sábado, 11 de julho de 2026


 

Quantos bilhões custará reconstruir a Venezuela após terremotos, e quem pagará a conta?

Venezuela enfrenta dias trágicos desde os terremotos de 24 de junho, que deixaram milhares de mortos e feridos no norte do país.

Foram dias de muito esforço e desespero na busca por sobreviventes sob os escombros e no atendimento aos feridos em hospitais que já trabalhavam no limite antes da tragédia. Ao mesmo tempo, crescem as críticas à demora na resposta do governo venezuelano.

Mas a etapa mais difícil pode estar apenas começando.

Passada a fase de emergência, o país terá pela frente o desafio da reconstrução. Será preciso erguer novamente os prédios que desabaram e recuperar estradas e outras infraestruturas danificadas ou destruídas pelo que já é considerado o pior desastre da história recente da Venezuela.

Isso exigirá tempo e muito dinheiro. A questão agora é de onde virão esses recursos.

Até o momento, os valores anunciados pelo governo venezuelano, por países e por organismos multilaterais dispostos a ajudar estão muito abaixo do que especialistas estimam ser necessário para que o país se recupere dos danos causados pelos terremotos.

A árdua batalha está apenas começando.

<><> Quanto custará a reconstrução da Venezuela

O nível de destruição provocado pelo duplo terremoto é tão grande que ainda é difícil estimar não apenas a extensão dos danos, mas também quanto custará reconstruir as áreas atingidas: a capital, Caracas, e os estados de La Guaira, Carabobo, Miranda, Yaracuy e Aragua.

Além das vidas perdidas e dos ferimentos sofridos por milhares de sobreviventes, há os enormes prejuízos materiais. Ainda não existe um levantamento completo, mas as imagens de dezenas de prédios desabados e de estradas partidas ao meio no Estado de La Guaira dão uma dimensão da catástrofe.

As estimativas iniciais de diferentes instituições e especialistas variam, mas todas apontam que o esforço para reconstruir as áreas afetadas será gigantesco.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) estimou os danos físicos diretos em US$ 6,7 bilhões (cerca de R$ 36,2 bilhões). Com base em imagens de satélite, o órgão calculou a quantidade de estruturas nas áreas atingidas pelos terremotos e ressaltou que a estimativa pode cair para US$ 4,7 bilhões (cerca de R$ 25,4 bilhões) ou subir para US$ 8,7 bilhões (aproximadamente R$ 47 bilhões), principalmente em razão das perdas em moradias e outros bens. Ainda assim, o valor não contempla todos os danos à infraestrutura nem o custo da reconstrução de longo prazo.

Em comunicado, o Pnud afirmou que, à medida que novas informações forem reunidas, as estimativas do impacto total deverão ser revisadas. Segundo o órgão, esse impacto costuma variar entre 1,5 e três vezes o valor dos danos diretos.

Caso a estimativa de US$ 6,7 bilhões se confirme, ela equivaleria a cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país) da Venezuela, segundo o Pnud.

Mas outras projeções são ainda mais altas.

O economista venezuelano Asdrúbal Oliveros estima que o custo da reconstrução deverá ficar entre US$ 12 bilhões e US$ 15 bilhões (entre cerca de R$ 64,8 bilhões e R$ 81 bilhões), incluindo habitação, infraestrutura, comércio, transporte e logística entre os setores mais afetados.

Já Alejandro Grisanti, da consultoria venezuelana Ecoanalítica, disse à BBC News Mundo, serviço espanhol da BBC, que as suas estimativas iniciais apontam que o custo total da reconstrução ficará em torno de US$ 20 bilhões (em torno de R$ 108 bilhões).

<><> Os desafios da Venezuela

A primeira fase da emergência exigiu uma intensa operação para resgatar pessoas presas sob os escombros e atender os feridos. Também foi preciso abrigar as milhares de pessoas que perderam suas casas, além de garantir alimentação e transporte para os desabrigados.

Outra tarefa, talvez a mais dolorosa, é identificar os mortos e dar assistência às crianças que ficaram órfãs.

Nas próximas semanas, o foco deverá se voltar para a avaliação dos danos e o início da reconstrução de estradas, da rede elétrica e das moradias. E, segundo especialistas, a ajuda internacional será indispensável.

Os terremotos agravaram a situação de um país cuja economia já enfrentava anos de dificuldades. Esse cenário contribuiu para que a Venezuela registrasse uma das maiores ondas migratórias das últimas décadas.

Segundo a Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, o PIB venezuelano encolheu mais de 70% entre 2014 e 2021 por causa dos efeitos da queda da produção de petróleo, dos desequilíbrios fiscais e da hiperinflação. Antes mesmo dos terremotos, o Programa Mundial de Alimentos da ONU estimava, em seu relatório mais recente, que mais de 5 milhões de pessoas precisavam de assistência alimentar urgente no país.

Grisanti, da Ecoanalítica, disse à BBC News Mundo que, "embora seja preciso agradecer a solidariedade internacional demonstrada no primeiro momento, com o envio de equipes de resgate, os valores anunciados para ajudar a Venezuela a se reconstruir estão muito longe do que será necessário".

<><> Quais recursos já foram anunciados

A presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou que o governo destinará US$ 200 milhões (cerca de R$ 1,08 bilhão) de recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI) já alocados ao país. Ela também informou que o presidente da China, Xi Jinping, determinou o envio de US$ 17 milhões (cerca de R$ 92 milhões) para ajudar a Venezuela.

O governo dos Estados Unidos prometeu mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,62 bilhão) em ajuda humanitária direta ao país sul-americano.

Já o Fundo Central de Resposta a Emergências das Nações Unidas liberou imediatamente US$ 15 milhões (cerca de R$ 81 milhões) para a Venezuela.

Outros países e organizações diversas também anunciaram ajuda.

<><> Os limites e os obstáculos da ajuda

Mesmo somando todos os recursos anunciados até agora, o valor está muito abaixo das dezenas de bilhões de dólares que, segundo especialistas, serão necessários para reconstruir o país. "As primeiras cifras anunciadas pela ajuda internacional foram modestas", disse Grisanti, da Ecoanalítica.

Tamara Herrera, da consultoria Síntesis Financiera, afirmou à BBC News Mundo que "o desafio da reconstrução se soma aos problemas econômicos que a Venezuela enfrenta há anos".

Os economistas concordam que o governo venezuelano não tem condições de assumir sozinho o custo da reconstrução.

"O país não tem capacidade nem acesso ao financiamento internacional e agora se vê obrigado a buscar soluções sem saber como nem quando elas chegarão", afirmou Herrera.

Além de insuficientes, os recursos anunciados até agora esbarram em dúvidas sobre a capacidade das autoridades venezuelanas de administrá-los e na imagem negativa do governo chavista em muitos países, o que pode desestimular doadores e investidores internacionais.

"Quando há tanta desconfiança e tantas denúncias de corrupção, é natural que a primeira reação da comunidade internacional seja de cautela", disse Grisanti. "A falta de transparência do Estado venezuelano e as dúvidas sobre sua legitimidade dificultam a obtenção da ajuda internacional de que o país vai precisar."

Outro obstáculo é a dificuldade da Venezuela para obter crédito.

A dívida pública do país está tecnicamente em inadimplência desde 2017, quando o governo deixou de honrar os pagamentos dos títulos que havia emitido. Desde então, a Venezuela perdeu acesso aos mercados internacionais de crédito e acumula uma dívida estimada em cerca de US$ 170 bilhões (aproximadamente R$ 918 bilhões).

As sanções impostas pelos EUA também dificultam o acesso a financiamento externo.

Nesta semana, Delcy Rodríguez afirmou que a Venezuela negocia com os EUA e com o FMI a recuperação de recursos para reconstruir as áreas afetadas, mas ainda não há datas nem valores definidos.

Em maio, o FMI anunciou a retomada das relações com o governo venezuelano e informou que iniciará conversas para restabelecer sua atividade de supervisão no país. O organismo ressaltou, no entanto, que essa reaproximação "não implica financiamento imediato" e que será "um processo".

Durante a pandemia, a Venezuela deixou de receber os recursos extraordinários que o FMI disponibilizou a países para enfrentar a crise sanitária. Na época, o organismo afirmou que não podia determinar qual era o governo legítimo do país.

Naquele momento, os EUA e seus aliados reconheciam o líder da oposição Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. Mas desde então muita coisa mudou.

Nicolás Maduro foi capturado em Caracas e levado para Nova York em uma operação militar dos EUA, em 3/1 deste ano. A sua vice-presidente e principal aliada, Delcy Rodríguez, assumiu a Presidência e governa agora com o apoio explícito do presidente americano, Donald Trump.

O FMI não descarta conceder ajuda ao governo de Rodríguez. Diante do histórico recente, é provável que exija um plano rigoroso de supervisão e o cumprimento de uma série de condições. E, caso os recursos sejam liberados, será necessário administrá-los com transparência e definir prioridades entre as diferentes necessidades das regiões afetadas.

"Em outras catástrofes desse tipo, foi criada uma autoridade independente para garantir uma gestão eficiente e organizada dos recursos. Essa é uma fórmula que poderia ser adotada agora", propõe Grisanti, da Ecoanalítica.

Mesmo que isso aconteça, outro desafio será contar com profissionais qualificados para conduzir a reconstrução. "O governo enfrenta limitações de capital humano, e o país vem de anos de declínio econômico, deterioração ética e sanções", afirmou Herrera, da Síntesis Financiera.

Para Herrera, a situação enfrentada pela Venezuela, que pode marcar os próximos anos, pode ser resumida da seguinte forma: "Estamos diante de um Estado enfraquecido e tutelado, que hoje não tem condições de responder adequadamente. Por isso, a articulação com o restante da sociedade será indispensável."

¨      Delcy Rodríguez pede que Reino Unido libere ouro venezuelano para financiar reconstrução após terremotos

presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou nesta quinta-feira (09/07) o envio de uma solicitação formal ao Reino Unido pela liberação do ouro venezuelano depositado no Banco da Inglaterra e bloqueado desde 2019, e cujas reservas alcançariam um valor de cerca de US$ 2 bilhões.

O pedido foi oficializado mediante uma carta enviada ao rei Charles 3º e usa como principal argumento a necessidade do país sul-americano de utilizar seus recursos para financiar os trabalhos de reconstrução das regiões afetadas pelo duplo terremoto que sacudiu o país em 24 de junho.

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Em sua declaração, transmitida pelo canal público de televisão VTV, Delcy alegou que “esse ouro depositado no Banco da Inglaterra pertence ao nosso povo e deve ser usado para lidar com as terríveis e trágicas consequências deste duplo terremoto”.

A decisão de congelar os fundos da Venezuela foi tomada pelo Banco da Inglaterra, com respaldo do governo britânico, que à época passou a apoiar o reconhecimento do líder opositor Juan Guaidó como presidente do país sul-americano, desconhecendo que Nicolás Maduro era quem exercia o cargo naquele então.

Em sua declaração nesta quinta, a mandatária interina também fez um apelo “aos governos de todo o mundo que congelaram ativos para que os liberem, para que a Venezuela possa avançar com esse processo de recuperação o mais rápido possível”.

“A Venezuela possui recursos bloqueados em todo o mundo, os quais podem ajudar no processo de reconstrução das regiões danificadas, e também na recuperação da economia local que também está sendo afetada pela tragédia”, explicou a presidente da Venezuela.

A onda de terremotos na Venezuela é chamada de “duplo terremoto” porque teve início no dia 24 de junho com dois grandes sismos, de magnitude 7,2 e 7,5, em um intervalo de 39 segundos entre ambos, que atingiram principalmente a região de La Guaira – cidade onde foi o epicentro – e arredores.

Após os dois sismos originais, a zona passou a sofrer com réplicas constantes – ou seja, novos movimentos sísmicos, que correspondem à reacomodação das placas tectônicas cujo choque gerou os terremotos iniciais. A magnitude dessas réplicas tem variado entre 4 e 5 graus.

<><> Contato com FMI

Em outro momento da declaração, Delcy informou ter conversado por telefone com a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, com quem também teria abordado a questão dos fundos venezuelanos bloqueados em instituições bancários ao redor do mundo.

Sobre esse diálogo, Delcy se disse agradecida a Georgieva “pela compreensão em relação à liberação dos recursos venezuelanos bloqueados e mantidos pelo FMI”.

<><> Sepulturas dignas

Até o momento, os registros oficiais dos trabalhos de resgate contabilizam pouco mais de 3,8 mil vítimas fatais, além de 16,7 mil pessoas feridas e 6,4 pessoas resgatadas com vida dos escombros.

Porém, mas ainda há mais de 29 mil pessoas consideradas desaparecidas, e 17,9 mil que sobreviveram à tragédia, mas se encontram desabrigadas, após terem suas moradias destruídas.

O Serviço Nacional de Medicina Legal da Venezuela informou, também nesta quinta, sobre o início de uma operação especial no Cemitério La Esperanza, localizado no estado de La Guaira, para garantir um sepultamento digno e individualizado a todas as vítimas do duplo terremoto.

Em entrevista ao canal TeleSur, José Manuel Suárez Maldonado, prefeito do município de Vargas – um dos mais atingidos pela tragédia – relatou que o governo nacional venezuelano colocou à disposição das autoridades da zona “os mecanismos necessários para prestar assistência humanitária às famílias afetadas”.

“A ordem é para seguir rigorosamente os protocolos internacionais de saúde que regem esse tipo de emergência”, frisou o gestor municipal.

Contudo, Suárez Maldonado ressalta que, embora essas diretrizes internacionais permitam, em teoria, o uso de valas comuns em casos de perdas humanas massivas, o governo de Delcy Rodríguez “afirmou expressamente a decisão de descartar essa alternativa e optar por um procedimento que garante a identificação e a proteção individual de cada vítima e a assistência aos familiares sobreviventes”.

¨      O cemitério de emergência onde a Venezuela enterra vítimas dos terremotos

Os dois terremotos que atingiram o norte da Venezuela em 24 de junho deixaram um rastro de destruição como não se via no país há mais de um século.

Até o momento, o número de mortos já passa de 3,5 mil. Desse total, quase 300 corpos ainda não foram identificados.

Diante da situação, as autoridades venezuelanas precisaram criar um cemitério de emergência, localizado a cerca de uma hora de carro de La Guaira, a região mais afetada pelos tremores.

O cemitério de emergência foi construído em uma área afastada do cemitério de La Esperanza.

As longas fileiras de cruzes brancas, destinadas a marcar os túmulos das vítimas do terremoto, se espalham pelo topo de uma colina nessa região montanhosa, retratando a dimensão da tragédia que mantém a Venezuela de luto.

Para lá, chegam continuamente caminhões carregados com os corpos das vítimas do terremoto.

As retroescavadeiras abriram uma área ampla para receber os corpos que foram resgatados dos escombros.

A maquinaria pesada trabalha há mais de 10 dias escavando as valas.

"Começamos este trabalho, que tem sido feito com dedicação e amor, junto a uma equipe de voluntários e pessoas que realmente se empenharam porque isso partiu delas e porque conhecem a situação em que estamos", explicou à BBC Mundo o líder comunitário Elis Zabala.

As autoridades afirmam que não se trata de uma vala comum e que cada

Os familiares das vítimas não estão presentes para dar o último adeus, já que apenas alguns trabalhadores e funcionários estão autorizados a permanecer no local dos sepultamentos.

Cada túmulo conta com uma cruz, pedras brancas e um código de identificação que permite vincular o corpo a um registro e ao respectivo arquivo fotográfico.

No entanto, infelizmente, muitos dos corpos ainda não puderam ser identificados.

Uma das principais críticas feitas nos dias após os terremotos atingirem a Venezuela foi a falta de equipes oficiais de resgate para localizar os corpos das pessoas dadas como desaparecidas.

Aos 3,5 mil mortos confirmados até o momento, somam-se milhares de desaparecidos naquela que é considerada a pior catástrofe natural das últimas décadas do país.

 

Fonte: BBC News/Opera Mundi


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