O
detalhe que mais expõe o esquema: as planilhas que “inventaram” um mandato para
Valdemar
Dentro
da reportagem sobre o bloqueio de R$ 119 milhões de Valdemar Costa Neto, há um
elemento técnico que merece destaque à parte, porque é o que transforma a
investigação de “suspeita de influência informal” em algo mais grave e mais
fácil de provar: as planilhas internas da Câmara dos Deputados usadas para
registrar as emendas chegavam a listar Valdemar como “parlamentar solicitante”
— e até como integrante de comissão.
<><>
Por que isso é mais grave do que parece
Uma
coisa é um dirigente partidário sem mandato pressionar informalmente por
recursos — prática antiética, mas difícil de criminalizar sozinha. Outra, bem
diferente, é encontrar documentos oficiais da Câmara em que o nome de alguém
sem qualquer vínculo parlamentar aparece registrado em campos reservados
exclusivamente a deputados e senadores em exercício. Isso desloca o caso do
terreno da influência política para o da falsificação documental de um processo
orçamentário — porque exige que alguém, deliberadamente, tenha preenchido esses
registros sabendo que a informação não correspondia à realidade.
É esse
o motivo pelo qual a Polícia Federal classifica a conduta de Valdemar como
“típica” de liderança partidária, mesmo sem vínculo formal: não é apenas que
ele tenha pedido recursos a aliados na Câmara, mas que o sistema interno de
registro das emendas tenha sido adaptado para simular que a indicação vinha de
fonte legítima.
<><>
O papel dos quatro servidores é o que sustenta a tese de associação criminosa
É esse
detalhe das planilhas, combinado às mensagens trocadas entre servidores da
Câmara — como a pergunta direta “Fechou o valor do Pres Valdemar?” —, que dá à
Polícia Federal base para apontar uma possível associação criminosa entre
Valdemar e quatro funcionários da Casa, e não apenas um caso isolado de tráfico
de influência. A diferença jurídica é relevante: tráfico de influência pune
quem pede vantagem prometendo interferir numa decisão alheia; associação
criminosa e peculato, os crimes efetivamente citados na investigação, exigem
uma estrutura coordenada e a efetiva apropriação ou desvio de recursos públicos
— um patamar de gravidade bem mais alto.
<><>
O que ainda falta apurar
O ponto
que a própria Polícia Federal deixa em aberto — e que deve pautar os próximos
capítulos do caso — é até que ponto parlamentares com mandato ativo sabiam que
seus nomes ou suas cotas de emendas estavam sendo usados para viabilizar
indicações de Valdemar. Se ficar demonstrado que deputados aderiram
conscientemente ao esquema, a investigação deixa de ser só sobre um dirigente
partidário atuando fora de suas prerrogativas e passa a envolver também os
parlamentares que, tendo mandato, deveriam ser os únicos com poder de decisão
sobre esse dinheiro.
• Sozinho, sem mandato há 13 anos,
Valdemar movimentou mais emendas que 512 dos 513 deputados do Brasil
Um novo
relatório da Polícia Federal, obtido pela Folha de S.Paulo, revela a dimensão
real do esquema de emendas atribuído a Valdemar Costa Neto: em 2024, o
presidente do PL teria direcionado R$ 111,8 milhões em emendas parlamentares de
comissão — mais do que 512 dos 513 deputados federais em exercício naquele ano.
Valdemar está sem mandato desde dezembro de 2013, quando renunciou à cadeira na
Câmara após ser condenado no processo do mensalão.
<><>
Um volume maior que quase toda a Câmara dos Deputados — mas não maior que Lira
O único
parlamentar que superou o volume atribuído a Valdemar foi o então presidente da
Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que destinou R$ 255,3 milhões em emendas de
comissão no mesmo ano. Para efeito de comparação: o montante ligado a Valdemar
superou os R$ 102 milhões movimentados pelo relator da reforma tributária,
Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e os R$ 91,6 milhões do então líder do governo na
Câmara, José Guimarães (PT-CE) — ambos parlamentares em pleno exercício do
mandato, ao contrário do dirigente do PL.
A
própria Polícia Federal reconhece a anomalia no relatório enviado ao ministro
Flávio Dino, do STF: segundo a corporação, Valdemar contava com autonomia para
direcionar recursos de emendas conforme sua cota pessoal e particular,
atribuída unicamente por sua condição de presidente da sigla — não por qualquer
mandato eletivo, que ele não possui há treze anos.
<><>
Os “laranjas” identificados: Sóstenes, Motta e Capitão Alden
Uma
segunda apuração, publicada pelo Estadão, identifica três deputados federais do
PL cujos nomes teriam sido usados como fachada formal para as indicações
atribuídas a Valdemar: o líder da bancada na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ),
aparece como solicitante de R$ 94 milhões — parte deles destinados a municípios
de São Paulo, Paraná, Bahia e Pará, estados aos quais ele não tem qualquer
vínculo de representação, já que é deputado pelo Rio de Janeiro. A maior emenda
associada a seu nome, de R$ 25 milhões, foi enviada a Porto Seguro (BA).
Luiz
Carlos Motta (PL-SP) aparece como responsável por duas emendas somando R$ 22,8
milhões, e Capitão Alden (PL-BA) por uma indicação de R$ 2,4 milhões para
Itaguaçu da Bahia. Ambos negaram ter participado das decisões: Motta afirmou
que seu nome passou a constar nos registros administrativos relacionados à
tramitação dessas indicações por ter sido relator do Orçamento Geral da União
naquele ano, e não por escolha própria. Já Alden foi mais direto: segundo ele,
não houve qualquer contato comigo sobre esse assunto.
<><>
Como o esquema conseguiu se camuflar mesmo após o STF exigir transparência
Esse é
o ponto que talvez mereça mais atenção no caso: em 2024, o próprio STF já havia
determinado que o Congresso identificasse os verdadeiros “padrinhos” de cada
emenda de comissão, numa tentativa de corrigir a opacidade que marcou o extinto
orçamento secreto. Mesmo assim, boa parte dos recursos atribuídos a Valdemar
apareceu nos registros oficiais apenas como indicação da “liderança do partido”
— sem qualquer nome específico —, driblando exatamente a exigência de
transparência imposta pela Corte. A prática não foi exclusividade do PL:
partidos como PP, União Brasil e PT também usaram lideranças partidárias como
autoras formais de repasses em 2024, e, segundo a Folha, mais de R$ 1 bilhão em
verbas da Câmara seguiu esse mesmo caminho só em 2025.
<><>
O bloqueio de Dino e a queda abrupta em 2025
Ao
determinar o bloqueio de R$ 119 milhões em bens de Valdemar, Dino foi enfático:
segundo o ministro, o problema central é que um terceiro sem mandato tinha o
poder e a ingerência sobre o direcionamento do orçamento público — uma situação
que ele classificou como gravíssima. Chama atenção, aliás, um dado isolado no
relatório da PF: o valor atribuído a Valdemar caiu drasticamente em 2025, para
apenas R$ 7,4 milhões — uma queda de mais de 90% em relação ao ano anterior,
cujos motivos a própria investigação não esclarece, mas que coincide com o
período em que o esquema das emendas de comissão já vinha sob escrutínio
crescente do Judiciário.
<><>
Defesa nega, e Flávio Bolsonaro chama a investigação de perseguição seletiva
A
defesa de Valdemar, pelos advogados Marcelo Ávila de Bessa e Thiago Fleury,
nega qualquer irregularidade e classifica a atuação do dirigente partidário
como natural dentro do sistema político — dialogar com parlamentares e
articular prioridades, segundo a nota, não configura crime algum. Já o senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, saiu em defesa pública
do padrinho político de sua candidatura, classificando a atuação da Polícia
Federal como seletiva para constranger um adversário político do atual governo,
e contrapondo o caso à alegada inação da PF em investigações envolvendo o filho
do presidente Lula.
<><>
Por que o caso é maior do que parece à primeira vista
O que
os dois relatórios, somados, revelam é uma engenharia difícil de justificar
como mero exercício de “liderança partidária informal”: um homem sem mandato há
mais de uma década movimentando, sozinho, um volume de recursos públicos
superior ao de quase todo o plenário da Câmara dos Deputados — usando nomes de
parlamentares em exercício como fachada formal para escapar da exigência de
transparência imposta pelo próprio STF. Independentemente do desfecho jurídico
do caso, o episódio já expõe uma fragilidade estrutural do sistema de emendas
de comissão: mesmo depois de anos de pressão da Corte por rastreabilidade, o
mecanismo de esconder o verdadeiro “padrinho” atrás da “liderança do partido”
continua funcionando — e, ao que tudo indica, funcionou por pelo menos um ano
inteiro em plena vista de todos, sem que ninguém questionasse por que um
dirigente sem assento no Congresso aparecia direcionando dezenas de milhões de
reais em dinheiro público.
• Diálogos revelam controle de emendas de
R$ 119 milhões por Valdemar Costa Neto no Congresso
O
ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Flávio Dino, determinou o
bloqueio de bens do presidente nacional do Partido Liberal, Valdemar Costa
Neto, até o limite de R$ 119,2 milhões. A medida cautelar baseia-se em
conversas telefônicas obtidas pela Polícia Federal do Brasil que detalham a
interferência direta do dirigente na destinação de recursos orçamentários.
As
mensagens interceptadas revelam que a ex-assessora da liderança do
Progressistas na Câmara dos Deputados, Mariângela Fialek, atuava como o elo
central na gestão das verbas federais. A assessora parlamentar recebia
orientações expressas sobre as prioridades financeiras do dirigente que não
ocupa cadeira legislativa.
Em uma
das mensagens mais explícitas, um assessor de confiança envia uma pergunta
direta a respeito das cotas de recursos partidários. A indagação questiona
textualmente se o valor reservado ao presidente Valdemar Costa Neto já havia
sido fechado para aquela etapa de distribuição.
O fluxo
de mensagens interceptadas indica que as ordens internas determinavam maximizar
as quantias destinadas a setores específicos da administração federal. As
orientações escritas exigiam que os assessores colocassem o maior valor
possível para atender aos interesses da sigla na pasta do Turismo.
As
tratativas contavam com a participação ativa da servidora da liderança do
Partido Liberal na Câmara dos Deputados, Nara Brum, que operacionalizava as
planilhas do esquema. A funcionária pública auxiliava no direcionamento das
verbas sob a orientação de seus superiores hierárquicos.
O
secretário executivo do Partido Liberal na Câmara dos Deputados, Garigham
Amarante Pinto, também participava da intermediação técnica e política das
emendas do grupo. A Polícia Federal do Brasil aponta que a equipe de assessores
atuava de forma coordenada para ocultar a autoria real das indicações
orçamentárias.
A
decisão judicial expedida pelo magistrado Flávio Dino classificou como
espantosa a influência exercida por cidadãos sem mandato sobre a partilha de
dinheiro público. O magistrado destacou que as funções constitucionais dos
parlamentares não podem ser terceirizadas a presidentes de partidos políticos.
• Flávio, Valdemar, Sóstenes e Eduardo
Cunha podem ter passaportes apreendidos por risco de fuga
O
deputado federal Reimont (PT-RJ) anunciou que protocolará nesta semana, junto à
Procuradoria-Geral da República (PGR), um pedido de apreensão e retenção dos
passaportes do senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, do líder do partido na
Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), e do ex-presidente da Casa Eduardo Cunha.
Em
vídeo publicado nas redes sociais na noite deste domingo (12), Reimont afirmou
que reforçará um pedido anterior contra Flávio e acrescentará os outros três
nomes diante das revelações sobre um esquema de controle clandestino de emendas
parlamentares.
“É
alarmante ver o que a extrema direita tem feito, o que os deputados, deputadas
e lideranças do PL têm feito. Portanto, esta semana, de maneira justificada,
com argumentos robustos, eu vou pedir à PGR, mais uma vez, a apreensão, a
retenção do passaporte do Flávio Bolsonaro”, declarou.
“Mas eu
vou, neste meu pedido, acrescentar mais três nomes: o nome do Sóstenes
Cavalcante, o nome do Valdemar Costa Neto e o nome do Eduardo Cunha”,
prosseguiu.
O
petista justificou a medida afirmando que existe risco de os envolvidos
deixarem o Brasil.
“Vocês
estão vendo aí as bandalhas crescentes desse pessoal. Existe a possibilidade de
eles sumirem do país a qualquer momento”, disse Reimont, que pediu ainda que
seus seguidores enviem outros nomes, desde que acompanhados de justificativas e
argumentos.
“Tem
que ter justificativa e tem que ter argumento, fazer uma coisa séria. Vai ser
esta semana”, concluiu.
A
representação à PGR, por si só, não resulta automaticamente na retenção dos
documentos. Caberá ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, avaliar se
existem fundamentos para encaminhar uma solicitação ao Supremo Tribunal Federal
(STF), responsável por decidir sobre uma eventual medida cautelar.
<><>
Eduardo Cunha controlava emendas mesmo cassado
Outro
núcleo da investigação envolve Eduardo Cunha, que teve o mandato cassado em
2016, mas teria continuado a interferir na distribuição de recursos do
Orçamento federal por meio de funcionários e contatos mantidos na Câmara.
A PF
identificou ao menos 29 emendas da Comissão de Saúde, no valor total de R$ 6,15
milhões, que teriam sido direcionadas por Cunha. O ex-deputado teria escolhido
municípios e entidades beneficiadas, solicitado mudanças e acompanhado a
liberação das verbas.
Dino
determinou o bloqueio de até R$ 6,15 milhões em bens de Cunha e suspendeu a
execução das emendas investigadas.
Mensagens
obtidas na apuração indicam que uma assessora teria afirmado possuir aval da
Presidência da Câmara para operacionalizar as indicações vinculadas ao
ex-deputado. A investigação busca identificar quem, dentro da estrutura da
Casa, sabia da interferência de Cunha e permitia que suas ordens fossem
executadas.
Cunha
nega irregularidades. Ele afirma que não era o autor formal das emendas, não
recebeu os recursos e apenas apresentava demandas de municípios a parlamentares
com mandato.
<><>
Flávio defendeu Valdemar
Flávio
Bolsonaro não foi apontado, até o momento, como autor ou beneficiário das
emendas investigadas nos núcleos de Valdemar e Cunha. O senador, no entanto,
entrou diretamente na crise ao sair em defesa do presidente de seu partido.
O
pré-candidato acusou a Polícia Federal de agir de maneira seletiva e afirmou
ser normal que dirigentes partidários conversem com deputados e participem das
articulações para a destinação de recursos.
A
explicação não enfrenta o ponto central levantado pela PF: a suspeita de que
Valdemar não apenas discutia prioridades políticas, mas determinava
beneficiários e valores enquanto a autoria verdadeira das emendas permanecia
escondida dos registros oficiais.
Flávio
mantém uma relação de dependência política com Valdemar, que preside o partido
responsável por sustentar sua pré-candidatura à presidência da República. O
senador também tem Sóstenes como um de seus principais articuladores na Câmara.
O
pedido de retenção do passaporte de Flávio anunciado por Reimont é anterior ao
escândalo das emendas e está relacionado a outras suspeitas envolvendo
integrantes do clã Bolsonaro. Agora, o deputado pretende renovar a solicitação
e incluir os três personagens que aparecem no centro das novas revelações.
Orçamento
secreto comandado fora do Congresso
Embora
Valdemar e Cunha apareçam em núcleos distintos, a investigação revela um método
semelhante: políticos sem mandato teriam mantido poder sobre milhões de reais
do Orçamento, utilizando deputados, assessores e estruturas das comissões da
Câmara para transformar suas decisões em indicações oficiais.
O
esquema permitia que os verdadeiros padrinhos dos recursos permanecessem
ocultos, dificultando a fiscalização, a responsabilização política e o
acompanhamento do destino final do dinheiro.
A
apuração também aumenta a pressão sobre a presidência da Câmara, que terá de
explicar como pessoas sem mandato conseguiram interferir na distribuição de
verbas públicas e até que ponto integrantes da estrutura administrativa e
política da Casa tinham conhecimento das operações.
Fonte:
O Cafezinho/Fórum

Nenhum comentário:
Postar um comentário