Por
que o alinhamento da Argentina aos EUA põe em risco países como o Brasil?
Analista explica
O
governo de Javier Milei e o Comando Sul dos EUA formalizaram o Protecting
Global Commons Program (Programa de Proteção dos Bens Comuns Globais), um
acordo de defesa de cinco anos para o Atlântico Sul. No entanto, os
desdobramentos da iniciativa podem ir além das fronteiras argentinas e impactar
a segurança dos países da região.
Nesse
sentido, segundo Pedro Kilson, bacharel em relações internacionais e
mestre em História Contemporânea da América Latina, em entrevista à
Sputnik Brasil, os impactos da presença dos Estados Unidos tensionam e afetam a
cooperação regional entre Buenos Aires, Brasília e Montevidéu, que também
integram a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas).
"Em
âmbito da América do Sul, um cenário negativo seria um possível esvaziamento
dos canais de comunicação e fóruns multilaterais, como as Zopacas. Então,
o quadro de segurança regional seria marcado pelo enfraquecimento da cooperação
entre países vizinhos. Por outro lado, dependendo de como o acordo vai se
desenrolar, podemos pensar num provável isolamento argentino na região",
disse.
Kilson
também analisa que, nesse cenário complexo, o incentivo à produção bélica
dentro do contexto da política interna de cada Estado pode ser uma realidade, e
aponta que o recente discurso do presidente Lula sobre a necessidade de se investir em defesa para não ser
surpreendido sinaliza esse movimento.
"Esse
discurso de Lula, na realidade, é algo novo. Essa perspectiva de que o
Brasil precisa se militarizar para se proteger ou dissuadir ameaças externas.
Então, pode ser que em determinado momento exista um enfraquecimento das
Zopacas como instrumento de diplomacia e que cada país volte para si mesmo e
pense em políticas de defesa individuais que não levem em consideração seus
vizinhos", comenta.
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Investimento dos EUA tende a causar dependência
O
especialista, que publicou seu estudo sobre o tema no Boletim Geocorrente do Núcleo da
Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), também indica que
esse acordo, que prevê investimento estadunidense, pode causar danos
internos para a indústria militar argentina, como uma extrema dependência tanto
militar quanto política.
"Trata-se
de um acordo estratégico de natureza assimétrica, por envolver países com
projeções militares, econômicas e políticas dissonantes. Embora a Marinha
argentina possa sim se beneficiar materialmente dos investimentos feitos a
partir dos EUA, no caso argentino existe a possibilidade de um aumento
significativo de dependência militar e política", destaca.
O
pesquisador também assinala que esse acordo firmado com o Comando Sul dos
EUA pode ir além da administração Milei, mesmo que um outro governo possa
vir a ser contrário, devido à relação assimétrica entre os países.
"Com
certeza é uma política que vai extrapolar o governo Javier Milei, e, se o
governo seguinte não tiver capacidade legislativa ou jurídica para mudar a
essência desse acordo, as debilidades que a Argentina pode internalizar a
partir da aceitação acrítica desse acordo podem se fortalecer. Pode haver o
crescimento de uma dependência tecnológica e o enfraquecimento da própria
indústria argentina", observa.
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Acordo entre EUA e Argentina impõe nova realidade
Ações
mais incisivas na seara das relações internacionais por parte da Casa Branca,
como a iniciativa do Escudo das Américas, sob a justificativa do combate
ao narcotráfico, acabam se expandindo pelas nações latinas em outras
iniciativas.
No caso
da Argentina, também signatária desse projeto e mantendo um alinhamento
automático aos desígnios norte-americanos, abriu-se mais um flanco para os EUA
no Atlântico Sul. Dessa maneira, Kilson explica que os países com
posicionamentos distintos ao da Casa Rosada precisam se adaptar à realidade
concreta do momento.
"Inaugurou-se
um novo contexto, no qual os EUA, se estavam como ameaça, estavam distantes
[geograficamente], e se tornaram um 'elefante' presente [no contexto
sul-americano]. A gente tem que pensar: esse novo cenário inclui a presença
norte-americana na América do Sul. Há duas possibilidades: ou os países se
fortalecem enquanto atores políticos com autonomia, ou se tornam uma
subalternidade perfeita", conclui.
Apesar
de pressões políticas e algumas escaramuças no âmbito regional, a América
Latina gozava de relativa estabilidade. Contudo, passou a conviver com alto
grau de tensão, principalmente após o sequestro do presidente venezuelano
Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pelos EUA, que, com sua
política externa de conceber os Estados latino-americanos como parte de seu
"quintal", reacende o debate sobre soberania nacional.
¨
Cinco momentos que mostram que o tarifaço é mais político
do que econômico
Um ano
após o início das investigações do Escritório do Representante de Comércio dos
EUA (USTR, na sigla em inglês), e com o relatório já instituído com proposta de
tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, a data de aplicação bate à porta.
Veja cinco motivos que denotam que o tarifaço tem caráter mais político do que
econômico.
Um comunicado publicado em julho do ano
passado mencionava ações anticorrupção, direitos de propriedade intelectual,
obstáculos no acesso ao mercado de etanol, práticas de desmatamento ilegal e
atitudes discriminatórias contra cidadãos ou companhias dos EUA como argumentos
para as investigações contra o Brasil. O mesmo ato alegou perseguição política
contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro,
preso por
tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes. O relatório da USTR, após um
ano de investigação, traz pontos que corroboram os pressupostos trazidos no
primeiro momento.
Nesta
quarta-feira (15), os Estados Unidos vão anunciar se aplicam ou não as tarifas de 25% sobre
produtos brasileiros, conforme sugerido pelo escritório comercial. Caso a
sanção seja decretada, o Brasil pode se tornar um dos países mais
tarifados por Washington no mundo.
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1 - Sanção por Jair Bolsonaro
A
manifestação em decorrência da condenação do ex-presidente, exposta no
documento que notificava o início das investigações, já deu, logo no começo,
uma conotação política à medida.
Além
disso, Brasília tem argumentado que as motivações para a sanção não são
econômicas, haja vista que a balança comercial entre os países é positiva para
os norte-americanos.
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2 - Sistemas de pagamento: Pix e cartões de crédito
O
governo dos Estados Unidos questiona aspectos regulatórios envolvendo serviços
digitais e pagamentos eletrônicos brasileiros, com referências ao Pix. Discussões
sobre monitoramento externo e possíveis restrições ao sistema chegaram a
ocorrer. O fio argumentativo passa também por supostas perdas que grandes
bandeiras de cartão americanas, como Visa e Mastercard, estariam sofrendo no
Brasil.
A pauta
se tornou o cerne das disputas pré-eleitorais no Brasil. O meio de pagamentos
brasileiro é constantemente defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, como símbolo da soberania nacional; e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
tenta desvincular de si a pecha de responsável pelo tarifaço — ele já chegou a
usar durante eventos uma camiseta com os dizeres "O Pix é do
Bolsonaro". Não há dúvidas, o sistema criado pelo Banco Central como alvo
das tarifas tem contornos políticos.
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3 - Combate à corrupção
O
documento norte-americano fala também de uma suposta falha brasileira no
combate à corrupção. O ponto levantado é que o enfraquecimento da aplicação de
normas anticorrupção reduz a previsibilidade dos investimentos de empresas
americanas. O texto cita, entre outros exemplos, a anulação de processos
da operação Lava Jato pelo Supremo
Tribunal Federal (STF) em 2023.
Em
parte, o recuo da Lava Jato se deveu a uma série de reportagens que revelou
mensagens trocadas entre juízes e procuradores, que discutiam estratégias,
sugeriam diligências e comentavam a condução de investigações, levantando
questionamentos sobre a imparcialidade judicial. Além disso, condenações sem
acusações e interferências externas, inclusive dos Estados Unidos, foram
reveladas pela imprensa.
O
apontamento para esse alvo específico, o combate à corrupção, evidencia
preocupações mais políticas que puramente econômicas dos Estados Unidos,
ignorando as leis internas e a soberania brasileira.
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4 - Acesso ao mercado de etanol
Os
Estados Unidos argumentam que barreiras impostas aqui dificultam o acesso do
etanol americano ao mercado brasileiro. Pelo menos desde 2023, Brasília
não adota mais um tratamento tarifário recíproco e cobra uma tarifa de 18%
sobre as importações de etanol estadunidenses.
O
governo brasileiro entende que a medida é soberana e resguarda a
competitividade do etanol brasileiro. Após a decisão da imposição de tarifas
dos EUA, veiculada no dia 2 de junho, o ministro do Desenvolvimento, Industria,
Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o tema não estava incluso
nas conversas sobre
o tarifaço.
"A
produção de etanol e, eventualmente, a abertura do mercado para o etanol
norte-americano colocaria em risco, sobretudo, a produção do etanol no Nordeste
do país. Em relação ao açúcar, ele sofre uma sobretaxa nos Estados Unidos
de quase 100%. Então nós não podemos dissociar uma cadeia com uma discussão da
outra, porque todos são ligados à mesma cadeia produtiva", argumentou o
ministro.
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5 - Desmatamento
A
preocupação com o meio ambiente também foi listada pelos Estados Unidos como
justificativa para taxar os produtos brasileiros. De acordo com
Washington, o Brasil precisa cumprir regras ambientais mais rígidas, e a
produção em áreas desmatadas ilegalmente cria vantagens competitivas
consideradas desleais.
Os
números que o relatório do USTR utiliza, no entanto, citam o pico de
desmatamento em 2021, durante a presidência de Jair Bolsonaro. Além disso, o
texto reconhece o empenho do governo Lula para mitigar a destruição das
florestas e argumenta que mudanças políticas poderiam ajudar.
O
presidente brasileiro, por sua vez, argumentou no mês passado que os Estados
Unidos "não sabem o trabalho que nós fazemos para fazer com que o
desmatamento chegue a zero até 2030". O apontamento da questão como um
ganho competitivo do Brasil no comércio acaba também ressoando conotações
políticas.
¨
Disputa entre Lula e Trump transforma soberania digital
do Brasil em alvo comercial
Para a
mídia britânica, a ofensiva tarifária de Donald Trump contra o Brasil
transformou medidas de defesa da democracia, como a responsabilização de
plataformas por conteúdo antidemocrático, em alegações de "prática
comercial desleal", abrindo espaço para o bolsonarismo atuar em Washington
e pressionar por vantagens políticas.
De
acordo com um editorial de um jornal
britânico de grande circulação no Reino Unido, o governo dos Estados
Unidos passou a tratar decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil
sobre desinformação como um problema comercial. Segundo autoridades
norte-americanas, a responsabilização de plataformas por discursos
antidemocráticos teria
afetado empresas de tecnologia dos EUA, motivando a proposta de Donald Trump de
impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.
O
artigo argumenta que a medida surgiu após o STF determinar que redes sociais
poderiam ser responsabilizadas por conteúdos que alimentaram a tentativa de
golpe de 2023. Para Washington, essa decisão teria obrigado empresas como
X e Meta (proibida na Rússia por extremismo) a remover material
"político", argumento usado por Trump para justificar a retaliação
comercial.
A
audiência na Comissão de Comércio Internacional dos EUA abriu espaço para o senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que buscou responsabilizar o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva pela crise. Ele afirmou que o conflito com Trump teria provocado
as tarifas e pediu que a Casa Branca suspendesse a medida até as eleições
brasileiras de outubro.
Flávio
Bolsonaro também sinalizou que poderia ser um aliado mais alinhado aos
interesses norte-americanos, caso vença a disputa presidencial. Segundo o jornal,
observadores destacaram que o gesto foi interpretado como uma tentativa de se
apresentar como o candidato preferido de Trump, repetindo pautas da direita
radical e críticas ao governo Lula.
O
artigo lembra que Lula lidera as
pesquisas de
opinião e que sua trajetória política é marcada pela redução da pobreza e pela
defesa de políticas redistributivas. Após ter suas condenações anuladas, ele
voltou ao poder em 2023, em um ambiente político profundamente polarizado.
Segundo
a análise, o embate entre Lula e Trump envolve também a soberania digital.
Enquanto o governo brasileiro busca combater a desinformação e proteger
sua infraestrutura financeira, Trump defende que os EUA mantenham
influência sobre
o ambiente informacional do país. O sistema de pagamentos Pix, que movimentou
US$ 6,7 trilhões em 2025, é citado como exemplo de autonomia tecnológica que
reduz a dependência de redes como Visa e Mastercard.
Especialistas
afirmaram à mídia que pagamentos são também dados estratégicos. Mantidos
sob controle nacional, podem sustentar projetos de inteligência artificial (IA)
soberana.
O texto
conclui que a verdadeira disputa não é sobre protecionismo, mas sobre
autonomia: ao reivindicar jurisdição sobre plataformas e construir um sistema
público de pagamentos, o Brasil teria sido acusado por Trump de "discriminação
comercial",
posição que setores do bolsonarismo estariam dispostos a endossar.
¨ Brasil assina
documento para criar 'Céu Único Sul-Americano'
O
Brasil assinou nesta terça-feira (14) com o Paraguai, a Argentina e o Chile o
Memorando de Entendimento sobre o Acordo de Liberalização Aérea Sul-Americana
(Alas).
O
documento foi assinado em Assunção, capital paraguaia, e apresenta as regras
para a criação do Céu Único Sul-Americano que propõe um mercado
aéreo sul-americano com
maior abertura à
prestação de serviços aéreos, com atenção aos marcos legais e regulatórios
de cada país.
"Entre
os objetivos estão a ampliação de voos, a redução gradual de barreiras
regulatórias e a evolução das regras de acesso aos mercados do transporte
aéreo", explicou o Ministério de Portos e Aeroportos, em nota.
A
intenção é integrar mais cidades da América do Sul, com oferta de
voos, conectividade regional, a redução gradual de barreiras regulatórias, o
aprimoramento das regras de acesso aos mercados de transporte aéreo e a
harmonização de normas entre as autoridades aeronáuticas.
Um
grupo de trabalho será formado para elaborar, em um prazo de 12 meses,
propostas para a implementação gradual da iniciativa. O grupo será composto
por autoridades aeronáuticas dos países participantes. O Uruguai informou que
deve aderir ao memorando posteriormente. A participação do país depende da
conclusão de trâmites administrativos, e o acordo permanece aberto à
adesão de outros países sul-americanos interessados.
¨
Brasil arrecada quase R$ 58 bilhões em 2025 com
exportação de minerais críticos, diz mídia
Em
2025, a exportação brasileira de minerais críticos e suas respectivas cadeias
produtivas gerou US$ 11,4 bilhões (R$ 57,85 bilhões) em receita para o país,
informa o portal InfoMoney, citando dados da Agência Brasileira de Promoção de
Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
O
portal salienta que, com vastas reservas
desses minerais, o Brasil se torna peça-chave no abastecimento da crescente
demanda global decorrente da transição energética, da digitalização e da
necessidade de segurança nas cadeias produtivas mundiais.
"O
conjunto de minerais críticos — cobre, nióbio, silício, níquel, lítio, grafite,
elementos de terras raras [ETR], fosfato e potássio —, incluindo suas cadeias
produtivas, rendeu ao Brasil [R$ 57,85 bilhões] em exportações em
2025", ressalta a publicação.
De
acordo com o texto, a matriz energética do Brasil, majoritariamente
renovável, funciona como um diferencial competitivo, consolidando o país como
um destino atrativo para investimentos de longo prazo nas cadeias de minerais críticos.
No
Brasil, há um potencial já identificado para expandir as fases de
processamento, refino, transformação industrial e manufatura de bens com maior
valor agregado dentro do próprio território nacional, observa o portal.
Além
disso, há no mercado nacional instrumentos de fomento institucional, como
o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Financiadora de Estudos e Projetos
(Finep), as debêntures incentivadas e as iniciativas da Nova Indústria Brasil
(NIB) e do Novo PAC, voltados ao suporte de projetos nessas fases da
cadeia produtiva, conclui a publicação.
Anteriormente,
a professora aposentada da Universidade de Brasília, Maria Luiza Falcão
Silva, afirmou que, por ser detentor do
segundo maior volume de metais de terras raras do mundo, o Brasil deve
declarar suas posições de forma mais firme e ousada no palco internacional.
Em
artigo publicado no Brasil 247, a professora defendeu que, com o aumento da
importância das terras raras na economia moderna, o Brasil deve agir como
protagonista em igualdade de condições com as demais potências mundiais.
Fonte:
Sputnik Brasil

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