quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Antonio Martins: Ultradireita - o novo alvo é Claudia Sheinbaum

Atacar com poder de fogo incomum edifícios que simbolizam a política. Explorar a insatisfação das maiorias com problemas que afetam seu quotidiano. Sugerir que há gente disposta a enfrentar por meio da força o governo eleito – e, assim, pintá-lo como frágil. Conhecidos dos brasileiros desde janeiro de 2023, estes métodos foram empregados também na Cidade do México no último sábado (15/11).

Voltaram-se contra a presidente Claudia Sheinbaum, cuja popularidade beira os 80% — mas que é herdeira de um contexto de insegurança pública endêmica. Tentaram desmoralizar seu plano (até o momento bem-sucedido) de asfixia financeira do crime organizado, para sustentar que o único caminho eficaz contra a violência é ignorar os direitos humanos “dos criminosos”. Resultaram em 100 feridos – a grande maioria deles, policiais. Foram rechaçados por Claudia. “É um impulso político, promovido inclusive a partir do exterior contra o governo”, disse ela.

Os antecedentes imediatos dos acontecimentos de sábado remontam ao início de novembro. Ao participar das celebrações do Dia dos Mortos, em 1º/11, Carlos Manzo, o prefeito de Uruapán (300 mil habitantes, 350 km a norte da capital), tombou assassinado com sete tiros. Foi o quinto governante municipal vítima de homicídio no país, em 2025. Tinha 40 anos e era muito popular. Chegou a filiar-se (entre 2021 e 24) ao Morena, partido de Sheinbaum. Mas num estado (Michoacán) especialmente violento e dominado por quatro cartéis criminosos, havia proposto “linha dura” e “confronto direto” contra a delinquência. A atitude o colocou em choque com o governo federal.

Seu assassinato despertou revolta e protestos entre a população, mas serviu também como pretexto para uma primeira onda de violência – deflagrada em Morelia, capital do estado. Em 2/11, centenas de pessoas armadas com coquetéis molotov, paus e pedras invadiram e depredaram o palácio do governo estadual. Os atos foram condenados pela própria esposa de Manzo e sua sucessora na prefeitura de Uruapán, Grecía Quiroz.

<><> A direita encontra uma brecha

Mas a direita havia identificado uma brecha para tentar desgastar Claudia. Por meio das redes sociais, convocaram-se protestos para 15/11, em diversas cidades do país. Em quase todas elas, as tentativas fracassaram. Na Cidade do México, houve sucesso relativo. Duas marchas sobrepostas percorreram o mesmo trajeto no centro da capital. Uma dizia-se ligada à “geração Z”, buscando apresentar-se como parte da indignação juvenil difusa que já se manifestou este ano em diversas partes do mundo. Outra, autodenominou-se “dos sombreros” – referência ao tipo de chapéu que Carlos Manzo costumava usar. Reuniram juntas algumas milhares de pessoas. Além de jovens, relata o diário La Jornada, chamou a atenção a presença marcante de políticos oposicionistas e de setores da classe média branca e conservadora. Eram frequentes os elogios a “soluções Bukele” – mano dura contra os criminosos e as liberdades civis.

<><> Objetivo: invadir o palácio do governo. Geração Z?

Os incidentes graves deram-se quando as marchas chegaram ao Zócalo – a imensa praça em torno da qual estão plantadas as sedes dos poderes do Estado mexicano. Um grupo pequeno, com centenas de manifestantes encapuzados, investiu contra as barreiras que protegiam o palácio do governo. Os relatos e imagens (veja vídeo) mostram que portavam rojões, martelos e serras elétricas, com finalidade premeditada. Romperam os elos entre as grades e usaram parte delas como escadas, para tentar forçar o acesso. Parte dos demais manifestantes protestou, em vão, contra eles: “No nos representan!”, “Fuera encapuchados!”. Foram ao final repelidos pela polícia, de forma aparentemente atabalhoada. A invasão foi contida. Quarenta defensores do palácio foram hospitalizados, o dobro do número de atacantes feridos.

<><> Como Cláudia Sheinbaum enfrenta o crime

A investida chama atenção porque Claudia Sheinbaum está particularmente empenhada no tema de segurança pública – e vem obtendo êxitos consideráveis. Suas ações foram descritas, há poucos dias, num texto da revista Economist, insuspeita de simpatia por políticas de esquerda. Ao longo de seu mandato como prefeita da capital (2021-24), a taxa de homicídios despencou 40%. A marca foi alcançada graças a uma combinação de duas atitudes. A prefeita frisou sempre que as causas essenciais da violência são pobreza e desigualdade – portanto, a “mano dura” produz apenas resultados superficiais e fugazes. Mas desencadeou ações cirúrgicas que atingiram o crime organizado em suas raízes.

As prisões de delinquentes voltaram-se para os chefes dos cartéis, em vez de visarem a arraia miúda. Um longo trabalho de inteligência permitiu identificá-los. Foi coordenado pelo secretário de Segurança, Omar Garcia Harfuch, a quem Cláudia deu poderes de coordenação inéditos sobre o aparato de inteligência. Em consequência, ele pôde também rastrear e asfixiar os canais de financiamento do crime. Ao final do mandato de Cláudia na prefeitura, Omar Garcia abriu mão de candidatar-se a sucedê-la, numa disputa em que era favorito destacado. Preferiu acompanhar a prefeita ao governo federal, tornando-se seu ministro da Segurança.

Em menos de um ano desde a posse de Claudia na Presidência, o índice de homicídios já caiu algo entre 14% (segundo os cálculos de Economist) e 32% (conforme o cômputo do governo) – veja o gráfico acima. Ainda assim, permanece alto, como na maior parte da América Latina. A média nacional foi, em 2023, de 24 assassinatos para cada 100 mil habitantes – ligeiramente superior à brasileira (21,2/100.00, no mesmo ano).

<><> Uma estratégia para toda a América Latina

Ampliam-se os sinais de que explorar a insegurança gerada pelo crime passou a ser, na região, a principal estratégia política e eleitoral das correntes de direita e ultradireita. A tendência começa nos Estados Unidos, e em suas pressões militares contra a Venezuela, a pretexto de combater o tráfico de fentanyl. Mas espalha-se por El Salvador (com Bukele), Colômbia (também acossada de Washington), Equador (onde o presidente Daniel Noboa reelegeu-se com base no tema, mas acaba de perder um plebiscito relacionado a ele), Chile (cujos índices de violência são baixíssimos e ainda assim o assunto é usado como espantalho junto à opinião pública) e outros países.

O fato de a onda ter chegado ao México – de forma virulenta e planejada, apesar da enorme popularidade de Cláudia Sheinbaum –, revela como os ultraconservadores apostam nela. E volta a acender os sinais de alerta no Brasil, onde já está claro que brandir o fantasma do medo será o principal trunfo de todas as direitas em 2026. As distintas formas de enfrentar a ameaça são assunto crucial, que fica reservado para outra análise, em breve.

¨      A estratégia da barbárie: a chacina como contraofensiva da extrema-direita. Por José Maurício Domingues

A política é uma atividade humana das mais dinâmicas que se conhece. Qualquer um que dela participe com algum grau de dedicação ou ao menos de atenção sabe que os agentes não ficam parados assistindo uns aos outros se moverem, sobretudo quando se está perdendo. Já se disse inclusive como nuvem. Assim, as contraofensivas devem ser sempre esperadas quando algum agente se vê sobrepujado em algum momento. Se muitos podiam talvez imaginar que a situação política e eleitoral de 2026 estava resolvida com a condenação do golpista Jair Bolsonaro e o comportamento tresloucado de seu filho Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, com uma aproximação ao menos parcial de Donald Trump com o presidente Lula, isso se provou ledo engano.

Se o primeiro tema se resolveu com a resolução do Supremo Tribunal Federal, especialmente do ministro Alexandre de Moraes, de seguir até o fim com a punição à bizarra e anacrônica, mas nem por isso menos potencialmente sangrenta, tentativa de golpe de base militar, a segunda linha de ataque que mobilizava sanções contra o Brasil se mostrou patética e contraproducente. A direita parte com tudo para uma nova ofensiva, tentado retomar o terreno perdido e cacifar-se para as eleições do próximo ano. O cenário principal dessa operação não podia ser senão o Rio de Janeiro e o tema que lhes sobra neste momento com grande impacto na opinião pública é o da segurança.

A chacina perpetrada pelas polícias do estado do Rio de Janeiro, sob as ordens do governador Claudio Castro, nessa terça-feira 28/10/2025, deu início a essa contraofensiva. Mais de 140 pessoas se contam entre os mortos nos complexos do Alemão e da Penha, em sua maioria pardos e pretos, ou pobres que de tão pobres viram negros, muitos com traços evidentes de execução com armas de fogo e até mesmo faca, segundo noticia a imprensa, jogados como lixo no mato e lá encontrados por moradores da área. Certamente eram traficantes de drogas muitos, outros, não, não importa, realmente. Não é disso que se trata. Essa chacina se configura como o principal massacre até hoje no Brasil desde o início da Nova República em 1985. O jogo é claro: polarizar o país em torno do tema da segurança, onde a violência que a extrema direita não hesita em usar se apresenta vistosa – tanto quanto, como se sabe há décadas, ineficaz.

No estado do Rio, a extrema-direita tem o controle do aparelho do Estado em particular em seus ramos repressivos. Controla também o sistema político. Joga há muito, mesmo que politicamente fosse mais amorfa até há pouco, com a sedução, em bom estilo do fascismo, pela brutalidade e pelo culto à violência aberta. Hoje, além de aumentar a intensidade da aplicação direta da força, parece estar pronta a apostar também em um plano de tipo Nayib Bukele ou de “antinarcoterrorismo” ao estilo de Trump.

A bola da segurança pública está quicando na área há décadas e é tema costumeiro da direita desde sempre, sem que nenhuma solução incisiva tenha sido buscada para o problema, afora o muito recente projeto do governo federal, que sequer foi aprovado ainda. As pessoas estão cansadas de lidar com a criminalidade e esse tipo de política tem um indubitável apelo popular, no “asfalto” assim como na “favela”. Mas até hoje, a despeito de tentativas frustradas em sua plena implementação e acossadas por uma quantidade de problemas sociais que elas mesmas não podem resolver, não conseguimos consolidar uma política de segurança que não seja baseada na barbárie.

O Rio de Janeiro, estado e capital, é o centro do bolsonarismo no país. Ele nasceu e enraizou-se aqui depois de muitos governos em que grassou a corrupção, aumentou a criminalidade, bem como a violência policial, e pouco se fez pela população, cujos direitos básicos estão longe de ser respeitados, a começar por seus direitos civis, pela criminalidade assim como pelo Estado. O crescimento atual da cidade do Rio de Janeiro, em especial, baseado na mercantilização generalizada, emprega muita gente e faz o dinheiro circular, mas os problemas de base seguem intocados. Some-se a isso que quase todos os governadores do estado nas últimas décadas estão presos, inclusive o que fez a apologia mais direta da violência sem peias, Wilson Witzel; Castro mesmo andou na corda bamba e a eleição se anuncia muito ruim para ele, segundo as pesquisas.

Foi essa autodestruição da política no estado e na cidade que permitiu, com bases nas taras históricas que torturam sua população, a ascensão da extrema direita de forma ainda mais acentuada que no passado. Além do mais essa população é dominada em parte pelas milícias e em larga escala pelo clientelismo. Era aqui, evidentemente, que a contraofensiva da extrema direita, centrada na questão da segurança, teria que começar.

A perspectiva de perder a eleição está dada para a extrema direita, ela nada tem a perder, talvez os grilhões merecidos de alguns. Essa estratégia de violência sem limite foi ensaiada em 2022 com a chacina do Jacarezinho, mas pode-se presumir que preferiram engavetá-la naquele momento. Agora, com as dificuldades se acumulando, tudo indica que vão apostar tudo nela, seja com violência aberta – possibilidade terrível –, seja insistindo em supostos planos draconianos de combate ao crime, certamente vãos, ainda que espalhafatosos.

Como disse Castro: a operação foi um sucesso e foi só o começo. Além do mais, não foi sozinho que ele adotou essa estratégia e tomou as decisões dela decorrentes. Mas que ninguém se engane: essa contraofensiva não se deterá por aqui. Não por acaso, no momento em que escrevo este texto, todos os govenadores de direita já tinham se solidarizado com Castro e planejavam vir ao Rio de Janeiro para apoiar suas ações. O jogo ainda não terminou, não terminará tão cedo, sequer em 2026. Temos que segurar essa contraofensiva e contra-atacar.

Para começar, a frente democrática contra a barbárie ou o fascismo, o bolsonarismo ou a extrema direita, ou como se quiser defini-la, tem que ser mantida e promovida. Ninguém deve deixar de ser o que é para seguir essa perspectiva estratégica, com suas próprias táticas, visões de mundo e programas, muito pelo contrário: é a soma de diferenças que dá força a esta frente. Crucial é igualmente manifestar-se e protestar, mobilizar todos os recursos políticos e legais possíveis, demandar que todos os políticos minimamente decentes condenem essa chacina.

É preciso empurrar a imprensa para discutir os problemas de fundo que alimentam a criminalidade, seus braços financeiros e sua capacidade de se armar até os dentes, mas também a vida sem horizonte de jovens que acabam no tráfico por absoluta falta de perspectivas de uma vida decente e feliz, presos em territórios desolados, sobrando-lhes apenas, do outro lado, as Igrejas evangélicas – fora ou dentro da prisão, quando sobrevivem a seu envolvimento com o cruel mundo do tráfico e ao confronto com a polícia.

O golpe que não ocorreu em 2023 em parte se projeta agora, com a estratégia da barbárie, pelo menos em espírito. Poderia ser uma bomba em uma estação de trem ou metrô, sabe-se lá, como em Brasília um tresloucado já ensaiou e o fascismo explorou à exaustão na Itália do pós-guerra.

A defesa da civilização e da democracia está em questão. Pagamos já muito caro pelo governo Bolsonaro e quase pagamos ainda mais com sua quase reeleição e tentativa de golpe. Há realmente muito em jogo – infelizmente, de novo. Hoje mais que nunca, sair dos gabinetes da política formal é imperativo, somos todos nós, cidadãos, que temos que nos mobilizar e retornar às ruas. O Rio de Janeiro hoje somos todos nós.


Fonte: Outras Palavras/Correio da Cidadania

 

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