Ser
perfeccionista é bom ou ruim?
O
perfeccionismo tem uma ótima reputação. Em entrevistas de emprego, é uma das
respostas mais comuns para transformar a temida pergunta “Qual é sua fraqueza?”
em uma autovalorização disfarçada.
Para
muitos, se trata de buscar excelência ou trabalhar incansavelmente para atingir
o melhor resultado.
Mas o
que acontece quando essas expectativas elevadas, e às vezes implacáveis, acabam
atrapalhando o próprio progresso?
“Eu sei
que o perfeccionismo é uma ilusão, mas estou sempre tentando rejudi-lo”, admite Aswan, 25 anos.
No
trabalho, ela sente a pressão: “Sei que posso errar sem perder o emprego, mas
tenho constantemente a sensação de estar a um passo de ser demitida”.
Advertisement
Essa
ansiedade é comum entre os perfeccionistas, explica a psicóloga da saúde Sula
Windgassen. No podcast Complex, da BBC Sounds, ela afirma: “A baixa autoestima
tende a andar de mãos dadas com o perfeccionismo porque existe esse medo de
falhar”.
Esse
medo de errar frequentemente alimenta a procrastinação. Aswan lembra do seu
teste teórico de direção: “Fiquei tão tensa para passar de primeira que, quando
errei por poucos pontos, nunca mais tentei refazê-lo”. O episódio ocorreu há
quase quatro anos.
O
perfeccionismo pode estar ligado à personalidade, mas também é influenciado por
experiências na infância, pela escola e pelas expectativas dos pais, que moldam
o que cada um considera “bom o suficiente”.
<><>
Quebrando o ciclo
Embora
o perfeccionismo não seja um diagnóstico clínico, seus efeitos são muito reais
— provocando ansiedade, cansaço e até sintomas físicos ligados ao estresse,
como queda na imunidade.
Especialistas
dizem, no entanto, que é possível quebrar o ciclo. Windgassen recomenda iniciar
o que é conhecido em psicologia como um “experimento comportamental”.
Ele
começa por se questionar o que acha que acontecerá se o resultado não for
perfeito, anotando as previsões e, sem seguida, testá-las na prática.
O
resultado foi tão ruim quanto imaginava? Que aspectos positivos surgiram dessa
nova abordagem? Talvez, por exemplo, conseguir dormir às 22h em vez de 1h, e se
sentir mais descansado.
Para
Dayna, de 26 anos, que se define como “ex-perfeccionista”, deixar para trás o
perfeccionismo foi um alívio. Ela já chegou a sacrificar seu bem-estar em busca
de resultados impecáveis e não quer repetir isso.
“Mantive
um diário para entender melhor minhas tendências e li livros de autoajuda”,
conta. “Tive que aprender da forma mais difícil a desenvolver mecanismos de
enfrentamento e estratégias para não sacrificar tudo. Ser perfeccionista não é
uma qualidade nobre, como eu costumava pensar.”
Em
alguns momentos, sua voz crítica interna dominava, e o perfeccionismo acabava
levando ao esgotamento.
Hoje,
olhando para trás, Dayna lembra da ansiedade e do estresse crônicos.
“Agora,
me contento em apenas dar o meu melhor e aceitar que não posso sempre atingir o
resultado que quero. Mas o resultado que obtenho é mais do que suficiente e
estou em paz com isso hoje.”
Nem
todo perfeccionismo é prejudicial. Uma forma, chamada de perfectionistic
striving (busca perfeccionista, em tradução livre), foca estabelecer metas
pessoais ambiciosas.
Quando
essas metas podem ser ajustadas conforme mudanças de circunstâncias, causam
menos estresse e tendem a gerar resultados positivos, como um atleta que
diminui o treinamento durante uma lesão.
Ainda
assim, há limites. Um estudo publicado em julho de 2025 pela publicação
científica British Psychological Society mostrou que buscar metas
excessivamente altas frequentemente leva a longas jornadas de trabalho, com
ganhos mínimos de desempenho.
Lidar
com essas tendências pode ser desconfortável, afirma Windgassen, mas o
desconforto faz parte do processo.
“Isso
não é um sinal de que você não deve fazer — é um sinal de que você deve”,
conclui.
Fonte:
BBC News

Nenhum comentário:
Postar um comentário