'Mudanças
climáticas afetam todos, mas muito mais quem vive do clima', diz Fernanda
Machiaveli
Em
entrevista exclusiva, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura
Familiar aborda temas como a reforma agrária, programas voltados para mudanças
climáticas e o novo Plano Safra para a agricultura familiar 2026–2027.
A
agricultura brasileira, com seus desafios estruturais e conjunturais, passará
por uma situação ainda mais difícil neste ano com a chegada do El Niño, que
deve alterar padrões climáticos, com chuvas intensas no Sul e secas no Norte.
À
frente dessas questões está, principalmente, o Ministério do Desenvolvimento
Agrário e Agricultura Familiar (MDA), pasta responsável por formular e executar
políticas públicas voltadas ao desenvolvimento rural sustentável.
Um
desses desafios, diz a ministra Fernanda Machiaveli em entrevista ao Jabuticaba
Sem Caroço, podcast da Sputnik Brasil, é a regularização fundiária.
"Justamente garantir a segurança jurídica para quem está na terra",
resumiu.
Segundo
Machiaveli, há diferentes aspectos quanto se fala na regularização da posse de
terras no país. Um deles é a "colonização" do Norte brasileiro
durante a ditadura militar. Sob o lema "integrar para não entregar",
o governo militar estimulou a ocupação da Amazônia por agricultoras do Sul e do
Nordeste.
Apesar
de ter sido promovido pelo governo, muitas pessoas responderam ao chamado de
forma desorganizada. "São os posseiros, famílias que foram lá de boa-fé,
ocuparam território e têm vivido suas famílias." Hoje, cabe ao MDA
garantir que esses trabalhadores rurais, que estejam dentro dos parâmetros da
agricultura familiar, tenham suas situações regularizadas.
Outra
situação completamente diferente é a grilagem de terras, apropriação criminosa
de terras públicas, ou de terceiros, por mecanismos ilícitos. Nesses casos,
cabe ao ministério mover a ação para recuperar a área pública e destiná-la
corretamente, como terra indígena, território quilombola, floresta pública ou
reforma agrária, conforme manda a Constituição.
Por
fim, tem a terceira questão, o processo de reforma agrária, contou Machiaveli
ao programa. São áreas improdutivas ocupadas pelos movimentos de luta pela
terra. "São trabalhadores rurais e que sonham em ter uma terra para
produzir alimentos."
Esses
processos são conduzidos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra), autarquia vinculada ao MDA responsável por executar o Programa
Nacional de Reforma Agrária (PNRA).
Atualmente,
há mais de 100 mil pessoas acampadas pelo país, disse a ministra. Para acelerar
o processo de regularização dessas pessoas, o governo federal lançou, junto ao
Plano Safra deste ano, o programa Terras do Brasil.
A
iniciativa prevê agilizar a emissão de títulos de propriedade para apoiar
agricultores familiares no georreferenciamento de suas terras e auxiliar nos
processos de cadastro e facilidade no crédito rural. "Respeitando o Código
Florestal e cuidando dos nossos biomas brasileiros", concluiu.
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Efeitos climáticos na agricultura familiar
O
Brasil recebe, muitas vezes, a alcunha de "celeiro do mundo" pela
capacidade de o seu agronegócio produzir um pouco mais de 10% dos alimentos do
planeta. No entanto, domesticamente, muito do que acaba no prato do brasileiro
vem da agricultura familiar, em especial, daqueles produtos mais consumidos no
dia a dia, como legumes, verduras, frutas, carnes e laticínios.
Por
isso, perdas causadas por eventos extremos decorrentes das mudanças climáticas,
como secas, enchentes e queimadas, são uma das grandes preocupações do governo
federal.
Em sua
entrevista ao Jabuticaba Sem Caroço, a ministra destacou que o Plano Clima
conta, pela primeira vez, com "um setorial específico para a agricultura
familiar", justamente porque "as mudanças climáticas impactam todos
nós, mas afetam muito quem vive do clima".
Como
explicou, os agricultores familiares estão entre os mais vulneráveis aos
eventos climáticos por dependerem diretamente das condições do tempo e
possuírem propriedades menores. Para enfrentar esse cenário, o governo mantém
mecanismos de resposta, como o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária
(Proagro), que cobre perdas de produtores que financiaram a safra, e o
Garantia-Safra, destinado principalmente a agricultores do semiárido.
"Quando
eles têm uma perda, recebem R$ 1.200 para garantir a renda da família naquele
período de estiagem."
A
ministra ressaltou, no entanto, que apenas indenizar prejuízos não é
suficiente. "Hoje, a gente tem que pensar a adaptação das famílias da
agricultura familiar a esse contexto, que está cada vez mais frequente",
disse.
Segundo
ela, o governo já prepara ações preventivas para enfrentar os impactos
previstos do El Niño, como garantir o abastecimento de alimentos para
comunidades da região Norte antes da seca dos rios, enviar milho ao Nordeste
para a alimentação animal durante a estiagem e reforçar o apoio aos
agricultores do Sul antes do período de chuvas intensas.
Entre
as medidas anunciadas, Machiaveli destacou o investimento de R$ 413 milhões em
uma estratégia de adaptação para o semiárido, além de ações coordenadas pela
Casa Civil para as regiões Norte e Sul, consideradas as mais vulneráveis neste
ano.
As
iniciativas incluem assistência técnica e extensão rural, formação de brigadas
de incêndio, ampliação do acesso à água por meio de cisternas, garantia de
alimentação animal e práticas de conservação do solo para reduzir perdas
provocadas por enchentes e preservar os recursos naturais.
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Novo Plano Safra para agricultoras
Além de
ampliar o volume de recursos para a agricultura familiar, o novo Plano Safra
também busca alcançar grupos historicamente com menor acesso às políticas
públicas, como mulheres, jovens, assentados da reforma agrária, povos
indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Com
explica Machiaveli, o programa é voltado para "mais de 4 milhões de
famílias que vivem no campo, nas águas e nas florestas e que produzem
alimento". Além dos pequenos produtores rurais, o plano contempla "1
milhão de famílias que vivem em assentamentos da reforma agrária", povos e
comunidades tradicionais, indígenas, pescadores artesanais e populações que
vivem nas florestas.
Entre
os públicos prioritários, Machiaveli destacou as mulheres rurais. Como 2026 foi
declarado o Ano Internacional da Mulher Agricultora, o governo decidiu ampliar
as ações voltadas a esse segmento. "Não podia deixar de ter um olhar muito
específico para o fortalecimento da agricultura familiar das mulheres
rurais", afirmou. Segundo a ministra, elas desempenham papel central
"na garantia da segurança alimentar e da própria reprodução da vida e dos
modos de vida nos territórios".
De
acordo com dados apresentados pela ministra, o governo dobrou os recursos
destinados às mulheres desde o início da atual gestão. "Nós estamos,
agora, direcionando por safra R$ 15 bilhões e totalizamos R$ 45 bilhões
executados nas últimas três safras", disse. Ademais, destacou que as
mulheres passaram a representar a maioria das operações de microcrédito rural.
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"Hoje, já são 55% das operações que são firmadas com mulheres."
A
ministra lembrou, ainda, que uma das principais reivindicações apresentadas
durante a Marcha das Margaridas ― a maior ação política de mulheres no Brasil
em prol de direitos sociais e contra à violência contra as mulheres do campo e
da floresta ―, em 2023, foi a criação de um programa de apoio aos quintais
produtivos. No ano, cerca de 100 mil mulheres vieram para a capital
reivindicando essa pauta.
Segundo
ela, a demanda foi incorporada às políticas do ministério. "Hoje, eu tenho
a alegria de dizer que já são 120 mil quintais produtivos em execução",
afirmou. O governo também anunciou uma nova etapa da iniciativa, que
viabilizará outros 5 mil quintais produtivos. Esses espaços são destinados
principalmente às mulheres rurais para a produção de frutas, hortaliças,
plantas medicinais e a criação de pequenos animais, contribuindo tanto para a
segurança alimentar das famílias quanto para a geração de renda complementar.
©
telegram SputnikBrasil
A
ministra reconheceu que ainda existem obstáculos para ampliar o acesso às
políticas públicas, mas afirmou que o governo vem expandindo a cobertura a cada
safra. "Só na última safra foram mais de 2 milhões de operações. Nós
chegamos a 2 milhões e 400 mil famílias que hoje acessam o Pronaf", disse,
acrescentando que o objetivo é alcançar progressivamente todo o universo da
agricultura familiar brasileira.
Fonte:
Sputnik Brasil

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