Pessoas
negras são 86% das vítimas da letalidade policial, aponta relatório
As
mortes decorrentes de intervenção policial em nove estados atingiram seu maior
número desde 2019, início da série histórica. 3.104 vítimas eram pretas ou pardas, 86% do total. Ao
todo, foram registradas 4.330 mortes – um crescimento de 6,4% em relação ao ano
anterior. Os dados são do relatório Pele Alvo: Entre Racismo e
Letalidade, o Amanhã, publicado na última quarta-feira (01/07) pela Rede de
Observatórios da Segurança. O levantamento analisou informações de Amazonas,
Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
Do
total de vítimas, 2.804 tinham até 29 anos – quase 65%. Já as vítimas com menos
de 18 anos somaram 312, incluindo duas crianças de até 11 anos. Em quatro dos
estados analisados, todas as vítimas eram do sexo masculino; em outros quatro,
esse percentual passava de 95%. Francine Ribeiro, mestra em ciências humanas e
sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e uma das responsáveis pelo
estudo, explica que o perfil das vítimas reflete a lógica de atuação policial
nas ruas: “É o jovem negro periférico do sexo masculino, que tem maior
incidência nas prisões.” A pesquisadora também ressalta que as mortes têm
efeitos importantes sobre a saúde mental da população nas regiões mais
afetadas: “As pessoas têm medo, ansiedade e estão em constante situação de alerta.”
Repetindo
um padrão histórico, a Bahia teve o maior número absoluto entre os nove
estados: 1.570 mortos em intervenções policiais. Dos 365 dias de 2025, apenas
em 19 não houve vítimas. No estado, 94% dos mortos eram identificados como
pretos ou pardos – contra 80% na população total. Segundo o relatório, a alta
letalidade está ligada à disputa de mais de 20 facções por rotas e pontos de
venda de drogas.
Impulsionado
pela Operação Contenção, que matou 121
pessoas em uma tentativa do governo do Rio de Janeiro de conter o avanço do
Comando Vermelho, o estado atingiu 800 mortos, dois com até 11 anos de idade –
um aumento de 13,8% em relação a 2024. Enquanto as pessoas negras representam
57,8% da população do estado, correspondem a 89,5% das vítimas. O monitoramento
associa o crescimento do número de mortos à expansão de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro
Comando da Capital (PCC).
A
chegada do crime organizado ao Norte e ao Nordeste fez governos estaduais
dessas regiões adotarem medidas de militarização, o que refletiu em mais
mortes: Ceará, Maranhão e Pará registraram os maiores números de suas
respectivas séries históricas – 200, 142 e 632, respectivamente. Em Pernambuco,
foram 89 mortes, alta de mais de 30% em relação ao ano anterior, em um contexto
de discurso oficial de combate à criminalidade e de maior investimento em
tecnologia e segurança pública.
Maranhão
e Ceará tiveram mais de 54% das vítimas sem raça informada. Para a
pesquisadora, essa ausência de dados dificulta a formulação de políticas
públicas de enfrentamento à letalidade policial. Segundo a responsável pelo
estudo, o fenômeno se repete há anos e reflete uma “falta de vontade de mudar
essa realidade”. Já Pará e Amazonas – com 81 mil e 491 mil indígenas,
respectivamente – não registraram nenhuma morte desse grupo. “O estado acaba
por enquadrar os indígenas como pardos”, explica ela.
No
Ceará, um decreto do governador alterou a nomenclatura de “morte por
intervenção policial” para “lesão corporal/homicídio decorrente de oposição à
intervenção”, trocando também os termos usados para os envolvidos: a vítima
passou a ser chamada de “opositor”, e o policial, de “interventor”. O estado
registrou 200 mortos em 2025, o maior número de sua série histórica. Francine
afirma que a mudança reforça o que já ocorre na prática: o favorecimento da
impunidade dos agentes, que, sob essa lógica, atuam apenas para se defender. “A
utilização de palavras que condenam um lado e inocentam o outro não contribuem
para a busca da justiça”, diz.
No
mesmo ano em que Belém recebeu representantes de quase 200 países na conferência do clima, o Pará atingiu o
recorde de 632 mortes. Quase dois terços das vítimas tinham entre 12 e 29 anos,
e 93,3% eram negras. Para ela, o aumento pode estar ligado a uma tentativa de
reforçar a segurança no estado, mas o efeito prático é o oposto: “Aumentar o número
de policiais é uma coisa; aumentar o número de policiais com uma lógica
truculenta de violência e de letalidade é justamente o contrário do que se
pensa sobre segurança.”
Com 834
mortes, das quais 499 vítimas eram negras, São Paulo atingiu o maior
número da série histórica, na contramão dos índices de criminalidade do estado.
Dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) mostram queda de 3,9% nos
homicídios em 2025, além de redução em outros indicadores. Francine explica que,
nos últimos anos, houve recuo nos investimentos em inteligência policial e em
políticas como as câmeras corporais, acompanhado de mais
gastos com armamento, o que dificulta a responsabilização de policiais
envolvidos em mortes e contribui para o aumento dos casos.
O Piauí
foi o único estado a registrar redução na letalidade policial: 20 mortes, uma
queda de mais de 50% em sete anos. O relatório associa esse contraste a
iniciativas antirracistas na Polícia Militar do estado, embora alerte para o
crescimento de mortes por causas indeterminadas no período.
Medidas
como as adotadas no Piauí apontam caminhos possíveis para reverter o
crescimento das mortes em intervenções policiais. Francine cita o exemplo de
São Paulo, em que as câmeras corporais ajudaram a reduzir o número de vítimas
até 2023, quando os investimentos nessa política caíram, e os números voltaram
a subir.
¨ RACISMO NA JUSTIÇA: A
justiça reconvexa da Roma Negra. Por Thales Vieira
“Reconvexo”
é um neologismo criado por Caetano Veloso evocando uma imagem que junta dois
movimentos a princípio opostos, o que se curva para dentro e o que se projeta
para fora ao mesmo tempo. É a palavra certa para descrever o que se passa há
meses num fórum de Camaçari, região metropolitana de Salvador, a Roma Negra,
termo cunhado por Mãe Aninha do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.
Um juiz
olhou para uma exposição de fotografias no prédio onde trabalha e decidiu que
uma delas incomodava o Estado. Era a imagem de uma sacerdotisa do Candomblé,
bem ao lado da imagem de um santo católico. Mandou retirar somente a primeira,
invocando a laicidade, esse princípio que promete não pertencer a religião
alguma para poder, em tese, servir a todas.
O Tribunal de Justiça da Bahia abriu
um Processo Administrativo Disciplinar contra o magistrado Cesar Augusto Borges
de Andrade,
depois de representações do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões
Afro-Brasileiras e da própria Makota Solange Borges, retratada na foto
removida. Se o processo avançar, será a primeira vez na história do país que um
juiz perde o cargo por racismo. O advogado da sacerdotisa resumiu o momento com
uma frase que soa mais a diagnóstico do que a comemoração, dizendo que ninguém
vibra ao ver alguém perder um cargo, mas que a ausência de formação
antirracista na magistratura obriga a sociedade a recorrer a processos
disciplinares para lidar com o que deveria ter sido resolvido bem antes, na
porta de entrada.
É
justamente sobre essa porta de entrada que o Observatório da Branquitude acaba de
concluir uma pesquisa batizada Os Improváveis da
Roma Negra,
sobre juízes e promotores no Tribunal de Justiça e no Ministério Público da
Bahia, estado em que os brancos são 19,6% da população e ocupam 58% dos cargos
de juiz e desembargador, além de 66% das vagas de promotor e procurador. A
presença branca entre magistrados é três vezes maior do que na população geral,
e no Ministério Público passa desse número. Alcançar paridade racial exigiria
mais que dobrar o número de promotores e procuradores negros hoje em exercício.
Durante
20 anos seguidos, entre 1989 e 2009, magistrados autodeclarados pretos não
chegaram a 1% no tribunal baiano. As cotas raciais, adotadas em 2014 por
iniciativa própria das duas instituições, romperam esse ciclo, e a presença
preta já soma 15,4% entre os que entraram a partir de 2020. É avanço real.
Também é avanço que, no ritmo atual, levará décadas até virar paridade.
De
acordo com o levantamento, os custos de se preparar para esses concursos pode
chegar a R$71.240, somando taxa de inscrição, materiais, deslocamento e
hospedagem aos gastos invisíveis da dedicação exclusiva aos estudos e dos
cursinhos, que sozinhos custam até R$30.000 por ano. A taxa de inscrição, alvo
favorito do debate público, representa menos de 0,5% desse total. No concurso
do Ministério Público de 2023, nenhum candidato isento da taxa chegou à etapa
final. A isenção é necessária, mas nunca foi suficiente.
Depois
vem a prova oral, fase em que o rosto do candidato aparece diante da banca, e
as notas caem para todo mundo, mas caem mais para pretos, pardos e pessoas com
deficiência. Uma das magistradas entrevistadas contou que alisou o cabelo na
véspera de sua prova, depois de saber que uma camisa vermelha listrada quase
reprovou um colega por parecer “comunista demais” a um examinador. Se uma
camisa podia pesar tanto, o que faria um penteado afro. Foi a última vez que
fez o cabelo a ferro, disse ela.
Além do
levantamento de dados, entrevistas foram realizadas com juízes e promotores
negros que revelam que o filtro racial não desaparece depois da aprovação. No
cotidiano institucional seguem o estranhamento, a invisibilidade, o teto que
trava a progressão à segunda instância, sobretudo para as mulheres negras.
Mesmo em uma posição de estima social, o racismo não desaparece.
Enquanto
isso, do outro lado do mesmo balcão, 87% das pessoas cumprindo medida
restritiva de liberdade na Bahia são negras, contra 10% de brancas. O estado
mais negro do país segue sendo julgado por instituições desproporcionalmente
brancas, e segue prendendo, proporcionalmente, quase só corpos negros.
É esse
o pano de fundo sobre o qual um juiz decidiu que a imagem de uma mãe de santo
perturbava mais a ordem pública do que a imagem de um santo católico na parede
ao lado. A cena tem a consistência de uma lógica bem treinada, a de uma
branquitude que se pensa neutra justamente porque nunca precisou provar sua
neutralidade diante de ninguém.
Mas a
Bahia que interessa de verdade é a Bahia que reza a novena de Dona Canô, que
ergue seus próprios altares, inventa seus próprios ritos e decide por seu povo
o que é sagrado, sem pedir licença a quem só tem a si e sua pele alva como
referência. Esse sistema de justiça não pega e nem chega a ver essa Bahia que
há de ter uma justiça que seja a cara do seu povo.
Fonte:
Por Pedro Lukas Costa, para Le Monde Diplomatique Brasil

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