Maternidade:
como valorizar o trabalho de cuidado?
Retratar
o trabalho de cuidado como algo fácil, que qualquer um pode fazer sozinho, é
uma forma de justificar a desvalorização e a baixa remuneração dos cuidadores.
Ao naturalizar o trabalho de cuidar dos filhos e criá-los, a sociedade pode
obscurecer e mistificar o que ele realmente é: a infraestrutura que sustenta o
capitalismo. Sem trabalhadores, não há trabalho. O maior setor de nossa
economia é, na verdade, o trabalho não remunerado. Em 2016, o Escritório
Nacional de Estatística do Reino Unido [ONS, na sigla em inglês] revelou que o
valor do cuidado infantil não remunerado — maternidade, paternidade, criação de
filhos — era de 351,7 bilhões de libras. Ao todo, o trabalho doméstico não
remunerado equivalia a 63,1% do produto interno bruto (PIB).
A forma
como o PIB é calculado obscurece a realidade e penaliza os cuidadores. Em nossa
sociedade, os salários, benefícios e acessos a recursos estão todos atrelados à
produção econômica — exceto quando se trata de um trabalho de cuidado. (Os
problemas com o PIB são inúmeros. A métrica não inclui os custos da degradação
dos habitats humanos em todo o planeta, a devastação ambiental ou o sofrimento
de pessoas em condições precárias de trabalho ao redor do mundo.)
Enquadrar
o trabalho de cuidado não remunerado como uma fonte de satisfação pessoal
individual oculta o fato de que é também um bem público com imensos benefícios
sociais. As crianças crescem e passam a pagar impostos, trabalhar em serviços
públicos, sustentar a geração mais velha, quitar a dívida pública e manter a
sociedade funcionando.
É fácil
entender por que há tanta relutância em reconhecer os imensos desafios e
exigências do trabalho materno. Isso facilita pagar menos por ele — ou nada.
Isso possibilita que homens e empregadores “se beneficiem gratuitamente de
contribuições voluntárias para a produção e manutenção do capital humano e
social”, segundo a economista norte-americana Nancy Folbre.
O
verdadeiro custo da desigualdade é obscurecido pelos cálculos de renda
nacionais, que tratam o trabalho de cuidado e o investimento em capacidades
humanas como apenas mais uma forma de consumo, em vez de um investimento
fundamentalmente importante em capital humano e social.
Na
verdade, o trabalho da maternidade era muito mais difícil do que qualquer
emprego remunerado que eu havia tido (mas é claro que nenhum deles envolvia
salvar vidas). Não havia intervalos, e eu às vezes trabalhava dezesseis horas
ou mais por dia.
Sei que
sou privilegiada por poder trabalhar de casa enquanto as crianças são pequenas,
embora eu me preocupe com o impacto da precariedade freelance em nossa
segurança econômica a longo prazo. Também reconheço que, apesar de ser
introvertida e propensa a ser feliz trabalhando em casa, a cultura 316 do
escritório e os colegas de trabalho fornecem um enorme capital social, além de
benefícios para a saúde e o bem-estar da maioria das pessoas. De fato,
trabalhar fora de casa é essencial para o bem-estar de muitas mulheres.
Mas,
para a maioria das mães, as condições de trabalho entram em conflito direto com
a vida familiar. A cultura de trabalho não se ajustou à necessidade e ao desejo
das mulheres de trabalhar, nem forneceu aos pais oportunidades adequadas para
assumirem responsabilidades de cuidado e equalizar a divisão de trabalho. Os
homens ainda não estão carregando sua parcela justa de obrigações, e as
mulheres continuam impulsionando a economia por meio do trabalho reprodutivo.
Essa é, como Silvia Federici e outras feministas descreveram, “a organização
capitalista da reprodução da força de trabalho”.
A forma
como abordamos o trabalho reprodutivo — como tratamos corpos e mentes das mães
— é parecida com a maneira com que destruímos o mundo vivo, os habitats, a vida
humana, a saúde e o bem-estar, no fetiche de crescer a qualquer custo. Fazemos
isso a serviço de um capitalismo extrativista que usa e explora os “bens
públicos” — em outras palavras, as vidas humanas e não humanas — a fim de
conferir vantagens e poder àqueles que estão no topo.
Há uma
foto no Reddit com a legenda: “Reprodução no capitalismo tardio”. Uma mulher
está reclinada em uma poltrona com um bebê mamando em seu peito. Diante dela há
um computador e anotações em um bloco de papel. Ela adormeceu. De que outras
formas podemos descrever a reprodução no Capitaloceno?
É
voltar a trabalhar duas semanas depois de dar à luz, temendo que a cicatriz da
cesariana se abra e os órgãos caiam para fora (uma em cada quatro mulheres nos
Estados Unidos voltam a trabalhar catorze dias após dar à luz).
É viver
no crédito para poder tirar um tempo do trabalho para cuidar dos filhos. São
duas semanas de licença-paternidade, se tanto. É mentir a respeito do motivo de
ter que sair mais cedo do trabalho para esconder que há crianças em casa que
precisam de você. É o aumento do custo de vida, incluindo aluguéis e hipotecas
exorbitantes, que exigem que ambos os pais trabalhem em período integral. É
penalizar financeiramente os cuidadores que pedem para se afastar do trabalho
em período integral, por meio de sistemas de pensão e tributação injustos. É
poluição do ar. É desigualdade de acesso a ambientes naturais restauradores,
com crianças que raramente brincam em espaços de natureza.
São
milhares de mães querendo incorporar o trabalho em suas vidas, mas não
conseguindo. É não ter filhos porque os governos estão falhando em levar a
sério a crise climática, ou porque os salários caíram, ou porque você não terá
direito a licença remunerada. São 4,3 milhões de crianças vivendo na pobreza no
Reino Unido. É quase metade das crianças em famílias monoparentais vivendo na
pobreza. É quase metade das crianças em famílias negras ou de minorias étnicas
vivendo na pobreza. É a ampliação e o aprofundamento das desigualdades de saúde
sob o neoliberalismo, à medida que mulheres pobres têm que trabalhar mais
enquanto cuidam das famílias, com suporte social e infraestrutura cada vez
menores.
São
telas de televisão em clínicas pré-natais exibindo anúncios de uma lixa
elétrica para unhas de bebê — com duas velocidades de rotação e os modos
“esquerda” e “direita” por 29,99 libras, a escolha mais segura para você e seu
bebê, frete grátis incluso — em vez de informações sobre saúde materna.
É
promover o aleitamento materno porque é “de graça”, quando na verdade pode ser
um trabalho em tempo integral. São mães recebendo salários mais baixos do que
homens ou mulheres sem filhos. São mães tendo menos chances de serem
contratadas do que homens ou mulheres sem filhos. São pais aceitando empregos
extras à noite para compensar a perda de uma segunda renda. É a privatização
das creches para crianças menores de três anos e a falta de uma estratégia
nacional adequada de cuidados infantis. São os rebaixamentos, em vez de
promoções, para mulheres em “idade fértil” (40% dos empregadores do Reino Unido
evitam contratar mulheres de certa idade).
É o
corte de benefícios que penaliza mães solo.
Não
precisa ser dessa forma. Alguns países do Norte Global valorizam o trabalho de
cuidado. Em Berlim, há centros familiares em todos os bairros. Na Suécia, pais
e mães podem ficar em casa com um filho doente por até 120 dias por ano, até as
crianças completarem doze anos. Na Finlândia, tanto pais quanto mães recebem
quase sete meses de licença remunerada. Na Romênia as mães têm direito a dois
anos de licença remunerada. Na Noruega, períodos de licença remunerada do tipo
“use-ou-perca” combatem o estigma vivido pelos pais que desejam tirar um tempo
do trabalho para cuidar de suas famílias. Na Dinamarca e em alguns outros
países, o cuidado infantil nos primeiros anos é subsidiado pelo Estado
(enquanto isso, o Reino Unido tem o segundo cuidado infantil mais caro do
mundo). Essas políticas valorizam a educação e a criação das crianças — e
deixam os cidadãos mais felizes. Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca estão
consistentemente no topo do ranking dos países mais felizes, segundo o
Relatório Mundial da Felicidade, da ONU.
Mas, na
maioria dos países ricos do Ocidente, as relações de cuidado não são vistas
como benéficas ao bem público, então convém que sejam mantidas invisíveis — com
mães desempenhando um trabalho não remunerado, privado e solitário, criando os
futuros cidadãos que, esperamos, serão gentis ao limpar nossas bundas no asilo.
Fonte:
Por Lucy Jones, em Outra Saúde

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