quinta-feira, 23 de julho de 2026

Paulo Kliass: O novo tarifaço de Trump, cruzada contra o Brasil

Passado mais de um ano desde o primeiro estardalhaço anunciado por Donald Trump no início de seu segundo mandato quanto à aplicação de tarifas para todo o mundo, a trajetória do Presidente estadunidense tem sido marcada pela inconsistência e por seguidos movimentos de avanços e recuos.

Essa sequência de idas e vindas, de ameaças e encolhimentos, tem sido a marca desta gestão à frente da Casa Branca. Muitas analistas apontam para a existência de uma estratégia em tal conduta, não caindo na avaliação fácil de que tudo não passaria de trapalhadas, incompetência ou fragilidade.

A cada novo desafio, ele avança bastante suas peças no tabuleiro logo de início e depois vai recuando ponto a ponto para tentar se estabelecer com alguma firmeza no jogo.

No caso das relações com o Brasil não tem sido muito diferente.

Em 2025 o governo norte-americano anunciou um conjunto de medidas tarifárias contra praticamente todos os países do globo, incluindo os seus aliados mais tradicionais. Mas as medidas prejudicando a economia brasileira não guardavam nenhuma relação com aspectos da dinâmica econômica.

Os Estados Unidos guardavam, já à época, um superávit na balança comercial com nosso País. Isso significa que o valor total de suas exportações para o Brasil era superior ao das nossas importações oriundas de lá. Ou seja, em tese, não caberiam medidas como a imposição de alíquotas sobre nossas vendas para eles.

Ocorre que a gestão Trump tem mantido uma cruzada sem limites contra o multilateralismo e contra a Organização das Nações Unidas (ONU). Assim, a Organização Mundial do Comércio (OMC) foi praticamente ignorada pelos Estados Unidos e teve suas contribuições financeiras do maior Estado membro quase zeradas. Caso a iniciativa norte-americana contra o Brasil seja analisada pelas instâncias da OMC, muito provavelmente o processo não seria aceito.

Afinal, os argumentos utilizados não residem no campo das relações comerciais. São demandas e críticas de natureza geopolítica, política e de dimensões que escapam à dinâmica de comércio bilateral em sentido estrito.

O exemplo maior foi a exigência da libertação de Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e mantido preso seguindo os ritos de nossa estrutura legal e institucional.

<><> Novo tarifaço: mais do mesmo do trumpismo

Mais à frente, ainda em setembro de 2025, ocorre o encontro entre Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, momento em que as tensões pareciam ter sido reduzidas e foi criado um “clima” entre ambos.

O próprio Presidente brasileiro e sua assessoria criaram uma certa ilusão de que haveria espaço para mudar a postura de seu correspondente.

Mas o fato concreto é que o trumpismo sempre enxergou no bolsonarismo seu aliado estratégico e preferencial para o caso brasileiro. A aproximação com Lula não deveria mesmo durar muito. Os Estados Unidos haviam definido a porção meridional do continente como área de extrema importância geopolítica e nova doutrina estabelecida no ano passado confirmava esse objetivo.

Eles passaram a atuar de forma mais incisiva nos processos políticos internos dos países da América do Sul, apoiando candidaturas de direita e extrema direita, além de sequestrarem o Presidente legitimamente eleito da Venezuela, Nicolas Maduro, e ameaçando uma intervenção mais direta em Cuba.

O mapa ao longo das duas primeiras décadas deste século apontava um tom “rosa” na região, com diversos governos progressistas, como Lula no Brasil, Chavez na Venezuela, Mujica no Uruguai, Kirchner na Argentina, Morales na Bolívia, Petro na Colômbia, Correia no Equador, Lugo no Paraguai e Boric no Chile.

Mas agora o quadro mudou radicalmente, com a permanência apenas do Brasil e do Uruguai apresentando ainda algum grau de contradição com as orientações emanadas de Washington.

Assim, o que se verificou ao longo deste ano foi também uma reversão na política de Trump com Lula. Os pleitos de novas medidas tarifárias seguiam em fase de estudos e de análise no interior do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, da sigla em inglês) daquele País. E, mais recentemente, as novas decisões foram anunciadas, pegando de surpresa os principais analistas do tema.

As novidades surgem em um ambiente de reaproximação pública e explícita de Trump com o bolsonarismo, ao que tudo indica abandonando a “química” que ele havia estabelecido com Lula.

<><> Cruzada contra o Brasil, Lula, Pix e tudo o mais

Desta feita, os argumentos não mais incluem a libertação do ex-presidente preso e condenado, mas mantêm reclamações relativas ao Pix, ao desmatamento, ao suposto desrespeito de direitos de propriedade e outros fatos que não se sustentam perante qualquer espaço sério de debate e negociação de natureza comercial.

Até mesmo o economista Paul Krugman, de perfil conservador e ganhador do Prêmio Nobel, publicou um artigo criticando pesadamente o presidente norte-americano em sua cruzada contra o Brasil. Para ele, as novas tarifas não vão funcionar e fortalecerão Lula. E ele vai ao ponto central da questão: “De certa forma, a administração Trump ainda tenta punir o Brasil por ser uma verdadeira democracia”.

O prazo para entrada em vigor do novo tarifaço é 22 de julho. No entanto, sabemos que o respeito a calendários e etapas previamente definidas não é exatamente uma marca da gestão de Trump. É possível que haja mais um recuo, uma vez que as forças vinculadas ao bolsonarismo identificam na medida mais um desgaste para o seu candidato ao Palácio do Planalto.

Flavio tem enfrentado uma série de dificuldades internas em sua campanha e a marca de “tariflávio” é tudo que ele desejaria evitar. Afinal, ele deu declarações favoráveis à medida no ano passado, em seu intento de manter uma boa relação com Trump. O desgaste foi evidente com acusações de falso nacionalista e de ser vendido aos interesses dos norte-americanos.

Assim, o raciocínio seria de que o novo tarifaço apenas turbinaria ainda mais a candidatura de Lula. Por isso, não está descartada uma jogada em que Flávio solicite, mais uma vez, o adiamento das medidas para depois das eleições.

A nova lista de produtos exportáveis pelo Brasil a serem submetidos à alíquota de 25% mantém um longo anexo de exceções, contendo mais de 2 mil itens. São bens que têm um peso sensível na cesta de consumo dos cidadãos daquele País e que podem comprometer inclusive a própria inflação interna.

Por exemplo, no café da manhã típico dos norte-americanos, encontramos o suco de laranja, o café e o bacon oriundos do Brasil. Apesar de a carne suína não ter sido excluída da lista, ainda permanecem mais de 2 mil itens exportáveis que não sofrerão a nova imposição tarifária. A maioria foi objeto de solicitação de entidades empresariais dos próprios Estados Unidos, a exemplo de componentes aeronáuticos, celulose, açúcar, dentre tantos outros.

<><> Não há argumento econômico para justificar o tarifaço

Além disso, estudos apontam que a longa lista de exceções faz com que a incidência da nova alíquota se restrinja a um universo de bens e produtos que representam apenas 18% nossas exportações para aquele país.

No entanto, o impacto deverá ser mitigado pela insistência do governo brasileiro e das entidades empresariais em continuar negociando, além da colocação em marcha de uma nova etapa do Plano Brasil Soberano. A intenção é ajudar as empresas afetadas, por meio da disponibilização de crédito e financiamento do BNDES, para evitar o desemprego e a redução das atividades das mesmas.

O governo brasileiro pode lançar mão da Lei da Reciprocidade para se defender dos ataques injustos dos Estados Unidos.

No entanto, a possibilidade de escalada da temperatura e de outras medidas por parte de Trump também sugere alguma cautela. Além das possibilidades de aplicar tarifas de importação sobre produtos originários daquele país, existem outras alternativas também fora do âmbito estritamente comercial que podem se revelar mais efetivas para convencer a administração estadunidense a recuar.

O governo brasileiro poderia impedir a atuação de empresas norte-americanas de atuarem na exploração de terras raras, a exemplo da mina Serra Verde, em Goiás, que foi comprada recentemente por um grupo originário daquele país. O mesmo poderia se dar pela interdição de exportação de tais minerais com aquele destino.

Outras possibilidades indicam a atuação na remessa de lucros das filiais brasileiras das chamadas “big techs” e de outras empresas do ramo da informática e meio digital. A grande maioria delas têm suas sedes nos Estados Unidos e contam com grande influência no interior do governo Trump. O governo e a sociedade brasileiras também desembolsam valores exorbitantes pelo pagamento dos direitos de propriedade a tais conglomerados pelo uso dos produtos e serviços de tecnologia digital.

<><> É fundamental defender nossa soberania

A entrada em vigor das alíquotas do novo tarifaço de Trump deve ser objeto de muita atenção de Lula e seu governo. O Brasil deveria adotar uma postura sólida na defesa da soberania nacional e não se render a eventuais cantos de sereia emitidos da outra parte.

As movimentações recentes evidenciaram que a Casa Branca tem seus aliados preferenciais na cena política brasileira e vão fazer de tudo para impedir o quarto mandato de nosso Presidente, com o fornecimento de ajuda explícita a Flávio Bolsonaro e seus aliados. Estamos a pouco mais de 2 meses do pleito de outubro e a intenção de tumultuar o ambiente eleitoral parece evidente.

O governo brasileiro deve ter a tranquilidade necessária para não se deixar enredar em provocações da extrema direita estadunidense, mas também deve manter a firmeza para defender os interesses nacionais a todo o custo.

•        Smartmatic: o que é a empresa venezuelana citada em discurso de Flávio Bolsonaro e qual a relação dela com o Brasil

Em um evento com a presença de diplomatas estrangeiros na terça-feira (21/07) em Brasília, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez acusações sobre as urnas eletrônicas já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no passado.

Flávio disse que as máquinas brasileiras têm a mesma origem das urnas da empresa venezuelana Smartmatic e que um relatório da CIA mostra que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012.

"Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa", afirmou.

O TSE já desmentiu que utilize urnas eletrônicas da empresa venezuelana.

Em nota em seu site, publicada originalmente em 2020 e replicada recentemente, o TSE esclareceu que a Smartmatic nunca forneceu urnas eletrônicas ou softwares utilizados em eleições no Brasil.

"Todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país", diz o TSE.

"Em diversas oportunidades, o TSE reiterou que a empresa Smartmatic não forneceu nem fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras, tampouco trabalhou na programação desses aparelhos."

Segundo o tribunal, a Smartmatic chegou a participar da licitação para a fabricação de urnas eletrônicas para 2020, mas perdeu para a empresa Positivo.

No passado, a empresa ainda atuou no treinamento de profissionais que prestaram suporte técnico e operacional para as urnas brasileiras.

A Smartmatic chegou a fechar contratos com o TSE em outras ocasiões, mas somente para a prestação de serviços de conexão de dados e voz, e não para o desenvolvimento ou operação da urna eletrônica, segundo o próprio órgão.

A BBC News Brasil procurou a campanha de Flávio Bolsonaro para prestar esclarecimentos sobre a fala do senador e o evento envolvendo diplomatas em Brasília.

Em nota, a campanha de Flávio Bolsonaro disse que não é verdade que o senador tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil.

"Em sua fala, que é brevíssima neste ponto, o pré-candidato Flávio Bolsonaro afirma expressamente que 'não está questionando o sistema de votação brasileiro' e exorta os diplomatas ali presentes a mandarem o maior número possível de representantes em missões de observação internacional", diz o texto

"Afastada qualquer descontextualização das falas do pré-candidato, sua equipe de pré-campanha reafirma sua integral confiança no sistema eleitoral brasileiro e sua crença irrestrita de que as missões de observação internacional devem ser fortemente estimuladas, pois contribuem para o "aperfeiçoameto do processo eleitoral, ampliando a transparência, a integridade e a confiança pública nas eleições'".

Flávio deu a declaração a representantes de quase 50 países e organizações internacionais no "Debatendo o Brasil", série de eventos reservados entre pré-candidatos e representantes estrangeiros promovida pela Novo Selo Comunicação em parceria com o The Brazilian Report, veículo em inglês voltado a notícias do Brasil para o público internacional.

Durante sua fala, Flávio afirmou que não estava questionando o sistema de votação brasileiro, mas pediu para os países enviarem uma quantidade maior de observadores para acompanhar o processo eleitoral.

"Então o pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar ter eleições mais seguras e transparentes", afirmou.

Em 2023, o TSE condenou o ex-presidente e pai de Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro (PL), à inelegibilidade por 8 anos por causa de uma reunião promovida por ele com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República.

Na ocasião, a menos de três meses da eleição de 2022, Bolsonaro fez afirmações falsas sobre o processo eleitoral e ministros do TSE. O tribunal considerou que o ex-presidente cometeu abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação.

<><> O que é a Smartmatic?

A Smartmatic esteve envolvida nas eleições venezuelanas entre 2004 e 2017, prestando tecnologia e serviços eleitorais ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

De acordo com a empresa, seus serviços incluíam automação da votação, contagem, transmissão e totalização dos votos, produção, configuração e fornecimento das urnas eletrônicas, software de gerenciamento eleitoral, sistemas de segurança, entre outros.

Ela abandonou o contrato após ela própria denunciar a suspeita de fraude na divulgação oficial dos resultados por parte da Comissão Eleitoral da Venezuela nas eleições de 2017.

Segundo o próprio site da empresa, ela foi fundada na Flórida, nos Estados Unidos, em 2000. Hoje a sede está localizada em Londres, na Inglaterra.

A companhia foi notícia na última semana depois que a Casa Branca postou documentos de uma investigação conduzida pela CIA sobre a capacidade do governo venezuelano de manipular eleições usando a tecnologia das urnas eletrônicas.

O relatório, no entanto, não confirma que a manipulação tenha ocorrido, apenas que era possível de ocorrer.

Segundo a inteligência americana, as autoridades locais tinham "alguma capacidade de manipular sistemas de votação eletrônica" para influenciar os resultados das eleições na Venezuela.

A agência alertou, porém, que não havia evidências definitivas de que tal tecnologia — criada principalmente pela Smartmatic — tivesse sido usada para cometer "fraude eletrônica em larga escala" na Venezuela.

A CIA também determinou que o governo venezuelano não tinha a capacidade de fraudar eleições fora do seu próprio país. "Nem a Smartmatic nem o governo venezuelano tinham a capacidade de manipular o resultado de uma eleição fora da Venezuela", afirma a análise.

 

Fonte: Viomundo/BBC News Brasil

 

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