sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Heba Ayyad: O fenômeno da migração reversa e o colapso do mito israelense

A emigração de Israel — ou “Yerida”, que significa literalmente “descida” — é uma das questões sociais mais sensíveis da sociedade israelense. Esse termo carrega profundas conotações, sugerindo declínio e deterioração, em contraste com “Aliyah”, ou “ascensão”, que simboliza a imigração para a Terra Prometida.

Desde a fundação do Estado de Israel, em 1948, a ideia de “ascender” a Israel tornou-se um pilar da identidade sionista, enquanto a emigração passou a ser vista como uma forma de abandono do projeto nacional — uma fuga ou a busca por ambições pessoais em países ocidentais, em vez de contribuir para o esforço coletivo destinado a assegurar o caráter judaico do Estado e seu futuro. O primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin descreveu esses emigrantes, durante as comemorações do Dia da Independência em 1976, como “a queda dos covardes”, expressão que ainda hoje reflete a atitude coletiva em relação a esse grupo.

Israel — um Estado fundado essencialmente sobre o conceito de imigração judaica para a “Terra Prometida” — enfrenta, pela primeira vez desde a sua criação, uma onda de emigração que cresce rapidamente, com o número de pessoas deixando o país superando o número de chegadas nos últimos dois anos.

<><> O Desmoronamento do Mito do “Refúgio Seguro”

Desde 1948, a obsessão com a segurança tem sido central na formação da consciência coletiva israelense e no discurso sionista, que apresentava Israel como a “pátria segura do povo judeu” e o “último refúgio” para os judeus expulsos da Europa.

No entanto, esse mito desmoronou em 7 de outubro de 2023, com a Operação “Inundação de Al-Aqsa”, que abalou profundamente os alicerces do sistema de segurança e destruiu a sensação coletiva de proteção dentro das fronteiras do país.

Naquele dia, os israelenses descobriram que aquilo que havia sido alardeado por décadas — uma suposta imunidade de inteligência e uma barreira absoluta de dissuasão — não passava de uma ilusão coletiva. A violação das fronteiras fortemente fortificadas pela resistência palestina e a transformação de símbolos de segurança em cenas de desamparo e caos abalaram a confiança dos cidadãos israelenses em suas instituições de defesa, convertendo uma crise militar temporária em uma crise existencial de identidade nacional.

De acordo com um relatório do Instituto da Democracia de Israel (2024), mais de dois terços dos cidadãos afirmaram que sua confiança no exército diminuiu drasticamente após o ataque, enquanto mais da metade relatou “medo constante de perder a segurança pessoal, mesmo nas principais cidades”. A partir desse momento, a ideia de um “porto seguro”, que durante décadas atraiu imigrantes judeus da Europa e de diversas regiões do mundo, passou a ser fonte de dúvida e ansiedade, levando milhares de famílias a buscar um “refúgio alternativo” fora das fronteiras do país. A emigração deixou de ser apenas uma escolha econômica ou profissional e passou a funcionar como um mecanismo de sobrevivência diante da perda da sensação de segurança interna.

<><> O Tsunami da Partida

Israel — um Estado fundado principalmente no conceito de imigração judaica para a “Terra Prometida” — enfrenta, pela primeira vez desde a sua criação, uma onda de emigração em rápida ascensão, na qual o número de pessoas que deixam o país supera o número de chegadas nos últimos dois anos. De acordo com dados oficiais do Centro de Pesquisa e Informação do Knesset, Israel tornou-se, entre 2023 e 2024, um “país que exporta mais pessoas do que recebe”, após um aumento sem precedentes nas taxas de emigração desde a década de 1970. Informações divulgadas pelo Departamento Central de Estatísticas de Israel (2024), juntamente com relatórios internacionais de agências como a Associated Press e o The Times of Israel, indicam que o período entre outubro de 2023 e meados de 2025 registrou uma das maiores ondas de emigração das últimas duas décadas. Segundo estimativas do Departamento Central de Estatísticas, entre 82 mil e 85 mil pessoas deixaram Israel em 2023 — o maior índice anual desde a Segunda Intifada.

A Associated Press observa que os primeiros meses de 2024 apresentaram um aumento de 59% no número de emigrantes em comparação ao mesmo período do ano anterior. O The Times of Israel relatou ainda que o número de pessoas que retornaram ao país caiu 21% durante o primeiro semestre de 2024, refletindo uma mudança clara no equilíbrio demográfico entre emigração (Yerida) e retorno (Aliyah).

Essa queda no retorno a Israel evidencia a erosão do antigo apelo de “porto seguro” na consciência coletiva israelense. A decisão de emigrar deixou de ser interpretada apenas sob perspectivas econômicas ou profissionais e passou a ser também uma resposta às preocupações de segurança desencadeadas pelos acontecimentos que se intensificaram após 7 de outubro de 2023. Com a ampliação das tensões regionais e o aumento da sensação de instabilidade, esses números começam a sugerir uma mudança demográfica estrutural de longo prazo, levantando questões importantes sobre o futuro socioeconômico do país na próxima década.

<><> Duas Fases da Nova Onda Migratória

As estatísticas demonstram que essa onda migratória não seguiu um padrão uniforme, mas ocorreu em duas fases principais:

>>> Fase 1 (outubro de 2023 – março de 2024)

Período marcado pelo “choque coletivo” que se seguiu à Operação “Inundação de Al-Aqsa”. Nesse intervalo, as preocupações com a segurança combinaram-se com a mobilização militar generalizada, ampliando a sensação de instabilidade entre as famílias. A migração foi predominantemente defensiva e temporária — uma espécie de “migração preventiva”, destinada a escapar de tensões imediatas.

>>> Fase 2 (abril de 2024 – verão de 2025)

Fase de “estabilidade relativa”, em que a saída do país passou a ser uma escolha mais estratégica para certos grupos, especialmente profissionais qualificados e famílias urbanas. Nesse período, viajar deixou de ser apenas uma fuga do perigo e passou a representar a busca por um estilo de vida mais estável, oportunidades de trabalho e educação no exterior.

Uma reportagem publicada pelo Times of Sarajevo em 15 de outubro de 2024, intitulada “Israelenses Deixam o País em Massa: Um Êxodo Sem Precedentes, Principalmente em Idade Militar”, apontou que Israel está vivenciando uma crescente onda de emigração entre sua população jovem e produtiva. A reportagem afirmou que a idade média dos emigrantes do sexo masculino era de 31,6 anos, enquanto a das mulheres era de 32,5 anos. Explicou ainda que indivíduos na faixa dos 20 e 30 anos constituem aproximadamente 40% do total de emigrantes, apesar de representarem apenas 27% da população. Esses números, de acordo com análises estatísticas, mostram que Israel está perdendo um segmento crucial de sua força de trabalho qualificada — jovens em idade universitária, profissionais liberais e militares — o que prenuncia consequências econômicas e sociais de grande alcance.

O relatório também afirmou que 48% dos emigrantes do sexo masculino e 45% do sexo feminino eram solteiros, enquanto 41% se mudaram com seus parceiros, indicando que uma parcela significativa dessa população está emigrando de forma permanente, e não temporária. Em relação à origem, 59% dos emigrantes nasceram no exterior, enquanto 41% nasceram em Israel. Entre os nascidos fora do país, 80% vieram da Europa, sendo a grande maioria (72%) oriunda de ex-repúblicas soviéticas. Este último grupo havia se beneficiado anteriormente de amplo apoio governamental, incluindo moradia subsidiada e hipotecas, antes de reinvestir no exterior os lucros provenientes da venda dessas propriedades (Sarajevo Times, 2024).

Esses números indicam que Israel está perdendo sua elite jovem, produtiva e instruída — o próprio segmento que compõe a espinha dorsal de sua força de trabalho, sistema educacional e serviço militar — o que prenuncia impactos humanos e econômicos de longo prazo. Os jovens em Israel já não veem o Estado como um projeto coletivo nacional com futuro, mas como uma entidade ameaçada, “prisioneira da realidade do conflito em curso”.

<><> Fuga de Cérebros

Nos últimos anos, surgiu uma tendência paralela à emigração juvenil: um êxodo crescente de acadêmicos e profissionais das áreas de tecnologia, medicina e engenharia. De acordo com uma sessão especial realizada pela Comissão de Imigração e Absorção do Knesset em maio de 2024, o Centro de Pesquisa e Informação do Knesset observou que, embora dados oficiais precisos ainda não estejam disponíveis, estimativas iniciais indicam que aproximadamente 12% dos emigrantes em 2024 possuíam títulos de pós-graduação (mestrado ou doutorado), refletindo uma grave perda de capital humano qualificado em Israel (Comunicado de Imprensa do Knesset, 2025). Por sua vez, a ScienceAbroad — uma rede internacional que conecta pesquisadores israelenses que trabalham no exterior — revelou em seu relatório anual de 2024 que mais de 3.500 cientistas e pesquisadores israelenses se mudaram para universidades da Europa e da América do Norte desde o início da guerra em Gaza, em comparação com cerca de 2.000 nos dois anos anteriores somados, representando uma duplicação do ritmo da “fuga de cérebros” em decorrência do conflito militar e político (Relatório Anual da ScienceAbroad, 2024).

De maneira semelhante, o pesquisador Yagil Levy, da Universidade Aberta de Israel, afirma que esse fenômeno representa uma forma de “fuga de conhecimento” que ameaça a infraestrutura da economia israelense, baseada na inovação e na pesquisa científica. Ele alerta que a perda contínua de conhecimento acadêmico e tecnológico criará, a médio e longo prazo, uma lacuna difícil de ser preenchida (Relatório do Haaretz, 2025). Em conclusão, esses indicadores demográficos sugerem que Israel está à beira de uma transformação estrutural profunda e duradoura.

A crescente emigração de jovens e de indivíduos com formação superior não constitui um fenômeno populacional passageiro; ela afeta o próprio núcleo da sociedade israelense, sua composição etária e sua estrutura profissional. A continuidade dessa fuga de capital humano provoca um desequilíbrio crescente na pirâmide etária da força de trabalho e um declínio em setores vitais, como tecnologia e pesquisa científica — áreas que formam a base da economia israelense moderna há décadas.

As repercussões desse fenômeno ultrapassam a dimensão econômica e impactam o tecido social e político do Estado. Muitos dos que partem o fazem não apenas em busca de melhores oportunidades, mas também de um sentido perdido de segurança e estabilidade. Já aqueles que permanecem tendem a estar vinculados à terra por motivações religiosas ou por nacionalismo simbólico. Assim, aprofunda-se a divisão entre os que enxergam a permanência no país como um dever nacional e os que veem a saída como uma legítima forma de preservação individual e familiar.

A longo prazo, essa trajetória aponta para uma redução no crescimento populacional, declínio da produtividade e, possivelmente, uma redefinição da própria identidade do Estado. O modelo sionista, fundado na ideia de um “porto seguro”, enfrenta agora um teste existencial: seu simbolismo se desgasta diante de uma realidade em que a confiança nas instituições diminui e a capacidade de garantir segurança às gerações futuras se enfraquece. Diante dessa transformação, o conceito de “Aliá” — outrora sinônimo do sonho coletivo de ascender à “Terra Prometida” — corre o risco de se tornar apenas uma memória simbólica de uma era passada.

¨      Casas destruídas e preços exorbitantes: moradores relatam a vida em Gaza um mês após cessar-fogo

Quando Israel e Hamas concordaram com um cessar-fogo na Faixa de Gaza, há um mês, Mona al-Harazeen lembra não ter conseguido conter o choro.

Só pensava no filho Yazan, morto, segundo ela, em um bombardeio nos primeiros meses da guerra, aos 17 anos. "Durante a guerra, não tivemos tempo de ficar tristes. Eu não tive tempo de viver o luto", explica a mulher de 36 anos, que trabalhava no setor administrativo da companhia elétrica local. "Quando a guerra acaba, a dor e a tristeza voltam." Falando por telefone à BBC, ela diz que a primeira coisa que fez foi retornar ao norte da Faixa de Gaza, onde viveu a maior parte da vida. Tinha fugido de bombardeios intensos semanas antes de o cessar-fogo entrar em vigor, em outubro.

Não era a primeira vez que al-Harazeen fazia esse percurso. Em janeiro de 2025, quando um cessar-fogo anterior foi firmado, ela também caminhou do sul ao norte. Na ocasião, carregava o corpo de Yazan, que havia retirado dos escombros onde estava preso havia quase um ano. Chorando, explica que queria dar ao filho um enterro digno. Desta vez, ela foi de carro. O trajeto, que antes da guerra levaria 30 minutos, durou cerca de três horas, em meio a estradas destruídas e engarrafamentos causados pelo grande número de pessoas retornando ao norte.

Desta vez, ela foi de carro. O trajeto, que antes da guerra levaria 30 minutos, durou cerca de três horas, em meio a estradas destruídas e engarrafamentos causados pelo grande número de pessoas retornando ao norte. Ao cruzar o vale com vista para a Cidade de Gaza, al-Harazeen diz ter ficado aterrorizada. "Até onde eu podia ver, só havia espaços vazios. Era uma cena horrível. O chão estava coberto de destroços, como se tivesse engolido todos os prédios." Ela conta que o horizonte mudou completamente: edifícios de até 13 andares desapareceram. "Foi solitário e assustador. Não consigo descrever a sensação. Só chorei", diz. Ela já sabia que sua casa, onde morou por 20 anos, fora destruída em 2024. Apesar disso, quer permanecer na cidade, "porque é o meu lar". Encontrou um apartamento de três cômodos para alugar a dez minutos de carro.

É um dos poucos disponíveis e, segundo ela, custa caro. Só consegue pagar dividindo o aluguel com a mãe, duas irmãs e suas famílias. Não sabe por quanto tempo vão conseguir manter o arranjo. Ela afirma não ter recebido ajuda nem doações de alimentos. Diz que alguns produtos voltaram a aparecer, mas com preços "absurdos".

Antes da guerra, 1kg de banana custava cerca de três shekels (R$ 5,40). Agora, está em torno de 20 shekels (R$ 36). Um pacote de pão pita, que custava sete ou oito shekels (R$ 15), hoje chega a 60 shekels (R$ 108). Ela ainda não consegue comprar ovos e conta que muitas famílias cozinham em fogueiras, por falta de gás. "Acendemos fogo sobre placas de metal, em cilindros grandes, nas varandas, em banheiros desativados ou perto das janelas, para ferver água e esquentar a comida."

"Como não temos móveis, sentamos em cobertores e almofadas no chão", acrescenta.

Ela diz que os habitantes de Gaza não se sentem seguros e duvidam da estabilidade do cessar-fogo. "Ainda ouvimos tiros, foguetes e bombardeios. Tenho muito medo."

Mesmo assim, dorme um pouco mais tranquila ao saber que os outros dois filhos, Mohammad, 16, e Bashar, 12, estão relativamente protegidos. O futuro, para ela, é sombrio: "Não temos futuro... Gaza acabou. Gostaria, nem que fosse por um dia, de voltar à minha casa, tomar banho no meu banheiro, dormir na minha cama, pentear o cabelo diante do espelho, vestir roupas limpas, passar meu perfume. Tenho saudade das coisas simples que fazia e já não posso fazer."

<><> Jumana

Enquanto a maioria das pessoas ouvidas diz achar impossível pensar em reconstruir a vida, algumas, como Jumana, 26, encontram breves lampejos da antiga rotina.

Sua casa é uma das poucas ainda de pé na Cidade de Gaza. "Nosso apartamento não foi gravemente danificado, graças a Deus", afirma por telefone. "Só as janelas quebraram, e a cozinha ficou um pouco destruída."

A jornalista freelancer vive ali com o marido, que também trabalha na área, e as duas filhas. A mais velha, Tulin, 6, que sonhava voltar à escola, começou a ter aulas particulares, sendo as primeiras desde o início da guerra. A caçula, Thalia, 2, nasceu menos de uma semana depois do ataque de 7 de outubro de 2023, liderado pelo Hamas contra o sul de Israel, quando 251 pessoas foram sequestradas e cerca de 1.200 morreram. Tulin também nasceu em outubro, e os pais esperavam, neste ano, finalmente fazer uma grande festa para as duas. Mas os planos ruíram quando um parente foi morto em bombardeios israelenses no fim de outubro, após Israel e Hamas se acusarem mutuamente de violar o cessar-fogo. Ele é uma das mais de 68 mil vítimas da guerra em Gaza, segundo o Ministério da Saúde controlado pelo Hamas, números aceitos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e outras entidades internacionais.

O Exército israelense afirmou ter atingido "dezenas de alvos terroristas e militantes" em resposta a violações do acordo mediado pelos Estados Unidos. O ministro da Defesa de Israel acusou o Hamas de um ataque que matou um soldado israelense e de descumprir as condições sobre a devolução dos corpos de reféns mortos. O Hamas negou envolvimento e acusou Israel de tentar minar o acordo.

Para Jumana, o episódio foi um lembrete de que a vida está longe do normal. "Com guerra ou sem guerra, é isso que nossas vidas viraram, a triste realidade", diz, com amargura. Ainda assim, saiu para passear com o marido e as meninas. Compartilhou um vídeo das duas caminhando entre destroços. Depois, foram a um restaurante. "Comeram pizza, shawarma e tomaram Coca-Cola. Ficamos tanto tempo sem nada disso que parecia um sonho", conta. Jumana também postou fotos de alimentos que conseguiu comprar — espetinhos de carne, frango inteiro, sorvete, frutas e cordeiro. Levou as filhas ao supermercado e registrou prateleiras cheias de doces, salgadinhos e café, mas outras vazias ao fundo. "As prateleiras só ficam cheias quando o [Exército] israelense permite a entrada de mercadorias", explica. "Nem tudo está disponível. Se as fronteiras fecham por dois dias, os produtos somem imediatamente."

Ela e o marido conseguem sustentar a família porque continuam trabalhando. Mas a maioria dos moradores está desempregada e os bancos permanecem fechados.

Alguns ainda têm dinheiro guardado e cobram taxas de até 25% para liberar transferências, relata. Jumana também compartilhou imagens das filhas brincando e nadando no mar, com prédios destruídos ao fundo; em um deles, sem paredes nem janelas, ainda vive uma família. A cena resume a realidade em Gaza. "Não há futuro para nós nem para nossas filhas. Tentamos seguir, mas não é normal", diz. "Estamos planejando um futuro fora de Gaza, infelizmente."

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Mundo

 

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