É
urgente resfriar nossas cidades
Morando
no Rio de Janeiro, há mais de 30 anos, percebo claramente que a cidade está
cada vez mais quente. Não é o calor de praia, aquele que a gente escolhe
enfrentar de sunga e protetor solar. É o calor que sobe do asfalto às seis da
tarde, que não dá trégua nem depois que o sol se põe, que faz o ventilador
girar a noite inteira sem realmente resfriar nada.
Se você
mora em uma metrópole brasileira, provavelmente sabe exatamente do que estou
falando e, nos últimos anos, esse calor tem chegado mais cedo, ficado mais
tempo e batido mais recordes.
Não é
impressão. O Brasil viveu dez ondas de calor em 2024, oito em 2023 e sete em
2025, mesmo sem a ajuda do El Niño. E agora, com a possível formação de um
“Super El Niño” na segunda metade de 2026, meteorologistas já falam abertamente
em recordes de temperatura pela frente. Virou comum ouvir especialistas
descreverem o fenômeno como um “desastre térmico”: um tipo de tragédia que não
aparece em imagens de enchente ou deslizamento, mas que se instala
silenciosamente nos hospitais, nas casas superaquecidas e na rotina de quem
trabalha na rua.
E é
justamente nas cidades que esse problema fica mais evidente. Foi pensando
nisso, revisitando um rascunho de ideias que eu vinha anotando sobre o tema e
as matérias que já publicamos, que resolvi organizar essas reflexões neste
texto.
É claro
que não tenho a pretensão de esgotar o assunto e nem esse é o objetivo. Mas
acho que podemos refletir juntos.
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O que são as ilhas de calor e porque elas pioram tudo
Você já
sentiu que o seu bairro parece “mais quente” do que o parque ou a praia mais
próxima? Chamamos isso de ilha de calor, o fenômeno pelo qual áreas com muito
concreto, asfalto e pouca vegetação retêm e irradiam calor de forma muito mais
intensa do que regiões mais verdes ao redor. Bairros com trânsito intenso,
prédios colados uns nos outros e quase nenhuma árvore acabam registrando
temperaturas visivelmente mais altas do que zonas rurais ou parques próximos.
O
problema é que as grandes cidades brasileiras ainda carregam fragilidades
enormes nesse campo. Falta arborização, faltam estratégias estruturadas de
resfriamento urbano, e sobra concreto.
Um
levantamento recente mostrou que a maioria dos municípios brasileiros ainda não
tem sequer um plano de ação formal para lidar com o calor extremo e isso apesar
de o risco recair, de forma desproporcional, sobre idosos, pessoas com doenças
crônicas e moradores de regiões mais vulneráveis, como aponta a Fiocruz.
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Resfriamento passivo
Antes
de pensarmos em qualquer solução tecnológica, existe algo mais simples e mais
barato, que costuma ficar em segundo plano no debate público: o resfriamento
passivo. Isso significa investir em arborização urbana de verdade, em telhados
e fachadas mais claras (que refletem calor em vez de absorvê-lo), em corredores
de ventilação entre os prédios, em mais áreas permeáveis e menos asfalto.
É um
tipo de solução que não aparece em nenhuma inauguração vistosa, mas que muda a
temperatura de um bairro inteiro em poucos graus, o que pode ser suficiente
para reduzir internações, mortes prematuras e o sofrimento silencioso de quem
não tem para onde fugir do calor.
O
planejamento urbano brasileiro precisa tratar isso como infraestrutura
essencial, no mesmo patamar de saneamento ou transporte, e não como um projeto
paisagístico opcional.
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O ar-condicionado, alívio que também é armadilha
Só que
o resfriamento passivo, sozinho, não dá conta de tudo, especialmente em dias de
onda de calor extrema, quando a temperatura simplesmente não cede nem à noite.
É aí que entra o resfriamento ativo, e o ar-condicionado se torna, para muita
gente, a única forma de sobreviver ao verão com dignidade.
O
problema é que essa solução carrega um efeito colateral perigoso. Quanto mais
calor, mais gente liga o ar-condicionado, e mais pressão isso coloca sobre um
sistema elétrico que já opera no limite em horários de pico.
O
resultado é uma equação desconfortável com mais consumo de energia, mais
sobrecarga na geração e na distribuição, e contas de luz mais caras justamente
para quem menos pode pagar por elas.
A
desigualdade é uma questão central e precisamos focar também na justiça
energética. A “pobreza de resfriamento” nos lembra, de forma irrefutável, que a
luta contra as mudanças climáticas é, no fundo, uma luta por justiça social. O
clima não aquece de forma igualitária. Ele aquece os que já têm menos proteção,
já vivem nas margens, já carregam o peso de um sistema que historicamente
ignorou suas necessidades.
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Energia solar urbana
É
exatamente aqui que a energia solar urbana deixa de ser só uma boa ideia de
sustentabilidade e passa a ser uma resposta estrutural ao problema. O Brasil já
ultrapassou a marca de 46 gigawatts de capacidade solar instalada, e a maior
parte dela, mais de 37 GW, vem justamente da geração distribuída dos telhados
solares residenciais e comerciais espalhados por milhões de imóveis pelo país.
Cada
telhado com painéis solares é, na prática, uma pequena usina que ajuda a
aliviar a rede exatamente quando ela mais precisa: nos dias quentes, quando o
sol que aquece a cidade também está gerando energia para resfriá-la. É um ciclo
elegante, quase poético, o mesmo sol que castiga também pode aliviar, desde que
a gente saiba aproveitá-lo.
Claro,
o cenário não é isento de desafios. O aumento na cobrança do chamado “Fio B”
(que remunera a distribuidora pelo uso da rede) e a alta de impostos de
importação sobre painéis e equipamentos têm encarecido novos projetos em 2026.
Outro
desafio é o “curtailment”. Segundo Heitor Scalambrini Costa, a expansão
descontrolada de parques renováveis sem infraestrutura de transmissão adequada
gera paradoxo: Brasil tem energia, mas não consegue aproveitá-la.
O
curtailment é a redução intencional da geração de energia, especialmente em
usinas de fontes renováveis como eólica e solar, quando a produção excede a
capacidade de consumo ou transmissão do sistema.
Ainda
assim, mesmo com vários ajustes necessários, especialistas do setor continuam
considerando a energia solar residencial vantajosa a médio prazo, com retorno
do investimento entre três e sete anos, dependendo da região e do porte do
sistema.
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Baterias e armazenamento: a peça que ainda falta
Se os
telhados solares resolvem parte do problema, ainda falta uma peça importante: o
que fazer com toda essa energia depois que o sol se põe, justamente no fim da
tarde, quando o calor acumulado no dia ainda pede ar-condicionado e a rede
elétrica entra no seu horário de pico.
É aí
que entram as usinas de armazenamento em baterias, os chamados sistemas BESS.
Elas guardam o excedente de energia solar gerado durante o dia para usá-lo (ou
despachá-lo para a rede) justamente nos momentos de maior demanda, funcionando
como um amortecedor para todo o sistema elétrico.
O
mercado brasileiro de armazenamento cresceu 140% em instalações residenciais e
comerciais só entre 2024 e 2025, e o país já se prepara para o primeiro grande
leilão de reserva de capacidade dedicado a baterias, com potencial de reduzir o
uso de termelétricas mais caras e poluentes justamente nos picos de consumo
causados pelo calor.
Ainda é
uma tecnologia em fase de amadurecimento no Brasil, com custos e questões
regulatórias por resolver. Mas a direção é clara de que as cidades resilientes
ao calor extremo vão precisar de painéis solares nos telhados e de baterias
guardando essa energia para os momentos certos, sob pena de repetirmos, verão
após verão, o mesmo ciclo de apagões, contas mais caras e sistemas no limite.
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O calor não vai esperar o planejamento ficar pronto
Volto
àquela caminhada no fim de tarde com a qual comecei este texto. Toda vez que
sinto o calor subindo do chão, penso em quantas escolhas de décadas passadas; a
árvore que não foi plantada, o rio que virou avenida, o prédio que tapou a
ventilação de um quarteirão inteiro, se acumulam naquele instante de
desconforto. E penso também que ainda dá tempo de escolher diferente.
Resfriar
as cidades brasileiras diante de ondas de calor cada vez mais frequentes não
vai depender de uma única solução mágica. Vai exigir arborização e resfriamento
passivo, pensados como política pública séria, uso inteligente e acessível do
ar-condicionado, e um investimento inteligente em energia solar urbana e
armazenamento em baterias, capazes de sustentar essa demanda sem sobrecarregar
o sistema, nem pesar ainda mais no bolso de quem já sente o calor com mais
intensidade.
O verão
que vem e os que virão depois dele não vão esperar.
Fonte:
Por Henrique Cortez, em EcoDebate

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