Thaís
Cremasco: Michelle, não existe submissão saudável existe submissão como projeto
político
á
frases que voltam para cobrar seu preço político. Quando Michelle Bolsonaro
defendeu a ideia de uma “submissão saudável” da mulher em relação ao homem, ela
não estava apenas fazendo uma declaração religiosa ou moral sobre casamento.
Estava oferecendo uma gramática política.
A
mulher pode aparecer, mobilizar, discursar, emocionar, organizar outras
mulheres e até se tornar indispensável, desde que continue cabendo no lugar de
auxiliar. Desde que não dispute o comando. Desde que não atravesse a fronteira
entre apoiar o poder masculino e desejar poder próprio.
O
problema é que a política real não costuma tratar como parceira a mulher que
aceita ser apresentada como auxiliar. Ela a usa. Usa sua voz, sua imagem, sua
fé, sua capacidade de falar com outras mulheres, sua presença maternal, sua
feminilidade domesticada. Depois, quando essa mulher ousa disputar decisão,
território, estratégia e poder, o sistema revela o que sempre pensou dela: você
era útil no palanque, não na mesa onde se decide.
É nesse
ponto que o caso Michelle Bolsonaro se torna maior do que Michelle Bolsonaro.
A
ex-primeira-dama não é uma personagem progressista. Não representa a agenda
feminista. Ao contrário, construiu parte relevante de sua imagem pública
combatendo feministas, parlamentares de esquerda e pautas históricas do
movimento de mulheres. Mas é justamente por isso que esse episódio precisa ser
olhado com atenção.
A
violência política de gênero não começa a existir apenas quando a vítima pensa
como nós. Quando uma mulher é diminuída, desautorizada, isolada ou empurrada
para fora das decisões por ser mulher, isso interessa a todas nós, inclusive
quando essa mulher ajudou a sustentar discursos que limitam a liberdade de
outras mulheres.
Michelle
Bolsonaro se tornou um ativo eleitoral importante para a direita. Ela fala com
um público que Jair Bolsonaro e seus filhos não alcançam da mesma forma. Ela
mobiliza mulheres evangélicas, mulheres conservadoras, mulheres que talvez não
se sintam representadas pelo feminismo, mas que reconhecem nela uma figura de
identificação.
Sua
imagem foi usada para suavizar a brutalidade política do bolsonarismo, para dar
aparência de cuidado a um projeto marcado pela agressividade, para apresentar
uma face feminina a uma direita profundamente masculina em seus métodos, em
suas prioridades e em sua lógica de poder.
Mas a
pergunta é: até onde essa mulher pode ir?
Ela
pode pedir voto. Pode emocionar auditório. Pode aparecer ao lado do marido.
Pode representar o “lado sensível” do projeto. Pode coordenar outras mulheres.
Pode ser chamada para defender a família, a fé e os valores conservadores. Mas
pode decidir? Pode contrariar os homens do próprio grupo? Pode disputar
candidatura? Pode ter projeto próprio? Pode ser reconhecida como liderança sem
que isso dependa do sobrenome Bolsonaro?
É nesse
ponto que a engrenagem começa a ranger.
Quando
Valdemar Costa Neto afirma que não vai convencer Michelle Bolsonaro a ser
candidata, apresentando a decisão como algo pessoal dela, a frase pode parecer
respeitosa à primeira vista. Mas política não se faz sozinha. Ninguém constrói
uma candidatura relevante apenas com vontade individual.
Homens
não são lançados como “decisão pessoal”; eles são articulados, protegidos,
financiados, blindados, aconselhados e cercados por estruturas partidárias.
Quando
uma mulher, depois de servir ao projeto, precisa decidir sozinha se será
candidata, isso não é necessariamente respeito à sua autonomia. Pode ser a
forma educada do abandono político.
E
abandono político também é violência.
Não a
violência explícita, barulhenta, fácil de reconhecer. Mas aquela que opera pelo
isolamento, pela desautorização, pela retirada de apoio, pelo silêncio
calculado. A mulher não é necessariamente expulsa. Ela é deixada só. Não é
formalmente proibida de disputar. Apenas não recebe as condições políticas que
os homens recebem naturalmente. Não se diz que ela não pode. Diz-se que a
decisão é dela. E assim o sistema lava as mãos enquanto a mulher carrega
sozinha o peso de uma escolha que, para os homens, sempre foi coletiva.
Essa é
uma das formas mais sofisticadas da violência política de gênero: transformar
exclusão em autonomia.
A
política brasileira adora dizer que respeita as mulheres. Mas, na prática,
muitas vezes as respeita apenas enquanto elas não ameaçam a hierarquia.
Respeita a esposa, a mãe, a missionária, a cabo eleitoral, a figura simpática
no palanque. Respeita a mulher que confirma o poder masculino. Mas quando essa
mulher começa a se tornar uma liderança com densidade própria, o respeito vira
incômodo. A admiração vira controle. A proteção vira tutela. A parceria vira
recado.
No caso
de Michelle, há ainda uma ironia profunda. A mulher que defendeu a “submissão
saudável” parece ter encontrado, dentro do próprio campo político, o limite
dessa submissão. Enquanto ela reforçava a imagem da mulher conservadora,
religiosa, familiar e colaborativa, era útil. Mas, quando passou a ser vista
como alguém capaz de disputar espaço, tensionar acordos e influenciar rumos
eleitorais, deixou de ser apenas uma aliada. Tornou-se um problema.
A
direita brasileira aprendeu a usar mulheres como tecnologia eleitoral. Elas
suavizam o autoritarismo, traduzem agressividade em cuidado, convertem
ressentimento em oração, aproximam o discurso duro de um eleitorado feminino
que muitas vezes rejeita a violência explícita dos líderes homens. Mas quando
essas mulheres deixam de ser ponte e passam a querer ser destino, a estrutura
reage.
Essa
reação nem sempre aparece como ataque direto. Às vezes aparece como conselho.
Como prudência. Como “melhor esperar”. Como “não é o momento”. Como “ela
precisa pensar”. Como “não vamos interferir”. Como “é uma decisão pessoal”. São
frases que, em muitos casos, parecem neutras, mas funcionam como mecanismos de
contenção. São formas de dizer à mulher que ela pode existir politicamente,
desde que não desorganize a arquitetura masculina do poder.
E isso
precisa ser nomeado.
Violência
política de gênero não é apenas xingamento em rede social. Não é apenas ameaça,
insulto ou agressão verbal pública. Também é tratar uma mulher como
inexperiente apesar de sua trajetória. É reduzir sua liderança ao casamento. É
dizer que ela “chegou ontem” quando ela já foi usada como peça central do
projeto. É considerar sua presença importante para mobilizar votos, mas
irrelevante para definir estratégias. É aceitar sua imagem, mas rejeitar sua
vontade. É permitir que ela trabalhe pelo poder, mas não que dispute o poder.
A
esquerda também precisa fazer sua autocrítica. Seria cômodo olhar para Michelle
Bolsonaro e concluir que esse é um problema exclusivo da direita. Não é. A
esquerda ainda patina na pauta das mulheres. Ainda há partidos que usam
candidaturas femininas para cumprir formalidades. Ainda há mulheres
progressistas subfinanciadas, interrompidas, isoladas e preteridas por
lideranças masculinas. Ainda há uma distância enorme entre o discurso feminista
e a partilha real de poder.
A
diferença é que, na esquerda, existe ao menos uma disputa pública em torno da
igualdade. Há pressão, cobrança, constrangimento, vocabulário político para
denunciar essas práticas.
Na
direita conservadora, muitas vezes, a desigualdade é transformada em virtude. A
submissão vira valor. A obediência vira feminilidade. A renúncia vira grandeza
moral. O silêncio vira sabedoria. O recuo da mulher é apresentado como escolha
nobre, enquanto a permanência dos homens no comando é tratada como ordem
natural das coisas.
É por
isso que o caso Michelle importa tanto.
Não se
trata de transformá-la em heroína feminista. Michelle Bolsonaro não é isso. Não
se trata de apagar suas falas, suas escolhas, seus ataques à esquerda ou sua
contribuição para um projeto político que tantas vezes atacou direitos das
mulheres. Nada disso deve ser esquecido. Mas também não podemos cair na
armadilha de achar que uma mulher só merece solidariedade diante da violência
política se ela estiver do nosso lado ideológico.
A
violência contra uma mulher na política nunca atinge apenas uma mulher. Ela
funciona como aviso. Diz às outras quais são os limites. Diz às conservadoras
que elas podem servir, mas não comandar. Diz às progressistas que nem mesmo a
visibilidade protege. Diz às meninas que observam a política de longe que
aquele espaço continua hostil, masculino e punitivo. Diz a todas nós que o
poder ainda tem dono.
Por
isso, mulheres de todos os campos deveriam olhar para Michelle Bolsonaro agora.
Não com ingenuidade. Não com adesão política. Não com esquecimento do que ela
representa. Mas com consciência de gênero. Porque quando uma mulher é usada,
diminuída e descartada, o recado não é enviado apenas a ela. É enviado a todas.
A
mulher conservadora pode acreditar que será poupada porque defende a família, o
marido, a fé, a ordem e a hierarquia. Pode acreditar que, ao rejeitar o
feminismo, será acolhida por uma estrutura masculina agradecida. Pode imaginar
que sua submissão será recompensada com proteção. Mas o patriarcado não protege
mulheres; ele protege a própria hierarquia. E, quando uma mulher ameaça essa
hierarquia, mesmo que seja uma mulher da direita, ela passa a ser tratada como
obstáculo.
Michelle
talvez tenha acreditado que a “submissão saudável” poderia conviver com
protagonismo político. O que seu caso revela é o contrário. Em estruturas
feitas para manter homens no comando, a submissão pode até ser chamada de
saudável, mas quem adoece é a democracia.
A
pergunta que fica é simples: que liberdade é essa em que uma mulher pode
trabalhar pelo poder, mas não pode disputar o poder? Que protagonismo é esse em
que ela pode pedir voto, mas não pode contrariar acordos masculinos? Que
“política feminina” é essa que termina, tantas vezes, com mulheres caladas,
isoladas ou devolvidas ao espaço privado?
Não
existem mulheres plenamente vivas e livres na direita quando a liberdade
oferecida a elas depende da obediência. Não existe protagonismo feminino real
onde a mulher só é aceita enquanto confirma o poder dos homens. E não há
democracia verdadeira enquanto a presença das mulheres for celebrada apenas
quando serve para enfeitar, suavizar ou legitimar projetos que jamais pretendem
dividir o comando com elas.
O caso
Michelle Bolsonaro não é uma exceção. É um retrato. E talvez seja justamente
por vir da direita que ele revele, com tanta nitidez, aquilo que muitas
mulheres já sabem: quando a política aceita mulheres apenas como massa de
manobra, cedo ou tarde elas são empurradas para fora da cena que ajudaram a
construir.
• Damares mira silêncio de aliados no
racha de Flávio Bolsonaro
Sem
citar nominalmente Flávio Bolsonaro, Damares cobrou reação pública de homens
que já estão em palanques e disse que a omissão diante de violência política
contra mulheres também produz responsabilidade.
“Se
vocês não nos defendem, o silêncio de vocês é conivência”, disse Damares.
A
senadora reforçou que a cobrança vale para candidatos “de direita, de esquerda
ou de centro”. Segundo ela, quando uma mulher na política tem a honra atacada,
lideranças masculinas têm obrigação de repudiar publicamente.
Damares
também afirmou que Michelle Bolsonaro foi alvo de ataques com imagens
manipuladas e inteligência artificial. Segundo a senadora, as ofensas chegaram
a atingir Laura Bolsonaro, filha de Michelle e de Jair Bolsonaro, com
questionamentos sobre paternidade. As declarações foram feitas como defesa
direta da ex-primeira-dama.
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Michelle Bolsonaro vira centro da crise no PL Mulher
A crise
escalou depois de Michelle Bolsonaro anunciar a saída da presidência do PL
Mulher. A ex-primeira-dama disse que deixava o cargo para se dedicar aos
cuidados de Jair Bolsonaro e da filha, mas a decisão ocorreu depois do desgaste
público com Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL.
A Fórum
mostrou que Michelle ficou fora do comando do PL Mulher após o embate com
Flávio. O movimento atingiu uma área considerada estratégica para a campanha do
senador: a disputa pelo eleitorado feminino e evangélico, onde Michelle vinha
sendo usada como principal rosto político do bolsonarismo.
O
desconforto também foi demonstrado na ausência de Damares no encontro de Flávio
com lideranças femininas conservadoras. A senadora, próxima de Michelle, havia
ajudado na articulação de pautas voltadas às mulheres no campo bolsonarista.
Fonte:
Fórum

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