O
esgotamento do bolsonarismo
À
medida que os acontecimentos se sucedem, torna-se cada vez mais evidente o
esgotamento político do bolsonarismo. O movimento, que construiu sua identidade
sob o discurso do patriotismo, revelou gradualmente um conjunto de
incongruências que minou o próprio discurso que o sustentava. Essa percepção
foi sinalizada já em 2022, quando 50,90% do eleitorado rejeitou a reeleição de
Jair Bolsonaro.
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O
declínio do governo foi marcado pela submissão aos interesses dos Estados
Unidos, por uma política econômica liberal que priorizou o mercado financeiro
em detrimento da classe trabalhadora, pela condução desastrosa e irresponsável
da pandemia, por sucessivos escândalos de corrupção e pelo desmonte de
políticas públicas essenciais construídas ao longo dos governos de Lula e Dilma
Rousseff. Nem mesmo o uso inescrupuloso da máquina pública e as manobras
ilícitas na véspera e durante o pleito foram capazes de interromper a
deterioração de um projeto que já nascia com prazo de validade.
Em ato
contínuo, os recentes desdobramentos da pré-candidatura do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), marcados, inclusive, por desavenças intrafamiliares,
sinalizam a intensificação do desgaste do espectro bolsonarista. Essa
progressão ganhou um novo capítulo com a escalada das tensões comerciais entre
Brasil e Estados Unidos. Em junho, logo após as conversas de Flávio Bolsonaro e
de seu irmão Eduardo com integrantes do governo dos Estados Unidos, o governo
Trump anunciou uma nova promessa de aplicação de sobretaxas que podem alcançar
37,5% sobre produtos brasileiros, incluindo itens estratégicos para a pauta de
exportações.
A
decisão final deverá ser anunciada em 15 de julho, mas, antes disso, o
Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, sigla em
inglês) promoveu, em Washington, audiências públicas destinadas a reunir
manifestações técnicas de empresas, associações empresariais e representantes
dos setores produtivos potencialmente afetados.
Realizadas
nos dias 6 e 7 de julho, as audiências representaram a última etapa do processo
administrativo que antecede a eventual adoção das sanções comerciais, que será
decidida ao fim e ao cabo por Donald Trump, numa perspectiva notadamente de
cunho político. Cada expositor dispôs de poucos minutos para apresentar estudos
técnicos, entregar documentos e responder aos questionamentos das autoridades
norte-americanas. O cerne da controvérsia reside na aplicação da Seção 301 da
Lei de Comércio dos Estados Unidos, um dispositivo que confere a esse país a
prerrogativa de impor sanções unilaterais sob a justificativa de coibir
supostas práticas comerciais desleais por parte de parceiros estrangeiros.
Durante
os depoimentos, representantes de diversos segmentos econômicos demonstraram
que a elevação das tarifas não acarretaria prejuízos apenas para o Brasil. O
aumento dos custos de matérias-primas importadas também afetaria empresas
instaladas nos próprios Estados Unidos, elevando preços, comprometendo
segmentos produtivos e ampliando a instabilidade econômica em ambos os países.
Diante desse cenário, entidades brasileiras mobilizaram-se para demonstrar que
a adoção das tarifas provocaria perdas recíprocas e agravaria
desnecessariamente as relações comerciais entre as duas nações.
Antes
mesmo da realização das audiências públicas promovidas pelo USTR, o governo
brasileiro optou por enfrentar a controvérsia pelos canais institucionais. O
Ministério das Relações Exteriores apresentou manifestação formal contestando
técnica e juridicamente a proposta de tarifas, sustentando que as medidas
possuem caráter unilateral, violam princípios do comércio internacional e
carecem de fundamentos econômicos consistentes.
No
documento, o Itamaraty também argumentou que a imposição das sobretaxas
elevaria custos para empresas e consumidores norte-americanos, comprometendo
cadeias produtivas integradas entre os dois países. Em última análise, as
recentes sobretaxas previstas pelo governo Trump revelam-se desprovidas de
justificativas plausíveis, inserindo-se, na verdade, em uma política
protecionista ampla que atinge múltiplas nações de forma arbitrária. Longe de
corrigir práticas de mercado, o caráter unilateral dessas medidas demonstra que
a verdadeira quebra de reciprocidade e estabilidade nas regras do comércio
internacional tem partido do próprio governo norte-americano.
Em
contraste com a atuação do Estado brasileiro, que buscou preservar os
interesses nacionais por meio da diplomacia e dos mecanismos institucionais e
jurídicos disponíveis, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência
da República, viajou aos Estados Unidos para participar das audiências
promovidas pelo USTR. Vale ressaltar que a participação de um parlamentar
brasileiro nesse tipo de procedimento é incomum, já que essas audiências se
destinam, sobretudo, a empresas, associações setoriais e outras entidades
suscetíveis de serem atingidas pela adoção das medidas comerciais.
O
aspecto mais controverso, entretanto, não foi sua presença no evento, mas a
forma como utilizou aquele espaço institucional. Em vez de defender os
interesses econômicos brasileiros perante as autoridades norte-americanas,
transformou os poucos minutos de sua manifestação em um palanque político
voltado a críticas ao governo e ao Judiciário brasileiros.
Ao
atacar o governo Lula, o senador Flávio Bolsonaro contrapôs a atual gestão ao
mandato de seu pai, que, segundo afirmou, teria sido isento de desvios, e
mencionou episódios recentes, entre esses, o caso do Banco Master. No entanto,
o parlamentar incorreu em uma omissão conveniente ao deixar de mencionar seu
envolvimento com o ex-banqueiro do Master. Ele ainda não esclareceu a
destinação dos vultosos recursos que recebeu do controlador da instituição para
a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.
Essa
ausência de esclarecimentos alimenta suspeitas e evidencia o duplo padrão moral
frequentemente atribuído ao bolsonarismo, cujos discursos de combate à
corrupção contrastam com situações que ainda aguardam explicações públicas.
Somam-se a isso outras distorções apresentadas por Flávio Bolsonaro sobre
assuntos internos do Brasil, expostas de forma seletiva e, segundo seus
críticos, com potencial para influenciar a percepção das autoridades e dos
participantes da audiência.
Diferentemente
do que sustentava na manifestação encaminhada ao USTR em 2 de julho, na qual
defendia a revogação ou, ao menos, o adiamento das sobretaxas sob o argumento
de evitar que a medida favorecesse politicamente o governo Lula, na audiência
pública realizada em 7 de julho, sua estratégia assumiu outro viés. Em vez de
se deter na suspensão das tarifas, Flávio Bolsonaro passou a concentrar seu
discurso na tentativa de atribuir ao governo brasileiro a responsabilidade
pelas sanções impostas pelos Estados Unidos, priorizando a exploração eleitoral
de um eventual agravamento do cenário econômico. A mudança de postura
evidenciou uma inversão de prioridades incompatível com qualquer concepção de
defesa do interesse público.
Essa
percepção crítica ganhou destaque até mesmo em setores historicamente
conservadores da imprensa. O jornal O Estado de S. Paulo, que, no passado,
ganhou notoriedade ao afirmar que a escolha entre Jair Bolsonaro e Fernando
Haddad era “difícil”, em certa medida se redime, alguns anos depois, ao
publicar, em sua seção de Opinião, a avaliação de que: “Flávio Bolsonaro
envergonhou os brasileiros ao usar os poucos minutos que tinha para atacar seu
adversário na disputa eleitoral”. Segundo a interpretação do próprio jornal,
Flávio Bolsonaro priorizou o embate político interno ao utilizar seu espaço
para atacar o presidente Lula e defender que os Estados Unidos aguardassem o
desfecho das eleições antes de negociar com o Brasil, na expectativa de que um
eventual governo sob sua liderança fosse mais próximo de Donald Trump. (Jornal
O Estado de S. Paulo, 9 jul. 2026).
Para
completar o modo rifa Brasil, na mesma linha da lógica adotada pelo
bolsonarismo, nesta semana nos deparamos com outro revés previsível, que
encontra um paralelo significativo em outro espaço historicamente associado à
identidade nacional, o futebol. Durante décadas, a seleção brasileira foi
reconhecida mundialmente pela excelência técnica, pela criatividade e pelo
talento de jogadores como Pelé, Garrincha, Zico e Sócrates. Nos últimos anos,
porém, a imagem do futebol brasileiro passou a refletir uma realidade marcada
pela supervalorização da exposição midiática, do marketing pessoal e da
transformação de atletas em celebridades digitais.
Sob
essa perspectiva, o encerramento da era do bolsonarista Neymar adquire um
significado que ultrapassa o desempenho esportivo. Embora sua expertise técnica
seja inegável, sua trajetória acabou representando um período em que a
construção da imagem pública frequentemente se sobrepôs às conquistas
coletivas, à disciplina e ao comprometimento exigidos de quem almejava ocupar
um lugar entre os maiores jogadores da história. O contraste entre o enorme
potencial esportivo e os resultados efetivamente alcançados tornou-se a
fisionomia de um tempo em que a aparência passou, muitas vezes, a valer mais do
que a substância.
Como se
isso não bastasse, os sinais de desgaste não se restringem ao futebol
brasileiro. A própria estrutura de governança do esporte mundial também passou
a oferecer exemplos preocupantes de interferência política. A FIFA, cuja
credibilidade deveria depender da imparcialidade de suas decisões, também tem
demonstrado vulnerabilidade às pressões exercidas por grandes potências
políticas e pelo poder econômico. Um exemplo incontestável ocorreu nesta Copa
do Mundo em curso, quando o presidente sem limites éticos, Donald Trump,
revelou publicamente ter telefonado ao presidente da FIFA, Gianni Infantino,
para pedir a revisão da expulsão do atacante norte-americano Folarin Balogun.
Rapidamente,
a comissão disciplinar da entidade flexibilizou a punição, permitindo que o
jogador atuasse na partida seguinte contra a Bélgica. A decisão provocou
críticas contundentes da UEFA e da Federação Belga, que apontaram um precedente
incompatível com os princípios de igualdade e independência que devem orientar
as competições esportivas.
Independentemente
das justificativas apresentadas, o episódio reforçou a percepção de que nem
mesmo instituições internacionais tradicionalmente associadas à aplicação de
regras universais estão completamente protegidas contra a pressão exercida por
lideranças políticas de grande influência. Contudo, a repugnante desfaçatez não
encontrou respaldo dentro de campo. A seleção belga derrotou a equipe
norte-americana por 4 a 0, impondo uma resposta esportiva contundente e
transformando a partida em um revés simbólico para a tentativa de projetar
poder também sobre o futebol.
A
lógica subjacente a este triste fato guarda semelhanças com a estratégia
adotada pelo bolsonarismo em relação ao Brasil. Em ambos os casos, a força das
instituições cede espaço à influência política e à tentativa de substituir
critérios objetivos pelo peso de interesses particulares. Quando regras passam
a ser relativizadas em benefício de determinados grupos, enfraquece-se a
confiança pública e compromete-se a credibilidade das próprias instituições.
É nesse
horizonte de articulações espúrias que se insere o progressivo desgaste do
bolsonarismo. Após sucessivas controvérsias envolvendo investigações, acusações
de desinformação, conflitos institucionais e situações suspeitas relacionadas à
atuação de integrantes da família Bolsonaro em questões de repercussão
internacional, o movimento ainda preserva uma parcela de apoiadores. Ao mesmo
tempo, o cenário político permanece em constante transformação, e os
desdobramentos desses acontecimentos seguem influenciando o debate público.
Embora
a campanha eleitoral ainda não tenha sido oficialmente iniciada, as pesquisas
de intenção de voto já indicam sinais de enfraquecimento de Flávio Bolsonaro,
sugerindo um desgaste progressivo do bolsonarismo. Ainda assim, a consolidação
dessa tendência dependerá, em grande medida, da forma como o eleitorado
avaliará esses acontecimentos nos próximos meses.
Apesar
desse rastro de incoerências e da série de investigações por corrupção
envolvendo candidatos da extrema direita, o bolsonarismo ainda sobrevive graças
à sua eficiente máquina de polarização digital, aos currais eleitorais
alimentados pelas emendas destinadas a prefeitos aliados, ao robusto fundo
eleitoral do PL e à ampla bancada que o sustenta na Câmara dos Deputados e no
Senado. Trata-se de uma bancada que pode até se reeleger, apesar de apresentar
uma atuação legislativa pífia em relação aos interesses da população, mas
altamente rentável para seus próprios feudos políticos e corporativos. Alguns
de seus integrantes, inclusive, já são alvo de investigações.
É o
caso do deputado Sóstenes Cavalcante (PL), investigado em operação da Polícia
Federal que apura a origem de quase R$ 500 mil encontrados em um apartamento
utilizado por ele. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também é
suspeito de exercer influência sobre a distribuição de recursos públicos, mesmo
sem ocupar mandato parlamentar. Diante desse cenário, o ministro do STF, Flávio
Dino, determinou o bloqueio do repasse de R$ 119 milhões em emendas
parlamentares.
Por sua
vez, o Rio de Janeiro é um dos exemplos mais eloquentes da dominação
bolsonarista, que contribuiu para conduzir o estado ao caos econômico, ético e
político em que se encontra, após sucessivas gestões marcadas por denúncias de
irregularidades, a exemplo do ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ), aliado
próximo de Flávio Bolsonaro. Castro tornou-se alvo de indiciamento pela Polícia
Federal e de denúncia da Procuradoria-Geral da República por suspeitas de
corrupção e desvio de recursos públicos destinados a programas sociais do
estado, além de ter sido condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral por abuso
de poder político e econômico nas eleições de 2022.
Entretanto,
não são apenas os expoentes do bolsonarismo que agem com truculência. Seus
aliados também impõem pesados ônus à população que os elegeu. O exemplo mais
mesquinho é o bloqueio da PEC que extingue a extenuante escala de trabalho 6×1.
Sob a presidência de Davi Alcolumbre (União-AP), o Senado mantém a proposta
paralisada, submetendo milhões de trabalhadores à manutenção desse regime de
trabalho, ao que seus críticos apontam como uma estratégia para impedir que o
governo Lula, que encampou essa pauta, obtenha uma vitória política antes das
eleições. Nessa leitura, o cálculo seria essencialmente eleitoral.
Nessa
perspectiva, o pleito de outubro será um termômetro sobre a capacidade da
sociedade brasileira de separar a retórica vazia (joio) dos fatos reais
(trigo). Patriotismo não se resolve vestindo a camisa da CBF ou prestando
continência para a bandeira americana. Exige respeito às leis, defesa do
emprego dos trabalhadores locais e altivez diplomática. Ao buscar o
guarda-chuva de Trump para salvar a própria pele, Flávio Bolsonaro assinou a
confissão de sua maior fraude, a de que o seu “Brasil acima de tudo” sempre
teve um asterisco que dizia “meus interesses privados primeiro”.
Todavia,
há sinais claros de esgotamento dessa vilania bolsonarista que, na obsessão
pelo poder acima de tudo, sabota o próprio país e o seu povo. Como se não
bastasse a covarde entrega material das riquezas nacionais, rifa até a alma da
nação à dominação estrangeira. A superação definitiva dessa saga, contudo,
dependerá da lucidez do eleitorado brasileiro ao depositar seu voto na urna em
outubro.
Fonte:Por
Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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