Luis
Nassif: Quando o crédito deixa de servir ao país e passa a servir ao mercado
Por
muito tempo, a política econômica brasileira conviveu com uma inversão
silenciosa, mas decisiva: o crédito — que deveria ser meio para financiar
investimentos e ampliar o bem-estar — foi transformado em fim em si mesmo. Ou
melhor: em um setor de negócios para o mercado financeiro. A economia real
virou figurante.
A fala
recente do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, expôs essa distorção
com a sutileza de um choque elétrico. Ele classificou a caderneta de poupança
como um “Robin Hood às avessas”: os mais pobres, desinformados e sem
alternativas deixam seu dinheiro rendendo quase nada, enquanto o crédito barato
que a poupança deveria irrigar acaba abastecendo setores que não são
prioritários — e, frequentemente, não devolvem o benefício a quem bancou a
conta.
É um
mecanismo de transferência de renda às avessas: segundo ele o pobre financia o
crédito do rico.
O
fenômeno não começou agora. Pérsio Arida, quando presidiu o BNDES, deu forma
conceitual ao que o mercado sempre quis ouvir: tratou a diferença entre os
juros do banco de fomento e a Selic como um subsídio, uma anomalia a ser
corrigida. A meta não era aumentar investimento, produtividade ou indústria —
era evitar que o crédito público “desorganizasse o mercado”. Para isso, criou
até uma moeda contábil que neutralizasse a diferença. Foi a vitória da lógica
financeira sobre a lógica do desenvolvimento.
A mesma
natureza ideológica reaparece no interinato de Michel Temer e no período Paulo
Guedes, quando o FGTS — originalmente uma poupança trabalhista, criada para dar
segurança ao trabalhador — virou produto de prateleira do mercado financeiro.
• Temer liberou mais de R$ 40 bilhões em
2017, sob o pretexto de estimular a economia.
• Guedes institucionalizou os saques
anuais e permitiu empréstimos com garantia do FGTS, transformando o fundo em
lastro para aumentar o volume de crédito e o lucro bancário.
Em
todos esses episódios, o padrão é o mesmo: o interesse do mercado se sobrepõe
ao interesse do tomador de crédito.
O
mutuário do antigo BNH, o comprador de eletrodomésticos, o pequeno empresário
que precisa do Finame, a família que depende do crédito consignado — todos eles
se tornam apenas insumos para o funcionamento da engrenagem financeira. A ponta
final, o usuário do crédito, nunca é tratada como objetivo.
Em
qualquer país que tenha projeto, o crédito é meio. Aqui, o crédito virou moeda
de troca, lastro, mecanismo de arbitragem, instrumento de política fiscal
disfarçada e, sobretudo, fonte de renda para o sistema financeiro.
Essa
construção ideológica, inaugurada na era Fernando Henrique e mantida sem
retoques até hoje — inclusive por governos que se dizem “desenvolvimentistas” —
transformou a política monetária num regime de proteção ao mercado. O Banco
Central passou a enxergar o crédito não como motor da economia, mas como campo
de negócios. A avaliação da política monetária se faz em função das
expectativas do mercado, não do efeito sobre o investimento, o emprego ou o
consumo.
O
resultado desse arranjo é palpável: juros altos persistentes, crédito caro,
baixo investimento e crescimento medíocre. O país financia, involuntariamente,
o próprio atraso.
No fim
das contas, a pergunta é simples: o crédito existe para desenvolver o país ou
para remunerar o mercado?
Hoje, a
resposta, infelizmente, não deixa margem para dúvida.
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Os álibis técnicos
As
justificativas para a manutenção de Selic elevada atropelam todos os
fundamentos da lógica.
Diz-se,
por exemplo, que se a inflação está acima do teto da meta, há a necessidade de
aumentar a Selic para reduzir o nível de atividade econômica, desaquecendo a
economia.
Vamos a
uma análise simples desse efeito Selic, comparando o final de 2024 (quando
houve enorme desvalorização do real) e agora.
>>>> Momento 1 — dólar alto
• US$ = R$ 6,18
• Produto = R$ 1.000
• CDC = 7,91% a.m.
• Prestação (12x) = R$ 132,08
>>>>
Momento 2 — Selic sobe → real aprecia
• US$ = R$ 5,30 (queda de 14%)
• Produto cai para R$ 857,61
• CDC sobe suavemente para 8,06% a.m. os 2
pontos a mais na Selic mentalizados..
• Prestação cai para R$ 114,14
A
prestação cai 13,8%. O consumidor ganha poder de compra.
>>>>
Isso implica:
A Selic
mais alta não contraiu a demanda via crédito.
A Selic
mais alta aumentou o poder de compra, graças ao câmbio.
E a
maior influência na inflação – o câmbio – fica nas mãos do mercado, com o BC
correndo atrás e se valendo apenas da Selic.
Uma
aberração para quem acredita no manualzinho, mas a perfeita descrição do
Brasil.
>>>>
É por isso que:
• a poupança vira um “Robin Hood às
avessas”,
• a diferença entre juros do BNDES e Selic
é tratada como “subsídio” ao invés de política industrial,
• o FGTS é usado para rodar o motor do
mercado financeiro,
• e os programas de crédito pensados para
desenvolvimento são transformados em produtos para bancos e fundos.
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Conclusão
O
raciocínio prova:
1. A Selic alta encareceu muito pouco o
crédito, porque o spread absorve tudo.
2. A Selic alta valorizou muito o câmbio —
efeito bruto e imediato.
3. A valorização do câmbio reduziu preços de
bens comercializáveis, derrubando o IPCA.
4. A queda da inflação nada tem a ver com
“desaquecer a economia” via juros.
5. A Selic alta, paradoxalmente, aumentou o
poder aquisitivo, o que é o oposto do que o Banco Central diz.
O que
puxou a inflação para baixo foi: o
câmbio valorizado não o aperto monetário no crédito.
E o que
é déficit público tem a ver com isso? Quem quiser eu conte outra.
• O BC e Sua Sanha Destruidora, por Luiz
Alberto Melchert
A
recente declaração do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de que a
poupança seria um “Robin Hood às avessas”, revela menos sobre a caderneta e
muito mais sobre a disputa silenciosa entre o Executivo e o sistema financeiro
pelo comando efetivo da economia brasileira. A fala soa tecnicamente frágil e
politicamente enviesada, porque dirige ao pequeno poupador uma crítica que
jamais pertenceu a ele. A verdadeira questão está alhures: na tentativa do
Banco Central de eliminar o último grande mecanismo anticíclico que resiste ao
aperto monetário — o financiamento imobiliário.
Para
entender isso, é preciso contextualizar.
O maior
problema da inflação não é apenas o aumento de preços, mas a concentração de
renda que ela produz. Nos anos 1980, supermercados vendiam à vista para comprar
a prazo e aplicavam o caixa no overnight; grandes empregadores se beneficiavam
da corrosão diária dos salários; e o mercado financeiro colhia ganhos
automáticos sem risco. Quem tinha capital aplicava e preservava seu poder de
compra; quem dependia de salário perdia diariamente. A inflação era um
mecanismo de redistribuição regressiva, mas com beneficiários muito claros — e
nenhum deles era o pequeno poupador da caderneta.
Hoje, a
concentração não vem mais da inflação: vem da taxa de juros. O endividamento
das famílias drena renda diretamente para os rentistas. O trabalhador perde
poder de compra antes mesmo que seu salário chegue ao mercado, porque parte
dele é destinada a honrar dívidas cujas taxas são incompatíveis com qualquer
racionalidade. O crédito consignado, que deveria ser o mais barato do país por
ter risco zero e desconto em folha, cobra juros que superam até o dobro da taxa
básica, operando como um imposto privado sobre o salário.
Mas o
efeito mais profundo dos juros não está no bolso das famílias: está no
orçamento público. Ao contrário da inflação, que corroía salários, o juro
corrói impostos. A arrecadação se transforma em serviço da dívida, antes mesmo
de se tornar investimento, saúde, educação ou infraestrutura. O orçamento nasce
amputado. A concentração deixa de ser apenas de renda e passa a ser de poder: o
poder de decidir o rumo da economia.
É
exatamente aqui que entra o incômodo do Banco Central com a poupança. Não
porque ela prejudique o pobre, como se insinua, mas porque ela impede que o
juro exerça todo o seu efeito contracionista. A poupança financia o crédito
imobiliário com taxas inferiores à Selic. Isso significa que, mesmo com juros
altíssimos, a construção civil — setor intensivo em emprego e responsável por
ativar dezenas de cadeias produtivas — continua funcionando. O Banco Central
aperta, mas o setor resiste. O crédito imobiliário não desaba. A recessão não
se instala na velocidade desejada.
A
crítica à poupança, portanto, não é social: é operacional. A estrutura da
caderneta impede que a política monetária produza o grau de desaceleração que o
Banco Central julga necessário. Daí a proposta, apresentada de forma técnica,
mas com implicações políticas óbvias: migrar o financiamento imobiliário para
“captação a mercado”. Em outras palavras, submeter a casa própria ao juro alto.
A
consequência é inequívoca. Se o crédito imobiliário passar a seguir a Selic,
programas como o Minha Casa Minha Vida se tornam inviáveis; prefeituras perdem
seu principal instrumento de investimento; a construção civil, que sustenta
regiões inteiras, será a primeira vítima da política monetária; empregos
desaparecerão ao menor movimento de alta dos juros. O Executivo perde a
capacidade de reagir a crises, porque qualquer tentativa anticíclica será
anulada pela taxa de juros. Trata-se de retirar do governo eleito o comando da
política econômica e entregá-lo ao mercado financeiro, erigido à condição de
árbitro soberano.
No fim
das contas, a pergunta que se impõe é simples:
o que
produz mais danos sociais — a inflação que a taxa de juros pretende combater ou
a concentração de renda e poder provocada pelo próprio remédio?
A
inflação corrói salários; o juro corrói a sociedade inteira.
A
inflação empobrece; o juro transfere.
A
inflação cria instabilidade; o juro cria dependência.
A
inflação atinge o presente; o juro destrói o futuro.
Ao
rotular a poupança como “Robin Hood às avessas”, o Banco Central desloca o
debate para um bode expiatório conveniente. A caderneta não é o problema. O
problema é que ela resiste ao projeto de subordinar toda a economia — incluindo
o Estado — à lógica implacável do juro alto. A poupança não prejudica o pobre:
ela atrapalha a crise que o Banco Central gostaria de provocar.
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A Economia Peter Pan e o Brasil no Espelho. Por Henrique Morrone
O país
que sonha com o futuro, mas teme amadurecer — e encontra na estagnação o
conforto de não precisar mudar.
O
Brasil vive sob a lógica de uma economia Peter Pan — uma economia que teme
crescer. Não por falta de talento, nem de vocação produtiva, mas porque crescer
exige amadurecer. E amadurecer, para nós, significa mexer nas estruturas que
concentram renda, poder e privilégios.
Durante
décadas, o país construiu um verdadeiro temor institucional ao crescimento. Não
é um problema de produtividade, mas de conveniência política e econômica.
Quando o crescimento se sustenta, algo essencial acontece: a renda do trabalho
tende a avançar mais rápido que a renda do capital. E isso desloca o centro de
gravidade da sociedade.
Crescer
de forma contínua é perigoso para quem se alimenta da paralisia. Mais emprego
formal, salários em alta, expansão do mercado interno, e uma classe média capaz
de se organizar politicamente — tudo isso redistribui poder. E o poder, no
Brasil, raramente aceita ser redistribuído.
Por
isso há quem prefira uma economia que flutua, mas não decola. O sistema
financeiro, os setores oligopolizados, as elites políticas do curto prazo e
parte da construção civil voltada à alta renda ganham mais com a estabilidade
imóvel do que com o movimento real. Nessa lógica, construir virou sinônimo de
gentrificar — criar enclaves privados de bem-estar em meio à estagnação
pública. A desigualdade deixou de ser um problema e virou insumo de lucro.
Há
também empresários que evitam inovar — não por falta de capacidade, mas porque
o ambiente econômico pune o risco produtivo e premia o rentismo. Enquanto isso,
a classe média se fragmenta: sem crescimento, divide-se entre defender seus
privilégios e temer a queda. A pobreza aumenta não por falta de riqueza, mas
porque a riqueza não circula.
O
espelho brasileiro reflete essa contradição: vemos um país moderno,
competitivo, globalizado — mas o reflexo é enganoso. Por trás da imagem, há um
corpo estagnado, dependente e temeroso. O país não é incapaz de crescer; é
relutante em amadurecer. Teme o conflito que o crescimento provoca — teme a
política do desenvolvimento.
Enquanto
o Brasil insistir em permanecer na Terra do Nunca, onde juros altos e lucros
fáceis substituem o trabalho e o investimento, seguirá preso à sua infância
econômica: um país que sonha com o futuro, mas recusa o preço de torná-lo real.
Fonte:
Jornal GGN

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