segunda-feira, 13 de julho de 2026

O esgotamento do bolsonarismo

À medida que os acontecimentos se sucedem, torna-se cada vez mais evidente o esgotamento político do bolsonarismo. O movimento, que construiu sua identidade sob o discurso do patriotismo, revelou gradualmente um conjunto de incongruências que minou o próprio discurso que o sustentava. Essa percepção foi sinalizada já em 2022, quando 50,90% do eleitorado rejeitou a reeleição de Jair Bolsonaro.

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O declínio do governo foi marcado pela submissão aos interesses dos Estados Unidos, por uma política econômica liberal que priorizou o mercado financeiro em detrimento da classe trabalhadora, pela condução desastrosa e irresponsável da pandemia, por sucessivos escândalos de corrupção e pelo desmonte de políticas públicas essenciais construídas ao longo dos governos de Lula e Dilma Rousseff. Nem mesmo o uso inescrupuloso da máquina pública e as manobras ilícitas na véspera e durante o pleito foram capazes de interromper a deterioração de um projeto que já nascia com prazo de validade.

Em ato contínuo, os recentes desdobramentos da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), marcados, inclusive, por desavenças intrafamiliares, sinalizam a intensificação do desgaste do espectro bolsonarista. Essa progressão ganhou um novo capítulo com a escalada das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Em junho, logo após as conversas de Flávio Bolsonaro e de seu irmão Eduardo com integrantes do governo dos Estados Unidos, o governo Trump anunciou uma nova promessa de aplicação de sobretaxas que podem alcançar 37,5% sobre produtos brasileiros, incluindo itens estratégicos para a pauta de exportações.

A decisão final deverá ser anunciada em 15 de julho, mas, antes disso, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, sigla em inglês) promoveu, em Washington, audiências públicas destinadas a reunir manifestações técnicas de empresas, associações empresariais e representantes dos setores produtivos potencialmente afetados.

Realizadas nos dias 6 e 7 de julho, as audiências representaram a última etapa do processo administrativo que antecede a eventual adoção das sanções comerciais, que será decidida ao fim e ao cabo por Donald Trump, numa perspectiva notadamente de cunho político. Cada expositor dispôs de poucos minutos para apresentar estudos técnicos, entregar documentos e responder aos questionamentos das autoridades norte-americanas. O cerne da controvérsia reside na aplicação da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, um dispositivo que confere a esse país a prerrogativa de impor sanções unilaterais sob a justificativa de coibir supostas práticas comerciais desleais por parte de parceiros estrangeiros.

Durante os depoimentos, representantes de diversos segmentos econômicos demonstraram que a elevação das tarifas não acarretaria prejuízos apenas para o Brasil. O aumento dos custos de matérias-primas importadas também afetaria empresas instaladas nos próprios Estados Unidos, elevando preços, comprometendo segmentos produtivos e ampliando a instabilidade econômica em ambos os países. Diante desse cenário, entidades brasileiras mobilizaram-se para demonstrar que a adoção das tarifas provocaria perdas recíprocas e agravaria desnecessariamente as relações comerciais entre as duas nações.

Antes mesmo da realização das audiências públicas promovidas pelo USTR, o governo brasileiro optou por enfrentar a controvérsia pelos canais institucionais. O Ministério das Relações Exteriores apresentou manifestação formal contestando técnica e juridicamente a proposta de tarifas, sustentando que as medidas possuem caráter unilateral, violam princípios do comércio internacional e carecem de fundamentos econômicos consistentes.

No documento, o Itamaraty também argumentou que a imposição das sobretaxas elevaria custos para empresas e consumidores norte-americanos, comprometendo cadeias produtivas integradas entre os dois países. Em última análise, as recentes sobretaxas previstas pelo governo Trump revelam-se desprovidas de justificativas plausíveis, inserindo-se, na verdade, em uma política protecionista ampla que atinge múltiplas nações de forma arbitrária. Longe de corrigir práticas de mercado, o caráter unilateral dessas medidas demonstra que a verdadeira quebra de reciprocidade e estabilidade nas regras do comércio internacional tem partido do próprio governo norte-americano.

Em contraste com a atuação do Estado brasileiro, que buscou preservar os interesses nacionais por meio da diplomacia e dos mecanismos institucionais e jurídicos disponíveis, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, viajou aos Estados Unidos para participar das audiências promovidas pelo USTR. Vale ressaltar que a participação de um parlamentar brasileiro nesse tipo de procedimento é incomum, já que essas audiências se destinam, sobretudo, a empresas, associações setoriais e outras entidades suscetíveis de serem atingidas pela adoção das medidas comerciais.

O aspecto mais controverso, entretanto, não foi sua presença no evento, mas a forma como utilizou aquele espaço institucional. Em vez de defender os interesses econômicos brasileiros perante as autoridades norte-americanas, transformou os poucos minutos de sua manifestação em um palanque político voltado a críticas ao governo e ao Judiciário brasileiros.

Ao atacar o governo Lula, o senador Flávio Bolsonaro contrapôs a atual gestão ao mandato de seu pai, que, segundo afirmou, teria sido isento de desvios, e mencionou episódios recentes, entre esses, o caso do Banco Master. No entanto, o parlamentar incorreu em uma omissão conveniente ao deixar de mencionar seu envolvimento com o ex-banqueiro do Master. Ele ainda não esclareceu a destinação dos vultosos recursos que recebeu do controlador da instituição para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.

Essa ausência de esclarecimentos alimenta suspeitas e evidencia o duplo padrão moral frequentemente atribuído ao bolsonarismo, cujos discursos de combate à corrupção contrastam com situações que ainda aguardam explicações públicas. Somam-se a isso outras distorções apresentadas por Flávio Bolsonaro sobre assuntos internos do Brasil, expostas de forma seletiva e, segundo seus críticos, com potencial para influenciar a percepção das autoridades e dos participantes da audiência.

Diferentemente do que sustentava na manifestação encaminhada ao USTR em 2 de julho, na qual defendia a revogação ou, ao menos, o adiamento das sobretaxas sob o argumento de evitar que a medida favorecesse politicamente o governo Lula, na audiência pública realizada em 7 de julho, sua estratégia assumiu outro viés. Em vez de se deter na suspensão das tarifas, Flávio Bolsonaro passou a concentrar seu discurso na tentativa de atribuir ao governo brasileiro a responsabilidade pelas sanções impostas pelos Estados Unidos, priorizando a exploração eleitoral de um eventual agravamento do cenário econômico. A mudança de postura evidenciou uma inversão de prioridades incompatível com qualquer concepção de defesa do interesse público.

Essa percepção crítica ganhou destaque até mesmo em setores historicamente conservadores da imprensa. O jornal O Estado de S. Paulo, que, no passado, ganhou notoriedade ao afirmar que a escolha entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad era “difícil”, em certa medida se redime, alguns anos depois, ao publicar, em sua seção de Opinião, a avaliação de que: “Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros ao usar os poucos minutos que tinha para atacar seu adversário na disputa eleitoral”. Segundo a interpretação do próprio jornal, Flávio Bolsonaro priorizou o embate político interno ao utilizar seu espaço para atacar o presidente Lula e defender que os Estados Unidos aguardassem o desfecho das eleições antes de negociar com o Brasil, na expectativa de que um eventual governo sob sua liderança fosse mais próximo de Donald Trump. (Jornal O Estado de S. Paulo, 9 jul. 2026).

Para completar o modo rifa Brasil, na mesma linha da lógica adotada pelo bolsonarismo, nesta semana nos deparamos com outro revés previsível, que encontra um paralelo significativo em outro espaço historicamente associado à identidade nacional, o futebol. Durante décadas, a seleção brasileira foi reconhecida mundialmente pela excelência técnica, pela criatividade e pelo talento de jogadores como Pelé, Garrincha, Zico e Sócrates. Nos últimos anos, porém, a imagem do futebol brasileiro passou a refletir uma realidade marcada pela supervalorização da exposição midiática, do marketing pessoal e da transformação de atletas em celebridades digitais.

Sob essa perspectiva, o encerramento da era do bolsonarista Neymar adquire um significado que ultrapassa o desempenho esportivo. Embora sua expertise técnica seja inegável, sua trajetória acabou representando um período em que a construção da imagem pública frequentemente se sobrepôs às conquistas coletivas, à disciplina e ao comprometimento exigidos de quem almejava ocupar um lugar entre os maiores jogadores da história. O contraste entre o enorme potencial esportivo e os resultados efetivamente alcançados tornou-se a fisionomia de um tempo em que a aparência passou, muitas vezes, a valer mais do que a substância.

Como se isso não bastasse, os sinais de desgaste não se restringem ao futebol brasileiro. A própria estrutura de governança do esporte mundial também passou a oferecer exemplos preocupantes de interferência política. A FIFA, cuja credibilidade deveria depender da imparcialidade de suas decisões, também tem demonstrado vulnerabilidade às pressões exercidas por grandes potências políticas e pelo poder econômico. Um exemplo incontestável ocorreu nesta Copa do Mundo em curso, quando o presidente sem limites éticos, Donald Trump, revelou publicamente ter telefonado ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, para pedir a revisão da expulsão do atacante norte-americano Folarin Balogun.

Rapidamente, a comissão disciplinar da entidade flexibilizou a punição, permitindo que o jogador atuasse na partida seguinte contra a Bélgica. A decisão provocou críticas contundentes da UEFA e da Federação Belga, que apontaram um precedente incompatível com os princípios de igualdade e independência que devem orientar as competições esportivas.

Independentemente das justificativas apresentadas, o episódio reforçou a percepção de que nem mesmo instituições internacionais tradicionalmente associadas à aplicação de regras universais estão completamente protegidas contra a pressão exercida por lideranças políticas de grande influência. Contudo, a repugnante desfaçatez não encontrou respaldo dentro de campo. A seleção belga derrotou a equipe norte-americana por 4 a 0, impondo uma resposta esportiva contundente e transformando a partida em um revés simbólico para a tentativa de projetar poder também sobre o futebol.

A lógica subjacente a este triste fato guarda semelhanças com a estratégia adotada pelo bolsonarismo em relação ao Brasil. Em ambos os casos, a força das instituições cede espaço à influência política e à tentativa de substituir critérios objetivos pelo peso de interesses particulares. Quando regras passam a ser relativizadas em benefício de determinados grupos, enfraquece-se a confiança pública e compromete-se a credibilidade das próprias instituições.

É nesse horizonte de articulações espúrias que se insere o progressivo desgaste do bolsonarismo. Após sucessivas controvérsias envolvendo investigações, acusações de desinformação, conflitos institucionais e situações suspeitas relacionadas à atuação de integrantes da família Bolsonaro em questões de repercussão internacional, o movimento ainda preserva uma parcela de apoiadores. Ao mesmo tempo, o cenário político permanece em constante transformação, e os desdobramentos desses acontecimentos seguem influenciando o debate público.

Embora a campanha eleitoral ainda não tenha sido oficialmente iniciada, as pesquisas de intenção de voto já indicam sinais de enfraquecimento de Flávio Bolsonaro, sugerindo um desgaste progressivo do bolsonarismo. Ainda assim, a consolidação dessa tendência dependerá, em grande medida, da forma como o eleitorado avaliará esses acontecimentos nos próximos meses.

Apesar desse rastro de incoerências e da série de investigações por corrupção envolvendo candidatos da extrema direita, o bolsonarismo ainda sobrevive graças à sua eficiente máquina de polarização digital, aos currais eleitorais alimentados pelas emendas destinadas a prefeitos aliados, ao robusto fundo eleitoral do PL e à ampla bancada que o sustenta na Câmara dos Deputados e no Senado. Trata-se de uma bancada que pode até se reeleger, apesar de apresentar uma atuação legislativa pífia em relação aos interesses da população, mas altamente rentável para seus próprios feudos políticos e corporativos. Alguns de seus integrantes, inclusive, já são alvo de investigações.

É o caso do deputado Sóstenes Cavalcante (PL), investigado em operação da Polícia Federal que apura a origem de quase R$ 500 mil encontrados em um apartamento utilizado por ele. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também é suspeito de exercer influência sobre a distribuição de recursos públicos, mesmo sem ocupar mandato parlamentar. Diante desse cenário, o ministro do STF, Flávio Dino, determinou o bloqueio do repasse de R$ 119 milhões em emendas parlamentares.

Por sua vez, o Rio de Janeiro é um dos exemplos mais eloquentes da dominação bolsonarista, que contribuiu para conduzir o estado ao caos econômico, ético e político em que se encontra, após sucessivas gestões marcadas por denúncias de irregularidades, a exemplo do ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ), aliado próximo de Flávio Bolsonaro. Castro tornou-se alvo de indiciamento pela Polícia Federal e de denúncia da Procuradoria-Geral da República por suspeitas de corrupção e desvio de recursos públicos destinados a programas sociais do estado, além de ter sido condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

Entretanto, não são apenas os expoentes do bolsonarismo que agem com truculência. Seus aliados também impõem pesados ônus à população que os elegeu. O exemplo mais mesquinho é o bloqueio da PEC que extingue a extenuante escala de trabalho 6×1. Sob a presidência de Davi Alcolumbre (União-AP), o Senado mantém a proposta paralisada, submetendo milhões de trabalhadores à manutenção desse regime de trabalho, ao que seus críticos apontam como uma estratégia para impedir que o governo Lula, que encampou essa pauta, obtenha uma vitória política antes das eleições. Nessa leitura, o cálculo seria essencialmente eleitoral.

Nessa perspectiva, o pleito de outubro será um termômetro sobre a capacidade da sociedade brasileira de separar a retórica vazia (joio) dos fatos reais (trigo). Patriotismo não se resolve vestindo a camisa da CBF ou prestando continência para a bandeira americana. Exige respeito às leis, defesa do emprego dos trabalhadores locais e altivez diplomática. Ao buscar o guarda-chuva de Trump para salvar a própria pele, Flávio Bolsonaro assinou a confissão de sua maior fraude, a de que o seu “Brasil acima de tudo” sempre teve um asterisco que dizia “meus interesses privados primeiro”.

Todavia, há sinais claros de esgotamento dessa vilania bolsonarista que, na obsessão pelo poder acima de tudo, sabota o próprio país e o seu povo. Como se não bastasse a covarde entrega material das riquezas nacionais, rifa até a alma da nação à dominação estrangeira. A superação definitiva dessa saga, contudo, dependerá da lucidez do eleitorado brasileiro ao depositar seu voto na urna em outubro.

 

Fonte:Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

 

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