O
tarifaço contra o Brasil e a nova geoeconomia dos Estados Unidos
As
tarifas impostas ao Brasil não podem ser compreendidas apenas como uma disputa
comercial. Elas revelam uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para
conter a reorganização da ordem internacional e reafirmar sua influência sobre
a América Latina.
Em
julho de 2025, o governo dos EUA, sob o segundo mandato de Donald Trump,
ampliou drasticamente as taxas de importação aplicadas a produtos de diversos
países. Um ano depois, em julho de 2026, o
Brasil voltou a ser taxado.
A
justificativa oficial para os tarifaços faz referência tanto a questões da
política interna brasileira quanto a supostas práticas desleais de mercado.
Entretanto, interpretar essa medida apenas como uma reação às disputas
envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro ou como uma tentativa de corrigir
injustiças comerciais significa ignorar um processo mais profundo.
O
episódio insere-se em uma estratégia geoeconômica voltada à contenção do avanço
do BRICS, da crescente presença chinesa na América Latina e das tentativas de
reorganização da ordem internacional, lideradas pelo chamado Sul Global.
Durante
décadas, os EUA exerceram sua hegemonia combinando superioridade militar,
capacidade financeira e abertura comercial. O livre-comércio e a democracia
foram apresentados como princípios universais, mesmo que frequentemente
coexistissem com políticas protecionistas voltadas aos próprios interesses
nacionais.
A
novidade do segundo governo Trump não está no uso do protecionismo, mas na
transformação explícita da política comercial em instrumento permanente de
disputa geopolítica. A lógica deixa de ser apenas econômica. Tarifas, sanções,
restrições tecnológicas e mecanismos financeiros passam a integrar uma mesma
estratégia de poder.
O
comércio deixa de representar apenas crescimento econômico para se converter em
ferramenta de contenção de adversários estratégicos. Essa mudança ajuda a
compreender por que o BRICS passou a ocupar posição central na política externa
norte-americana.
Embora
não constitua uma organização internacional formal, o agrupamento representa
hoje uma das principais iniciativas de contestação da arquitetura internacional
construída após a Segunda Guerra Mundial.
A
ampliação do bloco, incorporando novos membros, reforçou seu peso econômico e
político, ao mesmo tempo em que fortaleceu iniciativas voltadas à utilização de
moedas nacionais nas transações comerciais, à ampliação do papel do Novo Banco
de Desenvolvimento e à redução da dependência das instituições financeiras
dominadas pelo Ocidente.
Para
Washington, o problema não é apenas econômico. O fortalecimento do BRICS
significa a consolidação de uma rede de cooperação capaz de ampliar a autonomia
política dos países emergentes e reduzir a capacidade dos Estados Unidos de
exercer influência sobre as regras do sistema internacional. É nesse contexto
que o Brasil assume posição estratégica.
A
política externa brasileira tradicionalmente busca diversificar suas parcerias
como estratégia de inserção internacional. A participação em Mercosul, BRICS,
G20, OCDE, as relações Sul-Sul e a cooperação com diferentes polos de poder
fazem parte dessa estratégia de autonomia relativa construída ao longo das
últimas décadas.
Ao
taxar produtos brasileiros, a administração Trump envia uma mensagem que
ultrapassa a relação bilateral. O objetivo parece ser elevar os custos da
aproximação brasileira com iniciativas percebidas como alternativas à liderança
norte-americana.
Essa
estratégia também dialoga com uma antiga tradição da política externa dos
Estados Unidos em relação à América Latina. Desde a formulação da Doutrina
Monroe, em 1823, Washington considera o hemisfério ocidental uma área
prioritária de influência. Trump situa suas ações em uma nova versão desse
corolário, a Doutrina Donroe.
Ao
longo de dois séculos, os instrumentos utilizados variaram – intervenções
militares, apoio a governos aliados, cooperação econômica, acordos comerciais
ou pressão diplomática –, mas a lógica permaneceu relativamente constante:
limitar a presença de potências extrarregionais.
Hoje,
essa preocupação concentra-se sobretudo na expansão chinesa. Nas últimas duas
décadas, a China tornou-se um dos principais parceiros comerciais da América do
Sul, ampliando investimentos em infraestrutura, energia, mineração e logística.
Essa presença reduz a capacidade dos EUA de exercer influência econômica
exclusiva sobre a região.
A
política tarifária do segundo governo Trump deve ser compreendida justamente
como parte dessa disputa mais ampla. Em vez de recorrer prioritariamente ao
poder militar, Washington passa a utilizar instrumentos econômicos para
preservar posições estratégicas e dificultar a consolidação de alternativas
institucionais ao sistema liderado pelos Estados Unidos.
A
competição entre grandes potências desloca-se, assim, do campo estritamente
militar para as cadeias produtivas, as moedas, as tarifas, os investimentos e o
controle das tecnologias estratégicas. A geoeconomia passa a ocupar, no século
XXI, papel semelhante ao desempenhado pela geopolítica clássica durante boa
parte do século XX.
Isso
não significa que a dimensão militar tenha perdido importância. Pelo contrário.
O uso crescente de instrumentos econômicos amplia as possibilidades de
competição sem eliminar o risco de escaladas políticas e militares, sobretudo
em regiões consideradas estratégicas.
Nesse
cenário, o Brasil enfrenta um desafio delicado. A ampliação de suas parcerias
internacionais representa uma oportunidade de diversificação econômica e de
maior autonomia diplomática. Ao mesmo tempo, aumenta sua exposição às tensões
entre EUA e China, transformando o país em espaço de disputa entre projetos
distintos de organização da ordem mundial.
Mais do
que uma reação comercial, as tarifas impostas por Washington revelam uma
mudança de paradigma. A economia deixa de ser apenas instrumento de
desenvolvimento e volta a ocupar posição central como mecanismo de competição
entre grandes potências.
Para o
governo Trump, todas as armas são válidas. O Sul Global é o alvo preferencial
da nova competição pela influência internacional. O Brasil e a América Latina
retornam ao centro da disputa geopolítica global, não como protagonistas, como
aspiravam, mas como reféns dos interesses das grandes potências.
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EUA podem perder para o Brasil o papel de maior
exportador agrícola do mundo, diz Financial Times
Uma
reportagem publicada nesta terça-feira (21/7) no britânico Financial Times, um
dos principais jornais de finanças do mundo, afirma que os Estados Unidos correm o risco
de perder para o Brasil o posto de
maior exportador agrícola do mundo.
Segundo
o Departamento de Agricultura americano e o Ministério da Agricultura brasileiro, os
EUA exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas no ano passado, apenas US$
2 bilhões a mais do que o Brasil. Em 2021, essa diferença foi de US$ 56
bilhões.
O texto
diz que as exportações brasileiras no agro cresceram 6% no primeiro semestre de
2026, atingindo um recorde de US$ 87 bilhões, graças não só ao seu papel de
maior produtor mundial de soja e das carnes bovina e avícola, mas também do
sucesso de cultivos como o algodão, que tinha os EUA como seu principal
exportador, mas que foi ultrapassado pelo Brasil.
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O papel da China
Para os
analistas ouvidos pela reportagem britânica, que esteve nos Estados de Iowa,
nos EUA, e em Mato Grosso, no Brasil, a
principal razão por trás desta mudança está nas "perturbações comerciais
desencadeadas pelas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump".
Isso
porque a China, um dos maiores
compradores do mundo, reduziu significativamente suas importações dos
americanos depois que o republicano impôs tarifas ao país em 2018, ainda
durante seu primeiro mandato na Casa Branca.
Um
gráfico que acompanha a reportagem mostra que, em 2016, a China comprava
volumes semelhantes de soja do Brasil e dos EUA. As exportações brasileiras já
cresciam, mas em ritmo mais moderado.
Com a
retaliação de Pequim às tarifas de Washington em 2018, porém, esse crescimento
se acelerou. Em 2025, o Brasil exportou mais de 80 milhões de toneladas de soja
para a China, enquanto os EUA não chegaram à casa das dezenas de milhões de
toneladas.
Os
dados são do UN Comtrade (United Nations Commodity Trade Statistics Database),
considerado o maior e mais abrangente repositório público de estatísticas de
comércio internacional.
O
Financial Times diz que, embora os EUA sigam capazes de produzir "safras
extraordinárias", "as margens de lucro estão desaparecendo à medida
que as tensões comerciais e os preços baixos deixam sua marca no
Meio-Oeste".
Segundo
a reportagem, a estimativa da American Farm Bureau Federation, a maior
organização e grupo de lobby de agricultores e pecuaristas dos
EUA, é de que o setor tenha no próximo ano prejuízos de US$ 138 por acre para a
soja, US$ 167 para o milho, US$ 145 para o trigo e US$ 406 para o algodão.
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A ascensão de Mato Grosso
O
Financial Times lembra que "a força do setor agrícola do Brasil não é
apenas consequência da política comercial americana", mas é algo que vem
sendo construído ao longo das últimas décadas.
A
reportagem conta que o Brasil, hoje líder ainda na exportação de café,
cana-de-açúcar e suco de laranja, dependia de importações para alimentar sua
população até os anos 1970. A situação mudou quando o país passou a tirar
vantagem de seu território, capaz de gerar duas ou até três safras no mesmo
ano.
Isso se
deve, em parte, à disponibilidade e ao baixo custo da terra, principalmente nas
regiões de fronteira, mas também à expansão da produção para áreas antes
consideradas inférteis ou de difícil cultivo, que ganharam sobrevida com
"o tratamento de solos pobres em nutrientes e o desenvolvimento genético
de culturas adaptada ao clima".
"Esse
modelo de produção contínua ajuda a diluir os custos fixos e, normalmente,
melhora as margens das propriedades rurais", explicou Raphael Bulascoschi,
analista da corretora de commodities StoneX, ao periódico britânico.
Mas o
Brasil, acrescentam os especialistas ouvidos pelo Financial Times, também se
prepara para cenários menos favoráveis, diante das altas taxas de juros
internas, da queda nos preços das commodities e, após a guerra entre Irã e
Israel, da alta no preço dos fertilizantes, que vêm, em sua vasta maioria, de
fora.
¨
'Interesse mercadológico' explica contradição dos EUA com
medida que pode fortalecer PCC e CV
O
Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF, na sigla em
inglês) dos Estados Unidos, a pedido da
Casa Branca, sugeriu 34 mudanças regulatórias no mercado de armas do país.
Dentre as medidas, o documento propõe a permissão de vendas on-line de
armamentos com entrega em domicílio.
O
Departamento de Justiça norte-americano aponta a revisão das regras como
uma necessidade para garantir o direito à Segunda Emenda da
Constituição dos Estados Unidos.
"A
Segunda Emenda não é um direito de segunda classe", disse o
procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, em abril. "Este
Departamento de Justiça está pondo fim ao uso da autoridade federal como arma
contra proprietários de armas que respeitam a lei. Continuaremos a defender
vigorosamente os direitos deles, conforme exige a Constituição."
O que
deveria ser uma questão interna da segurança pública norte-americana
acaba transbordando América abaixo. Em entrevista à Sputnik Brasil,
especialistas acreditam que a revisão dessas medidas atende a uma lógica
de mercado e pode facilitar a chegada de armas nas mãos de
organizações criminosas brasileiras.
Robson
Rodrigues, cientista social e membro pesquisador associado do Laboratório de
Análise de Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),
explica que há um lobby forte nos Estados Unidos para a
flexibilização de leis relacionadas à compra, posse e porte de armas.
"Acho
que todas essas tomadas de decisões visam atender a uma necessidade de expansão
mercadológica que é própria do capitalismo. E, quando se pondera entre dois
valores, um de segurança pública que atenda à população e o outro que atenda ao
mercado, é muito recorrente, frequente, que essas decisões tenham pendido para
o lado do interesse mercadológico."
O
especialista alerta para o fato de os Estados Unidos terem uma das
taxas de homicídio por 100 mil habitantes mais altas entre os países
desenvolvidos, mostrando que o país convive com problemas de segurança pública
relacionados a armas.
No
entanto, na visão de Rodrigues, essa revisão de regras no comércio de
armas norte-americano também impactará o Brasil ao "alimentar"
as organizações criminosas do país, até mesmo aquelas que foram
classificadas por Washington como terroristas.
"A
flexibilização do comércio vai tornar o que antes estava ainda dentro dessas
fronteiras do ilícito ou clandestino, uma legalização que não vai ser boa.
Facilitando esse fluxo para atender a essas necessidades de expansão
mercadológica, o que vai sofrer agora é a sociedade brasileira, que vai ver
essas organizações cada vez mais bem armadas."
Marcio
Christino, procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo (MPSP),
também acredita que a flexibilização ajuda o crime organizado e evidencia
uma contradição de Washington ao classificar Comando Vermelho (CV) e
Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações
terroristas.
"O
comércio ilegal de armas de fogo independe, obviamente, da regulação formal do
mercado americano. Entretanto, quando os EUA estabelecem um critério de
flexibilização da venda de armas, há uma evidente contradição com o
reconhecimento da criminalidade organizada como terrorista."
Para o
procurador, coautor do livro "Laços de sangue: a história secreta do
PCC", a medida norte-americana não teria impacto direto no Brasil, afinal,
as armas não poderiam ser entregues legalmente aqui. No
entanto, a proximidade geográfica com os Estados Unidos age
"claramente como um facilitador".
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O problema está lá, mas também aqui
Rodrigues
defende que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, está
certo ao apontar que muitas armas
apreendidas pela Polícia Federal são enviadas da Flórida, enquanto organizações
criminosas brasileiras usam o estado norte-americano de Delaware,
considerado paraíso fiscal, para lavar dinheiro.
Para o
especialista, existe uma "extrema leniência" de países do
centro de poder financeiro com crimes como a lavagem de dinheiro, o que
dificulta o combate a grupos como CV e PCC. O consumo de drogas, por
exemplo, também é pouco combatido, o que favorece e impulsiona a oferta.
"[Nestes
países desenvolvidos] não se combate a demanda, que às vezes tem uma margem de
lucro muito maior. Não se combate a lavagem de dinheiro, que vai facilitar a
vida desses criminosos de que nós estamos falando aqui nas plagas do Sul."
Por
outro lado, Rodrigues ressalta que é responsabilidade do Brasil
cuidar da própria segurança pública. O cientista social
identifica "soluções espetaculosas" nas ações das polícias
brasileiras, sem o uso de diagnósticos já feitos por pesquisadores e analistas
do setor.
"A
gente tem uma atuação muito míope, baseada muito mais na nossa emoção, na
manipulação política do medo, nas respostas fáceis e ilusionistas, do que um
plano efetivo para controle, para a diminuição da vulnerabilidade social, uma
ocupação racional do espaço por parte do Estado."
No caso
do Rio de Janeiro, mais especificamente, Rodrigues entende ser necessário
um plano a nível federal para o combate ao contrabando internacional de
armas. O analista acredita que também é preciso um controle maior das
fronteiras, tanto em estradas quanto no mar — portos e outras regiões da Baía
de Guanabara — para estancar a importação de armas.
"A
gente também não pode só culpar o governo [do presidente dos EUA, Donald]
Trump. A gente pode fazer alguma coisa aqui. Os ingredientes já estão postos.
Você tem bastante conhecimento, pesquisa e dados para iniciar. […] Ocupar esses
espaços, diminuir essa margem de manobra desses criminosos é um ponto
fundamental para começar a reverter a situação, e isso não tem sido
feito."
¨
Governo Trump transforma imigrantes e esquerda em
“ameaças à sobrevivência” dos EUA
Nos
Estados Unidos, país mais medroso do mundo, onde tudo representa um perigo, o
governo Trump afirma que os imigrantes e a esquerda representam a
ameaça mais grave à superpotência na atualidade.
Recentemente,
o arquiteto das políticas anti-imigração da Casa Branca, Stephen Miller, declarou que seu
país precisa expulsar todos os que chegaram “ilegalmente” desses países do
Terceiro Mundo onde, segundo ele, jamais teriam inventado a roda, nem a
tecnologia ou a medicina moderna, nem qualquer elemento da “grandeza”
estadunidense.
Seguindo
essa lógica, para começar, seria preciso ter deportado os primeiros ingleses
que chegaram ao território que hoje corresponde aos Estados Unidos e, talvez,
todos os seus descendentes, já que, tecnicamente, foram os primeiros “ilegais”
— nunca solicitaram autorização às nações indígenas para entrar e permanecer em
terras que não lhes pertenciam.
Mais
ainda, se Miller revisasse um pouco a história, descobriria que entre os países
que classifica como atrasados do “Terceiro Mundo” estão aqueles que forneceram
os números e as letras que ele e todos utilizam: a matemática se desenvolveu em
terras árabes; o alfabeto moderno surgiu entre o Egito, a Grécia e a Fenícia
(parte do atual Líbano); e a roda para transporte foi inventada na Mesopotâmia,
território que hoje corresponde ao Iraque.
Entre
os imigrantes que ele insulta diariamente e cuja perseguição procura justificar
estão os trabalhadores essenciais que, de forma anônima, salvam seu país todos
os dias com seu trabalho e suas contribuições, além de personalidades
conhecidas, como os cerca de 35% dos vencedores do Prêmio Nobel nos Estados
Unidos que são imigrantes.
Nesta
Copa do Mundo, 25% dos 26 integrantes da seleção estadunidense nasceram em
outros países — parte dos 286 jogadores do Mundial que não nasceram nos países
que estavam representando, informou o La Jornada.
Que
Miller, cujos antepassados foram refugiados, seja hoje o arquiteto de políticas
anti-imigração que, segundo seu próprio tio, teriam impedido a entrada de seus
ancestrais e levado à aniquilação de sua família, é algo sobre o qual ele nunca
respondeu. Mas ele agora integra uma corrente de extrema direita no poder que
possui uma longa história de perseguição e discriminação contra minorias e
dissidentes.
As
manifestações anti-imigração fazem parte de uma agenda de direita que também
inclui políticas antiesquerdistas. Essa dupla tem
uma longa história, em parte baseada na acusação de que as ideias de esquerda,
consideradas “estrangeiras” e antiestadunidenses, são importadas para o país
pelos imigrantes.
Na
semana passada, durante a reunião ministerial internacional convocada pelo
Departamento de Estado, Miller declarou aos representantes de 66 países que
“tomamos a medida necessária e essencial de reconhecer formalmente a violência
de esquerda como uma forma de terrorismo político que representa uma ameaça
direta à nossa segurança nacional e à sobrevivência de nossa forma republicana
de governo”.
O
anfitrião da reunião, o secretário de Estado Marco Rubio, filho de imigrantes
cubanos, declarou na ocasião que “podem se chamar anticapitalistas,
anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas, mas sua natureza
fundamental é sempre a mesma”, resumindo-a como “um ressentimento venenoso
disfarçado sob a linguagem da igualdade, da justiça e da libertação” e “um ódio
à própria civilização”.
Ou
seja, segundo Miller, Rubio e outros integrantes deste governo, os imigrantes,
juntamente com uma esquerda “violenta” transnacional, representam a ameaça mais
grave ao país mais poderoso do mundo.
Com
base nesse argumento, seria de se supor que, se Albert Einstein surgisse hoje,
seria classificado como “inimigo” por ser não apenas um imigrante, mas também
um socialista. De fato, alguns setores da direita atualmente exigem a
deportação do atual prefeito de Nova York por ser imigrante e socialista
democrático, e até mesmo de Bernie Sanders, filho de imigrantes — e essa lista
é longa.
Talvez
os que hoje estão no poder tenham razão em temer aqueles que, historicamente,
transformaram e democratizaram os Estados Unidos desde seus primórdios.
Fonte: Por
Ricardo Luigi, Higor Ferreira Brigola e Bruno de Souza Silva, no Le Monde/BBC
News/La Jornada

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