A
Bahia deve voltar a estudar os seus artistas do naipe de Elomar
Tinha
15 anos e estudava no extinto ISBA quando me deparei com a obra de Elomar
Figueira de Mello sendo estudada no Ensino Médio. Eram aulas sobre as cantigas
medievais que o livro didático e o meu saudoso Prof. Alberto Vigas usavam
“Cantiga de Amigo” para mostrar como a tradição trovadoresca ibérica ainda
respirava pungentemente no Sertão da Ressaca por meio do reverenciado
conquistense compositor de óperas e canções em dialeto sertânico. Reencontrei-o
anos depois, já na Faculdade de Letras da UNEB, como corpus de estudo
linguístico sério, com bibliografia própria e lugar reservado no cânone da
música brasileira de erudição.
Preciso
ser honesto com o meu leitor. Elomar é meu primo por ao menos três ou quatro
vias do parentesco endogâmico entre as famílias Correia de Mello e Oliveira
Freitas, fundadoras de Vitória da Conquista. O nosso laço familiar não
acrescenta um único grama ao mérito da sua obra imortal e genialidade, mas
registro isso para que entenda o olhar confuso deste que lhe escreve. A
grandeza de Elomar já estava comprovada muito antes de eu nascer, mas foi em
1984 que lançou em LP duplo “O auto da catingueira”, a sua primeira ópera,
gravada dentro da Casa dos Carneiros, no distrito da Gameleira.
Em
Conquista, “Correia” sempre foi sinônimo de “doido”, de personagens
excêntricos, motivo de gozação entre os antigos, mas aquele parente que
compunha e tocava de modo meio esquisito, vivia isolado na caatinga e não
seguia o roteiro esperado foi quem eu cresci ouvindo em casa antes mesmo de
entender quem era Elomar academicamente. Descobrir, mais tarde, que era
reverenciado por Vinícius de Moraes, estudado em dissertações de mestrado na
USP e na UFBA, e citado ao lado de Guimarães Rosa por críticos literários e
musicais sérios, misturou a vergonha da subestimação com um imenso orgulho que
ainda hoje custo a nomear bem.
Essa
confusão de sentimentos misturada à falta de informação precisa resumem bem o
modo como a Bahia também tarda a compreender a exata medida da grandiosidade de
Elomar e da sua obra.
O caso
mais recente prova o tamanho da distância entre o reconhecimento que o seu
trabalho recebe fora da Bahia e o silêncio que recebe dentro dela. No dia 22 de
julho, o Teatro Cultura Artística, em São Paulo, recebe o “Auto da
Catingueira”, a partir do universo dos cantadores, dos repentistas e do cordel.
A montagem que chega agora ao Brasil estreou em 2025 nos Países Baixos, pelas
mãos do Apollo Ensemble, orquestra clássica neerlandesa de música antiga, e
depois integrou a programação oficial da Temporada Cultural Brasil–Reino Unido
com apresentações em Londres. No palco, tocando violão clássico ao lado dos
músicos europeus, está o maestro João Omar de Carvalho Mello, o mesmo filho que
se formou em regência orquestral pela UFBA estudando a obra do próprio pai e
que coordena o acervo musical da família desde 2014.
Repare
bem na ordem dos fatos, porque ela não é só cronologia, mas é também mecanismo.
Uma ópera composta no sertão baiano há mais de 50 anos precisou de um conjunto
de música antiga neerlandesa e de uma temporada cultural diplomática entre
Brasil e Reino Unido para ganhar montagem à altura... e em São Paulo. É o
roteiro clássico de como o Brasil valida a própria cultura, primeiro pela
chancela europeia, depois pelo consumo interno das elites culturais fora da
Bahia, e só bem depois, talvez, pela escola do lugar onde a obra nasceu. O
mesmo Elomar reverenciado na Europa segue eclipsado no cenário musical e
literário do seu próprio estado que tanto honra lá fora.
A
ausência de estudos sistemáticos sobre a obra elomariana não é por falta de
material acadêmico. Existem dissertações e teses sobre Elomar na USP, na UFBA e
na UFPB, uma delas defendendo diretamente o valor pedagógico do cancioneiro,
das suas óperas e de “Sertanílias: Romance de cavalaria” e livro
cinematográfico para o ensino de português no Brasil, uma vez que trabalha a
norma culta com a variação dialetal do sertão na mesma estrofe, sem hierarquia
entre as duas. É bibliografia pronta para qualquer currículo de língua
portuguesa e de artes, parada nos repositórios universitários em vez das salas
de aula baianas.
A
ausência também não é por falta de continuidade. João Omar mantém a obra
tocável, acessível, e leva-a a plateias internacionais. Xangai, também primo, e
considerado o seu melhor intérprete, levou o cancioneiro sertanês a públicos
que o próprio compositor e violeiro, recluso nas suas fazendas, nunca buscou. O
compositor, o maestro e o intérprete já existem, testados e reconhecidos.
Falta-nos que as escolas da Bahia e do Brasil decidam que isso deva ser
currículo obrigatório aos nossos alunos.
Enquanto
essa decisão não vem, continuaremos exportando a genialidade dos nossos grandes
baianos pelas vias mais lentas e mais caras que existem: a da redescoberta
pelos de fora. Uma orquestra neerlandesa monta a ópera antes de qualquer aluno
baiano estudá-la na escola. E em Conquista, é bem provável que ainda hoje
alguém chame mais este Correia de Mello de doido sem saber que está
descrevendo, com outras palavras, um gênio que os gringos e os paulistas
ovacionam antes mesmo da sua própria terra.
“Adeus,
adeus meu pé-de-serra,
Querido
berço onde nasci
Se um
dia te fizerem guerra
Teu
filho vem morrer por ti.”
(“Canto
de um guerreiro mongoió”, de Elomar)
Fonte:
Por Fabricio Zavarise Correia, no Correio 24horas

Nenhum comentário:
Postar um comentário