Soroterapia:
o que a ciência diz sobre os 'soros da beleza' que prometem mais energia e
imunidade
Mais
energia. Imunidade reforçada. Pele renovada, corpo recuperado, envelhecimento
adiado. A cada nova clínica de estética que adota a soroterapia, a lista de
promessas se alonga —e todas cabem em uma única bolsa de soro pendurada ao lado
da poltrona.
O apelo
é evidente para quem vive exausto e teme o próprio relógio biológico. A
ciência, no entanto, responde com menos entusiasmo: em pessoas saudáveis, quase
nenhuma dessas promessas se sustenta.
É o que
afirmam as principais sociedades médicas do país e os especialistas ouvidos
pelo g1. O tratamento existe, ocupa lugar consolidado na medicina e ampara quem
de fato precisa dele —mas não é isso que se oferece no balcão da estética.
<><>
O que é soroterapia
Soroterapia
é o nome dado à infusão de líquidos, medicamentos, vitaminas, minerais ou
outros nutrientes diretamente na corrente sanguínea. A via intravenosa cumpre
uma função específica: driblar o sistema digestivo.
Quando
o intestino não dá conta de absorver um nutriente, ou quando o corpo precisa
repô-lo às pressas, a veia se torna o caminho mais curto. Fora dessas
situações, é um atalho sem destino.
<><>
Quando o tratamento se justifica
Na
medicina, a terapia intravenosa tem indicações estreitas e bem mapeadas. Ela
entra em cena diante de doenças que comprometem a absorção de nutrientes, como
a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, ou depois de cirurgias que retiram
parte do intestino.
Também
se aplica a quadros graves de desidratação e a deficiências que já foram
confirmadas por exame.
O
reumatologista Adérito Cruz, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do
Distrito Federal, resume o critério: quando o organismo perde de fato a
capacidade de absorver alimentos ou nutrientes, a reposição pela veia se
justifica. Longe disso, não há razão para furar a pele.
"Não
faz sentido injetar na veia aquilo que o corpo absorveria sozinho por via oral.
A indicação só existe quando a incapacidade de absorção está comprovada",
afirma.
<><>
A ilusão de que mais é sempre melhor
Por
trás dos soros da beleza mora a ideia de que vitamina, quanto mais, melhor. A
lógica não resiste ao primeiro exame. Nutrientes essenciais em excesso deixam
de ser inofensivos —doses altas podem sobrecarregar fígado e rins, desencadear
alterações neurológicas e provocar náuseas e vômitos, segundo os especialistas.
O
próprio ato de injetar carrega riscos que independem do conteúdo da bolsa. Cada
punção abre uma porta para infecções, inflamação da veia, reações alérgicas e
complicações ligadas ao manuseio dos produtos.
Endocrinologista
do Hospital Israelita Albert Einstein e diretor da Sociedade Brasileira de
Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo acrescenta uma ressalva
sobre o bem-estar que muitos pacientes juram sentir depois da aplicação. A
sensação pode não vir das vitaminas, mas de um efeito placebo —ou de outras
substâncias diluídas no soro, de um corticoide a um estimulante, que produzem
alívio momentâneo sem que o paciente saiba exatamente o que recebeu.
Para o
médico, o balanço é desfavorável.
"O
que a ciência mostra é que o risco tende a superar o benefício. Qualquer
medicamento precisa ter indicação clínica, prescrição adequada e administração
segura", diz.
E
lembra que, havendo real necessidade de repor um nutriente, a medicina quase
sempre dispõe de um caminho mais simples e menos arriscado que a veia.
<><>
Um consenso entre as entidades
A
recomendação dos especialistas ecoa nas instituições que regulam a área. A
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) declarou, em nota recente,
não existir evidência de que a soroterapia seja segura ou eficaz para melhorar
a saúde, prevenir doenças ou elevar o bem-estar de pessoas saudáveis. O uso,
reforça a agência, deve ficar restrito a situações clínicas definidas.
A
Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) é igualmente direta: a soroterapia
da beleza não pertence ao rol de procedimentos da especialidade. Em nota
conjunta, a SBEM, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Associação
Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso)
sublinham que produtos injetáveis só devem ser prescritos com base em evidência
científica e dentro das normas sanitárias e éticas.
O
Conselho Federal de Biomedicina foi na mesma direção, ao esclarecer, em nota
técnica, que o procedimento escapa às competências do biomédico.
<><>
Como enxergar a oferta com olhos críticos
Diante
de um serviço que promete muitos benefícios de uma só vez e não exibe estudo
clínico que os sustente, a orientação dos especialistas é uma só: desconfiar.
Antes
de aceitar qualquer infusão, sugerem, vale confirmar se há indicação médica
individual, checar se os produtos têm registro sanitário e buscar um
profissional habilitado para julgar se o tratamento é mesmo necessário.
Cruz
observa que a internet multiplicou o alcance dessas ofertas, sem substituir
aquilo que as sustentaria de verdade —a evidência.
"O
paciente precisa desconfiar de qualquer solução que prometa muitos benefícios
ao mesmo tempo. Antes de topar, convém perguntar se existe comprovação
científica de que aquilo funciona e se há real necessidade clínica", diz.
Enquanto
a pesquisa segue investigando o papel de vitaminas e suplementos em diferentes
doenças, o consenso não muda quando o assunto é gente saudável: alimentação
equilibrada, atividade física, sono suficiente e acompanhamento médico quando
preciso continuam sendo —de longe— as estratégias com melhor resultado
comprovado para preservar a saúde.
Fonte:
g1

Nenhum comentário:
Postar um comentário