Agências
norte-americanas e ascensão do neoliberalismo
Sob
a fachada de cooperação técnica, a formação de agentes de segurança nos Estados
Unidos mimetiza táticas de extermínio e importa doutrinas racistas de controle
social...
O
xerife do Condado de Broward, na Flórida, Gregory Toni, e o sub-xerife, Marcos
P7, visitam Camboriú, tornam-se íntimos das autoridades, convivem com os
poderes do município, com prefeito, com vereadores, personalidades.
Visitas
realizadas em 2024 e 2025. Puderam desfrutar dos prazeres do balneário e
persistir na missão de formar mais agentes de acordo com os padrões
norte-americanos, insistindo em convidar integrantes da guarda municipal. Tais
agentes iam aos EUA para se especializarem em técnicas da SWAT.
João
Gabriel Gaspar Balesteiro, graduando em Relações Internacionais na Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC), entrevistado por Bob Fernandes, mostra
preocupação com essa rotina de formação de agentes por parte dos EUA, uma
formação de natureza essencialmente policial.
Ex-bolsista
do Instituto de Estudos Latino-americanos (IELA), João Gabriel Gaspar
Balesteiro tem se dedicado a estudar relações Brasil-EUA em matéria de
segurança pública, relações bilaterais entre os dois países envolvendo polícia.
E o
grave é pretender orientar agentes de guarda municipal, cujo caráter, de acordo
com a lei, não lhe dá qualquer poder de polícia. Com tal procedimento, com o
aprendizado nos EUA, tal guarda vai sendo militarizada, adquirindo na prática
características policiais. Tais agentes voltam ao Brasil envolvidos com um
imaginário estranho ao País, com um modus operandi distante das determinações
legais, e isso vai provocando uma mudança na própria natureza das guardas
municipais.
Bob
Fernandes, a essa altura, lembra a João Gabriel Gaspar Balesteiro, entrevista
feita por ele próprio com Carlos Costa, então diretor do FBI no Brasil, ano de
2004, de saída do cargo. Carlos Costa falou sobre a atuação do FBI, da CIA, da
DEA no Brasil dos anos 1990. Influenciar e cooptar – usou tais expressões para
descrever a atuação dos EUA no Brasil. Havia, segundo ele, 19 agências de
espionagem dos EUA atuando na embaixada brasileira. Recusou ordem para grampear
mesquitas e líderes muçulmanos no Brasil.
Revelou
a Bob Fernandes realizar palestras por todo o país para as Polícias Militares,
chegando a ser secundado, em palestra antecedida à dele, por delegado da
Polícia Civil de São Paulo, mais tarde, chefe da ABIN, Mauro Marcelo de Lima e
Silva, formado em Justiça Criminal pela Universidade da Virgínia e em Segurança
Cibernética pela Academia Nacional do FBI. Ao dizer isso, Bob Fernandes
lembrava a João Gabriel Gaspar Balesteiro que tal direcionamento do aparato
policial brasileiro ocorria já há muito tempo.
O
pesquisador concorda, e raciocina. Às vezes, as coisas parecem simples. As
forças de segurança dos EUA chegam a um delegado, a um agente da Polícia Civil
ou da Guarda Municipal. Cursos nos EUA, treinamento. Parece nada. Tudo surge às
vezes como fruto do acaso.
Em
algum momento, no entanto, e nada é acaso, um desses agentes, um desses
delegados, ascende à ABIN, por exemplo. Isso significa, dirá João Gabriel
Gaspar Balesteiro, estar entregando de mão beijada informações essenciais aos
EUA porque um sujeito tão íntimo daquele país não se negará a prestar tal
serviço.
“Então,
assim, as questões começam a se avolumar quando a gente vai entendendo o
movimento dessas pessoas nas cadeias de comando. Vai entendendo o que significa
o cara ter ido estudar fora, como isso é visto dentro da corporação em relação
à ascensão profissional”.
Trata-se
de uma discussão necessária, na opinião de João Gabriel Gaspar Balesteiro. Deve
chegar às academias de polícia, de modo a que tais instituições e a sociedade
brasileira adquiram consciência da gravidade desse movimento dos EUA, da
intromissão daquele país na conformação dos organismos policiais nacionais.
Pouco a
pouco, e isso não vem de agora, como já vimos, os agentes policiais, as
instituições de segurança vão sendo conformadas de acordo com o espírito de
outra nação, imperialista, profundamente interessada no Brasil, e isso talvez
seja visto de modo ainda mais nítido diante dos aparentes absurdos do governo
Donald Trump, e digo aparentes absurdos porque os EUA nunca agiram de modo
diferente. O atual presidente só faz as coisas mais abertamente, é sempre
hiperbólico.
Há uma
preocupação permanente de João Gabriel Gaspar Balesteiro de não atribuir a cada
policial a responsabilidade por tal política. Não é um problema originário da
vontade desse ou daquele agente público. Tais agentes, policiais sejam ou
simples integrantes de guardas municipais, quando ganham a chance de seguirem
para um treinamento nos EUA certamente exultam, pela oportunidade, pela
possibilidade de, a partir disso, experimentar alguma ascensão profissional.
Até, quem sabe, possam alimentar, ao crescer em conhecimento, fazer alguma
coisa para a comunidade, para a população.
Esses
policiais cumprem ordens. E isso continua acontecendo. E os indicativos apontam
cumprirem bem as ordens. Todos, aprovados nos cursos, o que pode ser
considerado bom, do lado pessoal, da experiência individual, e ruim, porque
assimilando ensinamentos estranhos à realidade, à singularidade brasileira.
Dito de
modo grosseiro, tais agentes são objetos de uma política. De um lado, a
diretriz da Metrópole, vamos chamar os EUA assim, de seguir orientando nossas
polícias, fornecendo parâmetros a seguir. E de outro, a conivência interna,
parte do aparato estatal brasileiro ideologicamente envolvido com a ideia de
submeter-se àquela orientação.
João
Gabriel Gaspar Balesteiro insiste na pergunta: “O que significa tais agentes
voltarem para o Brasil [depois dos cursos]?”. Ele mesmo responde: “O que eles
aprenderam vira doutrina”.
O
problema, assim, na visão de João Gabriel Gaspar Balesteiro, é a doutrinação,
passar a adotar uma diretriz estranha à realidade brasileira, e que não passou
por qualquer discussão no país, fruto de nítida ingerência externa. Essa visão
da metrópole se impondo. Transplante de uma ideologia, de uma visão de mundo, a
erguer um aparato policial de acordo com os padrões norte-americanos, voltado a
combater o povo, tendo o povo como inimigo.
De
alguma forma, o aparato policial do Brasil espelha-se no norte-americano, ao
adotar uma política de repressão e aprisionamento semelhante. Atualmente, os
EUA orgulham-se de contar com o maior número absoluto de prisioneiros do mundo,
coisa de 1,8 milhão de pessoas. O Brasil já ocupa o terceiro lugar em número de
prisioneiros, quase 900 mil, logo atrás da China, segunda colocada.
Sempre
necessário cuidado: o país asiático conta com uma população de 1 bilhão e 400
milhões de pessoas. EUA, 349 milhões de habitantes. Brasil, pouco mais de 200
milhões. Tudo deve ser olhado de acordo com a proporcionalidade.
Se o
olhar se voltar para a questão racial, nos EUA negros são quase cinco vezes
mais encarcerados em prisões estaduais pelo sistema de justiça americano do que
brancos, conforme Christina Carrega, matéria da CNN Internacional, de
13/10/1921.
Na
reportagem, Ashley Nellis, analista de pesquisa sênior do The
Sentencing Project, defende que “reformas verdadeiramente significativas no
sistema de justiça criminal [norte-americano] não podem ser realizadas sem o
reconhecimento dos fundamentos racistas desse sistema”.
Tais
informações e dados estão em relatório da ONG The Sentencing Project,
a apontar, naquele país, desproporcionalidades surpreendentes entre as taxas de
encarceramento não só de negros, mas também de latinos, em relação aos brancos
nas prisões estaduais.
Em 12
estados, mais da metade da população carcerária é negra. Latinos, em tais
unidades prisionais, superam em 1,3 vez a taxa de encarceramento dos brancos.
Ashley
Nellis fala em três explicações para essa disparidade, para essa perseguição
aos negros: um legado doloroso e duradouro do que ele chama subordinação
racial, políticas e práticas tendenciosas, que criam, exacerbam ou perpetuam
disparidades, e desvantagens estruturais. Estendo-me porque o modelo
norte-americano, de caráter nitidamente racista, é seguido em boa parte do
mundo e com rigor aplicado em terras brasileiras.
Cerca
de 70% da população carcerária no Brasil são constituídos por pessoas negras –
pretas ou pardas. Um número desses evidencia o quanto de racismo existe na
nossa política de segurança, e o quanto a influência norte-americana conta, o
quanto de influência há do pensamento da metrópole, e isso acontece há muito
tempo, e segue acontecendo, como revela João Gabriel Gaspar Balesteiro. Tal
população prisional, constituída majoritariamente por jovens, negros e de baixa
escolaridade.
A
presença avassaladora de negros nas prisões inegavelmente é ligada à
criminalização da pobreza. Nossa polícia, especialmente a partir da ditadura
militar de 1964, identificou nos negros e nos pobres o inimigo a ser combatido,
preso, morto.
O
aparato policial entra nas periferias disposto sempre a matar, nunca com a
pretensão de fazer justiça. Entra invariavelmente como se fosse uma operação de
guerra, opera como batalha para exterminar o inimigo. Se não matar, aprisiona,
e pouco importa se criminoso ou não.
A
partir da ideia da metrópole, e alicerçada na herança nefasta e duradoura dos
mais de três séculos de escravidão, elegeu um inimigo a combater: o povo
brasileiro, e neste, principalmente os negros e toda a pobreza. A polícia, de
modo especial as polícias militares, tem se constituído num exército disposto a
prender e a matar.
Entre
tantas razões, deve aos EUA essa diretriz. Por isso, tem toda razão João
Gabriel Gaspar Balesteiro: os treinamentos de agentes policiais na Metrópole
não têm nada de inocente, e contribuem para assegurar a prevalência da
ideologia norte-americana no Brasil e na América Latina na política de
segurança pública.
João
Gabriel Gaspar Balesteiro: “Os inimigos que eles criam, os alvos que eles
determinam, a gente internaliza, toma como nossos. Só que se eles criaram, se
colocaram isso como alvo, pode ter certeza de que quem tem a ganhar são eles”.
João
Gabriel Gaspar Balesteiro lembra que enquanto dava aquela entrevista, Flávio
Bolsonaro estava nos EUA, defendendo a entrega das terras raras, sem qualquer
pudor, sem um pingo de vergonha na cara. O pai dele, em mais de uma ocasião,
expôs a disposição de entregar a Amazônia.
O
bolsonarismo, não custa insistir, tem índole entreguista e subserviente, não
tem qualquer compromisso com a nação, como tem sido demonstrado à saciedade
pelo filho do ex-presidente da República condenado pela tentativa de golpe de 8
de janeiro de 2023.
O filho
insiste em entregar os rumos do País nas mãos do império, se eleito. Comemora
as taxas impostas pelo governo norte-americano, corrobora as ameaças do atual
presidente norte-americano contra o Brasil, inclusive as contra o Pix.
João
Gabriel Gaspar Balesteiro, na entrevista a Bob Fernandes, revela outro caso
interessante. Um curso, ministrado por agentes do FBI, lotados na embaixada dos
EUA no Brasil, dado na Academia de Polícia de Santa Catarina. Uma semana
ensinando policiais brasileiros, catarinenses no caso. Naturalmente, nome em
inglês: Interview and Interrogation.
Currículo
basicamente tinha início com um exercício de comparação entre os sistemas de
justiça criminal do Brasil e dos EUA. Depois, exercícios práticos de
interrogatórios, procedimentos de detecção de mentiras – tais informações sobre
o curso, João Gabriel Gaspar Balesteiro obteve de policiais participantes do
curso.
Quer
mais doutrinação do que isso?
Como já
se disse, os policiais vão sendo formados de acordo com padrões
norte-americanos, e transmitindo internamente tais padrões, inevitavelmente.
João Gabriel Gaspar Balesteiro considera emblemático, eu diria escandaloso, o
fato de o curso ser ministrado por agentes do FBI, lotados na embaixada
brasileira. Não eram, por exemplo, funcionários do Corpo de Segurança
Diplomática ou oficiais do consulado. Fosse isso, dava uma aparência de maior
institucionalidade. Não, era pessoal do FBI a ministrar o curso, a Polícia
Federal dos EUA.
O
interessante é que os próprios policiais brasileiros, participantes do curso,
ao conversar com João Gabriel Gaspar Balesteiro, teceram críticas ao
desenvolvimento dele. O protocolo de interrogatório utilizado pelos agentes do
FBI remontava a Chicago dos anos 1950, “aquilo que a gente vê nos filmes”,
detector de mentiras, sentir o suor da pele, teste do polígrafo, tudo muito
fantasioso, na opinião dos próprios policiais. “Então eu achei legal ver como
nossos policiais também têm senso crítico, do ponto de vista técnico”.
Nada
disso, no entanto, essa visão crítica, por exemplo, elimina o fato evidente da
disposição dos EUA de desenvolverem processo de doutrinação, de formação, de
modo a conformar pensamento de acordo com as orientações nascidas na metrópole.
Desses cursos, seguramente, alguma coisa fica.
A
ideologia norte-americana policial vai se firmando, como é a pretensão do país
hegemônico na América Latina, ultimamente vencendo eleições, conformando um
pensamento de extrema direita, objetivo declarado do imperialismo,
especialmente nos últimos tempos.
Nada
disso é ocasional – houve trabalho, consistente, não fosse o anterior, de
décadas, aquele iniciado nos anos 2010, insistente, e cujos frutos abundantes
estão sendo colhidos agora.
João
Gabriel Gaspar Balesteiro e vários outros alunos e alunas da professora Camila
Vidal, da UFSC, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais,
trabalham no sentido de compreender, entender como os EUA exercem o poder
imperial sobre a América Latina, não apenas pela força, porque essa é mais
evidente, mas entender como o império atua através da construção do consenso,
entender como “eles nos compram, como nos convencem, como conquistam nossos
corações e mentes”.
¨
O governo Trump limita drasticamente a duração dos vistos
de jornalistas estrangeiros.
O governo Trump afirmou que
reduzirá drasticamente a duração dos vistos para jornalistas estrangeiros nos
EUA de cinco anos para 240 dias, e para jornalistas chineses para apenas 90
dias.
A nova
regra anunciada pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) acabará com o
sistema de "duração do status", que permite que jornalistas
estrangeiros permaneçam e trabalhem nos Estados Unidos enquanto atenderem aos
requisitos de elegibilidade.
Além
dos jornalistas, as novas regras de visto também afetarão estudantes
estrangeiros e visitantes de intercâmbio que, segundo o governo, também tinham
permissão para "permanecer nos Estados Unidos indefinidamente sem a
supervisão governamental de rotina".
“Por
quase meio século, o sistema obsoleto de 'duração do status' comprometeu a
segurança nacional e criou um ambiente propício para fraudes
imigratórias”, disse o secretário do Departamento de
Segurança Interna (DHS), Markwayne Mullin.
“Durante
décadas, estudantes estrangeiros têm sido admitidos nos EUA por tempo
indeterminado, permitindo que milhares abusem do nosso sistema de imigração,
matriculando-se perpetuamente em cursos para evitar ter que deixar os EUA.”
Ao
implementar “limites claros e definidos” para os vistos, disse Mullin, os EUA
“estão recuperando sua capacidade de examinar, verificar e monitorar
adequadamente os indivíduos dentro de nossas fronteiras”.
Os
defensores dos jornalistas estrangeiros opõem-se à mudança, argumentando que
estadias drasticamente mais curtas restringirão a sua capacidade de viver e
trabalhar no país.
"Estamos
indignados com o fato de o governo Trump ter limitado cruelmente a duração dos
vistos para jornalistas estrangeiros de um período de até cinco anos para um
período fixo de oito meses", disse o grupo de defesa dos direitos dos
jornalistas Repórteres com Fronteiras em um comunicado.
O
Comitê para a Proteção dos Jornalistas divulgou um comunicado classificando a
nova política de vistos como "o comportamento de uma democracia em
retrocesso, e não da vanguarda internacional da liberdade de expressão".
Jornalistas
estrangeiros não são considerados imigrantes e seus vistos podem ser
prorrogados, mas a organização afirmou que um “ciclo interminável de renovações
de vistos restringe a liberdade de imprensa, já que os jornalistas se sentirão
compelidos a evitar atrair a ira do governo, para que seus pedidos não sejam
rejeitados”.
A
decisão surge num momento em que Donald Trump está a ameaçar e a tomar medidas
legais contra organizações de notícias nos Estados Unidos, e a sua
administração está a endurecer as políticas de imigração.
Segundo
o novo sistema, que entrará em vigor 60 dias após sua publicação no Registro
Federal, jornalistas chineses terão restrições específicas para trabalhar nos
EUA.
O
primeiro governo Trump propôs uma regra dos 90 dias em 2020, mas ela foi
abandonada pelo governo Biden. Em resposta à sua retomada, o Ministério das
Relações Exteriores da China afirmou que a decisão era “discriminatória”.
“A
China insta os EUA a revogarem imediatamente suas políticas discriminatórias
contra jornalistas chineses e a salvaguardarem efetivamente seus direitos e
interesses legítimos nos EUA”, disse o porta-voz do Ministério das Relações
Exteriores, Lin Jian, acrescentando que a China “reserva-se o direito de tomar
contramedidas recíprocas”.
Fonte:
Por Emiliano José, em A Terra é Redonda/The Guardian

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