segunda-feira, 6 de julho de 2026

Washington Araújo: O fracasso chamado desenvolvimento

Passei a desconfiar da palavra desenvolvimento toda vez que ela aparece cercada de gráficos, siglas, metas e discursos satisfeitos. Em geral, quanto mais elegante a apresentação, menos se pergunta quem ficou de fora. O livro organizado por Arash Fazli e Amitabh Kundu acerta exatamente nesse ponto: desmonta a ilusão de que progresso possa ser calculado apenas por renda, produtividade, infraestrutura e crescimento econômico.

Há décadas, governos, bancos, consultorias e organismos internacionais repetem a mesma liturgia. Anunciam projetos, exibem números, prometem inclusão, inauguram obras e, depois, seguem adiante. Ficam para trás trabalhadores sem proteção, mulheres sobrecarregadas, rios negociados como mercadoria, povos tradicionais empurrados para a margem, jovens tratados como mão de obra barata e comunidades convocadas apenas para legitimar decisões já tomadas.

Leio esse documento como uma acusação direta contra a arrogância tecnocrática. Desenvolvimento sem justiça é só administração da desigualdade. Sustentabilidade sem mudança real no modo de produzir, consumir e governar é propaganda. Participação popular usada como ornamento de relatório é fraude elegante. E crescimento econômico que exige silêncio dos pobres merece outro nome: espoliação.

A contribuição mais forte do livro está em recolocar o tempo dentro da política. Holly Hanson trabalha a ideia de ética duracional, isto é, a capacidade de ligar passado, presente e futuro. Parece elementar, mas boa parte das políticas públicas fracassa exatamente porque opera como se o mundo começasse no dia da assinatura do contrato. O projeto dura três anos; a comunidade viverá cinquenta anos com os efeitos dele. O consultor entrega o relatório; a família local permanece com a água contaminada, o emprego precário ou a terra perdida.

Essa é uma ferida brasileira também. Conhecemos bem a linguagem das grandes promessas. Já nos venderam integração nacional, modernização agrícola, choque de gestão, parceria público-privada, mineração responsável, transição energética e inovação social. Muitas dessas expressões nasceram bonitas. Algumas se tornaram senha para concentrar renda, destruir vínculos comunitários e empurrar os custos ambientais para quem nunca participou da decisão.

Augusto Lopez-Claros recoloca pobreza e desigualdade no lugar de onde nunca deveriam ter saído. Não basta aliviar a miséria por alguns anos, enquanto a máquina que fabrica exclusão continua intacta. Ritu Dewan mostra como leis trabalhistas podem transformar precarização em norma. Sudeshna Sengupta revela o peso brutal carregado por mulheres do setor informal, presas entre trabalho mal pago, cuidado doméstico invisível e abandono estatal.

Não falo disso como quem observa um problema distante. No Brasil, essa cena tem endereço, sotaque, cor, gênero e CEP. Está na trabalhadora que atravessa a cidade antes do amanhecer, no entregador que paga a própria ferramenta de exploração, na agricultora familiar sem assistência técnica, no jovem que recebe curso de empreendedorismo quando precisava de escola decente, transporte público e emprego protegido.

O livro também confronta outra mentira persistente: a de que tradição significa atraso. Pastores do Himalaia, artesãos indianos, comunidades Bhil Adivasis, guardiões de sementes, agricultores guiados por saberes locais e povos que preservam a biodiversidade aparecem como portadores de inteligência social acumulada. A modernização predatória costuma olhar para essas experiências com condescendência. Depois destrói solos, seca rios, padroniza alimentos, mata idiomas e convoca seminários para lamentar a crise que ajudou a produzir.

A pergunta de Paul Hanley — se conseguiremos alimentar mais de 10 bilhões de pessoas de modo sustentável — deveria constranger os donos das respostas fáceis. Não haverá saída apenas com máquinas, fertilizantes, aplicativos e algoritmos. A produção de alimentos exigirá ciência, sim, mas também justiça fundiária, agroecologia, conhecimento indígena, cooperação local e governos dispostos a enfrentar interesses poderosos. Sem isso, a fome continuará sendo tratada como acidente, quando é decisão política acumulada.

G.N. Devy amplia ainda mais o debate ao tratar das línguas ameaçadas. Quando uma língua desaparece, perde-se uma forma inteira de organizar memória, afeto, trabalho, território e pertencimento. O mundo fica mais pobre por dentro. Nenhum país pode se dizer desenvolvido enquanto transforma povos vivos em nota de rodapé de sua própria história.

Saio dessa leitura com uma certeza dura: precisamos parar de aplaudir qualquer crescimento que venha acompanhado de devastação social. O verdadeiro teste do desenvolvimento não está no tamanho da obra, no brilho do investimento ou na fotografia da inauguração. Está na vida concreta de quem trabalha, planta, cuida, ensina, pesca, costura, cria filhos, protege nascentes e mantém de pé aquilo que a economia oficial raramente enxerga.

Desenvolvimento digno começa quando perguntamos quem decide, quem ganha, quem perde e quem carregará as consequências. Sem essas perguntas, progresso é apenas uma palavra cara a serviço de velhos privilégios. Com elas, ainda poderemos transformar política pública em reparação, economia em cooperação e futuro em compromisso com os que chegam depois de nós.

¨      O brasileiro é desenvolvimentista na economia e conservador nos costumes. Por Leonardo Attuch

A mais recente pesquisa Datafolha sobre o perfil ideológico dos brasileiros merece uma leitura que vá muito além da manchete segundo a qual a direita voltou a superar a esquerda na identificação política da população. Quando se observam os dados em profundidade, a principal conclusão é outra: o brasileiro continua sendo essencialmente desenvolvimentista na economia, mas revela posições cada vez mais conservadoras nos costumes.

Essa combinação pode parecer contraditória para quem enxerga a política a partir de categorias importadas de outras sociedades. No entanto, ela faz enorme sentido na história brasileira.

O brasileiro quer um Estado capaz de oferecer saúde pública de qualidade, educação eficiente, infraestrutura moderna, crédito para a produção, proteção ao emprego, investimentos e crescimento econômico. Em outras palavras, deseja um Estado forte nas áreas em que o mercado fracassou historicamente.

Ao mesmo tempo, manifesta crescente desconforto com aquilo que percebe como interferência excessiva em temas relacionados ao comportamento, à família, à religião ou à sexualidade. Não significa necessariamente intolerância, mas uma disposição maior para defender valores tradicionais e cobrar prioridade para problemas considerados mais urgentes, como segurança pública, renda e qualidade dos serviços públicos.

É justamente essa aparente contradição que ajuda a explicar a política brasileira das últimas décadas.

Durante os anos 1990, Fernando Henrique Cardoso costumava dizer que sonhava com um Brasil liberal na economia e liberal nos costumes. Era uma formulação coerente com a onda neoliberal que varria o mundo após o fim da Guerra Fria. A experiência brasileira, contudo, mostrou os limites desse projeto.

As privatizações, a desindustrialização, a financeirização da economia e a redução da capacidade de investimento do Estado não produziram o salto de desenvolvimento prometido. Ao contrário, o país perdeu dinamismo industrial, aumentou sua dependência da exportação de commodities e viu crescer a desigualdade regional e social.

O fracasso do receituário neoliberal produziu um efeito curioso.

Como defender abertamente a redução do Estado deixou de ser eleitoralmente atraente para grande parte da população, setores da direita e, sobretudo, da extrema direita passaram a deslocar o centro do debate para a chamada guerra cultural.

Foi nesse ambiente que ganharam força slogans como o combate ao “kit gay”, ao “banheiro unissex” e a outras pautas simbólicas que passaram a dominar campanhas eleitorais e redes sociais. Independentemente da existência concreta ou da dimensão real desses temas, eles cumpriram uma função política muito eficiente: mobilizar o eleitorado em torno de questões identitárias enquanto o verdadeiro programa econômico permanecia sendo a defesa da agenda neoliberal.

Em outras palavras, o conservadorismo comportamental tornou-se, muitas vezes, o veículo para a implantação de um projeto econômico que dificilmente venceria eleições se fosse apresentado de forma isolada.

A pesquisa Datafolha mostra, porém, que essa estratégia não altera um dado essencial. Quando o assunto é economia, a maioria dos brasileiros continua esperando que o governo lidere os investimentos, fortaleça a infraestrutura, preserve direitos trabalhistas e ofereça serviços públicos de qualidade.

O brasileiro pode desejar menos interferência estatal em aspectos da vida privada, mas continua esperando muita presença do Estado quando o assunto é desenvolvimento nacional.

Essa talvez seja a principal lição para a esquerda brasileira.

Historicamente, foi a esquerda que defendeu a industrialização, os bancos públicos, a Petrobras, a Eletrobras, o BNDES, a ciência nacional, as universidades públicas, o SUS e os grandes projetos de infraestrutura. É esse campo político que preserva, de forma mais consistente, uma visão desenvolvimentista para o país.

Mas isso não significa que a esquerda esteja automaticamente em sintonia com a sociedade em todas as dimensões.

Se desejar construir maiorias estáveis nas próximas décadas, precisará compreender que o eleitor brasileiro não necessariamente acompanha a velocidade com que determinados debates comportamentais são formulados em setores acadêmicos, partidários ou militantes.

Isso não implica abandonar princípios democráticos, direitos individuais ou o combate à discriminação. Tampouco significa abrir mão da defesa das minorias ou da igualdade perante a lei.

Significa reconhecer que a política exige capacidade de interpretar a sociedade como ela é, e não como determinados grupos gostariam que ela fosse.

Governar um país continental como o Brasil exige construir consensos amplos em torno das prioridades nacionais. E essas prioridades continuam sendo crescimento econômico, geração de empregos, segurança pública, educação de qualidade, atendimento digno na saúde, infraestrutura moderna e oportunidades para todos.

A pesquisa do Datafolha talvez não revele uma guinada definitiva do Brasil para a direita. Ela pode estar revelando algo mais complexo e mais profundo: um país que continua desenvolvimentista na economia, mas que deseja preservar valores tradicionais na esfera privada.

Quem conseguir compreender essa combinação terá maiores condições de liderar o Brasil nas próximas décadas. Afinal, a política democrática raramente recompensa quem tenta mudar o povo; costuma premiar quem primeiro aprende a entendê-lo.

¨      Força da balança comercial vem transformando o Brasil em um país estruturalmente superavitário

A economia brasileira consolida uma transformação estrutural em suas contas externas. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) elevou para US$ 90 bilhões a projeção de superávit da balança comercial em 2026, um resultado que, se confirmado, será o segundo maior da história do país. O desempenho reforça uma característica cada vez mais presente na economia brasileira: a geração recorrente de grandes superávits comerciais, que fortalecem a posição financeira do Brasil diante do mundo.

Os dados foram divulgados pelo MDIC e noticiados inicialmente pela Reuters. A nova estimativa representa um avanço expressivo em relação à projeção de abril, quando o governo esperava um saldo de US$ 72,1 bilhões. O resultado projetado também supera em 32,3% o superávit registrado em 2025, de US$ 68,1 bilhões.

Mais do que um número expressivo, a manutenção de elevados superávits comerciais tem importância estratégica para a economia brasileira. Ao exportar mais do que importa, o país amplia a entrada líquida de dólares, fortalece suas reservas internacionais, reduz a vulnerabilidade a choques externos e contribui para a estabilidade do câmbio. Essa dinâmica também melhora a percepção de risco do Brasil pelos investidores e amplia a capacidade de financiamento do crescimento econômico.

A melhora das projeções decorre da aceleração tanto das exportações quanto das importações, em um contexto de maior dinamismo da atividade econômica. “Observamos uma aceleração dos fluxos, tanto de exportação, quanto de importação, que ajudaram a elevar esse valor previsto”, afirmou o diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDIC, Herlon Brandão.

<><> Exportações batem recordes

Segundo a nova estimativa, o Brasil deverá exportar US$ 394,4 bilhões em 2026, valor US$ 30,2 bilhões superior ao previsto anteriormente. As importações também cresceram nas projeções, alcançando US$ 304,4 bilhões, alta de US$ 12,3 bilhões em relação à estimativa de abril.

O desempenho confirma que o fortalecimento da balança comercial não decorre de retração da economia doméstica, mas de uma expansão ainda mais vigorosa das vendas externas, preservando um saldo comercial elevado mesmo diante do aumento das importações.

Em junho, o Brasil registrou superávit comercial de US$ 9,758 bilhões, praticamente em linha com as expectativas do mercado. As exportações alcançaram US$ 36,277 bilhões, crescimento de 24,9% sobre junho de 2025 e o maior valor já registrado para qualquer mês da série histórica. As importações somaram US$ 26,520 bilhões, avanço de 14,4%.

<><> Petróleo impulsiona desempenho

O principal destaque das exportações foi a indústria extrativa, cujos embarques cresceram 58,4%, impulsionados principalmente pelas vendas de petróleo bruto ao exterior.

Segundo Herlon Brandão, a valorização internacional da commodity teve papel decisivo. “O preço do petróleo, na comparação interanual, junho deste ano contra junho do ano passado, cresceu 67,6%. Então, o preço influenciou muito a receita. O volume cresceu também, 6,8%, e fez com que o valor de exportação de petróleo crescesse.”

O crescimento das exportações ocorreu mesmo após a adoção, pelo governo federal, de uma alíquota de 12% sobre as exportações de petróleo, implementada em março para estimular a oferta do produto no mercado interno em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. A ampliação das vendas externas também tende a elevar a arrecadação pública, ainda que exista uma defasagem de aproximadamente dois meses para o recolhimento do tributo.

Além do petróleo, a agropecuária registrou expansão de 18%, impulsionada pelo aumento das exportações de soja. Já a indústria de transformação cresceu 14,7%, com destaque para carnes, combustíveis e farelo de soja.

<><> Economia mais sólida

Do lado das importações, o crescimento também reflete maior atividade econômica. As compras de bens de consumo avançaram 34%, enquanto combustíveis cresceram 11,6%, bens intermediários 10,9% e bens de capital 5,7%.

No acumulado do primeiro semestre, o Brasil registrou superávit comercial de US$ 42,357 bilhões, significativamente superior aos US$ 30,187 bilhões observados no mesmo período de 2025.

A sequência de grandes saldos comerciais reforça uma mudança estrutural na economia brasileira. Com reservas internacionais robustas, contas externas equilibradas e capacidade crescente de gerar divisas por meio das exportações, o país amplia sua margem de segurança diante das oscilações da economia global e cria condições mais favoráveis para sustentar investimentos, crescimento econômico e estabilidade macroeconômica nos próximos anos.

 

Fonte: Brasil 247

 

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