
"O
Brasil é co-responsável por essas emissões", afirma Barcellos.
O
pesquisador do Instituto ClimaInfo Shigueo Watanabe Jr. pondera que,
"moralmente", o Brasil poderia ser visto como responsável por essas
emissões, mas que do ponto de vista oficial, o país não pode ser
responsabilizado pelas emissões de outros países.
"Moralmente,
podemos dizer que o Brasil é responsável, mas se formos olhar apenas para o
Acordo de Paris, o Brasil não pode ser responsabilizado pelas emissões de um
outro país", complementa.
"Não
podemos forçar a China a reduzir as suas emissões. Se eles não comprarem
(petróleo) do Brasil, vão comprar do Cazaquistão ou de qualquer outro
país", complementa.
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Criador e criatura
Felipe
Barcellos argumenta que há uma contradição no discurso do presidente Lula
durante a COP30 e a direção que seu governo está adotando na prática.
Em
discurso na abertura da COP30, Lula reconheceu existirem
"contradições" , mas defendeu que os países trabalhem para definir um
"mapa do caminho" para redução do uso de combustíveis fósseis.
"Estou
convencido de que, apesar das nossas dificuldades e contradições, precisamos de
mapas do caminho para, de forma justa e planejada, reverter o desmatamento,
superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos
necessários para esses objetivos", afirmou.
A
menção ao termo "contradição" é lida entre alguns participantes da
COP30 como uma resposta à liberação da licença pedida pela Petrobras para
pesquisar a existência de petróleo na bacia da Foz do Amazonas, em outubro.
Para
Barcellos, apesar da ideia de criar um mapa para reduzir a dependência sobre os
combustíveis fósseis, o Brasil também atua para manter essa situação.
"É
claro que o petróleo gera recursos para o Brasil. É como a economia está
montada. Mas ao manter a oferta de petróleo no mercado, o país dá continuidade
a esse mercado e cria incentivos para que os atores posterguem a decisão de
abrir mão desse produto", diz Barcellos.
Em
direção diferente da do Brasil, a Colômbia anunciou na semana passada que o
país não permitirá a exploração de petróleo no bioma amazônico.
Shigueo
Watanabe aponta uma outra suposta contradição do governo brasileiro.
Segundo
ele, o argumento defendido pelo governo de que o Brasil precisa continuar a
explorar petróleo para garantir a segurança energética e promover a transição
energética não se sustenta.
"A
ideia de que precisamos continuar explorando petróleo para garantir segurança
energética não faz sentido. Hoje, uma parcela cada vez maior do petróleo
produzido aqui é exportado, logo, não compromete nossa segurança energética. O
que está em jogo é que o governo arrecada aproximadamente R$ 200 bilhões em
impostos e royalties com a exploração de petróleo. Nenhum governo fecha as
contas do ano sem esses recursos", afirma.
Em nota
enviada pelo MME à BBC News Brasil, a pasta ressalta, justamente, o impacto
fiscal de uma redução na exploração de petróleo no Brasil.
"Sem
a reposição das reservas (novas descobertas), o país volta a ser importador de
petróleo antes de 2040, o que pode gerar perda de arrecadação de até R$ 3,8
trilhões até 2050. Por esses motivos, manter a produção nacional contribui para
a segurança do abastecimento, para a geração de empregos e renda, além de
assegurar as receitas necessárias para financiar a própria transição
energética".
Barcellos
diz analisar com cautela o discurso de Lula no qual o presidente brasileiro
disse que o país criaria um fundo para usar parte do lucro das empresas de
petróleo para investir na transição energética. Lula também disse que o mundo
deveria aderir a essa ideia. Ainda não há, contudo, um desenho pronto de como
esse fundo nacional funcionaria.
Para
Barcellos, a ideia é boa, mas é preciso cuidado antes de apoiá-la.
"Temos
um dado da realidade que é o fato de que a indústria do petróleo está aí e gera
muito lucro. Nada mais justo que usar esse lucro para financiar a transição
energética. O problema é se essa ideia for usada apenas para justificar a
manutenção desta indústria. Vemos muitas empresas vendendo a ideia de que
precisam continuar explorando petróleo para fazer a transição", diz.
Em
nota, o MMA cita a redução no desmatamento desde o início da atual gestão do
presidente Lula.
"O
governo federal obteve, nos últimos três anos, 50% de redução do desmatamento
na Amazônia por meio da retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do
Desmatamento no bioma (os PPCDs, pela primeira vez, existem para todos os
biomas brasileiros)".
O MMA
disse ainda que o país foi um dos primeiros a divulgar sua NDC, em outubro de
2024, e que ela é "resultado do processo de elaboração do Plano Clima, que
será o guia das ações de enfrentamento à mudança do clima no país até 2035, a
ser entregue em breve".
Em sua
nota, o MME defendeu a exploração de petróleo no Brasil afirmado que hoje a
atividade gera 600 mil empregos diretos e que a previsão é de que esse número
chegue a 900 mil até 2030. "Isso significa recursos necessários para o
desenvolvimento do país e para o combate à fome e à pobreza extrema",
disse.
A BBC
News Brasil também enviou questionamentos ao Instituto Brasileiro de Petróleo
(IBP), que representa algumas das maiores empresas do setor atuando no país.
Por e-mail, a entidade disse que não poderia responder às questões pois
"precisa avaliar melhor o estudo".
Fonte:
BBC News Brasil

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