Antonio
Martins: Ultradireita - o novo alvo é Claudia Sheinbaum
Atacar
com poder de fogo incomum edifícios que simbolizam a política. Explorar a
insatisfação das maiorias com problemas que afetam seu quotidiano. Sugerir que
há gente disposta a enfrentar por meio da força o governo eleito – e, assim,
pintá-lo como frágil. Conhecidos dos brasileiros desde janeiro de 2023, estes
métodos foram empregados também na Cidade do México no último sábado (15/11).
Voltaram-se
contra a presidente Claudia Sheinbaum, cuja popularidade beira os 80% — mas que
é herdeira de um contexto de insegurança pública endêmica. Tentaram
desmoralizar seu plano (até o momento bem-sucedido) de asfixia financeira do
crime organizado, para sustentar que o único caminho eficaz contra a violência
é ignorar os direitos humanos “dos criminosos”. Resultaram em 100 feridos – a
grande maioria deles, policiais. Foram rechaçados por Claudia. “É um impulso
político, promovido inclusive a partir do exterior contra o governo”, disse
ela.
Os
antecedentes imediatos dos acontecimentos de sábado remontam ao início de
novembro. Ao participar das celebrações do Dia dos Mortos, em 1º/11, Carlos
Manzo, o prefeito de Uruapán (300 mil habitantes, 350 km a norte da capital),
tombou assassinado com sete tiros. Foi o quinto governante municipal vítima de
homicídio no país, em 2025. Tinha 40 anos e era muito popular. Chegou a
filiar-se (entre 2021 e 24) ao Morena, partido de Sheinbaum. Mas num estado
(Michoacán) especialmente violento e dominado por quatro cartéis criminosos,
havia proposto “linha dura” e “confronto direto” contra a delinquência. A
atitude o colocou em choque com o governo federal.
Seu
assassinato despertou revolta e protestos entre a população, mas serviu também
como pretexto para uma primeira onda de violência – deflagrada em Morelia,
capital do estado. Em 2/11, centenas de pessoas armadas com coquetéis molotov,
paus e pedras invadiram e depredaram o palácio do governo estadual. Os atos
foram condenados pela própria esposa de Manzo e sua sucessora na prefeitura de
Uruapán, Grecía Quiroz.
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A direita encontra uma brecha
Mas a
direita havia identificado uma brecha para tentar desgastar Claudia. Por meio
das redes sociais, convocaram-se protestos para 15/11, em diversas cidades do
país. Em quase todas elas, as tentativas fracassaram. Na Cidade do México,
houve sucesso relativo. Duas marchas sobrepostas percorreram o mesmo trajeto no
centro da capital. Uma dizia-se ligada à “geração Z”, buscando apresentar-se
como parte da indignação juvenil difusa que já se manifestou este ano em
diversas partes do mundo. Outra, autodenominou-se “dos sombreros” – referência
ao tipo de chapéu que Carlos Manzo costumava usar. Reuniram juntas algumas
milhares de pessoas. Além de jovens, relata o diário La Jornada, chamou a
atenção a presença marcante de políticos oposicionistas e de setores da classe
média branca e conservadora. Eram frequentes os elogios a “soluções Bukele” –
mano dura contra os criminosos e as liberdades civis.
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Objetivo: invadir o palácio do governo. Geração Z?
Os
incidentes graves deram-se quando as marchas chegaram ao Zócalo – a imensa
praça em torno da qual estão plantadas as sedes dos poderes do Estado mexicano.
Um grupo pequeno, com centenas de manifestantes encapuzados, investiu contra as
barreiras que protegiam o palácio do governo. Os relatos e imagens (veja vídeo)
mostram que portavam rojões, martelos e serras elétricas, com finalidade
premeditada. Romperam os elos entre as grades e usaram parte delas como
escadas, para tentar forçar o acesso. Parte dos demais manifestantes protestou,
em vão, contra eles: “No nos representan!”, “Fuera encapuchados!”. Foram ao
final repelidos pela polícia, de forma aparentemente atabalhoada. A invasão foi
contida. Quarenta defensores do palácio foram hospitalizados, o dobro do número
de atacantes feridos.
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Como Cláudia Sheinbaum enfrenta o crime
A
investida chama atenção porque Claudia Sheinbaum está particularmente empenhada
no tema de segurança pública – e vem obtendo êxitos consideráveis. Suas ações
foram descritas, há poucos dias, num texto da revista Economist, insuspeita de
simpatia por políticas de esquerda. Ao longo de seu mandato como prefeita da
capital (2021-24), a taxa de homicídios despencou 40%. A marca foi alcançada
graças a uma combinação de duas atitudes. A prefeita frisou sempre que as
causas essenciais da violência são pobreza e desigualdade – portanto, a “mano
dura” produz apenas resultados superficiais e fugazes. Mas desencadeou ações
cirúrgicas que atingiram o crime organizado em suas raízes.
As
prisões de delinquentes voltaram-se para os chefes dos cartéis, em vez de
visarem a arraia miúda. Um longo trabalho de inteligência permitiu
identificá-los. Foi coordenado pelo secretário de Segurança, Omar Garcia
Harfuch, a quem Cláudia deu poderes de coordenação inéditos sobre o aparato de
inteligência. Em consequência, ele pôde também rastrear e asfixiar os canais de
financiamento do crime. Ao final do mandato de Cláudia na prefeitura, Omar
Garcia abriu mão de candidatar-se a sucedê-la, numa disputa em que era favorito
destacado. Preferiu acompanhar a prefeita ao governo federal, tornando-se seu
ministro da Segurança.
Em
menos de um ano desde a posse de Claudia na Presidência, o índice de homicídios
já caiu algo entre 14% (segundo os cálculos de Economist) e 32% (conforme o
cômputo do governo) – veja o gráfico acima. Ainda assim, permanece alto, como
na maior parte da América Latina. A média nacional foi, em 2023, de 24
assassinatos para cada 100 mil habitantes – ligeiramente superior à brasileira
(21,2/100.00, no mesmo ano).
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Uma estratégia para toda a América Latina
Ampliam-se
os sinais de que explorar a insegurança gerada pelo crime passou a ser, na
região, a principal estratégia política e eleitoral das correntes de direita e
ultradireita. A tendência começa nos Estados Unidos, e em suas pressões
militares contra a Venezuela, a pretexto de combater o tráfico de fentanyl. Mas
espalha-se por El Salvador (com Bukele), Colômbia (também acossada de
Washington), Equador (onde o presidente Daniel Noboa reelegeu-se com base no
tema, mas acaba de perder um plebiscito relacionado a ele), Chile (cujos
índices de violência são baixíssimos e ainda assim o assunto é usado como
espantalho junto à opinião pública) e outros países.
O fato
de a onda ter chegado ao México – de forma virulenta e planejada, apesar da
enorme popularidade de Cláudia Sheinbaum –, revela como os ultraconservadores
apostam nela. E volta a acender os sinais de alerta no Brasil, onde já está
claro que brandir o fantasma do medo será o principal trunfo de todas as
direitas em 2026. As distintas formas de enfrentar a ameaça são assunto
crucial, que fica reservado para outra análise, em breve.
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A estratégia da barbárie: a chacina como contraofensiva
da extrema-direita. Por José Maurício Domingues
A
política é uma atividade humana das mais dinâmicas que se conhece. Qualquer um
que dela participe com algum grau de dedicação ou ao menos de atenção sabe que
os agentes não ficam parados assistindo uns aos outros se moverem, sobretudo
quando se está perdendo. Já se disse inclusive como nuvem. Assim, as
contraofensivas devem ser sempre esperadas quando algum agente se vê
sobrepujado em algum momento. Se muitos podiam talvez imaginar que a situação
política e eleitoral de 2026 estava resolvida com a condenação do golpista Jair
Bolsonaro e o comportamento tresloucado de seu filho Eduardo Bolsonaro nos
Estados Unidos, com uma aproximação ao menos parcial de Donald Trump com o
presidente Lula, isso se provou ledo engano.
Se o
primeiro tema se resolveu com a resolução do Supremo Tribunal Federal,
especialmente do ministro Alexandre de Moraes, de seguir até o fim com a
punição à bizarra e anacrônica, mas nem por isso menos potencialmente
sangrenta, tentativa de golpe de base militar, a segunda linha de ataque que
mobilizava sanções contra o Brasil se mostrou patética e contraproducente. A
direita parte com tudo para uma nova ofensiva, tentado retomar o terreno
perdido e cacifar-se para as eleições do próximo ano. O cenário principal dessa
operação não podia ser senão o Rio de Janeiro e o tema que lhes sobra neste
momento com grande impacto na opinião pública é o da segurança.
A
chacina perpetrada pelas polícias do estado do Rio de Janeiro, sob as ordens do
governador Claudio Castro, nessa terça-feira 28/10/2025, deu início a essa
contraofensiva. Mais de 140 pessoas se contam entre os mortos nos complexos do
Alemão e da Penha, em sua maioria pardos e pretos, ou pobres que de tão pobres
viram negros, muitos com traços evidentes de execução com armas de fogo e até
mesmo faca, segundo noticia a imprensa, jogados como lixo no mato e lá
encontrados por moradores da área. Certamente eram traficantes de drogas
muitos, outros, não, não importa, realmente. Não é disso que se trata. Essa
chacina se configura como o principal massacre até hoje no Brasil desde o
início da Nova República em 1985. O jogo é claro: polarizar o país em torno do tema
da segurança, onde a violência que a extrema direita não hesita em usar se
apresenta vistosa – tanto quanto, como se sabe há décadas, ineficaz.
No
estado do Rio, a extrema-direita tem o controle do aparelho do Estado em
particular em seus ramos repressivos. Controla também o sistema político. Joga
há muito, mesmo que politicamente fosse mais amorfa até há pouco, com a
sedução, em bom estilo do fascismo, pela brutalidade e pelo culto à violência
aberta. Hoje, além de aumentar a intensidade da aplicação direta da força,
parece estar pronta a apostar também em um plano de tipo Nayib Bukele ou de
“antinarcoterrorismo” ao estilo de Trump.
A bola
da segurança pública está quicando na área há décadas e é tema costumeiro da
direita desde sempre, sem que nenhuma solução incisiva tenha sido buscada para
o problema, afora o muito recente projeto do governo federal, que sequer foi
aprovado ainda. As pessoas estão cansadas de lidar com a criminalidade e esse
tipo de política tem um indubitável apelo popular, no “asfalto” assim como na
“favela”. Mas até hoje, a despeito de tentativas frustradas em sua plena
implementação e acossadas por uma quantidade de problemas sociais que elas
mesmas não podem resolver, não conseguimos consolidar uma política de segurança
que não seja baseada na barbárie.
O Rio
de Janeiro, estado e capital, é o centro do bolsonarismo no país. Ele nasceu e
enraizou-se aqui depois de muitos governos em que grassou a corrupção, aumentou
a criminalidade, bem como a violência policial, e pouco se fez pela população,
cujos direitos básicos estão longe de ser respeitados, a começar por seus
direitos civis, pela criminalidade assim como pelo Estado. O crescimento atual
da cidade do Rio de Janeiro, em especial, baseado na mercantilização
generalizada, emprega muita gente e faz o dinheiro circular, mas os problemas
de base seguem intocados. Some-se a isso que quase todos os governadores do
estado nas últimas décadas estão presos, inclusive o que fez a apologia mais
direta da violência sem peias, Wilson Witzel; Castro mesmo andou na corda bamba
e a eleição se anuncia muito ruim para ele, segundo as pesquisas.
Foi
essa autodestruição da política no estado e na cidade que permitiu, com bases
nas taras históricas que torturam sua população, a ascensão da extrema direita
de forma ainda mais acentuada que no passado. Além do mais essa população é
dominada em parte pelas milícias e em larga escala pelo clientelismo. Era aqui,
evidentemente, que a contraofensiva da extrema direita, centrada na questão da
segurança, teria que começar.
A
perspectiva de perder a eleição está dada para a extrema direita, ela nada tem
a perder, talvez os grilhões merecidos de alguns. Essa estratégia de violência
sem limite foi ensaiada em 2022 com a chacina do Jacarezinho, mas pode-se
presumir que preferiram engavetá-la naquele momento. Agora, com as dificuldades
se acumulando, tudo indica que vão apostar tudo nela, seja com violência aberta
– possibilidade terrível –, seja insistindo em supostos planos draconianos de
combate ao crime, certamente vãos, ainda que espalhafatosos.
Como
disse Castro: a operação foi um sucesso e foi só o começo. Além do mais, não
foi sozinho que ele adotou essa estratégia e tomou as decisões dela
decorrentes. Mas que ninguém se engane: essa contraofensiva não se deterá por
aqui. Não por acaso, no momento em que escrevo este texto, todos os govenadores
de direita já tinham se solidarizado com Castro e planejavam vir ao Rio de
Janeiro para apoiar suas ações. O jogo ainda não terminou, não terminará tão
cedo, sequer em 2026. Temos que segurar essa contraofensiva e contra-atacar.
Para
começar, a frente democrática contra a barbárie ou o fascismo, o bolsonarismo
ou a extrema direita, ou como se quiser defini-la, tem que ser mantida e
promovida. Ninguém deve deixar de ser o que é para seguir essa perspectiva
estratégica, com suas próprias táticas, visões de mundo e programas, muito pelo
contrário: é a soma de diferenças que dá força a esta frente. Crucial é
igualmente manifestar-se e protestar, mobilizar todos os recursos políticos e
legais possíveis, demandar que todos os políticos minimamente decentes condenem
essa chacina.
É
preciso empurrar a imprensa para discutir os problemas de fundo que alimentam a
criminalidade, seus braços financeiros e sua capacidade de se armar até os
dentes, mas também a vida sem horizonte de jovens que acabam no tráfico por
absoluta falta de perspectivas de uma vida decente e feliz, presos em
territórios desolados, sobrando-lhes apenas, do outro lado, as Igrejas
evangélicas – fora ou dentro da prisão, quando sobrevivem a seu envolvimento
com o cruel mundo do tráfico e ao confronto com a polícia.
O golpe
que não ocorreu em 2023 em parte se projeta agora, com a estratégia da
barbárie, pelo menos em espírito. Poderia ser uma bomba em uma estação de trem
ou metrô, sabe-se lá, como em Brasília um tresloucado já ensaiou e o fascismo
explorou à exaustão na Itália do pós-guerra.
A
defesa da civilização e da democracia está em questão. Pagamos já muito caro
pelo governo Bolsonaro e quase pagamos ainda mais com sua quase reeleição e
tentativa de golpe. Há realmente muito em jogo – infelizmente, de novo. Hoje
mais que nunca, sair dos gabinetes da política formal é imperativo, somos todos
nós, cidadãos, que temos que nos mobilizar e retornar às ruas. O Rio de Janeiro
hoje somos todos nós.
Fonte: Outras Palavras/Correio da Cidadania

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