quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Luis Nassif: Quando o crédito deixa de servir ao país e passa a servir ao mercado

Por muito tempo, a política econômica brasileira conviveu com uma inversão silenciosa, mas decisiva: o crédito — que deveria ser meio para financiar investimentos e ampliar o bem-estar — foi transformado em fim em si mesmo. Ou melhor: em um setor de negócios para o mercado financeiro. A economia real virou figurante.

A fala recente do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, expôs essa distorção com a sutileza de um choque elétrico. Ele classificou a caderneta de poupança como um “Robin Hood às avessas”: os mais pobres, desinformados e sem alternativas deixam seu dinheiro rendendo quase nada, enquanto o crédito barato que a poupança deveria irrigar acaba abastecendo setores que não são prioritários — e, frequentemente, não devolvem o benefício a quem bancou a conta.

É um mecanismo de transferência de renda às avessas: segundo ele o pobre financia o crédito do rico.

O fenômeno não começou agora. Pérsio Arida, quando presidiu o BNDES, deu forma conceitual ao que o mercado sempre quis ouvir: tratou a diferença entre os juros do banco de fomento e a Selic como um subsídio, uma anomalia a ser corrigida. A meta não era aumentar investimento, produtividade ou indústria — era evitar que o crédito público “desorganizasse o mercado”. Para isso, criou até uma moeda contábil que neutralizasse a diferença. Foi a vitória da lógica financeira sobre a lógica do desenvolvimento.

A mesma natureza ideológica reaparece no interinato de Michel Temer e no período Paulo Guedes, quando o FGTS — originalmente uma poupança trabalhista, criada para dar segurança ao trabalhador — virou produto de prateleira do mercado financeiro.

•        Temer liberou mais de R$ 40 bilhões em 2017, sob o pretexto de estimular a economia.

•        Guedes institucionalizou os saques anuais e permitiu empréstimos com garantia do FGTS, transformando o fundo em lastro para aumentar o volume de crédito e o lucro bancário.

Em todos esses episódios, o padrão é o mesmo: o interesse do mercado se sobrepõe ao interesse do tomador de crédito.

O mutuário do antigo BNH, o comprador de eletrodomésticos, o pequeno empresário que precisa do Finame, a família que depende do crédito consignado — todos eles se tornam apenas insumos para o funcionamento da engrenagem financeira. A ponta final, o usuário do crédito, nunca é tratada como objetivo.

Em qualquer país que tenha projeto, o crédito é meio. Aqui, o crédito virou moeda de troca, lastro, mecanismo de arbitragem, instrumento de política fiscal disfarçada e, sobretudo, fonte de renda para o sistema financeiro.

Essa construção ideológica, inaugurada na era Fernando Henrique e mantida sem retoques até hoje — inclusive por governos que se dizem “desenvolvimentistas” — transformou a política monetária num regime de proteção ao mercado. O Banco Central passou a enxergar o crédito não como motor da economia, mas como campo de negócios. A avaliação da política monetária se faz em função das expectativas do mercado, não do efeito sobre o investimento, o emprego ou o consumo.

O resultado desse arranjo é palpável: juros altos persistentes, crédito caro, baixo investimento e crescimento medíocre. O país financia, involuntariamente, o próprio atraso.

No fim das contas, a pergunta é simples: o crédito existe para desenvolver o país ou para remunerar o mercado?

Hoje, a resposta, infelizmente, não deixa margem para dúvida.

<><> Os álibis técnicos

As justificativas para a manutenção de Selic elevada atropelam todos os fundamentos da lógica.

Diz-se, por exemplo, que se a inflação está acima do teto da meta, há a necessidade de aumentar a Selic para reduzir o nível de atividade econômica, desaquecendo a economia.

Vamos a uma análise simples desse efeito Selic, comparando o final de 2024 (quando houve enorme desvalorização do real) e agora.

>>>>  Momento 1 — dólar alto

•        US$ = R$ 6,18

•        Produto = R$ 1.000

•        CDC = 7,91% a.m.

•        Prestação (12x) = R$ 132,08

>>>> Momento 2 — Selic sobe real aprecia

•        US$ = R$ 5,30 (queda de 14%)

•        Produto cai para R$ 857,61

•        CDC sobe suavemente para 8,06% a.m. os 2 pontos a mais na Selic mentalizados..

•        Prestação cai para R$ 114,14

A prestação cai 13,8%. O consumidor ganha poder de compra.

>>>> Isso implica:

A Selic mais alta não contraiu a demanda via crédito.

A Selic mais alta aumentou o poder de compra, graças ao câmbio.

E a maior influência na inflação – o câmbio – fica nas mãos do mercado, com o BC correndo atrás e se valendo apenas da Selic.

Uma aberração para quem acredita no manualzinho, mas a perfeita descrição do Brasil.

>>>> É por isso que:

•        a poupança vira um “Robin Hood às avessas”,

•        a diferença entre juros do BNDES e Selic é tratada como “subsídio” ao invés de política industrial,

•        o FGTS é usado para rodar o motor do mercado financeiro,

•        e os programas de crédito pensados para desenvolvimento são transformados em produtos para bancos e fundos.

<><> Conclusão

O raciocínio prova:

1.       A Selic alta encareceu muito pouco o crédito, porque o spread absorve tudo.

2.       A Selic alta valorizou muito o câmbio — efeito bruto e imediato.

3.       A valorização do câmbio reduziu preços de bens comercializáveis, derrubando o IPCA.

4.       A queda da inflação nada tem a ver com “desaquecer a economia” via juros.

5.       A Selic alta, paradoxalmente, aumentou o poder aquisitivo, o que é o oposto do que o Banco Central diz.

O que puxou a inflação para baixo foi:  o câmbio valorizado não o aperto monetário no crédito.

E o que é déficit público tem a ver com isso? Quem quiser eu conte outra.

•        O BC e Sua Sanha Destruidora, por Luiz Alberto Melchert

A recente declaração do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de que a poupança seria um “Robin Hood às avessas”, revela menos sobre a caderneta e muito mais sobre a disputa silenciosa entre o Executivo e o sistema financeiro pelo comando efetivo da economia brasileira. A fala soa tecnicamente frágil e politicamente enviesada, porque dirige ao pequeno poupador uma crítica que jamais pertenceu a ele. A verdadeira questão está alhures: na tentativa do Banco Central de eliminar o último grande mecanismo anticíclico que resiste ao aperto monetário — o financiamento imobiliário.

Para entender isso, é preciso contextualizar.

O maior problema da inflação não é apenas o aumento de preços, mas a concentração de renda que ela produz. Nos anos 1980, supermercados vendiam à vista para comprar a prazo e aplicavam o caixa no overnight; grandes empregadores se beneficiavam da corrosão diária dos salários; e o mercado financeiro colhia ganhos automáticos sem risco. Quem tinha capital aplicava e preservava seu poder de compra; quem dependia de salário perdia diariamente. A inflação era um mecanismo de redistribuição regressiva, mas com beneficiários muito claros — e nenhum deles era o pequeno poupador da caderneta.

Hoje, a concentração não vem mais da inflação: vem da taxa de juros. O endividamento das famílias drena renda diretamente para os rentistas. O trabalhador perde poder de compra antes mesmo que seu salário chegue ao mercado, porque parte dele é destinada a honrar dívidas cujas taxas são incompatíveis com qualquer racionalidade. O crédito consignado, que deveria ser o mais barato do país por ter risco zero e desconto em folha, cobra juros que superam até o dobro da taxa básica, operando como um imposto privado sobre o salário.

Mas o efeito mais profundo dos juros não está no bolso das famílias: está no orçamento público. Ao contrário da inflação, que corroía salários, o juro corrói impostos. A arrecadação se transforma em serviço da dívida, antes mesmo de se tornar investimento, saúde, educação ou infraestrutura. O orçamento nasce amputado. A concentração deixa de ser apenas de renda e passa a ser de poder: o poder de decidir o rumo da economia.

É exatamente aqui que entra o incômodo do Banco Central com a poupança. Não porque ela prejudique o pobre, como se insinua, mas porque ela impede que o juro exerça todo o seu efeito contracionista. A poupança financia o crédito imobiliário com taxas inferiores à Selic. Isso significa que, mesmo com juros altíssimos, a construção civil — setor intensivo em emprego e responsável por ativar dezenas de cadeias produtivas — continua funcionando. O Banco Central aperta, mas o setor resiste. O crédito imobiliário não desaba. A recessão não se instala na velocidade desejada.

A crítica à poupança, portanto, não é social: é operacional. A estrutura da caderneta impede que a política monetária produza o grau de desaceleração que o Banco Central julga necessário. Daí a proposta, apresentada de forma técnica, mas com implicações políticas óbvias: migrar o financiamento imobiliário para “captação a mercado”. Em outras palavras, submeter a casa própria ao juro alto.

A consequência é inequívoca. Se o crédito imobiliário passar a seguir a Selic, programas como o Minha Casa Minha Vida se tornam inviáveis; prefeituras perdem seu principal instrumento de investimento; a construção civil, que sustenta regiões inteiras, será a primeira vítima da política monetária; empregos desaparecerão ao menor movimento de alta dos juros. O Executivo perde a capacidade de reagir a crises, porque qualquer tentativa anticíclica será anulada pela taxa de juros. Trata-se de retirar do governo eleito o comando da política econômica e entregá-lo ao mercado financeiro, erigido à condição de árbitro soberano.

No fim das contas, a pergunta que se impõe é simples:

o que produz mais danos sociais — a inflação que a taxa de juros pretende combater ou a concentração de renda e poder provocada pelo próprio remédio?

A inflação corrói salários; o juro corrói a sociedade inteira.

A inflação empobrece; o juro transfere.

A inflação cria instabilidade; o juro cria dependência.

A inflação atinge o presente; o juro destrói o futuro.

Ao rotular a poupança como “Robin Hood às avessas”, o Banco Central desloca o debate para um bode expiatório conveniente. A caderneta não é o problema. O problema é que ela resiste ao projeto de subordinar toda a economia — incluindo o Estado — à lógica implacável do juro alto. A poupança não prejudica o pobre: ela atrapalha a crise que o Banco Central gostaria de provocar.

<><> A Economia Peter Pan e o Brasil no Espelho. Por Henrique Morrone

O país que sonha com o futuro, mas teme amadurecer — e encontra na estagnação o conforto de não precisar mudar.

O Brasil vive sob a lógica de uma economia Peter Pan — uma economia que teme crescer. Não por falta de talento, nem de vocação produtiva, mas porque crescer exige amadurecer. E amadurecer, para nós, significa mexer nas estruturas que concentram renda, poder e privilégios.

Durante décadas, o país construiu um verdadeiro temor institucional ao crescimento. Não é um problema de produtividade, mas de conveniência política e econômica. Quando o crescimento se sustenta, algo essencial acontece: a renda do trabalho tende a avançar mais rápido que a renda do capital. E isso desloca o centro de gravidade da sociedade.

Crescer de forma contínua é perigoso para quem se alimenta da paralisia. Mais emprego formal, salários em alta, expansão do mercado interno, e uma classe média capaz de se organizar politicamente — tudo isso redistribui poder. E o poder, no Brasil, raramente aceita ser redistribuído.

Por isso há quem prefira uma economia que flutua, mas não decola. O sistema financeiro, os setores oligopolizados, as elites políticas do curto prazo e parte da construção civil voltada à alta renda ganham mais com a estabilidade imóvel do que com o movimento real. Nessa lógica, construir virou sinônimo de gentrificar — criar enclaves privados de bem-estar em meio à estagnação pública. A desigualdade deixou de ser um problema e virou insumo de lucro.

Há também empresários que evitam inovar — não por falta de capacidade, mas porque o ambiente econômico pune o risco produtivo e premia o rentismo. Enquanto isso, a classe média se fragmenta: sem crescimento, divide-se entre defender seus privilégios e temer a queda. A pobreza aumenta não por falta de riqueza, mas porque a riqueza não circula.

O espelho brasileiro reflete essa contradição: vemos um país moderno, competitivo, globalizado — mas o reflexo é enganoso. Por trás da imagem, há um corpo estagnado, dependente e temeroso. O país não é incapaz de crescer; é relutante em amadurecer. Teme o conflito que o crescimento provoca — teme a política do desenvolvimento.

Enquanto o Brasil insistir em permanecer na Terra do Nunca, onde juros altos e lucros fáceis substituem o trabalho e o investimento, seguirá preso à sua infância econômica: um país que sonha com o futuro, mas recusa o preço de torná-lo real.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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